A mídia e o MST
Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin comentam a importante vitória obtida pelas/os sem-terra em Canoas, RS, e criticam a mídia. Segundo os autores, ‘quando é o patrimônio latifundiário o ameaçado ou agredido, que haja notícia e seja estrepitosa. Quando é a dignidade humana e a cidadania das/os pobres que estão sendo violadas, silencie-se ou fale-se bem baixinho. A credibilidade da notícia não pode ficar dependente do preconceito ideológico que pesa sobre eles, nem do poder econômico de quem a sustenta, sob pena de igualar-se comunicação social com enganação total’.
Antonio Cechin é irmão marista, militante dos movimentos sociais. Jacques Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado. A seguir, trechos do artigo:
…O ‘IHU notícias’ publicou artigo no início deste mês, que analisava as causas pelas quais os agricultores sem-terra acampados em Nova Santa Rita promoviam um jejum em frente a um dos prédios da Procuradoria da República em Porto Alegre. Convém que se registre essa mudança de lugar de protesto do MST não só na capital mas também no interior. Já não é mais diante de próprios do poder executivo da nação, tais como o INCRA, o Banco do Brasil, a presidência da República, etc. mas agora é defronte ao poder judiciário e órgãos que o representam como é o caso do Ministério Público e sedes de juizados. Os tempos mudaram e o MST demonstra uma versatilidade condizente com os novos tempos, adaptando-se à conjuntura das injustas criminalizações por parte do poder que tem como única função realizar a justiça especialmente aos mais deserdados.
“Quando é a
dignidade humana
e a cidadania dos
pobres que estão
sendo violadas,
silencia-se ou fala-se
bem baixinho”
O jejum ou greve de fome de que falamos acima protestava contra uma decisão judicial de um juiz federal de Canoas que, atendendo pedido de um procurador da República, determinava, entre outras coisas, a expulsão de gente acampada dentro de um assentamento conquistado no mesmo
município, pela reforma agrária e destituía o superintendente do INCRA/RS do seu cargo. Gente sem-terra fazendo jejum em vários outros municípios do Estado, como efeito imediato desse protesto, deixou claro que haveria resistência contra o cumprimento do mandado de desocupação do imóvel onde as/os sem-terra estavam acampadas/os.
Em audiência de conciliação do dia 12 do corrente, presidida pelo mesmo juiz que atendera os pedidos do tal procurador da república, o recuo judicial refletiu muito bem em que extensão a decisão anterior fora precipitada e injusta. Não só se determinou prazo de 30 dias para o Incra assentar 100 famílias que estavam acampadas, mais 158 até o fim do ano, sem prejuízo do direito de outras já cadastradas e à espera, receberem o mesmo tratamento jurídico; sob a condição de ser dissolvido outro acampamento vizinho, também o superintendente do Incra/Rs foi restituído ao seu cargo.
Aquela parte da mídia gaúcha, historicamente contrária à defesa que as/os agricultoras sem-terra fazem dos seus direitos e da reforma agrária, dedica várias páginas, tendenciosa e tradicionalmente contra elas/es, procurando escandalizar a opinião pública sobre desvios de conduta e crimes que, segundo a interpretação que ela faz dos fatos e da lei, têm sido praticados por essas multidões de pobres.
Fonte: www.adital.com.br, em 25/05/2009
Fonte: CEDEFES – Boletim Agenda Popular Online, nº 178, julho de 2009
Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde