Índios desabafam sobre construção da Usina de Belo Monte

Por , 25/04/2010 23:39

Onde fica Belo Monte? Quem vive lá? Entenda por que tem tanta gente brigando por esse pedaço de terra.

Belo Monte fica no Pará, a 940 quilômetros de Belém, e há mais de 30 anos está no noticiário. Tudo por causa da intenção do governo de construir ali a terceira maior hidrelétrica do mundo. Esta semana, em meio a uma batalha judicial que ainda não acabou, o leilão para a construção da usina foi, enfim, realizado.

A palavra é Belo Monte. “Belo Monte? Que eu conheça é um bar que tem ali”, diz um jovem. “É alguma coisa ligada à moda? Não?”, pergunta uma mulher. Passaram longe! Será que alguém sabe onde fica? “Não faço a menor ideia”, confessa um senhor.

Poucas paisagens no mundo guardam tantas formas de vida. É justamente na Volta Grande do Xingu que será construída uma obra gigantesca. A barragem da usina de Belo Monte vai passar exatamente num trecho do rio com muitas ilhas mais montanhosas, o que vai ajudar no represamento das águas. Só que a energia só vai ser gerada a 50 quilômetros da barragem.

A água vai ser desviada por imensos canais, de 250 metros de largura. Eles vão alimentar um lago, inundando 516 quilômetros quadrados de terra. É de um reservatório que sairá a água para rodar as turbinas da terceira maior usina do mundo.

Só que esse desvio das águas vai reduzir a vazão em cem quilômetros do rio, quase toda a Volta Grande do Xingu. Em época das chuvas, a água avança pra dentro da mata.

Chegamos à aldeia dos Araras da Volta Grande. No limite das fazendas, eles já sofreram miscigenação e falam português. Ainda estavam sob o impacto da notícia do leilão que decidiu o consórcio que vai construir a usina.

É que os Araras vivem bem na curva da Volta Grande do Xingu, esse pedaço do rio que vai ter a vazão controlada. Depois de construída a represa, o Xingu não vai ter nem cheia, nem seca. Vai correr sempre no mesmo nível. O que os Araras temem é que o rio seque, a água fique quente demais e mate os peixes, que são a fonte da vida na aldeia.

“Tem muitas crianças que vão ver quando chegar na idade deles, já vão encontrar o rio seco. Não vão mais encontrar do jeito que Deus deixou”, disse uma índia.

O jovem cacique Joceney Arara, de 23 anos, sabe que dias difíceis virão. “A gente está preparado pra o que der e vier. A gente já fez vários movimentos pra chamar a atenção do governo. A gente não vai recuar, vai partir para cima para mostrar como é o nosso dia a dia na comunidade”.

Na aldeia, o diretor do filme “Avatar”, James Cameron, e a atriz Sigourney Weaver se reuniram com lideranças indígenas da região. Cameron se engajou na luta. Nos anos 1980, o cantor Sting e o cacique Raoni conseguiram impedir a construção com projeto que alagaria uma área três vezes maior. Na época, a pressão do exterior funcionou porque o Brasil precisava de dinheiro de fora para obra.

Na cidade de Altamira, pelo menos quatro mil famílias que vivem nos igarapés devem ser transferidas, porque a água vai subir. “Sou contra, porque a barragem vem trazer muita destruição pra nós”, afirmou a dona de casa Francinete Kuruaia.

Para quem não tem trabalho, a usina é esperança. “O único movimento que tinha aqui era madeireira. Agora fechou tudo, agora a gente ficou desempregado um tempão e nunca teve uma solução para nós”, alegou José Carlos Ferreira

Os empresários de Altamira apóiam a obra, mas com condições. “Só interessa Belo Monte se resolver o ordenamento fundiário, a Transamazônica, eletrificação rural. São os três maiores gargalos que nós temos”, avaliou Vilmar Soares, do movimento Fort Xingu.

A obra vai atrair 80 mil pessoas. Com asfalto na Transamazônica, deve aumentar o desmatamento na região, que já é a campeã de destruição. Os pequenos agricultores que vão ter os sítios inundados não querem deixar a terra de fartura.

“Vem o milho, vem o arroz, vem o feijão, vem o cacau. Isso aqui é como se fosse uma vaca de leite que todo dia você tira, todo dia vinga”, diz um agricultor.

Seguimos a viagem. Uma hora de voo sobre a floresta intocada até avistarmos a aldeia às margens do Rio Bacajá, um afluente do Xingu. Os Xicrin são um ramo dos Kaiapós e uma das seis tribos que serão atingidas. O povo xicrim faz a dança da guerra, mas o ânimo que encontramos não foi o de guerreiros prontos para a batalha e sim o de um povo com medo e sem saber o que esperar do futuro.

Os homens se reúnem na casa do guerreiro e, numa deferência, convidam a repórter Sonia Bridi a sentar com eles. As mulheres não se aproximam, continuam suas tarefas, tímidas. Na beira do Rio, o velho cacique Onça explica seu temor: “E se o rio secar, o que vão fazer conosco? Sem água, a caça vai embora, não vai ter peixe nem água pra beber. Então por isso nós somos contra a barragem”.

O risco de destruição foi apontado por um painel de 40 cientistas. Em Brasília, o responsável pelo projeto, Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética, responde: “É importante tranquilizar a população local, porque foi estipulado pela Agência Nacional da Água e pelo Ibama uma vazão que seja condizente com a manutenção da piscicultura, a manutenção da navegação, com a manutenção da vida das comunidades que vivem do rio”.

Os índios exigem que um ‘benajoro’, um líder grande, vá até a aldeia e dê sua palavra. De repente, uma das mulheres chega empunhando um facão e se posiciona na frente da câmera.
A repórter se lembra na hora da índia Tuíra, também kaiapó, que duas vezes enfrentou autoridades armada assim.

Em 1989, num debate sobre a usina, ela tocou com seu facão um engenheiro, que hoje é o presidente da Eletrobrás. Dezenove anos depois, de novo Tuíra começou uma confusão que deixou ferido um engenheiro. Mas hoje a índia Moroktchoi quer falar.

“Tenho medo porque tenho neto, tenho minha mãe velhinha, tenho medo de morrer. Que venha o chefe branco, explique o que vai acontecer. Porque se matar minha mãe e meus netos, vou matar também”, desabafou a índia.

Feita a ameaça, ela se afasta e, uma a uma, as mulheres vêm falar do medo, da insegurança que sentem. A velhinha diz que já não dorme, não come, nem trabalha direito. O Xingu está prestes a mudar mais uma vez. E de novo os índios estão se unindo, para tentar impedir que seu paraíso desapareça.

Rede Globo, Fantástico

3 respostas para “Índios desabafam sobre construção da Usina de Belo Monte”

  1. Nos brasileiros fomos ingnorados pelo governo.Nao podemos aceitar que uma barragem que vai ser a terceira maior do mundo seja construida no RIO XINGU o berco da cultura brasileira.Eu penso que o governo foi longe demais e todos que foram de acordo com este contrato.Nao pensaram no povo.As grandes empresas estao interessadas e em muito dinheiro que vai ganhar com esta construcao.O dialogo entre o governo e o povo foi ingnorado e muito mal esclarecido.Porque nao foram na aldeia!Porque nao foram aos moradores perguntar.Eu achei uma atitude muito mal do governo.Estou do lado do grande guerreiro Raoni nao aceito e nunca vou aceitar,esta historia de grandes projetos ja sao conhecida no Brasil,igual nao epoca que construiram brasilia que os trabalhadores deixaram suas familias e hoje moram nas favelas e que construiram brasilia para os politicos sentarem la e que custou muito dinheiro,mas os que trabalharam la tinha condicoes precarias com ate hoje em grandes construcoes porque agora esta empresa vai salvar a patria?Isto e conversa fiada.Vai salvar e o bolso das empresas porque so e ver quantas favelas tem no Brasil e pessoas que dormem na rua,o governo tem dinheiro porque chegou ao ponto de falar que construiria sozinho caso as empresas nao entrassem no consorcio.Isto e uma porva que o governo pode investir na populacao sem esta barragem no RIO XINGU.Muita pressa foi isto.Agora tem pessoas que precisam de ajuda e passam a vida toda e nao tem nada.Olha esta nos brasileiros de verdade nao aceitamos nao.Pode melhorar a vida da populacao la no xingu sem barragem.Amiga do Brasil sempre orkut!

  2. sergio says:

    Precisamos ter consciência do que exatamente queremos para o Brasil.Que se torne um pais desenvolvido, dono realmente do que é seu, e que possa fazer uso daquilo que lhe pertence da melhor forma, tirando todo o proveito possível,sem precisar ficar refém do dominio das grandes potências.
    A maior parte dessas manifestações contrarias a esse projeto são frutos de manobras de grupos contrarios aos interesses nacionais, que estão instalados aqui em nosso pais, que se disem defensores dos interesses do povo, dos menos favorecidos etc…etc..
    Tudo balela, conversinha a toa.Tem muita coisa que é mostrada na televisão nos jornais e é tudo matéria manipulada ou seriamente tendenciosa. A aldeia arara da volta grande que foi mostrada foi criada recentemente pelo CIMI, a maioria daquelas pessoas moravam todas em Altamira hà anos foram colocadas lá e agora se intitulam aldeados que estão preocupados com o que poderá acontecer com eles.Mostraram até um deles manipulando um arco e flexa como se estivesse pescando…qualquer pescador sabe que a coisa não funciona assim…Outro jogando tarrafa, quase ele cai junto, tamanha adestreza do “silvicula”.Quem mora aqui, luta pela melhoria da qualidade de vida das pessoas realmente sabe como as coisas funcionam. Tem tanta gente que se diz preocupada, mas nunca vem um Cameron da vida, um Sting ou mesmo os atores Globais ao menos perguntarem para as quase tres mil familias que vivem em palafitas sobre os alagados dos igarapes,sem saneamento basico sem acesso devido à suas casas, enfim vivendo em total situação de abandono social. Interessante que isso a reportagem não mostra,e quando mostra inverte a verdade dizendo que os pobres ribeirinhos irão perder suas casas e seu bem estar. Ora que mora na região sabe que não for por consequencia de um projeto como este essas pessoas irão morrer nessas palafitas vitimas dos mais variados males causados pelo uso da agua com quantidades de coleiformes fecais em niveis alarmantes. Sem contar com a dignidade dessas pessoas que é jogada ao chão quando todos os anos a agua sobe e eles tem que ser manejados para abrigos improvisados.
    Tudo isso é pouco perto do que as pessoas não falam sobre a verdadeira face do povo que aqui vive e espera por melhores condições de vida.
    Só para esclarecimento, dos 516 km² de area alagada a metade é alagamento natural da calha do Xingú e a maior parte da area que vai ser alagada é area de pastagens, que não tem mais acobertura vegetal original.
    Vamos mostrar as coisas como elas realmente são. Tudo iré ficar mais fácil.

  3. Maria Laura Furtado Lobato says:

    Muito pode ser dito sobre esse lamentável fato, isso para ser moderada,Na verdade trata-se de um desrespeito a vida dos mais escandalosos.O Brasil é signatário de vários documentos internacionais sobre preservação, mas está preocupado em fazer mídia pelo visto, pois quando se trata de fazer faler pelo exemplo, acontece o que está acontecendo em Belo Monte, isso para falar só sobre Belo Monte, mas nos sabemos quantos casos de desrespeito pelo próprio estado.Ora se ficar provado que eles iguinoraram a liminar cancelando alicitação.Se o próprio estado não respeita as leis.Percebe-se claramente qual é o compromisso do estado.Eu particularmente, gostaria que alguém fizesse uma retrospectiva do presidente Lula desde o início de sua vida sindical e fazer uma comparação das bandeiras de luta, fazendo uma comparação com sua postura hoje.Não é atoa que não se tem respeito aos governates, eles não se dão o respeito.Quem está se importanto com as populações ribeirinhas do Xingu, imaginem que vai se preocupar com meia dúzia de índiosque estão atrapalhando a chegada do PROGRESSO na regiãi.QUE PAÍS É ESSE?

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