No Brasil se pratica a modalidade de racismo mais perversa, insidiosa e letal, diz dojival vieira em entrevista

Por , 13/04/2011 19:53
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Foto: Dojival Vieira, Na sede da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) em Atalanta. (Alberto Castro/Zwela Angola)

Por Alberto Castro, Colaborador Internacional, Zwela Angola

LONDRES, INGLATERRA (ZWELA ANGOLA) – Os brasileiros geralmente se orgulham da sua sociedade multi-cultural que abraça harmoniosamente todas as pessoas, todas as raças. Os casamentos interraciais são comuns. A sua gastronomia, música e dança constituem um legado de centenas de povos indígenas, milhares de colonos portugueses e cerca de 4.5 milhões de africanos trazidos escravos ao país durante um período de mais de 350 anos de escravatura. Isso faz com que o Brasil seja hoje a casa da maior população afrodescendente fora de África. Mas, apesar de já serem maioria também no Brasil, os afrodescendentes (negros e pardos ou mulatos de diferentes tons de pele) ainda estão muito longe da tão propalada igualdade e democracia racial.

Entre os muitos casos de racismo, diariamente praticados de forma abertamente violenta ou subtil, ganhou grande notoriedade e indignação o de Januário Santana, um humilde vigilante negro suspeito de roubar a própria viatura enquanto a estacionava. Foi, por isso, barbaramente agredido por seguranças de uma conhecida rede de supermercados em Sao Paulo.

A defesa do caso Santana foi conduzida com sucesso por Dojival Vieira, advogado, jornalista e activista contra o racismo no Brasil. Ele nos explica como opera o estruturante racismo brasileiro e fala da sua dura batalha para o combater. Reconhece alguns avanços na administração Lula na luta pela igualdade racial mas olha-os como insuficientes e espera muito mais do governo de Dilma Rousseff sobre o assunto. Eis a entrevista:

Como e por que razões se tornou um activista social contra o racismo?

Dojival Vieira – Tornei-me um lutador social em primeiro lugar engajando-me na luta por transformações sociais no Brasil, no final da década de 70, ainda quando estudante de Comunicação, na Faculdade de Comunicação de Santos. Fui líder estudantil e, posteriormente, atuei nos movimentos populares contra a poluição, contra o desemprego, por moradias e demais condições de vida dignas, em Cubatão, cidade, considerada, à época, a mais poluída do mundo, onde morei até os anos 90 antes de me mudar para São Paulo.

A consciência de que as transformações sociais no Brasil têm de passar necessariamente pela erradicação da desigualdade provocada pelo racismo é posterior. Ela surgiu a partir de 2001, quando compreendi que não é possível, no Brasil, falar-se em Democracia e Justiça Social, sem se enfrentar a profunda desigualdade resultante do facto de o país ter sido o último no mundo a abolir a escravidão e não ter – ao aboli-la – adotado medidas eficazes para garantir a inclusão da população que teve os seus antepassados escravizados por quase 400 anos.

Qual a sua visão do racismo que se pratica no Brasil hoje em dia? Como ele se manifesta?

D. V. – No Brasil se pratica a modalidade de racismo mais perversa, mais insidiosa e letal porque trata-se de um racismo camuflado que em circunstância nenhuma se assume. É como uma doença, que se esconde no corpo social e vai produzindo efeitos, a começar pela destruição da auto-estima da criança negra. É muito comum que uma pessoa quando flagrada em ato ou prática racista saia-se com a clássica afirmação: “Mas, como posso ser acusada, se o meu melhor amigo é negro?”. Trata-se de um álibi, frequentemente utilizado.

Por ser “invisível”, silencioso, é mais difícil de ser combatido. Eu costumo dizer que o racismo no Brasil é como uma serpente muita perigosa, que é mantida num quarto escuro em que todos nós negros somos obrigados a viver. Enquanto não a tocamos, ela está lá. No momento em que a tocamos ou chegamos perto, ela nos ataca sem nenhuma piedade ou complacência. Por conta disso é muito comum ouvir-se, até mesmo de pessoas negras, que nunca foram discriminadas. Ou seja: essas pessoas nunca se sentiram discriminadas, simplesmente, porque passaram a conviver “pacificamente” com um inimigo que demarca os seus passos e limita as suas possibilidades de crescimento, ascenção e mobilidade social.

Quem são os mais afetados com o racismo e por que razões?

D. V. – O racismo no Brasil é fruto de quase 400 anos de escravidão. O Brasil, além de ter sido o último país a abolir o trabalho escravo, foi também o país que mais seqüestrou homens e mulheres negros da África. De cada 10 dias da história do Brasil, sete foram vividos sobre escravidão. No pós-abolição as elites racistas optaram por “misturar”, “miscigenar” por meio de políticas de branqueamento implementadas pelo Estado desde o final do século XIX até a década de 40 do século passado.

Essas políticas, propagandeadas por intelectuais, como Monteiro Lobato, um eugenista confesso, Oliveira Viana, e outros, advogavam a idéia de que o Brasil só se tornaria um país desenvolvido na medida em que adotasse como modelo a ascendência européia.

Daí, o Estado adota medidas após a abolição que explicam o quadro enfrentado hoje: determina a queima dos arquivos da escravidão e patrocina a vinda para cá de uma massa imensa de imigrantes europeus, na sua maioria, italianos e alemães, aos quais foram oferecidas passagens, custos de viagem e terras, colónias agrícolas. Estima-se que, de 1.890 até 1.920, cerca de 4,5 milhões de imigrantes europeus foram trazidos para o país com a ajuda do Estado brasileiro. Não por acaso, a única região do país, maioritariamente branca é a região sul, colonizada por imigrantes alemães e italianos, principalmente, cuja vinda foi patrocinada pelo Estado brasileiro. Enquanto isso, os milhões de ex-escravos e seus descendentes que de uma forma dolorosa, desumana, foram decisivos na construção do Brasil acabaram simplesmente ignorados pelas elites racistas.

Como é o racismo brasileiro comparado com outros lugares como por exemplo os EUA?

D. V. – Aqui temos uma modalidade sofisticada de um racismo que se camufla e não se assume, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos. Segundo estudos do sociólogo brasileiro Oraci Nogueira, a característica predominante do racismo brasileiro é de ser um racismo de marca, único, em contraposição ao preconceito de origem existente definido pela “regra de uma gota“, por exemplo, nos EUA. Ou seja: no Brasil, os traços distintivos que tornam alguém mais vulnerável ao racismo são a cor e os cabelos. Quanto mais negra for, quanto mais encaracolados os cabelos, mais distante estará do universo do homem branco, aquele de acesso aos direitos da cidadania.

Isso acontece porque, ao contrário das políticas de segregação aplicadas nos EUA e na África do Sul, predominaram as políticas de branqueamento, caracterizadas pela tentativa de extinção da população negra pela via do branqueamento, da miscigenação racial, o que fez com que a maior parte do contingente dos 51,3% de negros que hoje constituem a maioria da população brasileira hoje se auto-declarem pardos, classificação dada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) as pessoas com menor teor de melanina.

A adoção do mito/mentira da democracia racial, introduzida em obras como Casa Grande e Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, foi fundamental para que se consolidasse a ideologia de que no Brasil não existe uma questão racial a ser enfrentada pelo Estado.

O você acha da tão notória obsessão da sociedade brasileira para com a imagem da pessoa branca, de preferência loira e de olhos azuis?

D.V. - Os valores na sociedade brasileira são eurocêntricos, precisamente pelas políticas adotadas pela elite racista para branquear o país no final dos séculos XIX, até a metade do século XX, como mencionei anteriormente. O modelo e o padrão de beleza, portanto, sintetizada pelo branco, loiro de olhos azuis, é o modelo eurocêntrico, ainda vigente. Por isso que a maior parte das atrizes, modelos e apresentadoras que ocupam espaço na televisão e na moda são loiras, olhos azuis. O modelo é eurocêntrico, quando a maioria da população é negra, e portanto, tem outros modelos de beleza, tem outros valores.

Como os negros são mostrados na média brasileira e como, geralmente, a populacão branca, os olha?

D.V. – Quando aparecem na média os negros são, invariavelmente, mostrados através de estereótipos. É o jogador de futebol, é a mulher negra (mulata) no carnaval, são os atores e atrizes negras em papéis secundários ou marginais nas telenovelas. São raras as imagens dos poucos negros bem sucedidos, executivos, ou bem situados em posições de mando e comando, nas universidades, na academia. Temos observando alguns tímidos avanços mas os mesmos ainda estão a anos-luz de reflectir o perfil multiétnico e multirracial da sociedade brasileira.

A população branca brasileira foi criada e formada sob o mito da democracia racial. Em geral, não enxerga o problema do racismo e da herança maldita da escravidão porque isso não a afeta, não constitui barreira à sua ascenção nas empresas, no mercado de trabalho e na vida social. Então, pode-se dizer que não nos vê. E, quando o faz, nos vê como símbolos, alegorias ou elementos folclóricos e não como pessoas normais, seres humanos iguais, com os problemas normais de qualquer ser humano, portadores de direitos e de deveres como qualquer cidadão brasileiro. Essa visão é absorvida pelas instituições ao praticarem o racismo institucional. Quando alguns partidos políticos, por exemplo, absorvem alguns poucos negros nas suas chapas de candidatos, fazem-no apenas para projetarem uma imagem de inclusão que, na prática, se negam a reconhecer.

A.C. – Qual o impacto que esse olhar tem na auto-estima e na auto-imagem do negro?

D. V. – Tem um impacto profundamente negativo porque a criança não tem referências estéticas de sucesso e cresce sem essas referências. Desde pequena na escola não tem em quem se referenciar, não tem ídolos a quem imitar nas várias áreas de atividade, a não ser no futebol. Mesmo no domínio do futebol a presença negra ainda está muito restrita aos gramados, isso porque não se tem cartolas, dirigentes negros no topo, nem nos clubes nem na Confederação Brasileira de Futebol. E estamos falando de um país que tem um negro como um dos maiores, se não o maior, futebolistas de sempre em todo mundo. Mas nem por isso se vê um negro como técnico ou comentarista de futebol. Raramente.

Como a comunidade afro-brasileira vem lutando ao longo dos tempos contra o racismo?

D. V. – A luta contra o racismo no Brasil é antiga e começou desde o dia em que o primeiro negro trazido escravizado da África pisou essas terras. Passou por muitas etapas, muitas fases, desde o Quilombo dos Palmares, que chegou a se constituir numa República livre, na região da Serra da Barriga, onde está localizado o Estado de Alagoas. O Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi, considerado herói nacional, é todavia pouco conhecido nas escolas. A saga de Zumbi foi a mais longa e mais tenaz resistência a escravidão negra nas Américas no período colonial durando de 1.605 a 1.695, ou seja, quase 100 anos.

Fugir das fazendas e da escravidão para se refugiarem em Quilombos foi historicamente a forma encontrada pelos negros escravizados durante séculos de opressão. Tanto que no Brasil existem mais de 4 mil comunidades quilombolas remanescentes. Hoje luta-se hoje pela titulação dessas terras pelo Governo Brasileiro, a partir de direitos reconhecidos pela Constituição de 80.

Mas, as formas de resistências foram várias, das coletivas às individuais, inclusive com muitos negros escravizados, recorrendo ao suicídio ou ao assassinato de seus senhores.

No pós-abolição a luta da população negra foi preservar a sua identidade diante das políticas de branqueamento adotadas pelas elites dominantes como mencionei. Na década de 30, surge a Frente Negra Brasileira, e um pouco antes nas décadas de 10 e 20 do século passado, a Imprensa Negra teve um papel extremamente importante para evitar o extermínio da identidade negra pela via da miscigenação, ou seja, pela via do branqueamento.

No período mais recente, a partir de 1.978, surge o Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial com uma agenda mais reivindicativa, mais vocal, na luta pela conscientização da igualdade racial.

Qual é a sua opinião a respeito do actual movimento negro brasileiro? Até que ponto você está engajado em suas atividades e quão comprometido e unido está o movimento para lutar contra a iniquidade racial?

D.V.- O movimento negro hoje está totalmente disperso em um número enorme de entidades, sem um programa, com lideranças atomizadas e na sua maioria abrigadas e submetidas às agendas dos Partidos e dos Governos. Essa dispersão do movimento negro apenas beneficia aprofunda a desigualdade racial em que vivemos e aqueles que negam a existência do racismo no Brasil. Esse é um quadro que temos de reverter.

Mas independentemente de qualquer entidade ligada ao movimento negro mas dentro da sua dinamica temos em Sao Paulo o projecto ABC Sem Racismo, uma OnG fundada para dar corpo a Afropress, o nosso projecto jornalistico criado com o objetivo de dar visibilidade mediática a temática da luta contra o racismo e pela defesa da igualdade racial. Temos tambem em carteira a críação de uma escola de linguas estrangeiras e computação como forma de inclusão no mercado de trabalho de jovens negros e pobres da periferia de São Paulo que de outra forma difícilmente seriam incluidos. Esse projecto educacional e ganha maior pertinência numa altura em que o Brasil se prepara para organizar dois dos maiores eventos esportivos mundiais como são a copa de 2014 e as olimpiadas de 2016.

Como advogado, tenho atuado nos casos de racismo de maior repercussão no país, como os casos Carrefour, Extra, Banco do Brasil e agora do Walmart, que levantam a cortina de silêncio sobre a permanência de práticas e hábitos medievais nas relações de consumo no Brasil. Justo o Brasil que tem um dos Códigos de Defesa do Consumidor mais avançados do mundo. E essa situação afeta diretamente a população negra, desde sempre considerada a suspeita-padrão.

Com que apoios conta para realizar esse ambicioso, louvável e pertinente projecto educativo?

D.V. – Infelizmente, apesar de algumas diligências, ainda não obtivemos os apoios necessários para a sua realização. Estamos por isso abertos a dialogar com individuos, empresas e instituições, publicas ou privadas, nacionais ou estrangeiras que se interessem, possam e queiram nos apoiar nesse ambicioso projecto.

O que você diria ter sido seu grande sucesso até agora na sua luta? Você acha que está fazendo alguma diferença?

D. V. – Temos actuado em duas frentes que coincidem com minhas atividades profissionais, na condição de jornalista e de advogado. Como jornalista temos o projecto Afropress que tem como objectivo dar visibilidade a temática da luta contra o racismo e a defesa da igualdade racial. Conseguimos amplificar as nossas vozes e tornar públicas questões que a grande média vinha constantemente ignorando. O exemplo maior disso é a violência de seguranças privados nos supermercados e lojas de grandes redes do comércio varejista, que tem tido grande repercussão na média a partir das denúncias veiculadas por Afropress.

Acho que temos conseguido fazer um bom trabalho também como advogado activo na defesa de pessoas que são vítimas da discriminação racial como já mencionei.

Tem algum caso de racismo que o tenha chocado mais?

Todos as manifestações de racismo sao chocantes. Mas um caso muito chocante em que actuei como advogado é o do vigilante da USP (Universidade de São Paulo) Januário Alves de Santana que, em agosto de 2009, foi tomado por suspeito do roubo do seu próprio carro – um Ford EcoSport – levado a um quartinho e torturado por cerca de 30 minutos para que confessasse o roubo do que lhe pertencia, enquanto a família fazia compras. Nesse caso, além de ter conduzido uma negociação bem sucedida, que resultou em acordo extrajudicial de indenização em bases satisfatórias, conseguimos com que a Polícia de S. Paulo, pela primeira vez no Brasil, enquadrasse por crime de Tortura motivado por discriminação racial, todos os seguranças envolvidos.

Por tudo isso me considero um vitorioso e acho que estamos fazendo a diferença. Creio que cada um de nós, independentemente da tonalidade epidérmica, pode fazer a diferença na medida em que actue de forma corajosa, decidida, qualificada e comprometida para erradicar o racismo da sociedade brasileira.

Na sua opinião a batalha contra o racismo no Brasil está sendo ganha?

D. V.- A luta contra o racismo no Brasil se torna muito mais difícil porque se confunde com a grande luta por transformações sociais profundas na sociedade. O Brasil, apesar de já ser hoje a sétima economia do mundo, tem uma sociedade profundamente desigual. Estamos entre os 10 países mais desiguais do Planeta e os dois elementos estruturantes dessa desigualdade são a discriminação racial e de gênero, que atinge as mulheres que, apesar de serem a maioria, têm dificuldades similares aos negros no acesso ao mercado de trabalho e no acesso aos postos de mando e comando. Nesse particular as mulheres negras são triplamente discriminadas por serem mulheres, negras e pobres.

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Foto: Dojival Vieira, Em campanha do movimento negro por accoes afirmativas. (Alberto Castro/Zwela Angola)

Considero que nos últimos anos a luta contra o racismo no Brasil tem avançado, por conta das acções de todos os que tem esse compromisso. Claro que temos muito a fazer, o caminho é longo e provavelmente a minha geração não verá os frutos dessa luta. Porém, ela é irreversível. No Brasil só se poderá falar em democracia com D grande no dia em que a inclusão da população negra for efectivamente incluída no acesso aos direitos básicos da cidadania. Mas diria que estamos avançando e, sem dúvida, ganharemos essa batalha. Viver num mundo sem racismo, sem exploração e com igualdade é a utopia que alimenta toda a nossa luta. Estamos dando os passos que nos cabem e essa luta será assumida e vencida pelas gerações futuras.

Como você avalia o governo do ex-presidente Lula na luta contra a desigualdade racial?

D.V. – O Governo do ex-presidente Lula fez alguma coisa. Por exemplo, a criação de órgãos como a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), ligada à Presidência da República, foi uma louvável tentativa de inflexão politica e institucional no tratamento da temática racial pelo Estado. Na educação, por pressão do movimento negro, apoiou algumas politicas de ações afirmativas nas universidades publicas e implementou a Lei 10.639, que inclui no curriculo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da tematica “Historia e Cultura Afro-Brasileira”. Porém, não fez o suficiente.

O Estado brasileiro, ainda reluta em colocar o combate ao racismo – como elemento estruturante da desigualdade racial, em sua agenda prioritária. Não achamos que se deva continuar tratando o problema como um problema lateral, marginal. O enfrentamento da herança do período da escravidão é um problema central no Brasil e é o que explica a desigualdade que persiste no país.

O que você espera do novo governo da senhora Dilma Rousseff?

D.V. – Esperamos que faça o que não fez o seu antecessor: colocar o tema da desigualdade racial no topo da agenda política nacional e adotar medidas efetivas no sentido de fazer o país avançar para a inclusão da maioria da população que é negra e pobre. O mito/mentira da democracia racial, continua sendo a forma como o Estado brasileiro vem tratando essa questão do combate ao racismo.

Por exemplo, na recente visita do Presidente Barack Obama, em todos os eventos de que participou, não se viu negros como se pode verificar nas imagens difundidas, com excepcao da visita que sua esposa Michele e familia fizeram a uma escola de samba! A julgar pelas imagens mostradas em todos os compromissos oficiais de que participou pode-se concluir que não há negros no Brasil, ou que somos uma minoria folclórica e insignificante. Isso dá uma idéia de como opera o racismo brasileiro: insiste em nos jogar na invisibilidade e na subalternidade.

Qualquer observador atento nota que tão difundida é a percepção de que o Brasil é um paraíso de igualdade e harmonia racial que se torna quase impossível uma discussão séria e profunda sobre o racismo, o grande demónio que paira sobre a sociedade brasileira. Uma sociedade onde as evidências mostram que a cor da pele é um importante fator de garantia de um passaporte para o sucesso. Quanto mais clara, maiores as chances de inclusão e mobilidade social. Se o governo estiver inequivocamente interessado em reverter esse quadro, tem necessariamente de o colocar no topo de sua agenda.

Aonde você acha que esta luta o levará pessoalmente? Tem ambições politicas maiores para lá do seu activismo social?

D.V. – O Brasil que queremos é um Brasil com inclusão, igualdade e justiça. Para que isso aconteça é fundamental que a população negra, que corresponde a maioria da população brasileira (51,3%), seja incluída aos direitos básicos da cidadania, que há séculos nos são negados. Essa é a meta.

Em relação ao papel que tenho nesse processo de luta por transformações de fundo no Brasil, espero poder exercer com a dedicação que tenho exercido as duas funções para as quais me preparei a vida toda: o jornalismo e a advocacia, ambos, com compromisso ético com a mudança.

Como jornalista, por meio da Afropress, tenho absoluta clareza a respeito do papel que a comunicação social cumpre. Ao longo dos cinco anos (vamos fazer seis anos de operação ininterrupta, em junho deste ano), a Afropress tornou-se uma referência de mídia étnica e comprometida com a superação da cultura discriminatória e racista. Sou hoje um formador de opinião, respeitado e ouvido por muita gente no Brasil inteiro. E essa conquista se deve ao trabalho sério, voluntário e comprometido que temos desempenhado; a qualidade do jornalismo que estamos fazendo.

Quero continuar como advogado, me colocando à serviço daqueles que até há pouco silenciavam diante das humilhações e das violências sofridas.

Qual é o seu próximo passo em termos dessa luta, o que falta fazer?

D.V. – Lutar pela união de um movimento negro brasileiro, independente de partidos, autônomo em relação ao estado, capaz de construir uma pauta de reivindicações e demandas que coloquem esse tema como prioridade na agenda do estado brasileiro, com a centralidade que precisa ter e não de forma marginal e simbólica, como vem sendo tratado por todos os governos.

O que acontecerá se você e o chamado Movimento Negro não vencerem esta batalha?

D.V. – O Brasil continuará sendo esse país que, por um lado, é a 7ª economia do mundo, capaz de produzir aviões modernos, de ser o maior exportador de carne bovina do mundo, de ter um parque industrial e tecnológico altamente desenvolvido mas, por outro, convivendo com a pobreza extrema que atinge a maioria da população que é negra. Não se mudará a realidade que impede o país de se tornar um país verdadeiramente moderno. Só se pode falar em modernidade, quando as taxas de crescimento econômico se traduzem em igualdade social, o que não vem efetivamente ocorrendo, apesar dos avanços nos últimos anos. As políticas sociais que tem carácter assistencialista, não resolvem o problema. É preciso ter políticas que incluam a população negra. O racismo e a cultura discriminatória herdada do período da escravidão vem impedindo isso.

Que importancia tem para os afro-brasileiros a sua herança africana?

D. V. – Ela diz respeito a identidade da maioria da população brasileira. O povo brasileiro é fruto da população indígena que aqui habitava quando chegaram os colonizadores europeus (portugueses) em 1.500, dos negros escravizados, e da população de origem européia que chegou primeiro com os colonizadores, e posteriormente na massa de imigrantes que vieram substituir o trabalho escravo. Não se pode pensar no Brasil, sem a presença negra, e a presença negra tem suas origens e sua herança cultural na África. Daí a necessidade de valorizar e celebrar a nossa herança africana como factor enriquecedor da nossa brasilianidade.

Você tem contacto com organizações africanas e de outros lugares?

D.V. – Na verdade, ainda são muito incipientes os nossos contactos, precisamos ampliá-los não só com a África, mas com a Europa, Estados Unidos e todos os continentes, porque é fundamental que toda a Diáspora afrodescendente se mantenha em sintonia na luta por igualdade e justiça.

O que você gosta de fazer fora de seu engajamento sócio-politico e profissional?

D.V. – Gosto muito de viajar e espero ter tempo para poder conhecer outros países. No ano passado estive na Espanha e em Portugal e espero retornar um dia para conhecer outros países da Europa. Estive nos EUA, em maio de 2010, e espero conhecer mais esse país, assim como o resto do mundo, particularmente a África. Para além de viajar, gosto de estar e conversar com amigos, de ir ao cinema com minha mulher e meus filhos sempre que possível. Tenho três filhos, do primeiro casamento, todos adultos. O Dojival Filho, que já tem 30 anos e é jornalista; o Bruno, que é funcionário público e estudante de Direito (será advogado como eu) e já tem 27 anos; e o Yúri, que é estudante de medicina e tem 19 anos.

Sua esposa, Dolores, também é uma jornalista e activista sócio-politica. Quão importante é o papel dela na sua luta?

Minha mulher tem uma grande consciência da luta por Justiça e Igualdade e tem sido uma parceira fundamental. Sem o suporte que me dá, tanto em casa, quanto em atividades das quais participamos conjuntamente, o trabalho que fazemos seria muito mais difícil.

De que tipo de música você gosta?

D. V. – Gosto de todo tipo de música, da música clássica ao Rock and Roll. Na minha juventude fui muito influenciado musicalmente pelas grandes bandas de Rock, como Led Zepellin, Deep Purple, The Rolling Stones, Pink Floyd, além de cantores como Bob Dilan e outros. Como brasileiro, gosto de MPB (Música Popular Brasileira) e de cantores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque, Djavan e outros.

Na música africana gosto de Cesária Évora e Habib Koité, entre outros. No mundo da música cubana sou fã de Silvio Rodrigues e de Pablo Milanes e gosto muito de Los Orisha, um grupo de hip-hop. No universo da música latina, em geral, gosto de Mercedes Sosa, Atahualpa Yupank, Victor Jara, grandes vozes infelizmente ja desaparecidas do mundo musical.

Finalmente, o que você quer que o mundo saiba sobre o racismo no Brasil?

D.V. – Quero que o mundo saiba que no Brasil se pratica a modalidade mais covarde, mais perversa, e mais letal de racismo no Planeta: uma modalidade velada, sublime, silenciosa e hipocritamente cordial, que não se assume jamais, mas nem por isso menos letal que o racismo segregacionista que se praticou em países como Estados Unidos e África do Sul.

ALBERTO CASTRO é Jornalista freelencer residente em Londres graduado em Historia e Politca pela SOAS (School of Oriental and African Studies), Universidade de Londres. Ele é colaborador Internacional do Zwela Angola.

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