Com neologismos, professor Tapirapé mantém viva língua e identidade da etnia

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Quando tem de ir a um lugar a outro de forma mais ágil, Josimar Xawatare’yni, 45 anos, sobe na tatayakoty e, não raramente, para se proteger um pouco do sol forte, utiliza o xatewakwy. Amante das palavras e prevenido que é, o professor procura sempre ter por perto um paraxi, afinal, pode ser que a qualquer momento tenha que colocar no papel a inspiração para a criação de mais uma novidade linguística para a sua etnia – Tapirapé.

Em 25 anos de profissão como professor da Escola Estadual Indígena Tati’itãwa, na Terra Indígena Urubu Branco, situada no município de Confresa (1.100 km de Cuiabá), Josimar já converteu mais de 40 palavras do português do Brasil para o Tapirapé.

Utilizando uma metodologia própria, o professor se vale de recursos de significação da língua materna para adaptar as palavras do português, e assim, difundir o próprio idioma entre a comunidade indígena. Dessa forma, a união de“tata”, o equivalente tapirapé a fogo; “ya”, que significa meio de transporte; e “koty”, o mesmo que roda, se transforma em moto.

Já a junção de “xate”, que corresponde a chapéu, com “wakwy”, (ponta), vem a ser o que entendemos por boné. A mesma lógica se aplica para “paraxi”, ou lápis.

Graduado pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) em Licenciatura Intercultural, a ideia, segundo ele, partiu da constatação de que, por falta de palavras adequadas na língua original, o português vinha ganhando protagonismo cada vez maior entre o seu povo.

“É assim que começa. Se algo não fosse feito, em alguns anos nosso idioma de origem poderia já nem mais existir. O neologismo, na verdade, é uma forma de a gente manter viva a nossa identidade”, explica.

Um estudo elaborado pelo Museu do Índio do Rio de Janeiro, divulgado em 2014, alertou que, no prazo de 15 anos, 30% das línguas indígenas do Brasil poderiam desaparecer – em razão do contato cada vez maior entre os povos e homem branco e, sobretudo, pela escassez de iniciativas como as desenvolvidas por Josimar, por exemplo.

Os ensinamentos não ficaram restritos à sala de aula. Percebendo boa aceitação por parte dos alunos, o professor, com a ajuda dos estudantes, passou a se reunir com a comunidade para apresentar as novidades neologísticas – que não tardaram a cair nas graças do povo.

“Praticamente não falamos mais o português dentro da Terra, atualmente. Não por falta de domínio, mas por falta de necessidade mesmo”, ressaltou Josimar. A população Tapirapé, conforme o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2010, é de mil habitantes.

Para reforçar a aprendizagem e registrar o conhecimento, o professor trabalhou na confecção de um livro de gramática da língua tapirapé – uma das poucas etnias a ter registro escrito do tipo.

Devido ao esforço na busca por preservar a cultura de origem, Josimar chegou a ser premiado, em 2003, como Professor Nota 10 – reconhecimento concedido pela Fundação Victor Civitta, por meio da revista Nova Escola, uma das mais conceituadas em educação no país.

O prêmio, no entanto, não alterou em nada a rotina de Josimar. Todos os dias ele está em sala de aula, ensinando. “É o que eu gosto. Se não fosse professor, não sei o que eu seria”.

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