O problema Olímpico: HBO detalha histórico de violações de Direitos Humanos nas Olimpíadas

Adam Talbot – RioOnWatch

Enquanto grande parte da cobertura de mídia das Olimpíadas Rio 2016 perguntava sobre o Rio e o que o futuro reservava para seus habitantes, menos atenção foi direcionada ao futuro dos Jogos Olímpicos ou, em particular, ao Comitê Olímpico Internacional (COI). Problemas característicos das intervenções do Rio foram examinados minuciosamente, enquanto muito pouco foi dito sobre os problemas pertinentes ao COI. Um episódio do Real Sports, da HBO, que foi ao ar em 26 de julho, traz os desafios enfrentados pelos “Senhores dos Anéis” dos esportes com uma visão clara, detalhando a história recente dos Jogos. Olhando particularmente para os Jogos Olímpicos de Verão de Pequim 2008, os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi 2014, Rio 2016, e Oslo (que desistiu na competição para sediar os Jogos de Inverno de 2022), o episódio imperdível de Real Sports apresenta uma incrível variedade de entrevistas detalhadas e informações que, juntas, pintam uma imagem clara de uma organização corrupta e abusiva. Ao longo da produção do documentário, oficiais do COI receberam muitos convites para entrevistas, mas recusaram.

Os problemas do Rio têm uma cobertura boa e detalhada, com entrevistas na Vila Autódromo, onde Sandra Maria contou sobre a sua animação quando a cidade venceu a competição para sediar os Jogos, para, mais tarde, perceber o que isso significaria para ela: sua casa destruída e sua comunidade dilacerada. Na Rocinha, José Martins, do Rocinha Sem Fronteiras detalhou os problemas na saúde decorrentes do precário sistema de tratamento de esgoto, enquanto o governo gastava dinheiro em estádios Olímpicos.

A HBO também falou de um centro de emergência de um hospital no Estado do Rio, e um médico testemunhou que pessoas morreram, devido a financiamentos que foram desviados para a festa dos cinco anéis, descrevendo isso como um “crime contra a humanidade”.

A Baía de Guanabara não escapa do olhar crítico, que detalha as promessas de remediação que o governo fez e logo depois abandonou, alertando sobre as doenças potencialmente fatais que poderiam afetar os velejadores–e de fato já afetaram, uma velejadora belga contraiu disenteria durante os Jogos.

Os atletas que dedicam suas vidas para competir nos Jogos são o centro do modelo de negócios do COI–ainda que, como observado pelo corredor dos EUA Nick Symonds, eles recebam muito pouco, se comparado à enorme receita que os Jogos Olímpicos trazem para o COI. Atletas são até banidos por ganhar seu próprio dinheiro nos Jogos através de patrocínio–para proteger os interesses comerciais do COI. No entanto, isso não é uma surpresa, pois várias pessoas que estiveram envolvidas no escândalo de Salt Lake City continuam trabalhando no COI, bem como criminosos condenados. Apesar de sua ótima retórica, a organização é tão antidemocrática quanto aparenta, e os membros do COI não prestam contas a ninguém, recebendo alegremente um subsídio de US$900 por dia por agraciar as Olimpíadas do Rio com sua presença. Tudo isso enquanto as cidades anfitriãs, como Atenas, parecem cemitérios de estádios.

Ao olharmos para os Jogos de Tóquio de 2020, é perceptível que os Jogos possam ter sidogarantidos através de subornos, com investigações em curso sobre pagamentos de votos africanos do COI. Alegações de votos à venda não são nada novo para o COI–o escândalo de Salt Lake City os obrigou a avançar com algumas reformas limitadas. Mas estas reformas não limparam o COI da corrupção, e uma filmagem a partir de uma câmera secreta mostra o membro do COI Ivan Slavkov dizendo que ele estava “aberto a negociações” sobre qual lugar ele iria votar para os Jogos Olímpicos de 2012. Seu assessor é mostrado se vangloriando de que “ele [Slavkov] vai convencer seus amigos mais próximos a aceitar dinheiro”. Slavkov já foi removido do COI, mas a resposta do COI à corrupção continua a ser reativa, como se eles estivessem dizendo aos membros “aceitem subornos, apenas não sejam pegos”. Os sombrios membros do COI incluem até hoje “criminosos condenados… pessoas que faziam parte do escândalo de suborno de Salt Lake City, que continuam a servir em cargos de chefia… duas pessoas que foram acusadas de plágio em seus textos para PhD”.

Além disso, no futuro, os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 serão realizados em Pequim, após a cidade preferida do COI, Oslo, desistir do processo. Os noruegueses não estavam dispostos a aturar uma organização “semi-corrupta” e suas demandas extravagantes, que, combinadas, formam um documento de 7000 páginas e incluem “serviço de quarto 24 horas, incluindo serviço de mordomo” e “contínuo acesso à comida e bebida de alta qualidade suficientes (lanches e canapés não são bons o suficiente)”. Jacob Lund, um executivo de esportes norueguês, observou que o COI “parece sentir-se em algum lugar entre nós e Deus”. Eles são uma elite privilegiada, ele diz, que “querem viajar ao redor do mundo e ser tratados como reis”. Fritijhof Jacobson, um comentarista político, diz que Oslo desistiu de sua oferta para os Jogos de Inverno de 2022 porque “era essa entidade semi-corrupta de pessoas que viviam em um planeta diferente e dizem ‘nós viremos para a Noruega, apenas nos deem tudo o que queremos’”.

Isso fez com que o COI tivesse de escolher entre o governo do Cazaquistão, um notório violador de direitos humanos ou governo da China também notório por violar direitos humanos. Eles optaram por Pequim, apesar da falta de neve (bastante importante para esportes de inverno como o esqui), dizendo que a decisão foi baseada na força do show apresentado pela China em Pequim 2008.

Mas Pequim 2008 foi tão impressionante assim? Certamente, foi um espetáculo diferente de qualquer outro, mas também foi construído sob o sangue e as lágrimas do povo chinês. Com uma implacável eficiência, a China se preparou para os Jogos, proibiu a imprensa de descrever as desapropriações horríveis, que literalmente arrastaram pessoas de suas casas. Enquanto 80.000 pessoas foram desapropriadas para os Jogos no Rio, algumas estimativas (números precisos não estão disponíveis) das remoções para os Jogos Olímpicos de Pequim colocam o número próximo de 1,5 milhão de pessoas. As pessoas que se queixaram foram barbaramente espancadas e depois presas durante os Jogos, impedidas de falar com a imprensa. Mesmo agora, anos mais tarde, elas permanecem em vigilância para estarem impedidas de falar.

O governo chinês conseguiu que os Jogos projetassem seu poder, usando seus poderes totalitários para assegurar que nada estivesse fora do lugar. Um leite em pó adulterado para bebês  não foi denunciado de forma a não causar qualquer distração, sendo as vidas de crianças, aparentemente, não tão importantes como o grande momento da China. O para-atleta Fang Zheng estava ansioso para competir nos Jogos em sua casa, mas ele foi retirado do seu lugar na equipe, pois sua deficiência havia sido causada pelas mãos do governo nos infames protestos de 1989 na Praça Tiananmen. Ele foi então colocado na prisão durante os Jogos por medida de segurança–juntamente com muitos ativistas que tentaram chegar a um acordo justo nos Jogos Olímpicos da China. Teng Biao, um ativista de direitos humanos e advogado, que perguntou ao COI se os Jogos Olímpicos deveriam “coexistir com campos de trabalho, polícia secreta e crimes contra a humanidade” foi sequestrado e torturado durante os Jogos e avisado a “esquecer a lei”.

Hein Verbruggen, membro do COI responsável por supervisionar os preparativos para Pequim 2008 afirmou que o COI não tinha que interferir na aplicação da lei chinesa, apesar do então presidente do COI, Jacques Rogge, alegar que os Jogos Olímpicos trariam uma melhora dos direitos humanos na China. Perguntado se a intolerância do governo chinês em relação à discordância é um recurso para organizar os Jogos Olímpicos, Verbruggen, o único membro do COI entrevistado em todo o documentário, hesita antes de confirmar “sim, é”. Ele permanece alheio às remoções de centenas de milhares de pessoas, preferindo acreditar nas promessas do governo chinês ao invés da realidade concreta apresentada no filme. Questionado sobre a lista de temas proibidos para reportagens emitidos aos jornalistas, Verbruggen só podia responder que não tinha necessidade de proibir reportagens sobre questões de segurança alimentar, porque “a comida era excelente”. Quando perguntado sobre a detenção de ativistas como Teng Biao, Verbruggen simplesmente disse que “o que é detenção ilegal para nós não é para eles”.

Mais evidências do desrespeito do COI para com os direitos humanos podem ser encontradas em Sochi, Rússia. Os trabalhadores migrantes que construíram os estádios não foram pagos corretamente, e não foi dado o equipamento correto de segurança–apenas em ocasiões em que eles estivessem deitados no chão falecendo após uma queda, os chefes dariam o equipamento para culpar a morte como falha do trabalhador. Em um caso, um trabalhador reclamou e foi brutalmente espancado e violado por um pé de cabra nas mãos da polícia russa. Como imigrantes sem documentos, esses trabalhadores estavam à mercê dos seus chefes que mantinham seus passaportes. Quando falaram com uma mulher que teve sua casa destruída para construção de uma nova estrada para os Jogos, os próprios jornalistas da HBO foram presos–um sinal claro de quão bem a Rússia recebe críticas ao seu momento Olímpico, mesmo depois de anos de sua realização.

A principal questão de discórdia para HBO foi a de que governos autoritários estão usando os Jogos Olímpicos para ganhar mais poder–os Jogos Olímpicos estão sendo usados como uma ferramenta política. O ex-mestre de xadrez que virou político Garry Kasparov é convicto de que o COI deve levar parte da culpa pela situação atual na Ucrânia, alegando que eles encorajaram o presidente russo. A HBO aponta para outros eventos históricos como prova de que os regimes totalitários são reforçados quando as Olimpíadas vêm à cidade, olhando também brevemente para Moscou 1980 e, claro, os famosos “Jogos nazistas” de 1936. O documentário aponta corretamente que esses governos são mais fáceis para o COI trabalhar em conjunto, devido à sua intolerância à discordância, enquanto as cidades democráticas, como Oslo (bem como Boston, Hamburgo, Cracóvia, e outros) estão se recusando a receber os Jogos devido às exigências excessivas do COI.

O futuro não parece bonito para os Jogos Olímpicos. Dito isso, Real Sports poderia facilmente ter sido ainda mais duro com eles. O documentário sugere que os governos autoritários estão cooptando os Jogos Olímpicos para os seus próprios fins–deixando de fora que este é exatamente o que cada governo anfitrião, autoritários ou supostamente democráticos, fazem.Real Sports, pelo menos, deixa espaço para alguém aparecer e salvar os Jogos, com todas as cidades candidatas para os Jogos de 2024 (Paris, Los Angeles, Roma, e Budapeste) em países democráticos, embora se possa argumentar que a Hungria esteja cada vez mais totalitária. HBO não faz qualquer menção de Londres, Vancouver, Turim, Sydney, Atlanta, e várias outras cidades democráticas onde os Jogos Olímpicos deixaram um rastro de destruição–apenas concentrando-se em eventos Olímpicos nos países BRICS. Além disso, não menciona as pessoas ameaçadas de remoção no Meiji Park de Tóquio para dar espaço para o estádio, ou a destruição ambiental em Pyeongchang, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018.

No documentário, Theresa Williamson, diretora executiva da Comunidades Catalisadoras, sugere que o Rio tem mostrado ao mundo o que as Olimpíadas fazem para cidades–todo mundo está agora em alerta, diz ela. Todo mundo sabe que as Olimpíadas do Rio de Janeiro tiveram uma infinidade de problemas, mas a diferença entre Rio e Pequim ou Sochi é que foi muito mais fácil para os cariocas dizer ao mundo esses problemas. Mesmo com todos os problemas do Rio de Janeiro, esse documentário mostra que, dos Jogos Olímpicos recentemente realizados em países BRICS, o Brasil tem, em última instância, se dado melhor do que China e Rússia–a diferença no Brasil é que o mundo sabe sobre os problemas, pois os jornalistas foram autorizados a fazerem seus trabalhos. O mundo precisa que o COI acorde e perceba que seu evento tão estimado é prejudicial às cidades e à vida das pessoas, e que se esconder atrás dos aparelhos repressivos de governos autoritários não é uma opção viável.

*Pesquisador de doutorado no Centro de Estudos de Esportes, Turismo e Lazer da Universidade de Brighton, no Reino Unido. Ele está realizando um projeto etnográfico com foco em movimentos sociais e ativismo nos Jogos Olímpicos Rios 2016.

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