Brasília: A ilha de Marapatá, por José Ribamar Bessa Freire

“Vá logo deixando / Senhor forasteiro / A sua vergonha / em Marapatá”.
Anibal Beça (1946-2009), poeta amazonense

No Taqui Pra Ti

Dizem que foram instalados dois balcões informatizados da ilha de Marapatá no edifício circular do aeroporto de Brasília: um na área de embarque e outro no desembarque. De uso exclusivo das autoridades, até agora eram mantidos em segredo, mas foram revelados nesta semana para explicar os recentes atos despudorados de senadores, deputados, ministros, inclusive do STF, que ultrapassaram todos os limites do decoro, da vergonha e da moral, fazendo coisas que até o diabo duvida.

Marapatá, uma ilha na foz do rio Negro perto do encontro das águas, era a única porta de entrada de Manaus antes da existência de estradas e aviões. Desde os tempos coloniais, foi sempre parada obrigatória dos barcos. Reza a lenda que o forasteiro deixava lá sua vergonha, o que lhe permitia entrar na cidade sem qualquer freio moral. E aí valia tudo. Após fazer fortuna por meios ilícitos, ia embora do Amazonas. O barco dava outra paradinha para que, já rico, recolhesse a honra ali deixada e recuperasse a decência e a honestidade.

Lazareto de almas

Cantada em prosa e verso, Marapatá foi classificada como “um lazareto de almas” por Euclides da Cunha, numa época em que a lepra era vista com preconceito. Era lá que se escondiam os espíritos purulentos, o caráter dos trapaceiros e delinquentes. Foi lá que Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, deixou sua consciência pendurada em um mandacaru de dez metros para evitar ataques das saúvas, segundo Mário de Andrade.

O pesquisador amazonense Mário Ypiranga publicou, em 1963, no Jornal do Folclore, narrativa do velho Rufino Santiago, dono de uma serraria na enseada da ilha, habitada há milênios por Jumutimpora, um ser mitológico, que é um duende do bem. Ele sequestra as piores vergonhas ali deixadas para que os seus donos safados não as recuperem. É por isso que, ainda hoje, gemidos de consciências extraviadas ecoam na ilha assombrada, conforme relatos de cabocos ao historiador Antônio Loureiro, em quem confiaram por ser ele um honrado ING (Indivíduo Não-Governamental).

Marapatá ganhou até canção com letra do nosso dileto poeta Anibal Beça e música de Armando de Paula: “É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá, patati patatá”. Por essa porta passou há anos o atual governador do Amazonas José Mello (PROS vixe vixe), quando migrou de Ipixuna para a capital. Deixou debaixo de uma sapopemba sua consciência, que dá uivos lancinantes cada vez que Mello morde a merenda escolar.

Brasilha de Marapatá

Por transfigurar santo em bandido e vice-versa, a ilha de Marapatá assinou contrato de franchising com o Sistema Integrado de Tratamento de Informação Aeroportuária (SITIA) de Brasília. Cada vez que uma autoridade desembarca na capital da República, deixa lá no balcão sua honra com seu nome, assumindo o apelido revelado nas delações premiadas. Quando embarca de volta às suas bases, passa no balcão e recupera seu nome, fazendo cara de ilibado, de honrado. Todos eles possuem codinomes e apelidos e pertencem a partidos vixe-vixeados.

Foi assim com o senador Romero Jucá – o “Caju” – líder do governo no Congresso. Ele teve o culhão – desculpem, não há outro termo – de propor na quarta (15) uma emenda constitucional para blindar o presidente do Senado, Eunício Oliveira – o “Índio”- e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia – o “Botafogo”, ambos citados na Operação Lava-Jato. Neste mesmo dia “Botafogo” conduziu aprovação do projeto de repatriação de recursos por mulheres e parentes de políticos, que acabou sendo derrubada. Ambos recuaram, mas voltarão a atacar. Foi um teste, um balão de ensaio.

“Caju” foi quem propôs detonar a Lava-Jato numa conversa gravada com Renan Calheiros – o “Justiça”, então presidente do Senado, e José Sarney – “o Escritor”, o que foi avaliado como “ataque gravíssimo às instituições” pelo ministro do STF, Teori Zavascki, morto logo após em acidente aéreo. Só a ausência de qualquer resquício de vergonha e a certeza da impunidade podem levar indivíduos pagos pelo contribuinte a legislar não no interesse público, mas para acobertar seus próprios delitos. Esse é atualmente o principal trabalho dos parlamentares: tratar de tirar o loló da seringa.

Foi o que fez o presidente Michel Temer – o “Sem Medo”, citado 43 vezes nas delações – ao nomear ministro Moreira Franco, o “Angorá”, citado 34 vezes, além de ser acusado de peculato e apropriação de recursos públicos. Dessa forma, o “Angorá” adquire foro privilegiado e escapa da Lava-Jato. Contou com o aval do ministro do STF, Celso de Mello, que sequer considerou liminar anterior de seu colega Gilmar Mendes proibindo a posse de Lula. Com dois pesos e duas medidas, o STF frequenta a ilha de Marapatá.

Ave Jumutimpora

Marapatá, onde todos deixaram suas vergonhas, ajuda a explicar como é que suspeitos de falcatruas podem ser ministros, além de presidir o Senado e a Câmara. É impressionante! Com tanto brasileiro honrado, Temer busca no chiqueiro sujeitos com codinome nas delações da Lava-Jato. Um deles, Eliseu Padilha – “o Primo”, ministro-chefe da Casa Civil, investigado por propinas nas obras de Belo Monte e apontado em delação como o operador dos repasses destinados ao próprio Temer, justificou publicamente que o loteamento de cargos é para fortalecer a base aliada do governo. Um balcão de negócios.

O ex-ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, advogado de  Eduardo Cunha e do PCC, indicado por Temer para o STF, será sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça presidida por Edison Lobão – o “Sonlo”. São os suspeitos de corrupção que vão aprovar quem vai julgá-los. Simularam até uma sabatina no barco-motel “Champagne” para treinar o sabatinado, enquanto singravam pelo lago Paranoá. Esses jamais recuperarão a vergonha no balcão de Marapatá.

Agora, a Folha de SP (17/02) dá conta de que “Ministros do STF discutem libertação de Eduardo Cunha”. Não há qualquer preocupação em manter as aparências. O decoro, a decência, a compostura, ficaram mesmo na ilha de Marapatá. Somente o Jumutimpora, as panelas e o povo nas ruas podem resgatar a consciência da pátria mãe gentil.

P.S.1 – Modéstia à parte, essa é a contribuição da sabedoria popular do Amazonas para os brasileiros entenderem o cenário nacional. Segundo o dicionário de Stradelli, a palavra marapatá em nheengatu designa uma espécie de peixe de pele. Ele escreve, no entanto, que Mara “traz sempre consigo a ideia de algo ruim, de mau, que não presta” (pg. 406). Por outro lado, jucá significa “apodrecido” ou “se cagado” (pg. 386). Quero ver minha mãe mortinha no inferno se estiver mentindo. Podem conferir no local indicado da segunda edição. Já Temer, em nheengatu, quer dizer “ferrá-los-ei” e aqui, por não lembrar a página, prefiro poupar minha mãe.

P.S.2 – Ao contrário de Alexandre de Moraes, que copia e não indica as fontes, dou a referência: STRADELLI, Ermano. Vocabulário da língua geral portuguez-nheengatú e nheengatú-portuguez, precedidos de um esboço de grammática nheenga-umbuê-sáua-miri e seguidos de contos em língua geral nheengatú poranduua. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,104 (158): 9-768. Rio de Janeiro, 1929.

 

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