“As histórias de crimes do colonialismo neste século estão largamente por contar”, entrevista a Fernando Rosas

por Mariana Pinho – BUALA

Estreia brevemente na RTP a segunda temporada de História a História, uma série documental sobre as relações de Portugal com o continente africano, realizada por Bruno Moraes Cabral, produzida pela Garden Films e RTP África

A partir de imagens e sons da época colonial em África, o historiador Fernando Rosas (autor e apresentador da série), procura traçar a história do império português, desde o final do século XIX até às independências. São 13 episódios, filmados em 5 países africanos (Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Principe e Guiné-Bissau) e em Portugal, cada um deles uma viagem que investiga no terreno as diferentes dinâmicas e conflitos deste período colonial. O BUALA foi assistir às filmagens de um dos episódios e conversou com Fernando Rosas e com o realizador Bruno Moraes Cabral.

Portugal não é um país pequeno, era o que estava escrito no mapa da escola, Portugal não é um país pequeno, é um império do Minho a Timor. A metrópole não pode ser como hoje a vimos no caminho que o táxi fez, ninguém nos ia obrigar a cantar hinos aos Sábados de manhã se a metrópole fosse tao acanhada e suja, com ruas tão estreitas onde parece que nem cabemos.1 (O Retorno, de Dulce Maria Cardoso)

Estamos na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (Alcântara), a filmar uma cena que integrará o episódio sobre o regresso dos colonos. Qual a relação deste lugar com a questão dos “retornados”?
A relação é simbólica. Muita gente regressou a Portugal de barco, muitos bens regressaram por esta via. Milhares de caixotes – cerca de 300 mil metros cúbicos – foram espalhados por vários pontos da cidade. Muitos deles foram vandalizados, e muitos ficaram sem destino. As pessoas não sabiam onde os colocar, não tinham casa. Eram albergadas em pensões e hotéis pagos pelo IARN [Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais], no Inatel da Costa da Caparica ou na cadeia do Forte de Peniche [antiga prisão política que estava já desabitada]. Portanto, muitas delas não tinham onde pôr as coisas, os sofás, os candeeiros, as camas, aquilo que tinham conseguido juntar no desespero e pânico da saída. Muitas coisas ficaram espalhadas por aí. Oito grandes navios de porta-veículos trouxeram 16 mil automóveis. E vieram aportar no porto de Lisboa. Escolhemos a Gare para filmar uma das cenas porque, de certa forma, representa o fim do império. Daqui se partiu para o império e aqui se regressou na sua queda, tal como os seus destroços. É um lugar bastante simbólico.

A série procura traçar a história do império português até às independências, um ciclo que teve início em finais do século XIX e vai até 1974. Que histórias deste século iremos conhecer? De que forma irão contribuir para esclarecer o engano do mito de um colonialismo brando e amistoso?
A série foca-se no ciclo africano do império português, e esse é um século marcado por violência. O colonialismo é uma forma de violência, uma forma de domínio de sociedades que eram dominados pela superioridade militar, técnica e económica das civilizações europeias. E esse domínio exerceu-se de forma violenta. Restringindo e esmagando os direitos das populações autóctones e imponde-lhes um modo de produção injusta, de forma a assegurar a acumulação do sistema colonial.

Todos os colonialismos têm uma narrativa que tenta disfarçar esta realidade – não apenas o português. Se olharmos para o colonialismo francês, também ouvimos que foi um colonialismo “brando”, ao contrário do britânico. Essa “excepção” também faz parte da narrativa colonial em Portugal.

Abordamos a “ocupação efetiva”, as “campanhas de pacificação”, que são campanhas de mortandade organizada sobre as populações africanas. Não só em Portugal mas, por exemplo, no Sudão, onde os ingleses mataram 30% da população. Para não falar da colonização dos Estados Unidos da América e da matança dos índios. Ou da colonização alemã, uma experiência brutal, que claramente precedeu a dos campos de concentração no Holocausto – essa violência estava ali em embrião. A frase Arbeit macht frei [“o trabalho liberta”], escrita à porta dos campos de concentração alemã, é a ideologia da obrigatoriedade do trabalho que encontramos na colonização da população indígena. A população era obrigada a trabalhar para se “libertar”, para se “elevar”, para se “reeducar”, através do trabalho. O princípio da reabilitação do indígena – trazê-lo à civilização pela obrigatoriedade coerciva de o fazer trabalhar – é um princípio que começa no colonialismo em África.

São histórias assim que contamos. Mas em vez de fazer um programa sobre o trabalho forçado propriamente dito, fazemos sobre alguns exemplos que encontramos ao longo da história.

De que forma essas histórias vão romper com a História hegemónica da narrativa colonial?
A derrota portuguesa da guerra colonial fez de muitos assuntos ligados ao colonialismo e, em particular, à guerra colonial, verdadeiros tabus. Assuntos de que simplesmente não se fala. Nós procurámos abordar alguns deles, nomeadamente, o caso da violência pura e dura através das cadeias políticas do império, o sistema prisional político, que é um sistema violentíssimo de morte em massa que não está quase contado. E o quase tem que ver com a obra pioneira e corajosa da historiadora Dalila Mateus [Memórias do Colonialismo e da Guerra, ed. ASA], mas as histórias de crimes do colonialismo neste século estão largamente por contar. Portanto, nós contamos algumas destas histórias.

Esta outra história colonial começa a ser feita com algum desenvolvimento e, sobretudo, com uma aproximação bastante científica e académica, há muito pouco tempo, porque a guerra colonial e o seu balanço não contribuíram nada para a distância e o equilíbrio desta narrativa. Sobretudo porque existe uma narrativa principal de branqueamento do colonialismo e de exaltação de uma colonização portuguesa, que é francamente dominante no discurso oficial. Basta ouvirmos o discurso de tomada de posse do atual Presidente da República e encontramos todos os valores da ideologia colonialista ali…

Há um episódio filmado em Cabora Bassa (Moçambique)… Que papel têm as grandes obras públicas do Estado Novo na História (e na série)?
É claro que ninguém desconhece que o colonialismo português fez também obras públicas de grande envergadura. A barragem de Cabora Bassa, os colonatos, a rede viária, etc. Mas foram obras realizadas para maximizar a exploração colonial. Muito pouco – ou nada – daquilo foi feito pelo interesse da “elevação” das populações, ou para o seu desenvolvimento sustentável.

Nós procurámos mostrar as grandes realizações do colonialismo, fazendo uma desmontagem crítica das mesmas: Cabora Bassa, uma obra de engenharia fantástica. Mas para que servia? Que ligações teve com a guerra colonial? Muitas. Os colonatos, as grandes obras de irrigação. Dezenas de milhares de hectares que foram irrigados para assegurar uma produção, que depois foram transformados em casas de família de camponeses brancos, que foram para lá, desocupando famílias africanas desses territórios.

Portanto, procuramos fazer uma desmontagem crítica, mesmo das grandes obras do colonialismo. Por isso escolhemos episódios que representam essa realidade. Tentamos contar uma outra história do colonialismo africano, do ciclo colonial do império – a história que não é contada ainda hoje nos livros escolares.

Ao contrário da 1ª temporada, na qual o ponto de partida era, por norma, um lugar a partir do qual se levava a conhecer eventos históricos que por eles passavam, nesta partiram do arquivo para fazer um caminho exploratório e sustentá-lo narrativamente. Porquê esta opção?
Fizemos um trabalho de investigação durante cerca de um ano. Tivemos uma equipa que foi ler os arquivos, a bibliografia disponível – sobretudo a mais recente, a jovem investigação científica que se está a fazer sobre a questão colonial.  Foi uma investigação bibliográfica, arquivista e etnográfica (a partir de muitos filmes, etnografias, mapas, gravuras, etc.). Tivemos um investigador só a fazer isso, também com o Bruno Cabral. Além disso, fizemos repérage. Uma equipa foi antes para o terreno, já depois de termos uma ideia de como iriam ser os episódios, para perceber onde podíamos filmar e que condições tínhamos nos lugares – foi preparar o terreno. Depois escrever o argumento, que é a síntese de toda a investigação. Só depois disso fomos para o terreno filmar.

Quanto à metodologia: a série não segue uma linha cronológica. Os episódios funcionam sempre de forma independente uns dos outros…
Sim. Resolvemos abordar este problema do colonialismo português, não de um ponto de vista cronológico, mas escolhendo histórias significativas – História a História.

Fomos buscar à história colonial do século XX o que consideramos serem episódios representativos do fenómeno. Escolher episódios representativos torna-se mais interessante para este formato, mais apelativo e pedagógico. A história cronológica é mais própria de um curso superior, de uma disciplina. Em vez de contarmos uma história por fases, épocas, etc., procuramos ilustrá-la através de alguns episódios que sejam representativos.

O ponto de vista que adotei, enquanto historiador e argumentista da série, é um ponto de vista da história de Portugal. Estamos a contar a História do ciclo africano do império, a partir de um ponto de vista de um historiador português. Ou seja, a partir dos fatores que contribuíram para a abertura e falência desse ciclo. Esse ponto de vista é claramente assumido. Não estamos a fazer nem a História de Angola nem de Moçambique. Estamos a fazer a história a partir de um ponto de observação que é a sociedade portuguesa: como nasceu o moderno colonialismo na sociedade portuguesa, como concorreu com os outros capitalismos modernos das potências europeias imperiais, e como é que esse colonialismo acabou por derrotar e se envolver numa guerra sem fim que durou 13 anos, e perdê-la. Essa é a história. Há outras formas de a contar, mas esta foi a que escolhemos.

Foi difícil aceder a algum assunto em particular?
Não propriamente. Fomos talvez um pouco prejudicados na nossa viagem a Angola. Coincidiu com uma reportagem muito polémica feita pela SIC. E isso refletiu-se um pouco na desconfiança inicial com que a nossa equipa foi recebida pelas autoridades angolanas. Tudo a correr bem e de repente… Mas tudo acabou por se resolver. Não deixámos de filmar em nenhum sítio onde queríamos. As filmagens em África correram muito bem. Começaram em Outubro e terminaram no início de fevereiro.

Como é que acha que a série vai ser recebida na televisão portuguesa?
Até agora foi muito bem recebida. Contámos e contamos a história com correção, com rigor, mas com opinião. Aliás, como todas as histórias. Temos de desconfiar não de quem faz a história com opinião, mas de quem faz a história em nome da imparcialidade e da objetividade. Temos de nos preocupar com o rigor, com uma metodologia rigorosa. Todos temos opinião. Não há nenhum historiador que parta para o seu objeto sem ter uma opinião ou uma mundivisão, uma cultura. E é isso que define a sua relação com o objeto. Não existe história imparcial. É uma história crítica que fazemos com o máximo de rigor.

1.Nas filmagens deste episódio sobre os “retornados”, Fernando Rosas cita o romance de Dulce Maria Cardoso para ilustrar o estranhamento da chegada à metrópole, o abismo cultural entre o Portugal rural e o cosmopolitismo urbano de Angola e Moçambique.

Imagem: Cartaz “Portugal não é um país pequeno”, de 1934, é uma das imagens mais marcantes da propaganda do Estado Novo.

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