Gramsci vivo, 80 anos depois de sua morte

Lançamento do Dicionário Gramsciano contribui para popularizar obra de autor que tem muito a dizer ao Brasil, num momento em que parece tão necessário reconstruir o pensamento crítico

Por Carlos Eduardo Rebuá – Outras Palavras

“A morte acabou – disse a si mesmo.
Não existe mais”.

[Tolstói, A morte de Ivan Ilitch]

Tornar-se parte da cultura é um dos processos ontológicos sobre o qual teóricos e teorias mais se detiveram no último século, destacadamente entre as correntes críticas do pensamento social. Gramsci tornou-se cultura. Faz parte obrigatoriamente do mundo contemporâneo que viveu tão intensamente. Qualquer fotografia do século XX, para além do álbum marxista, assim como todo balanço crítico da política e da cultura no século de hoje, não podem prescindir da perspectiva gramsciana, utilizada por arcabouços teóricos os mais distintos. O marxista da Sardenha tornou-se conhecido até entre aqueles que não leram seus livros, tornando-se parte de nosso universo cultural, como apontou Eric Hobsbawm num de seus últimos escritos. Assim como Marx, Gramsci conseguiu tornar presente o materialismo histórico nas assembleias sindicais, nos protestos de rua, mas também nas conversas fortuitas, nos balanços midiáticos, nas discussões familiares, nas revisões eclesiásticas, nas análises futebolísticas, nos silêncios diante do que parece não ter explicação.

A tradução do Dicionário Gramsciano para o português, dois anos após a fundação da International Gramsci Society Brasil (IGS/Brasil), nos oitenta anos da morte de Gramsci e num contexto tão adverso para as classes populares, para a esquerda, para os intelectuais orgânicos aos subalternos, significa muito. Para os gramscianos daqui representa uma nova conquista, um instrumento teórico indispensável nos embates da filosofia da práxis, fruto de vínculos inapagáveis com os gramscianos da terra de nosso Antonio, como Guido Liguori e Pasquale Voza, organizadores/autores da versão italiana do Dicionário e interlocutores que reforçam os laços entre os dois lados do Atlântico.

Uma vez que é impossível dicionarizar a cultura, empreendamos a tentativa de radiografá-la, ainda que sempre parcialmente, a partir dos instrumentos conceituais legados pelos grandes pensadores, pelos não indiferentes. O dicionário de um pensamento desempenha uma função social que deve ser ressaltada: popularizar a obra de um autor, dissolvendo mitos e situando-o na cultura da maneira mais próxima possível do que e de quem ele realmente foi.

O próprio Liguori, em Roteiros para Gramsci, reproduz um trecho da carta de Gramsci à cunhada Tania Schucht, em 19 de fevereiro de 1927, onde o filósofo cita a constante confusão que a pronúncia de seu nome causava (e que ainda hoje causa!), sendo chamado de “Granusci”, “Granísci”, “Gramasci” etc. No documento, Gramsci relata de maneira bem-humorada um encontro que teve em Palermo com um operário anarquista de Turim conhecido como “Único”. Ao serem apresentados o homem pouco amistoso indagou se ele era “Gramsci, Antonio”. Ao obter a confirmação disse: – Não pode ser, porque Antonio deve ser um gigante e não um homem tão pequenino.

Não é sempre que a dimensão intelectual de um autor pode ser medida pelo tamanho físico de enciclopédias produzidas a partir de suas reflexões. Contudo, a associação se materializa nesta que a Boitempo acaba de lançar no país onde a obra de Gramsci fecundou da maneira mais inventiva. Possui mais de seiscentos verbetes, com 832 páginas, num formato ampliado e tendo sido minuciosamente elaborada por notáveis pesquisadores, de países diversos, atestando a amplitude e o vigor de suas análises.

Como no clássico livro de Tolstói, a morte pode anteceder a morte. E acrescentamos: é possível existir após ambas, sobretudo quando se é gigante.

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