Meu nome não é Sininho

Três anos depois de estampar capas de jornais e o noticiário de TV acusada de liderar os adeptos do black bloc, Elisa Quadros recebeu a Pública para uma longa entrevista sobre as prisões, as ameaças e os traumas que ainda tenta superar

por Mariana Simões e Natalia Viana, da Agência Pública

Depois de dois anos parado, o processo que procura condenar Elisa Quadros Pinto Sanzi e outros 22 ativistas presos durante os protestos de 2013 e 2014 no Rio de Janeiro deve chegar ao fim. Em abril, O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) começou a julgar um habeas corpus que pedia a anulação de provas colhidas por um policial militar infiltrado nas manifestações sem autorização judicial.

Assim que o STJ proferir sua decisão, o caso que ficou conhecido como “processo dos 23”, no qual os jovens manifestantes são acusados de “associação criminosa agravada pelo uso de arma e a participação de adolescentes”, deve finalmente ser julgado pelo juiz Flávio Itabaiana, do Tribunal de Justiça fluminense. Itabaiana é conhecido como “linha-dura” e concedeu diversos pedidos de prisão temporária dos ativistas, incluindo no final da Copa do Mundo de 2014.

Há dois anos, Elisa, 31 anos, evita falar à imprensa, traumatizada pelos ataques à sua reputação capitaneados pelo governo do estado, à época comandado por Sérgio Cabral. Ela foi uma das jovens que participaram ativamente do “Ocupa Cabral”, um acampamento diante da casa do ex-governador em meados de 2013 que o acusava de corrupção. O impacto foi surpreendente: Reeleito em 2010 com 66% dos votos, a popularidade de Cabral despencou de 45% para 12% durante as jornadas de junho. Hoje, é um dos presos da Lava Jato.

“Querendo ou não, a gente destruiu a carreira de um político”, diz Elisa. Nacionalmente ela é conhecida como “Sininho”, a figura que estampou capas das principais revistas do país nas jornadas de junho. A capa de Veja, por exemplo, trazia a manchete “Os Segredos de Sininho”, com o subtítulo: “A militante Elisa Quadros, protetora dos Black Blocks, é a chave para descobrir quem financia, arma e treina os vândalos”.

Como consequência da fama repentina, Elisa foi presa duas vezes em Bangu, perdeu o emprego, a estabilidade financeira e emocional. “Eu já cheguei a me machucar. E eu falo abertamente porque isso não tem que ser vergonha para ninguém não, nem para mim, nem para ninguém que passa por isso.”

Formada em cinema, a ex-produtora recebeu a Pública no final de 2016, quando tentava refazer a vida: confeccionava acessórios de couro e buscava trabalhos free-lancers. Em abril, voltou a nos receber para mais uma conversa. Para ela – que nega ser adepta da tática Black Bloc – a Sininho “é uma construção midiática”. Hoje, longe dos grandes protestos, ela ainda carrega as marcas da fama. “A mídia é muito mais poderosa do que a prisão. A destruição da identidade é eterna”, diz.

Qual a sua expectativa com relação ao julgamento do processo dos 23?

Eu acho que na primeira instância – acho não, tenho certeza – vai ter condenação. Não tenho certeza se vai ter prisão, mas condenação vai ter. Depois, quando chegar na segunda e terceira instância, esse processo vai acabar sendo anistiado, porque ele está muito vergonhoso já.

A gente está respondendo por formação de quadrilha armada, mas sem arma, porque a arma que acharam é da menina secundarista, que era do pai dela, que é segurança da Uerj. Ele tem autorização, tudo certinho. Por isso ele tem uma arma em casa.

Agora, se me prenderem, eu tenho muito medo de ser bombardeada na mídia de novo. Mas nada mais do que eu já não vivi. A questão é o que eles fizeram comigo, não tem como voltar. Foi bem ruim.

Como é que foi que você virou a Sininho? Teve um momento?

Teve. Foi o dia 15 de outubro de 2013.

Esse foi o dia em que 201 pessoas foram detidas em um protesto na greve dos professores no Rio. Foi quando apareceu aquela primeira foto na Folha de S.Paulo. Você estava em um ônibus abraçando o seu então namorado, Luiz Carlos Rendeiro Júnior, o “Game Over”, antes de ser encaminhada para a delegacia.

Foi tudo muito traumatizante. Mas o 15 de outubro, para mim, tem um significado. Você nunca vai achar que vai ser presa, né? Você é classe média, branca, isso nunca vai passar pela sua cabeça. Então foi uma série de rupturas na minha vida. Ali tudo se iniciou. 15 de outubro foi visível, foi chocante, foi agressivo. A polícia separou homens e mulheres na Câmara [dos Deputados]. Duas pessoas que eu conhecia levaram tiro. E ali eles me destacaram. Me tiraram da escada, me destacaram de todo mundo e me colocaram ali com todos os coronéis, os chefes do Bope, do Core, da Polícia Militar. “Ah, você que é a Sininho? Você que é a grande líder?”

Eu tive escolta particular, eu tive que entrar num carro diferente. Foram 40 mulheres detidas, e eu fui a única presa mandada para Bangu.

Ali foi quando eu virei capa [de jornal] pela primeira vez. A foto é chocante, histórica. A mise-en-scène com aquilo ali… Foi ali que criaram essa personagem, a liderança Sininho. E aí foi quando fui para Bangu pela primeira vez.

Eles me colocaram no carro do Core [Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil fluminense] e os policiais foram até gentis. Quando a porta daquele carro fechou, que minha amiga saiu correndo e me entregou o lanchinho da minha mãe, eu, apavorada, falei: “Agora a minha vida não me pertence mais”.

Como foi a sua prisão?

Eu não chorei dentro do carro, eu não chorei quando cheguei em Bangu. Eles não me viram chorando em nenhum momento. E aí eu entrei na cidade prisional, que é gigantesca, e acordei já na frente de Bangu 8. Minha vontade era abraçar essas pessoas e dizer “me deixa nesse carro, eu não quero entrar”. Eu não conseguia nem andar, ficava paralisada.

Eu entro no presídio e eles fecham aquele portão. Foi uma sensação de morte. Eu fui entrando na recepção, onde você tem que tirar toda roupa, que é outra humilhação, e aí você tem que ficar fazendo posições, você tem que abrir a boceta para mostrar se tem alguma coisa dentro. Eu me encostei porque estava muito cansada. Tinha mais presas que tinham entrado, e [uma delas] se encostou também. E aí veio a carcereira e deu um soco na cara da menina, na minha frente. Na verdade, ela queria bater em mim, mas ela não podia. E falou: “Você pensa que você está onde, na tua casa? Aqui tem regra, aqui quem manda é a gente. Abaixa a cabeça, mão para trás, senão vai levar”. Eu sabia que era para mim. Imediatamente botei a mão [para trás].

Você ficou quanto tempo lá?

Cinco dias. Eu fui sequestrada durante 24 horas na delegacia. Para mim, é um sequestro. Se não existe crime, se existe só perseguição, é um sequestro. Eu saí da prisão em choque. Mas não sabia que eu era midiaticamente a Sininho. Eu descobri isso saindo de Bangu.

De onde vem o nome Sininho?

No Ocupa Cabral, até por uma questão de proteção, a gente fez uma roda, e nos davam um apelido. Então a Disney reinou, tinha Pocahontas, e eu era “Sininho” porque eu era bravinha, pequeninha, e sempre com as minhas botinhas, sapatinho de bailarina, sabe? Tipo de fadinha mesmo. Ali foi Sininho. Que eu gostava até então. Agora eu não gosto mais não.

Por quê?

A “Sininho” é uma construção midiática. Eu estou começando a entender um pouco melhor e a parar para pensar sobre tudo o que aconteceu. É assim que eles funcionam: a mídia, o Estado, eles precisam de uma liderança. Mas não teve liderança. Tinha pessoas que têm facilidade de assumir mais coisas, mas isso não significa uma liderança. Eu sou produtora, então sou muito rápida. Eu não tenho paciência, sou muito brava. Eu avalio hoje que, das pessoas que estavam mais ativas, eu fui escolhida para ser o bode expiatório.

E aí você faz uma avaliação de critérios morais. Nesse país machista em que a gente vive, destruir mulher é fácil. Branca, hétero, classe média. Usaram muito o argumento de “rebelde sem causa”. E o moralismo do machismo. Moralismo religioso: cara de vagabunda, destruidora de lares, “ela usa sedução para conseguir as coisas”… Virei “líder de Black Blocs”. Gente, pelo amor de deus, eles não têm líder, eles usam uma tática, começa por aí. Eu nunca usei a tática, sou de outras táticas, por isso que eu nunca tampei o rosto. Gente, é uma tática política de ataque ao capital!

Mas ali no caso, o Cabral foi destruído. Querendo ou não, a gente destruiu a carreira de um político. No “Ocupa Câmara”, por exemplo, estávamos mexendo com uma das maiores máfias do Brasil, que é a máfia do transporte e a máfia do combustível. Mexendo com duas máfias poderosíssimas no Brasil.

Você procurou se proteger?

Você vai pirando, vai se protegendo. Vai pirando mais do que se protegendo, porque você não está acostumada a isso. O máximo que você pode fazer é tomar todos os cuidados. Mas eu percebia que os telefones, todos eles, tinham uma interferência. Já teve, por exemplo, várias vezes que o computador mexia sozinho. Eu estava fazendo umas coisas e ele ia abrindo pastas, e aí eu descobri que eram pessoas invadindo meu computador. E aí você fica apavorada. Já teve, por exemplo, [eu falando] no Facebook, meio apavorada: “Eu acho que tem alguém no computador”. Daqui a pouco alguém fala com você no Facebook: “Ah, estou adorando as suas fotos, deveria ser modelo. Sua mãe é tão fofa. Quem é esse cachorrinho?”.

Como você reagiu a isso tudo?

Quanto mais você vai peitando, mais você vai sendo destruída. Foi o que aconteceu comigo. Se eu tivesse abaixado a cabeça, não acredito que a criminalização ia diminuir. Você cria um símbolo. Essa pessoa não precisa fazer mais nada, vai continuar sendo citada. Eu fui citada no estupro coletivo [ocorrido no morro da Barão em maio de 2016]. Eu estou arrolada no processo. Também foi citado [na coluna do] Ancelmo Góis que eu estava influenciando a molecada a ocupar as escolas, a ocupar a Secretaria de Estado da Educação [Seduc]. Eu não sei nem onde fica a Seduc! Agora o processo do Santiago está andando, e onde fala do caso do Santiago eu sou citada.

Você está falando do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, que foi morto por um rojão atirado em 6 de fevereiro de 2014. Os dois acusados, Fábio Raposo e Caio Silva de Souza, ficaram presos por cerca de um ano…

Sim. Eu não tenho absolutamente nada a ver com isso. Tanto que nem no processo estou. Eu conhecia o Fábio, o Fox, da ocupação, mas era mais um menino que estava lá. Nunca tinha visto o Caio na minha vida. Eu estava presa dentro da Central do Brasil, presa pelos policiais. A polícia estava espancando as pessoas: criança, idoso, mulher, homem… De manhã, um amigo que é jornalista, que tinha sido amigo dele [de Santiago], estava com olho inchado, vermelho, me abraçou assim: “Cara, um amigo meu vai morrer”. Me abraçava e chorava.

Ali eu já tinha sido massacrada, já tinha sido várias capas, mas não da Veja. Uma semana depois eu fui capa da Veja.

Como foi?

O maior erro que cometi foi ter ido na delegacia quando o Fábio se apresentou. Eu acordei de manhã com umas amigas minhas, apavoradas, falando que o Fábio tinha se entregado. E o que a gente fez? Começou a ligar para [o pessoal dos] direitos humanos. O Marcelo Freixo é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj. É obrigação dele saber o que está acontecendo. E eu tenho telefone da Comissão dos Direitos Humanos, não tenho o telefone do Freixo, até porque eu vi ele duas vezes na minha vida.

E aí eu liguei, e ele que atendeu. E aí começou tudo. Eles tiveram um prato cheio para falar que eu tinha envolvimento com o caso e inventar essa história de ligação com o Marcelo Freixo. É tão boçal esse negócio de ligação com o Marcelo Freixo!

Eu acompanhava as pessoas que tinham sido presas e eu vi muita tortura lá dentro. Minha preocupação era ele [Fábio] ser torturado lá dentro. Na hora que eu cheguei lá, estava um zunzunzum e eu não entendia absolutamente nada. E aí que teve a confusão. A mídia começou a ficar muito agressiva com a gente, e teve aquela confusão de eu ter chamado eles de “carniceiros”.

A morte do Santiago significa uma dor que eu não consigo imaginar para a família dele. Mas tudo o que eles precisavam era eu ir para a delegacia. Porque aí eles pegam a criação midiática da liderança e juntam com o maior caso da destruição dos movimentos sociais que estava acontecendo.

Elisa conta que “chegou a se machucar”. “Eu falo abertamente porque isso não tem que ser vergonha para ninguém” (Foto: Marcio Isensee e Sá/Agência Pública)

Quando foi o momento em que você percebeu que isso a estava afetando pessoalmente?

A capa da Veja foi bem ruim. Quando começou a surgir o boato que eu ia sair na próxima capa da Veja, eu já estava me preparando. Só que uma coisa é você se preparar, outra é você sentir. Eles publicam a capa na internet antes. Sentaram três amigas na minha frente. Eu comecei a achar estranho, elas estavam nervosas e não queriam que eu mexesse no meu celular.

Nem consegui dormir. Fui na banca e fui direto na capa. Tinha um menino olhando, o menino deu uns pulinhos para trás. E eu sentei com óculos, com o jornal na cara. Apavorada. Todo mundo me olhava, sem exceção. Ali chegou um cara do Washington Post: “Olha, queria te pedir desculpa, mas eu sou do Washington Post”… É muita tensão. Todo mundo te reconhece. Em vez de você ficar normal, você vai chamando mais atenção ainda porque está tão nervosa. E isso é o estado da paranoia, né? Isso é uma tortura. É torturante, é aterrorizador.

Você foi buscar ajuda profissional?

Sim. O grupo Tortura Nunca Mais me deu todo o suporte psicológico, de carinho, de troca de experiência. E aí você descobre que não está sozinha. Não são só as pessoas de 2013, de 2012, que estão sendo perseguidas, mas pessoas de outros momentos, da ditadura, dos anos 90, do Diretas-Já. E isso me ajudou muito. Conhecer os meus heróis, para mim, foi incrível. Eu tive acompanhamento psiquiátrico, psicológico, desde a primeira vez que eu fui presa, 15 de outubro de 2013. Eu tenho psicólogos até hoje que me acompanham. Eu tenho esse estresse pós-traumático, que foi diagnosticado.

Qual foi o diagnóstico?

Você passa por um processo intenso de perseguição, e você vai tendo uns tiques. Que é a paranoia, que é a depressão. Você tem muita raiva, tem muita raiva das pessoas próximas de você. Então você agride, você grita. Aí tem a raiva de você mesma. Eu já cheguei a me machucar. E eu falo abertamente porque isso não tem que ser vergonha para ninguém, não. Nem para mim nem para ninguém que passa por isso. A própria clandestinidade foi, na minha visão, o momento mais intenso de paranoia.

Conte sobre a sua prisão no final da Copa do Mundo.

Eles me pegaram em Porto Alegre. Eu estava indo pra Porto Alegre para visitar o meu avô – que estava doente e morreu dias depois –, eu não consegui encontrar porque eles fizeram o favor de fazer a mise-en-scène deles. Não foi tão traumático em relação à prisão em si, mas bem traumático em relação à mídia. Teve muita mídia. Eu fui pega [em Porto Alegre] às cinco e meia, seis horas da manhã, e só cheguei na DRCI às 9 ou 10 horas aqui no Rio.

Sobre o período em que você ficou foragida, o que aconteceu exatamente?

Eu não digo foragida, mas clandestina. Eu fiquei clandestina no dia 13 de agosto de 2014. Nós já éramos processados pelo [processo dos] 23, e uma das restrições é que você não pode sair da comarca da cidade do Rio de Janeiro. Não posso ir para Niterói. E não pode participar de reuniões públicas. Então, na verdade, não posso beber aqui embaixo porque é uma reunião pública.

Você, o Igor Mendes da Silva e a Karlayne Moraes da Silva Pinheiro, a Moá, foram a um encontro público, sendo que havia uma medida cautelar para não participarem de atos públicos. Por que você decidiu se esconder?

Eu não considero nem “esconder” nem “foragida”. Porque a gente não cometeu crime nenhum. O Estado me colocou em clandestinidade. Eu não fugi, eu me defendi. Então eu e Moá ficamos sete meses clandestinas, e o Igor infelizmente ficou preso.

Como assim, clandestinas? Usando outra identidade?

Não, não, não tem esse grau de organização. Para a Moá deve ter sido muito difícil, mas ela não era conhecida midiaticamente. Para mim foi tanto que, na época, eu falava “eu quero ir para Bangu, eu prefiro ir me apresentar”, porque pelo menos na prisão eu tenho contato com as pessoas, eu posso falar com meus advogados. Na clandestinidade é tudo muito difícil. Ainda mais tendo sua cara, no disque-denúncia, com recompensa a dinheiro. Estava lá, profissão: “ativista política”.

Perfil de Elisa Quadros no Disque-Denúncia (Imagem: Divulgação)

Como era o aviso do disque-denúncia? Qual era a recompensa?

R$ 2 mil. Passou no Fantástico o disque-denúncia. Apareceu no Fantástico a foto do meu RG e ficou na internet muito tempo até eu sair [da clandestinidade].

Você não podia sair na rua?

Não. Eu vou te falar, é barra pesada, eu não desejo isso a ninguém. Eu não podia nem tomar sol porque, se ficasse na janela, uma pessoa podia me reconhecer. Então eu ficava o tempo inteiro dentro de lugares fechados. Uma loucura.

Depois da clandestinidade, eu surtei, eu caí em um tipo de depressão mesmo, crise de pânico. Me machucando, machucando as pessoas que estão perto de mim, tendo que tomar muito remédio pesado. Não era possível levantar da cama. Ali eu despenquei.

O Habeas Corpus foi suspenso em junho de 2015, e desde então você responde ao processo em, liberdade, certo? Você continua tomando remédios?

Eu tenho acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Mas eu tive que me reinventar, em todos os aspectos. Tive que me reinventar como pessoa. Tive que me reinventar no meu profissional. Eu estou me reinventando ainda, tentando trabalhar com sustentabilidade.

Você acha que ainda hoje é espionada?

Sou, eu vou ser sempre. Meu telefone com certeza é grampeado, o telefone de minha família com certeza é grampeado, os telefones dos meus amigos com certeza são grampeados. Sempre vai ter vigilância.

Esse processo impediu você de seguir como militante?

A minha atividade política é quase zero hoje em dia. Eu nunca vou deixar de militar. Não quero viver nessa ilusão de classe média, de ter meus privilégios, ser mulher branca e morar na zona sul do Rio.

Como é que você se cuida dessa espionagem agora?

Tem umas coisas ruins, porque você não faz novas amizades. Eu acabei fechando meu núcleo de amizade. Você tenta voltar para a vida normal, mas você vai ser a eterna Sininho terrorista, entendeu? Você perde a tua vida pessoal, você perde tua militância. Não foi engraçado ser vasculhada e destruída midiaticamente. A mídia é muito mais poderosa do que a prisão. Porque a prisão você vai para a sua análise, e tem a força de teus amigos, e aí você escreve um livro, você faz um filme. A destruição da identidade, ela é eterna.

Que marcas psicológicas você ainda carrega?

Acho que tentar resgatar a Elisa da melhor forma possível. E isso é o que me machuca mesmo. Eu quero a Elisa de volta. Eu estou totalmente depressiva. Eu estou assim há um tempão. Eu fico paralisada porque eu fico com medo. Um pânico de ser sempre julgada. Todo mundo parece que tem o direito de me julgar. Todo mundo tem o direito de me colocar na fogueira. Sabe?

O que é que eu me tornei? Essa Sininho, que tem todo o poder sobre me dizer quem eu sou. As vontades, os desejos e as dores da Elisa, é como se não existissem. É como se todo mundo tivesse uma verdade sobre mim que não sou eu, e essa verdade se cristalizou. Essa entrevista não vai dar em nada e com certeza vai ter gente dizendo: “Ah, olha lá ela chamando atenção. Olha lá ela querendo aparecer”. Nada que eu faça é o suficiente. Nada.

O que você diria hoje para as pessoas que a chamam de Sininho?

O ser humano tem necessidade de achar monstros e heróis. E um monstro com carinha de anjinha. Ou uma heroína menininha. Eu sou um monstro e uma heroína. Mas ter me atingido não atingiu o movimento em si. Eles destruíram uma pessoa: a Elisa. Eles não vão destruir um movimento.

Eles destruíram a Elisa ou a Sininho?

É isso que eu estou falando. Eles não destruíram a Sininho. Eles destruíram a Elisa. Eu me chamo Elisa. Eu tenho sentimento. Eu tenho dor. Eu tenho vontade. Eu tenho erros e acertos. Eu tenho defeitos. Eu tenho qualidades. Como qualquer pessoa.

Imagem destacada: Elisa Quadros está incluída no “processo dos 23”, cujo alvo são ativistas que integraram os protestos de 2013 e 2014 (Fotos: Marcio Isensee e Sá/Agência Pública)

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