Sheherezade e o problema da sororidade incondicional

Por Nathalí Macedo, no DCM

Lembro bem da primeira vez em que vi Sheherezade atuando – sim, encarnando o personagem. Era uma edição com duas matérias intercaladas: uma sobre um homem negro amarrado num poste porque foi pego roubando,  outra sobre o astro-pop-rebelde-garoto-problema Justin Bieber.

Na primeira matéria é que surge a famigerada “adote um bandido”, pérola que se transformou na marca registrada de Sheherezade. Na segunda, o menino branco, rico e famoso que picha muros é sutilmente perdoado em um discurso protecionista. (Não lembro qual página teve a ideia de fazer a edição dessas matérias, mas, seja quem for: parabéns).

Lembro também do choque ao me dar conta de que, sim, pode-se defender um homem amarrado em um poste na televisão brasileira com uma naturalidade estarrecedora. Pior: isso dá audiência.

Rachel Sheherezade representa um discurso – e um discurso lucrativo. Ela não é forçada a fazê-lo: faz por um salário, por um lugar na televisão e talvez por um pouco de atenção.

É evidente que ela foi contratada pra dar opinião — ou não o teria feito durante tanto tempo. Imaginem Bonner mandando um textão fascista no Jornal Nacional: seria chamado pelo “pessoal lá de cima” logo nos comerciais.

Aparentemente, a Globo parece se importar em camuflar o conservadorismo – porque o seu conservadorismo só existe na medida do conveniente –, mas o SBT de Silvio Santos já não se importa com coisa nenhuma.

Aliás, ele disse o que disse por uma razão simples: ele diz o que lhe dá na telha. Joga dinheiro pro ar em uma plateia onde só mulheres são permitidas. Não se importa com opiniões impopulares – já não está na idade de querer ser popular.

Não gasta neurônios com marketing reverso: disse porque quis dizer, e porque sabe que o seu discurso e o discurso de sua emissora continuarão a serem admitidos. Pelo mesmo motivo, contrata gente como Sheherezade pra dar opinião.

O discurso que ela foi contratada para assumir, é bom dizer, inclui anti-feminismo, racismo e fascismo espetacularizado.

Então, sim, estamos falando de uma mulher. Mas vamos arranjar um tempinho para os recortes: uma mulher branca, a quem é permitido dar opinião política em horário nobre,  ultraconservadora e que defende o patrão depois do que tantos têm chamado de “assédio moral”.

“Patrão, tem que ter inteligência pra entender nossas ironias” – a quem será que ela se refere? Uma mulher que engrossa o caldo de tudo o que os feminismos combatem.

A sororidade generalizada e incondicional – que ignora questões de classe, questões raciais e questões ideológicas, por exemplo – é um sintoma compreensível do feminismo como tem se apresentado a esta geração: assumido como discurso, não mais apenas como movimento político de grupos minoritários, consequências inevitáveis de toda popularização vertiginosa.

Mas me pergunto, não sem algum pesar: onde está a sororidade para Karol Conka, que protagoniza um discurso de minorias e agora tem sido hostilizada por lançar uma grife e apresentar um programa no GNT?

Onde está a sororidade para com a filha de Maria do Rosário – sim, aquela que Bolsonaro disse que não estupraria porque ela não merecia, que teve fotos íntimas vazadas e, nas esquerdas e nos feminismos, nem um pio?

Me fiz essa mesma pergunta – afinal, onde está a sororidade? –  quando uma cantora baiana foi excluída de um trio feminista no Carnaval por ter posado numa foto com um homem acusado de estupro, que era seu parceiro em um trabalho musical, na época.

A sororidade entusiasmada acaba quase sempre em imprudência: acaba esvaziada, apartada da empatia e da coerência até se tornar uma espécie de bondade frágil e indiscriminada.

Eu não tenho sororidade com todas as mulheres apenas porque são mulheres. Eu me desentendo com mulheres. Eu discordo de mulheres. Eu combato discursos fascistas vindos de mulheres. O feminismo que acredito não fecha os olhos, discute.

Abraçar todas as mulheres é tão impossível que beira o anti-orgânico: nós temos diferenças e embates porque, ao contrário do que tentaram nos convencer, somos seres humanos, então não se trata de impor limites à sororidade – esses limites surgem naturalmente.

Para mim e para o meu feminismo, há muitas outras coisas mais importantes do que sair em defesa de Sheherezade: uma mulher preta como Carol Conka ocupando um lugar de poder, por exemplo.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Lara Schneider.

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