Racismo, preconceito e discriminação, por Elaine Tavares

No Palavras Insurgentes

Assistimos em Florianópolis a dramática passeata dos senegaleses pedindo que lhes deixem trabalhar, que não lhes tomem as mercadorias que vendem nas ruas, que lhes acolham. Senegaleses são africanos que estão em santa Catarina. Como eles, também estão por aqui os haitianos, do vizinho Caribe. Carregam no corpo marcas perfeitas para o racismo, a discriminação e o preconceito. São negros, são pobres, são estrangeiros. Saíram de seus países em fuga, da guerra, da fome, da dor. Tudo o que querem é encontrar um lugar onde possam viver em paz.

Mas, azar o deles, vieram parar num país onde a propalada democracia racial é uma farsa piramidal. Afinal, sem serem estrangeiros, são os negros jovens e pobres aqueles que caem como moscas nas comunidades de periferia, seja pelas balas da polícia, ou pelas balas de seus iguais, submetidos como eles a violência cotidiana de viver num sistema de produção em que para que um viva outro tenha de morrer. Um mundo em que para que um coma, outro tenha de ter fome, para que um more, outro tenha que ser sem teto. É o sistema de produção capitalista, que provoca a guerra entre os de baixo para que os de cima possam seguir vivendo à larga, nas mansões climatizadas, com boas refeições.

O preconceito nada mais é do que o medo. Medo de conhecer, medo de saber, medo de se contaminar com o diferente. O negro africano que chegou à América veio sequestrado, escravizado á força. Era preciso criar a ideologia de que ele era mau. Única forma de fazer com as massas descabeçadas aceitassem aquilo como natural. Mas, no fundo, o que havia era o medo. E se aqueles negros e negras se revoltassem? O que haveria? O que houve no Haiti, revolução.

Então, é por isso que se criam essas ideologias sobre os que dão medo ao poder. Pobre é tudo bandido. Negro é ruim. Índio é preguiçoso, mulher não presta, ciganos são ladrões, árabes são terroristas. É preciso fazer crescer o medo para que as pessoas ditas de bem matem, açoitem, excluam, discriminem, odeiem todos aqueles que não são iguais, seja no modo de vida, ou na servidão voluntária ao capital.

Desmontar o discurso do preconceito não é coisa fácil. São falas construídas desde séculos. Mas, sempre é tempo de começar. Pobres, não existem. O que há são pessoas empobrecidas pelo capital. E não são bandidos. Há bandidos também entre os ricos. Negro não é mau. É só uma pessoa com cor diferente. Sente o mesmo, vive o mesmo, sonha o mesmo. Índios não são preguiçosos, eles apenas vivem de outro jeito, que não é o servindo de mão de obra para patrões.  Mulheres prestam sim. São as que geram a vida e constroem o mundo lado a lado com os homens. Ciganos na são ladrões. São mágicos, nômades, vivem na liberdade. E os árabes, ah, os árabes. Eles são de outra cultura, outra terra, outra forma de ser. No geral de terras invadidas, tal quais as nossas e por isso estão em luta.

Conhecer o outro, saber do outro. Ter a delicadeza de se aproximar sem medo. Isso desmonta o preconceito, o racismo. Há que arriscar. Pode até dar errado, mas no geral dá certo. Faça o teste. Aproxime-se, conheça, toque, acolha, como um dia o fez aquele samaritano na estrada para Jericó. Ele viu o estrangeiro caído e não se perguntou: se eu ajudar, o que poderá me acontecer? Não, ele não teve medo… Fez o contrário, Perguntou-se. Se eu o deixar, o que poderá lhe acontecer. E por amor, o salvou.

 

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