Escolas das aldeias indígenas Munduruku, no Pará, recebem energia solar

Instalação das placas solares demostra que é possível gerar energia limpa sem barrar os rios da Amazônia, diz liderança

Por Lilian Campelo, no Brasil de Fato

Duas escolas da Terra Indígena Munduruku, localizada município de Jacareacanga, na região oeste do Pará, terão energia elétrica nas salas de aula geradas a partir de placas solares. Com isso, deixarão de utilizar energia elétrica a partir da geração de motores a base de combustível fóssil.

A liderança do Movimento Munduruku Ipereg Ayu, Maria Leusa Kaba Munduruku, diz, em entrevista ao Brasil de Fato, que a iniciativa faz parte da luta do povo indígena contra a instalação de hidrelétricas próximas ao seu território e é um exemplo de que é possível gerar energia limpa sem precisar barrar os rios da Amazônia.

“O governo acha que gerar energia é só através das hidrelétricas, então é para mostrar também para o governo que eles podem gerar energia para as comunidades, [mostrar] tanto para o governo quanto para o mundo”, argumenta Maria Leusa.

Ela conta que existem sete projetos de construções de hidrelétricas na região do Baixo Amazonas. Mesmo com a hidrelétrica de São Luiz do Tapajós cancelada, ainda é forte a ameaça de construções de barragens no rio Tapajós e seus afluentes.

Combustível fóssil

As escolas da Terra Indígena Munduruku que receberam as placas são das aldeias Piquiarana e Boca do Rio das Tropas, sendo que esta última tem aulas noturnas. Leusa conta que, antes da instalação, para garantir que os alunos pudessem estudar, era necessário utilizar o gerador à base de óleo diesel. Ela diz ainda que em aldeias mais distantes o gasto é alto na compra do combustível.

“A comunidade da Missão Cururu gasta dois mil reais por mês para comprar óleo diesel. São mais de 600 litros de óleo, é uma aldeia muito distante. Além disso, tem o combustível da embarcação, então devem gastar em torno de três mil, por aí”, estima.

O gasto poderia ser revertido para a melhoria das escolas se prefeituras investissem na geração de energia solar, afirma Danicley de Aguiar, ativista da ONG Greenpeace na Campanha da Amazônia. “Com a economia desse diesel, você pode reverter para a escola, então você pode ter aulas à noite, turmas para adultos… A escola fica equipada para receber aulas com data show, com computador”, justifica.

A instalação das placas solares ou fotovoltaicas nas escolas foi resultado da parceria do Movimento Munduruku Ipereg Ayu com a organização não governamental. Aguiar assinala que a projeto é uma forma de sinalizar aos gestores municipais que podem acessar recursos do governo para instalação delas nas escolas.

“A gente espera que os prefeitos, prefeito de Jacareacanga e outros, tomem esse exemplo e possam procurar os fundos de educação recursos para ampliar essa ideia e colocar energia solar nas escolas das aldeias. Em média custa 25 a 30 mil reais, um custo pequeno diante do benefício que ele traz”, avalia.

Recurso público

Desde 2015 o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) disponibiliza linha de financiamento, por meio de emendas parlamentares, para a instalação de painéis de energia solar em escolas e creches.

Aguiar ainda pontua que a proposta é demonstrar que é possível gerar energia em qualquer lugar, não somente nas cidades e o objetivo é propagar a tecnologia. “O que a gente quer fazer é difundir essa tecnologia e esse é um dos objetivos da instalação nas aldeias: promover tecnologia, promover energia solar, dizer para essas pessoas que elas podem ser geradoras”, conclui.

Edição: Vanessa Martina Silva

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