Barragem de mineradora chinesa compromete o Rio Tundaíme no Equador

Por Fábio Zuker, na Amazônia Real

Tarapoto (Peru)A cientista social e militante Gabriela B., de Quito, no Equador, analisou o atual momento político na administração final do presidente Rafael Correa, o processo constituinte, com ampla participação indígena, e os retrocessos das ações na área ambiental. “A verdade é que o extrativismo se intensificou como nunca nesses últimos anos. A renegociação dos contratos petroleiros permitiu que o Estado aumentasse, e muito, a sua parte. Pois antes os ganhos eram insignificantes. E isso também permitiu ao Estado entrar em outras lógicas mais, digamos, “gananciosas”. Um caso que é hoje emblemático é o da comunidade indígena Shuar de Nankint, na Cordilheira do Condor. O projeto Cóndor Mirador é um dos maiores projetos de mineradoras do país, uma empreitada chinesa. A análise de impacto ambiental realizada pela empresa mostra que o Rio Tundaíme, um rio vivo e despoluído, será desviado. No leito deste rio vão colocar todos os detritos das mineradoras, uma barragem como aquela que se rompeu em Brasil [refere-se ao caso de Mariana], só que nove vezes maior”, diz a cientista equatoriana em depoimento exclusivo ao antropólogo e jornalista Fábio Zuker durante a VIII Fórum Social Panamazônico (Fospa).

Zuker acompanhou as plenárias do Fospa entre os dias 28 de abril e 1º de maio, em Tarapoto. Ele entrevistou para a agência Amazônia Real personagens que resistem, de baixo, à destruição de seus territórios e modos de vida na Floresta Amazônica.

Depoimento de Gabriela B.

Aqui estamos falando da Amazônia, um lugar que, a partir do momento que se destrua, toda a humanidade vai para o abismo. Então, não tem vida, nem capitalismo. Nem nada. Não sobra nada além de destruir. Nesse sentido é uma fronteira, política e econômica. Neste embate, encontram-se duas economias distintas, as economias que fazem os povos indígenas, os povos amazônicos, que são economias baseadas em outras cosmovisões: o compartir, o dar, a relação com a natureza, a reciprocidade. E por outro lado, a economia capitalista, com toda a sua lógica de acumulação do capital, de desapropriação, de destruição e exploração dos territórios. [Um olhar meio receoso e apreensivo no início da entrevista, mas que vai ganhando confiança conforme avançamos]

O governo de Rafael Correa, no Equador, começou com um discurso interessante. O governo da Revolução Cidadã não nasceu por si mesmo. Mas principalmente devido às lutas indígenas e sindicalistas, movimentos que tiveram início nos anos 80 e 90. Nos anos 80, o movimento sindicalista foi muito forte, mas nos anos 90 foi a vez do movimento indígena, aquilo que chamamos de O Despertar do Leão. Tanto na Serra como na Amazônia, e inclusive com articulações entre si.

Antes do governo de Correa tivemos todo o processo de privatizações e de dolarização, ou seja, tudo o que implica a lógica neoliberal. E então surge esse governo, utilizando todos os discursos dos movimentos sociais, e esse capital simbólico das lutas, com um discurso super interessante… E no começo sim, com algumas medidas, algumas políticas muito inovadoras como a negociação da dívida externa, a renegociação dos contratos com petroleiras, e mudanças estruturais que pareciam interessantes, mas que no final apenas terminam por fortalecer as próprias estruturas do capitalismo extrativista.

Isso foi o que terminou acontecendo. Mas no início parecia um processo muito diverso. Não sei se desde o começo isso foi uma estratégia, ou se as coisas foram de fato mudando. Tivemos todo o processo constituinte, com muita participação cidadã, participação indígena. Mas depois esse setor foi muito golpeado. E claro, é um documento lindo, mas lastimavelmente não… não passa disso.

Tomaram-se medidas sociais que eram consideradas urgentes. Todas as medidas para que o capitalismo equatoriano seguissem adiante. Ou seja, A Revolução Cidadã conteve e canalizou a fúria popular. Também não quero dizer que se trate de um desastre. Tem muitas coisas boas. Mas temos que nos atentar ao que ocorreu.

Essa estabilização econômica permitiu que se fizessem coisas que outros governos nunca poderiam ter feito, como a exploração da Reserva Yasuní, uma das reservas mais importantes do Equador. Permitiu-se a entrada de mineradoras e de petroleiras. Começamos um intenso debate para sairmos da matriz extrativista, para mudarmos a nossa base energética. E em troca, o governo ofereceu o incremento do agronegócio e das mineradoras.

Se não tivesse havido todo esse processo de estabilização econômica e social realizado por Correa, acredito que teríamos expulsado esse governo e esses projetos muito mais facilmente. Pois a política equatoriana se caracteriza, historicamente, por tirar vários presidentes do poder.

Então agora, de maneira muito triste, estamos vivendo uma situação política horrível. Inclusive houve setores da esquerda que chegaram a apoiar candidatos de extrema-direita. Temos uma situação complexa no campo da esquerda, e dos movimentos sociais, já que muitos de nossos companheiros foram criminalizados, colocados em prisão.

E claro, eu não posso votar em quem colocou meus companheiros na prisão!

A verdade é que o extrativismo se intensificou como nunca nesses últimos anos. A renegociação dos contratos petroleiros permitiu que o Estado aumentasse, e muito, a sua parte. Pois antes os ganhos eram insignificantes. E isso também permitiu ao Estado entrar em outras lógicas mais, digamos, “gananciosas”.

Um caso que é hoje emblemático é o da comunidade indígena Shuar de Nankint, na Cordilheira do Condor. O projeto Cóndor Mirador é um dos maiores projetos de mineradoras do país, uma empreitada chinesa.

A análise de impacto ambiental realizada pela empresa mostra que o Rio Tundaíme, um rio vivo e despoluído, será desviado. No leito deste rio vão colocar todos os detritos das mineradoras, uma barragem como aquela que se rompeu em Brasil [refere-se ao caso de Mariana], só que nove vezes maior.

E o pior é que esse rio desemboca no Rio Amazonas. Estamos falando de uma catástrofe ambiental de dimensões continentais.

Os indígenas Shuar, um dos povos guerreiros mais importantes do Equador, obviamente iniciaram um processo de resistência. E o que fez o Estado? Colocou-os nas listas de criminosos mais perigosos, junto com narcotraficantes e estupradores. Estão escondidos na floresta, enquanto suas mulheres seguem na resistência contra as mineradoras. Esse processo desestruturou todas as famílias, as relações sociais. É uma tragédia incomensurável.

No setor da Amazônia existem diversos, inúmeros projetos. Este cartaz que eu trago é contra a instalação da mineradora Intag, no noroeste da Amazônia. Esses vales são considerados como os vales sagrados dos Intag. Quando os Incas ali chegaram viram que era um espaço tão sagrado que decidiram não habitá-lo. Deve haver algo aí… Agora está habitado por colonos, que vivem lá há mais de 70 anos, e que estão envolvidos nas lutas para manter esse território. Estamos falando de bosques protetores, de rios cristalinos, de fontes de água. Mas 95% deste território já foi dado em concessão para exploração de diferentes mineradoras, canadenses, chilenas, chinesas.

Assim, de alguma maneira, a economia dos povos representa uma fronteira, uma resistência à expansão capitalista. Vemos processos muito interessantes, de organizações indígenas da Amazônia e da cordilheira andina. Processos de reorganização, diante dos ataques do Estado.

Diversos representantes do Estado disseram: “os povos indígenas, e suas visões arcaicas, não contribuem ao processo de desenvolvimento das nações”. E aí se vê claramente que a política capitalista tem essa ideia de progresso, baseada numa falsa democracia. E também numa falsa representação, em que os representantes representam apenas a eles mesmos, nada de povo, e muito menos dos indígenas.

Por outro lado, vemos toda uma trama de resistências, de saberes reais, como aqui no Fórum Social Panamazônico, mas também nos processos internos das comunidades, de consultas aos Apus (os avós).

 

São formas de participação muito mais profundas, muito mais reais. Que hoje se articulam como formas de resistência política.

Assim, temos também uma fronteira epistemológica, para além da econômica e política. Sobre como geramos o conhecimento para conhecer o mundo. No ocidente vemos a hegemonia da racionalidade moderna, capitalista. Inclusive as teorias revolucionárias foram pensadas dentro dessa mesma lógica. Claro que isso foi muito importante para uma série de lutas políticas aqui na América Latina, mas não promoveram uma ruptura epistemológica com o capitalismo.

Hoje vejo que as diversas formas de pensamento indígenas são uma fronteira epistemológica não apenas ao capitalismo, mas também ao pensamento revolucionário. E que devem ser escutados, mais do que nunca.

Imagem: Plenária do Fórum Social Panamazônico (Foto: Fospa)

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Il Gattopardo Rojo.

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