“Bloqueamos a ponte por dois meses, nos expulsaram a balas”, diz José Antonio Saldarriaga Tabares, da Colômbia

Depoimento a Fábio Zuker, na Amazônia Real

Tarapoto (Peru) – Foi durante a cerimônia de finalização da plenária final do VIII Fórum Social Panamazônico (Fospa), que se alargava baixo um calor de quase 40 graus, que José Antonio Saldarriaga Tabares se aproximou, de modo muito simpático com um livro, e perguntou quem eu era, e se poderia entrevistá-lo. Ele contou sobre a resistência indígena contra a exploração ilegal de minérios, como o petróleo, no território tradicional em Caquetá, na Colômbia. “(…) Uma empresa pretendia explorar petróleo e outros minérios. Mas nós nos colocamos durante dois meses bloqueando uma ponte de passagem obrigatória. Bloqueamos a ponte durante dois meses. Nos expulsaram a balas, diz José, que é indígena e militante da Comissão para a Água e para a Vida da Colômbia.

O depoimento exclusivo desse líder indígena colombiano ao antropólogo e jornalista Fábio Zuker está abaixo. O jornalista viajou a Tarapoto para cobrir o Fospa, que aconteceu entre os dias 28 de abril e 1º de maio. Ele fez uma série de reportagens para a agência Amazônia Real com personagens que resistem, de baixo, à destruição de seus territórios e modos de vida na Floresta Amazônica. 

 

Depoimentos de José Antonio Saldarriaga Tabares

Sou do Sul da Colômbia, da região sul do Estado de Caquetá. A Comissão para a Água e para a Vida, na qual trabalho, vem desenvolvendo temáticas relacionadas à água e ao território, já há uns cinco ou seis anos. E isso tem sido fundamental para a resistência civil e pacífica contra os mais diversos tipos de extrativismo.

Conseguimos ter um grande avanço na luta social. Mobilizamos uma grande parte do Estado de Caquetá, com essa iniciativa que, humildemente, nasceu no município de Valparaíso (Caquetá, Colômbia). As comissões se formaram em um município que se chama Morelia, e já começaram a ter uma grande repercussão. O primeiro movimento foi contra o início do projeto de construção de uma empresa chinesa chamada Esmerald Energy, e foi aí que Caquetá começou a erguer-se. Tornamo-nos um grande exemplo para Colômbia e para todo o mundo que conhece o nosso processo de resistência.

Essa empresa pretende fazer estudos sísmicos para exploração de petróleo e outros minérios. Mas nós nos colocamos durante dois meses bloqueando uma ponte de passagem obrigatória. Bloqueamos a ponte durante dois meses. Este 4 de maio faz justamente dois anos. Terminamos no 5 de julho de 2015. Nos expulsaram a balas. Tivemos quinze feridos, dois com extrema gravidade, um dos quais já não é mais o mesmo.

E então a empresa tentou entrar novamente, e nós seguimos impedindo, impedindo, impedindo…

Assim que eles não conseguiram fazer os estudos sísmicos como acreditavam poder fazê-lo. Fizeram apenas uma pequena parte. Mas seguiu havendo conflitos, pois onde quer que eles fossem fazer os estudos, nós também íamos barrar-lhes os caminhos, impedir que seguissem em nosso território. E então voltava a nos atacar a força pública.

Posteriormente, no ano passado, os funcionários da mineradora tiveram que ir-se, pois acabou o prazo limite legal que lhes havia sido concedido, mesmo depois de duas prorrogações. Quando eles se foram, tendo realizado tão somente 30% dos estudos que pretendiam, já se estava organizando o seu retorno ao nosso território. Foi então que decidi começar uma greve de fome. Enquanto a comunidade protestava contra o exército, contra a polícia. A minha ideia era tentar aguentar a greve de fome até a minha morte. Mas as comunidades não me deixaram. Para mim era indefinida, mas tive que pará-la pela pressão da comunidade. Tudo isso criou um ambiente de protesto no departamento.

Nesse sentido, o papel do Estado consiste em garantir toda a proteção à multinacional. No início, acreditávamos que pelo menos nos consultariam, se queríamos ou não esse projeto extrativista. Mas não. Era uma coisa impositiva, apoiando de todos os modos a empresa, não importando-lhes a quem tivessem que matar. Inclusive, os senhores das mineradoras e das petroleiras tem grupos armados à margem da lei, e o governo nada faz.

O governo lhes garante todo o apoio para que as mineradoras retirem os hidrocarbonetos que querem explorar. E nós, dizemos que não. Pois é nosso território, e não nos consultaram.

Enviamos muitas evidências a órgãos internacionais, e às comissões na União Européia. A quantidade de violações que existem são enormes. Assim conseguimos parar aqueles que querem fazer a exploração petroleira, já que encontraram mais dificuldades que previstas na resistência, e também no tocante às licenças ambientais. A Suprema Corte de Colômbia terminou por decidir também que as próprias comunidades e distritos tem o direito de decidir acerca dos projetos que querem ou não em seus territórios. Os prefeitos e os governadores, evidentemente, não querem aceitar isso. E nós estamos exigindo que se respeite a sentença da força constitucional.

Sempre fui um amante da paz. Nunca fui violento. E vi com muito maus olhos todo o tema da guerra na Colômbia. Mas com essas atitudes do atual regime, que praticamente enviaram as multinacionais a delinquir, também me dá medo. Pois estão surgindo grupos paramilitares que podem nos exterminar, como ocorreu nos anos 90 com a União Patriótica. E isso me dá medo.

Eu também opino, de maneira muito pessoal, que essa “paz” que se está criando tem também como fundo permitir que entrem megaprojetos extrativistas antes impossíveis. Pois quando estava a guerrilha, as multinacionais não entravam em todas as partes, pois tinham medo. E isso eu vejo com muito pessimismo. Aplaudo o processo de paz, pois um morto a menos já é um grande ganho. Mas não acredito que estejamos construindo as bases para que essa paz seja sólida e duradoura.

O livro que trago, Extrativismo, Conflitos y Resistencias [clique aqui para saber mais do livro], foi organizado por uma instituição que nos apoia. A Censat Água Viva, com quem temos certos vínculos por questões de afinidades em lutas. Esse livro é muito inspirador para as organizações sociais, para que tenham mais princípios de como levar uma luta pacífica e muito séria. Por isso trata-se de um livro chave.

É importante que a sociedade brasileira o conheça melhor, assim como todos os que habitam o território amazônico.

Temos que abrir os olhos, pois esse modelo extrativista nos leva a ruína, nos traz apenas desigualdades sociais, contamina nossas fontes hídricas, e sem água não há vida. Para ninguém.

Viemos a esse Fórum Pan-Amazônico para tecer amizades, trocar saberes. Para que a luta ganhe mais eco. Cada comunidade, cada país, lutando de modo isolado, não é o mesmo do que todos juntos defendermos os recursos nacionais e o interesse comum.

Temos que buscar uma forma alternativa de governo. Um governo crioulo. Aspiramos que o sistema neoliberal seja derrotado. Ele é nocivo às nossas comunidades, aqueles que necessitam viver nesses territórios amazônicos. Temos que buscar uma forma na qual realmente se represente a maioria dos cidadãos, e que não se represente apenas os interesses das multinacionais.

Ou seja, defender o interesse comum.  Uma causa comum que corresponda a toda humanidade. E pelo menos que consigamos deixar claro ao mundo, que nesses países sul-americanos, há pessoas que se levantam, e que não tem preço. Que nunca vão escutar que José Antonio Saldarriaga Tabares, no Sul de Caquetá, deixou-se vender. Nunca. Pois o que é da humanidade, não se pode negociar. [Logo que nos despedimos, voltamos para dentro da lona quente onde se encerrava a cerimônia. José chegara justo a tempo de subir ao palco com o grupo de colombianos, e para falar algumas palavras de felicidade sobre a decisão de ser o seu país o próximo a receber o Fórum Social Panamazônico].

Jose Antonio Saldarriaga Tabares (Foto: Fábio Zuker/Amazônia Real)

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Il Gattopardo Rojo.

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