Desabafos Indigenistas: a derrota

O Indigenista

A derrota nos fortalece, a luta nos une e a certeza da vitória futura alimenta nossa confiança de que este coletivo que é o país Brasil, vai assumir sua vocação plurietnica e mega diversa em breve. O que falta para isso?

Ouvir as palavras finais do relator da CPI da Funai me traz estas reflexões. Foram quase 3 anos ouvindo atrocidades contra nosso trabalho Indigenista. Vendo desde outubro de 2015 alguns poucos deputados ruralistas defendendo suas bases eleitorais, o que é legítimo no jogo político, com ataques aos direitos indígenas e aos indigenistas mais relevantes do país, deveria causar revolta, mas me tranquiliza. Alivia o coração saber que estamos ao lado dos povos originários na construção do Estado Pluriétnico de Direito. Esta disputa política por votos em suas bases eleitorais não pode ser feita em ataque a constituição federal. Isso é ilegítimo no jogo político.

Por mais ilegítimo que consideremos este legislativo mais conservador já eleito, ele foi eleito pelo coletivo ainda inconsciente de sua vocação pluriétnica. É com estes representantes que devemos trabalhar com afinco, assim como com este votantes que o elegeram. Será que temos clareza disso entre nós indigenistas e indígenas hoje atacados por este legislativo?

Seria legítimo que houvesse uma disputa entre o olhar pluriétnico sobre nossa nação que nos une, e o olhar ruralista que resume nosso país ao papel extrativista de colônia europeia para exportação de matéria prima. Mas isso não pode ser feito com criminalização do seu oposto no debate político. E se fosse feito de forma legítima e explícita, talvez a sociedade brasileira, este difícil e diverso coletivo, tivesse chance de escolher. Saberíamos quem somos de verdade, sairíamos do armário.

Enquanto escrevo o Deputado Edmilson sobe o tom de voz e parte para cima do presidente da CPI Alceu Moreira por este não permitir sua manifestação nas etapas finais da votação do relatório. No miúdo jogo regimental, levar a votação até depois das 16h pode garantir alguma defesa a mais dos direitos indígenas, em mais meia hora podemos ganhar uma semana que seria a ultima do prazo da CPI que já foi prorrogado tantas vezes. Sim, é com desespero que agimos, com ele definimos as leis brasileiras, com ele seguimos tentando viver sob sua égide, isto entristece, todos os dias.

Não ter indígena eleitos parlamentares, entristece. Não poder ter presentes aqui os acusados pelo relatório da CPI, entristece. Ter apenas 7 deputados defendendo o estado pluriétnico, contra os outros 29 membros ruralistas, alguns até fascistas, entristece.

Mas a tristeza é contra revolucionária, como já disse alguém, e isso basta para celebrar nossa alegria na luta. Serve para não desistir deste nosso jeito de olhar o mundo. Esse jeito de olhar em volta, para os poucos que somos e agradecer pelo pequeno pedaço construído por cada um de nós deste sonho de sociedade futura. Só isto basta para abraçar a causa indígena, que nos abraça ainda mais forte a cada derrota por saber ela, nestes 517 anos, que a derrota nos fortalece. Sabe ela que a luta pelos territórios autônomos dos povos indígenas e sua cultura milenar nos une. Sabe, a causa, que a esperança mora em nós e que a vitória é questão de tempo e que o Brasil já se sabe pluriétnico, apenas precisa assumir essa grandeza, com o tempo. Com o pouco tempo que ainda temos.

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