Temer reclama: Estou fazendo o que me pediram. Agora, vão me largar?, por Leonardo Sakamoto

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”Todo um imenso esforço de retirar o país de sua maior recessão pode se tornar inútil. E nós não podemos jogar no lixo da história tanto trabalho feito em prol do país”, disse Michel Temer, em seu pronunciamento, na tarde desta quinta (18), em que atestou que não renunciaria.

Foi um recado direto para uma parcela do grande empresariado nacional e do mercado, que apoiaram sua condução à Presidência da República. Portanto, também poderia ter sido dito de outra forma:

”Eu estou fazendo o que me pediram para fazer. Agora, vão me largar? Olha, que pode ser ruim comigo, mas é pior sem mim.”

Joesley Batista, dono do JBS, apresentou gravações provando que ele pediu ajuda para a compra do silêncio do ex-deputado e, hoje, homem-bomba Eduardo Cunha. Também envolveu Temer na venda de favores.

Acuado por denúncias de corrupção envolvendo a ele, sua equipe e sua base de apoio, Michel Temer colocou seus aliados para apressar as ditas reformas estruturais assim que substituiu Dilma Rousseff. Quis mostrar que podia ser útil a quem o ajudou a chegar ao poder. Patos Amarelos que não se incomodam tanto com a corrupção desde que a missão seja cumprida. Até porque, pelo que mostram as delações, tem muito Pato Amarelo com lama até o bico.

A missão de Temer contou com dois objetivos claros: ”Combater a crise econômica jogando a fatura para longe do colo dos mais ricos” e ”Aproveitar a crise para reduzir o Estado – não na parte que garante subsídios, desonerações e isenções de impostos sobre lucros e dividendos, o que beneficia aos ricos, mas reduzindo a parte que atende às necessidades da xepa humilde”.

Daí, veio o show de horrores: PEC do Teto dos Gastos (impedindo o crescimento do investimento para a melhoria do serviço público por 20 anos e afetando áreas como educação e saúde), Reforma da Previdência (em que trabalhadores pobres serão afetados, seja pelo aumento do tempo de contribuição mínimo para 25 anos, seja pelo aumento na idade mínima para obter o auxílio a idosos pobres), Reforma Trabalhista (que pode reduzir a proteção à saúde e à segurança do trabalhador) e a Lei da Terceirização Ampla (precarizando trabalhadores  e impondo a eles perdas salariais e aumentos de jornadas), entre outros.

A Constituição Federal de 1988 prevê que se busque a qualidade de vida de todos, pobres e ricos, e nada diz sobre reduzir direitos do primeiro grupo em nome de privilégios do segundo. As reformas, do jeito que estão propostas, querem exatamente reescrever a Constituição para mudar o que muitos chamam de ”erro” dos constituintes pós-ditadura.

O grupo que esperava ver o blockbuster ”Querida, encolhi o Estado”, com Michel Temer no papel que era de Rick Moranis, está se frustrando com o tamanho dos problemas que o protagonista e os coadjuvantes trouxeram para o andamento do roteiro. As gravações em áudio foram, ao que tudo indica, a gota d’água para esse grupo social decidisse trocar o elenco. Sem desistir, é claro, de sua peça – afinal, apenas um governo que não foi eleito e que não pretende ser reeleito e aceita ser impopular pode fazer as mudanças que Temer faz.

Nesse cenário, o poeta da mesóclise pode estar com os dias contados. Mas é difícil imaginar que, sem pressão popular o roteiro das reformas terá um final feliz para os mais vulneráveis. Porque está cheio de ator canastrão louco para entrar em cena e agradar aos patrocinadores.

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