‘Se querem mudar o que é cantado no funk, mudem a nossa realidade’

Proposta que criminaliza um dos gêneros mais populares do Brasil é classificada como racista, elitista e desinformada por associações culturais e artistas

Por Felipe Mascari, da RBA

São Paulo – Voz de parte da periferia, o funk é um dos principais meios para muitos jovens expressarem sua realidade e desejos. De “eu só quero é ser feliz” (incluída até mesmo na playlist do ex-presidente Lula) ao “dando tiro pro alto só pra fazer teste”, o gênero, que se deslocou do morro para o asfalto, é alvo de uma proposta legislativa em tramitação no Senado que visa criminalizá-lo.

Para associações que trabalham com o funk, a ideia – de autoria do empresário paulista Marcelo Alonso, que reuniu quase 22 mil assinaturas – é racista, elitista e, acima de tudo, desinformada. Segundo Bruno Ramos, diretor da Liga do Funk, o texto que trata os “pancadões” como “recrutamento para o crime e exploração sexual” possui um “olhar míope” para esta cultura.

“É um texto grotesco. Eu, como funkeiro e morador da comunidade, tenho coerência para discutir as questões de políticas públicas e entender o que é responsabilidade do funk e o que é a falta de políticas públicas dentro da periferia. Os ‘pancadões’ também me incomodam, mas são reflexo da ausência do poder público, de estrutura e de segurança. Isso não é um problema originário do funk, mas da ausência de políticas públicas”, afirma Bruno à RBA.

Ao UOL, o empresário diz que o gênero musical “não é cultura” e “faz apologia ao crime”. O diretor da Liga do Funk rebate o argumento de Alonso. “Se querem mudar o contexto cantado nas músicas, mudem a nossa realidade. Se não parar para entendê-lo de uma forma sociológica, fica complicado. Como é um movimento de periferia, a tentativa de criminaliza-lo é histórica”, diz.

Para Leonardo Pereira Mota, o MC Leonardo, da Associação dos Amigos e Profissionais do Funk (Apafunk), o projeto de criminalização da música só concretiza algo que acontece há anos, mesmo sem lei para isso. Ele reitera que o funk, do proibidão ao ostentação, é apenas um reflexo da periferia. “Os artistas cantam o que vivem, assim como Tom Jobim cantava Garota de Ipanema”, analisa. “Mas aí vão dizer que ‘o dinheiro e o champanhe não são realidade deles e são cantados’, porém, isso é o desejo e também é real”, conclui.

Estereótipo e censura

O projeto do Senado “Ideias Legislativas” possibilita que a proposta de qualquer pessoa  com ao menos 20 mil apoios seja remetida pelo presidente da Casa à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), para ser apreciada pelos parlamentares. A ideia legislativa de Marcelo só cita os pancadões como fundamento para criminalizar o gênero.

Esta simplificação do funk não fala sobre as diversas vertentes que o gênero possui atualmente, como o funk consciente, que traz mensagens reflexivas sobre a realidade na periferia; o melody, com temáticas românticas; o ostentação, que fala sobre luxo e dinheiro; o de ousadia, que fala sobre sexo nas músicas e tornou-se popular em São Paulo; e até o gospel. De Anitta, no melody, a MC Livinho, no ousado, tais variações são reproduzidas diariamente nas rádios, programas de televisão e baladas pelo Brasil.

O senador Romário (PSB-RJ), relator da proposta no Senado, afirmou que o argumento de associar o funk ao uso de drogas, e também à violência, é estereotipá-lo de maneira errada. “O empresário argumenta que o funk está sempre associado ao uso de álcool, drogas, além da violência e exploração sexual. E o carnaval, não? Esses acontecimentos não são exclusivos dos bailes funks”, disse, em nota oficial.

Ramos lembra que a mídia comercial também tem parcela de culpa no conteúdo cantado nas músicas. “Se o funk está falando de ‘putaria’ nas comunidades é pelo fato de a molecada ser educada por uma grande mídia que chega de uma forma negativa nas nossas casas. Isso também tem que ser debatido”, critica.

Para o senador, o gênero é uma manifestação artística da população e proibi-lo significa censura. “Criminalizar o funk é criminalizar a cultura da periferia! É criminalizar o direito de manifestação do pensamento, que é garantido pela nossa Constituição. Não há motivos para censurá-lo”, escreveu Romário. “Vou fazer uma audiência pública no Senado Federal para debatermos essa proposta que é inconstitucional.”

O diretor da Liga do Funk lembra que há uma indignação seletiva sobre o conteúdo transmitido nas batidas do gênero. Ele lembra que temas como drogas e sexo também são abordados por outros ritmos e “não são perseguidos”. “O sertanejo universitário fala o mesmo que o funk ousado canta. O rock, que tinha como bandeira ‘sexo, drogas e rock and roll’, não era perseguido. Eles querem tentar hierarquizar a música e isso é elitista demais”, afirma Bruno.

Anitta foi uma das artistas que se manifestou contra o assunto e criticou o projeto. A cantora cita o crescimento do mercado musical do funk, com vídeos que ultrapassam 100 milhões de visualizações. “Tá tudo ok com o Brasil já? Achei que tivesse coisa mais séria pra se preocupar do que com um ritmo musical que muda a vida de milhares. O funk gera trabalho, gera renda pra tanta gente, uma visitinha nas áreas menos nobres do nosso país e vocês descobririam isso rápido”, disse, em sua conta no Twitter.

“22 mil desinformados que estão precisando sair do conforto de seus lares para conhecer um pouquinho mais do nosso país. Não mexe com quem tá quieto. Ou melhor… não mexe com quem tá se virando pra ganhar a vida honestamente diante de tanta desigualdade”, concluiu Anitta.

Mercado do funk é um dos que mais cresceu nos últimos anos: casas lotadas, cachês elevados e grande alcance na mídia, Foto: Barbara Dutra /Flickr CC

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Lara Schneider.

 

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