Morre Ecléa Bosi

Agência FAPESP

Ecléa Bosi, professora emérita e titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) morreu em 10 de julho, aos 80 anos. O sepultamento será hoje, 11 de julho, às 9 horas, no Cemitério São Paulo, à rua Cardeal Arcoverde 1.250, em São Paulo. Deixa o marido, Alfredo Bosi, crítico e historiador de literatura brasileira, e os filhos Viviana e José Alfredo.

Bosi graduou-se na USP em 1966, universidade que também lhe conferiu os títulos de mestre e doutora na área de Psicologia Social e do Trabalho e onde lecionou a partir de 1967.

Foi idealizadora da Universidade Aberta à Terceira Idade, iniciativa incorporada pela USP em 1994, para acolher maiores de 60 anos em cursos regulares, e que já trouxe ao campus mais de 100 mil idosos. Coordenou o programa até o final de 2016 e, em março de 2017, por ocasião dos 23 anos do programa, foi homenageada pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP.

Autora de uma dezena de livros, capítulos e de diversos artigos, Ecléa Bosi tinha como principais temas de pesquisa as leituras de operárias e memórias de velhos. Entre suas obras mais importantes estão Cultura Popular e Cultura de Massa: Leituras de Operárias (1977, Editora Vozes, atualmente em sua 12ª edição), Memória e Sociedade (editado em 1978 pela Companhia das Letras e que em 2017 ganhou sua 19ª edição), O tempo vivo da memória (2004) e Velhos Amigos (2005).

Paulistana, filha de funcionário público e de “dona de casa”, desde a infância, no bairro de Pinheiros, era uma “leitora voraz”, conforme contou em entrevista à Revista Pesquisa FAPESP, em abril de 2014. Ia a pé de sua casa, na rua Mello Alves, à escola Stafford, nos Campos Elísios, para economizar dinheiro para os livros. “Um livro custava 12 passagens de ônibus”, explicou. “Nas caminhadas entre a casa e a escola fui me instruindo sobre as desigualdades sociais”, contou.

Aos 14 anos vivia “mergulhada” em Dostoievski, Tolstoi, Tchecov, Romain Rolland e Emily Brontë. Dostoievski, aliás, despertou-lhe o interesse de “olhar dentro do ser humano”, o que a levou à Psicologia e à Faculdade de Filosofia da USP, então localizada na rua Maria Antônia, em 1963. Ali, “vivíamos nas livrarias, bibliotecas e nos bares”, lembrou. O ambiente político da época levou-a à psicologia social.

A tese de doutorado foi sobre as leituras operárias. “A leitura exige uma vontade, uma opção de escolha”, justificou. Foram dois anos de conversas com 52 mulheres. A tese Cultura Popular e Cultura de Massa: Leituras de Operárias foi publicado em 1977.

“O profundo respeito de Ecléa pelas operárias atravessa todo o livro. Ela faz denúncias, e as mostra destituídas de oportunidades, mas não de conteúdo. Muitas das entrevistas, ou os relatos de leituras, diz Ecléa, escapam à simplificação e estereótipos do material que elas lêem: são carregados de poesia, centram-se nas trocas e conversas íntimas que têm entre si, pulsam com o desejo de ampliar o saber e o universo”, escreveu a antropóloga Betty Mindlin, no artigo Leituras Operárias, publicado pela revista Psicologia USP, em 2008, numa edição em homenagem a Ecléa Bosi.

Seu olhar estendeu-se também para as memórias e para os velhos. “No estudo Memória e sociedade colhi a memória biográfica, mas também veio junto a memória do tempo, do espaço, a memória política, a memória do trabalho e a memória cultural”, contou à Revista Pesquisa FAPESP.

“Ao nos conduzir até os idosos pobres e solitários, abandonados como os últimos vestígios da cidade, Ecléa expõe uma ferida aberta e nossa sociedade: a velhice despojada, oprimida e banida. Impedidos de lembrar e de aconselhar, impedidos de unir o começo e o fim, o passado e o presente, em nossa sociedade – pragmática e consumida pelo desejo da eterna juventude veiculado pela cultura de massa –, os velhos precisam lutar pelo direito de continuar humanos”, escreveu Marilena Chauí, no artigo Homenagem a Ecléa Bosi, no tributo publicado pela Psicologia USP, em 2008.

A vida e obra lhe valeram grandes amigos e alguns prêmios, como o Prêmio Ars Latina 2009, pelo conjunto da obra, em 2009, e o Prêmio ‘Loba Romana’ do ano Brasil-Itália, conferido pela comunidade italiana em 2011.

Idealizadora da Universidade Aberta à Terceira Idade e autora de dezenas de livros, ela tinha 80 anos. Foto: Léo Ramos Chaves /Revista FAPESP

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