Unila se mobiliza contra proposta feita por deputado da bancada ruralista

Emenda aditiva de Sérgio Souza propõe o fim da Universidade Latino-americana e a criação de uma instituição regional

Por Júlia Dolce, no Brasil de Fato

Estudantes, funcionários e professores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) estão se mobilizando contra a emenda aditiva proposta pelo deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR) para a Medida Provisória 785/17. A proposta de Souza pede o fim da Unila e de dois campi da Universidade Federal do Paraná (UFPR), para a formação de uma nova Universidade Federal do Oeste do Paraná.

Anunciada na última sexta-feira (14), a emenda justifica as transformações com uma suposta missão institucional de “formação técnica e social de recursos humanos aptos a contribuir com o desenvolvimento regional do Oeste do Paraná integrado com o desenvolvimento nacional”. Já a MP 785 visa desregulamentar o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), que apoia a permanência de estudantes de baixa renda em cursos de graduação de instituições federais do ensino superior.

A ideia de desenvolvimento proposta pela emenda, no entanto, é criticada por professores e estudantes da Unila, que destacam o envolvimento do deputado com o agronegócio. Sérgio Souza é presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados e representante da bancada ruralista no Congresso. Ele foi, inclusive, citado em escutas telefônicas do ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, Daniel Gonçalves Filho, na sua delação sobre a Operação Carne Fraca, por supostamente ter recebido propina.

Para Francieli Rebelatto, professora da Unila e presidenta da Seção Sindical da Universidade, a Sesunila, por trás da emenda de Souza há um interesse em desestabilizar o perfil integracionista da Universidade, fundada em 2010, pelo governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), com o objetivo de integrar estudantes latino-americanos.

“É importante considerar que estamos na fronteira com o Paraguai, onde o interesse na expansão da fronteira agrícola é muito forte. Então há um objetivo de fazer com que o próprio perfil da universidade seja usado com esse intuito. É um projeto perverso, primeiro porque não consulta as universidades envolvidas, e também porque é sobre a extinção de um projeto e identidade de uma universidade já extremamente consolidada”, opinou.

No texto da emenda aditiva, o parlamentar chega a citar que a nova medida pretende beneficiar empresas do agronegócio, como Lar, Frimesa, Cocamar, C. Vale, Cotriguaçu e Coopagril. “O deputado representa a expressão de algo muito forte, justamente no oeste do Paraná, que é o setor do agronegócio. Nos preocupa, obviamente, a posição que ele ocupa e a força que pode ter a partir de alguns municípios e da própria região que tem essa perspectiva desenvolvimentista a partir do agronegócio”, acrescentou a professora.

Para a pesquisadora Estela Rocha de Ungaro, mestranda interdisciplinar em Estudos Latino-americanos, a relação conflituosa entre setores conservadores da sociedade e a proposta da Unila é expressa também entre a população de Foz do Iguaçu, onde fica localizado o campus da universidade. “Alguns moradores de Foz se manifestam a favor da extinção da Unila, com comentários até xenofóbicos, já que ela tem essa característica de trazer gente de fora do Brasil ao estado do Paraná”, disse. Em abril deste ano, o senador Álvaro Dias (PV-PR) chegou a acusar a universidade de ser um “elefante branco” e promover doutrinação ideológica.

Mobilização

Logo após a divulgação das primeiras informações sobre a emenda aditiva, na própria sexta-feira, o corpo discente, docente e funcionários da Unila realizaram uma Assembleia Geral. Foi criada a página no Facebook “Unila Resiste“, além de uma petição online em defesa da universidade, que já conta com mais de 10 mil apoiadores. “A estratégia é repercutir a importância da presença dessas pessoas, estudando através desse viés da integração, e o quanto é perigosa essa medida para todo mundo”, afirmou Estela Rocha de Ungaro.

Em um comunicado, a Reitoria da Unila se posicionou pela defesa da sua identidade e de seu projeto. “A equipe da Reitoria posiciona-se enfaticamente pela supressão da referida Emenda Aditiva e está tomando as providências necessárias para garantir a manutenção da lei de criação da UNILA em sua integridade e em defesa de sua identidade”, diz o texto. [leia AQUI]

Uma nota pública em repúdio a proposta também foi lançada pela Sesunila no dia 14. Além disso, uma série de organizações e nomes como a ex-presidenta Dilma Rousseff, o Conselho Municipal de Políticas Culturais de Foz do Iguaçu, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior e a União da Juventude Socialista no Estado do Paraná, têm se manifestado em defesa da Unila.

Em uma Assembleia Geral realizada na tarde desta segunda-feira (17) na universidade, foi aprovado um manifesto dos estudantes. “Somos estudantes latinocaribenhos originários de 19 países, matriculados em 29 cursos de graduação e 11 de pós-graduação na Unila. (…) A Unila é vocacionada para a integração através da interlocução com cidadãos da América Latina que cooperam com seu projeto científico e tecnológico. Repudiamos o projeto do deputado Sérgio Souza, que visa a destruição da universidade. (…) Declaramos que, como estudantes, seguiremos na defesa da nossa universidade e convidamos a todos para se somarem”.

Procurado pela reportagem através de sua assessoria de imprensa, o Deputado Sérgio Souza não se pronunciou sobre as críticas e as intenções da emenda aditiva até a publicação da reportagem.  

Edição: Rafael Tatemoto

 

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