“Os dois caminhos”: Alguns pensamentos sobre quadros e fronteiras e algumas notícias de um lindo e memorável encontro

Por: Raial Orotu Puri – Crônicas Indigenistas

Pessoas que vêm de um mundo pré-internet, pré-face, pré-instagram devem talvez se recordar que antigamente era bem comum que quase todas as casas tivessem certos elementos decorativos bastante recorrentes, independentemente de serem ou não considerados de bom gosto hoje em dia. Os exemplos são muitos: as samambaias, as estatuetas de Buda de costas, os porta-tudo de crochê.

Quero começar esse texto falando de um desses ícones em particular, que certamente assombrou a vida de toda uma geração de crianças, pelo menos na região Sul do Brasil. Em tempo: minha infância se passou entre o Sul e o Centro-Oeste, com que desconheço sobre as infâncias de outras paragens, então me deterei por hora nas referências que eu tenho, o que não impede que alguém que cresceu em outras regiões acabe por se identificar também.

Pois bem, o objeto em questão é um quadro, e não dá para classifica-lo como ‘de gosto duvidoso’, pois acredito ser uma unanimidade o quão ruim ele era: A ‘obra’ intitulava-se “Os dois caminhos”, e seria uma retratação de duas alternativas básicas para o destino post-mortem do ser humano, baseado em uma passagem bíblica que descreve a ambos. O caminho ‘do bem’ era estreito e pouco convidativo, mas no fim dele aparecem os famosos e áureos portões celestes; o caminho do mal, por sua vez, é largo, de fácil acesso e há várias paradas atraentes em todo a sua extensão. O problema dessa proposta mais aprazível é que o final dele é um inferno, com fogo, condenação e um Satanás retratado com todo o empenho de parecer hostil.

Apesar dessa referida obra não ter feito parte das paredes da minha casa, isso não quer dizer que eu passei incólume a ela, visto que bastava visitar alguma casa de tios ou amigos da família para me deparar com este clássico do terror psicológico para crianças, com todas as suas advertências de que ter uma vida divertida era a pior ideia possível. Sobretudo porque, encimando tudo, está o Olho que tudo vê (inclusive os pensamentos) e anota as ações e intenções de todos. Falta de esperança pouca é bobagem!

Porque estou falando disso? Bom, porque quero falar de um outro quadro muito diferente, que conheci muitos anos depois, e que também representa dois caminhos possíveis, e que para mim tem a ver também com ‘redenção’ e ‘salvação’, só que o apresenta de uma forma absolutamente diferente do caso anterior. Trata-se daquela que é meu quadro preferido, da minha pintora preferida, o Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos (1932), de Frida Kahlo.

Suponho que o quadro em questão seja bastante conhecido para dispensar a descrição minuciosa, mas creio que é importante citar, por mais óbvio que seja, que o autorretrato em questão apresenta uma fronteira entre dois mundos antagônicos entre si: do lado direito, temos a representação dos Estados Unidos, cinza, fumacento e cheio de máquinas; do lado esquerdo – para o qual Frida volta ligeiramente o rosto – há o México, apresentado na exuberância de suas tradições. A artista se coloca em primeiro plano, postada entre os dois mundos e segura em uma das mãos a bandeira do seu país, ressaltando sua pertença também em seu traje e forma de arranjar o cabelo.

Talvez seja também importante frisar que, como ocorre com a maior parte dos quadros desta artista, esse tem a ver com o contexto que ela vivia naquele momento, visto que em 1932 ela estava nos Estados Unidos, acompanhando o segundo acidente/marido Diego Rivera que se encontrava no país a trabalho, e por isso, a obra fala das impressões e sensações de Frida acerca do lugar em que ela se encontrava. E por falar das suas emoções, ela ressalta se sentir desconfortável com o lugar no qual está, ao mesmo tempo que demonstra que, não importa aonde esteja, ela carregará o seu mundo consigo.

Frida Kahlo, como suponho ser do conhecimento da maioria, era o que se costuma definir por ‘mestiça’, e em sua obra ela jamais deixou de evidenciar a sua ancestralidade, revelada no traço, cores e elementos que escolhia retratar em suas pinturas. Mais do que isso, penso eu, a demarcação de seu lugar e forma de ver o mundo está na forma como ela sempre contestou a classificação simplista que inseria sua forma de pintar como ‘Surrealista’. A propósito disso, ela esclarecia que nunca pintou sonhos; aquilo era a sua própria realidade.

E por que eu estou falando disso? Bom, minha ideia era tratar de duas possibilidades de mundo antagônicas entre si, de céus e infernos, mas não necessariamente os que estão por vir, e sim aqueles que se concentram nesta esfera de existência. Não porque eu não creia em realidades após a morte, mas pelo fato de que, não importa para onde se vá depois daqui, já estamos todos em um plano repleto de seus céus e infernos cotidianos, e, vale dizer, estar ou não neles nem sempre chega a ser uma opção acessível.

E isso tem muito a ver com a existência indígena presente, a partir de o momento em que ela perpassa uma vivência na cidade, e a necessidade quase constante e sempre presente de precisar conciliar antagonismos e contradições de forma constante, de realizar essa mediação praticamente o tempo todo, de, na medida do possível, fazer escolhas que não comprometam demais o curso da existência, e, ao mesmo tempo, permitam que essa existência prossiga, se possível, sem maiores danos.

Já tratei outras vezes sobre a enorme dificuldade de ser indígena e viver – por escolha, imposição ou falta de alternativa – num contexto urbano. E sei que para muitas pessoas que talvez tenham passado sua vida toda em cidades, as dificuldades inerentes a esse embate constante de mundos pode sequer ser uma questão, mas no caso indígena, essa dificuldade está posta, e se coloca praticamente em todos os momentos da vida, seja os mais simples, tais como cumprir horários e se adaptar à “comida”, a questões mais complexas, tais como ter de entender, se adequar e atender a certas lógicas ilógicas do mundo raion, como, por exemplo, as fórmulas e protocolos da burocracia.

Isto, dentre outras coisas, porque o “ser indígena” é sempre um pouco aquilo que está retratado no quadro autorretrato da fronteira, e no modo como a pintora encarava a vida e sua arte. O “eu nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade” é um epíteto tão bom para a autodefinição de Frida Kahlo quanto para a necessidade e encarar o dia a dia de forma estóica e bastante heroica.

É também uma necessidade, em um país onde, de forma muito diferente do México de Frida, existe uma divisão tão forte entre o que é cultura/influência indígena e o que pertence ao mundo ‘dos brancos’. Aqui, não precisamos ir até os Estados Unidos para nos sentirmos estrangeiros, deslocados ou incomodados. As vezes, basta ir até ali na esquina… outras tantas, nem isso, já que a fronteira passa bem em cima de nossas cabeças, nos racha e divide, corta na carne e é preciso muita força para não permitir que as vísceras se esvaiam, levando consigo toda a vida que resta.

Isso ocorre, dentre outras coisas, porque isto que se convencionou e construiu como um país era e ainda é, por maior que seja a sanha de destruir e uniformizar tudo, um lugar aonde residem e convivem (ao menos deveriam) muitas nações, cada qual com toda a sua diversidade. Este perverso processo de uniformização tende também a valorizar, ressaltar e destacar tudo aquilo que seja branco, e expulsar de qualquer valor e destaque aquilo que não é. E é assim que persiste ainda esse triste quadro de dizer apenas “eu tive uma avó índia que foi pega no laço”, e de nada mais ter a acrescentar a respeito dessa ancestralidade.

Penso sobre isso numa semana em que acabo de voltar de um belíssimo encontro ocorrido em Minas Gerais, terra dos Puri. Chamado “Troca de Saberes”, o evento se deu na Universidade Federal de Viçosa, e reuniu além de indígenas também diversas comunidades tradicionais da região, onde estiveram conversando, confraternizando e celebrando formas de vida e resistência tanto no mundo urbano como no meio rural, pois sim… mesmo aí, também vemos muito claramente as fronteiras. Basta dizer que essa Troca de Saberes antecedia uma grande feira agrícola que já estava sendo preparada em toda a sua grandiosidade de máquinas, implementos, insumos.

Mas, do lado esquerdo* da fronteira, estávamos nós. Com nossas sementes, nossos cantos, nossas pinturas, nossas marcas. Estávamos para dizer que ainda somos, apesar de todas as fraturas, fronteiras e tentativas de genocídio. E esse encontro foi daqueles tão bons que nem sei se teria condições de detalhá-lo muito detidamente, visto que feito de alegrias profundas e para além de todas as palavras.

Talvez uma das falas mais expressivas e belas desse encontro foi a de Jerry Puri, que pela primeira vez participava de um evento dessa natureza, e que disse do quanto se sentia feliz em estar finalmente em uma reunião aonde conhecia os cerca de vinte Puri que se encontravam na roda de conversa daquela tarde: “Eu pensava que eu era o último Puri do mundo, e que meu povo tinha se acabado, porque dos Puri só havia sobrado eu. Mas agora eu estou muito feliz, porque eu vi que não acabou, não vai acabar não.”

Não. Não vai acabar. Não vai acabar porque existem muitos. Porque estamos vivos e aumentando e nos reunindo de novo. E também porque, temos aprendido, e temos ensinado, que não importa quantas fronteiras precisemos atravessar ou nos atravessem, levamos nosso mundo conosco, e ele viverá enquanto dele nos lembrarmos e formos capazes de dele falar.

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* Não acredito que no caso da Frida tenha sido proposital a colocação do México do lado esquerdo da pintura, mas no que toca ao primeiro quadro, qualquer um que conheça de ‘mitologia’ cristã sabe bem o motivo pelo qual o inferno está à esquerda. Quanto a mim, por razões que sequer caberiam em explicações sucintas, obviamente entendo que estamos e estaremos sempre à esquerda.

Raial Orotu Puri (Andréia Baia Prestes Puri) é graduada em Direito e doutoranda em antropologia pela UFPR. Mora no Acre onde atua na Divisão Técnica do IPHAN/AC e na Assessoria Jurídica da Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC)

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