Moradores abrem as ‘portas’ de barracas e relatam como é viver sem teto em BH

Por Raul Mariano, no Hoje em Dia

Vista de longe, a barraca onde vivem Marcos e Tatiana, às margens da avenida Antônio Carlos, em Belo Horizonte, parece um alvo frágil diante da força do vento. Mas, os seis meses de permanência do casal no local provam que a construção é tão resistente quanto a população em situação de rua da capital, que já soma 6.287 pessoas, segundo dados da Secretaria Municipal de Políticas Sociais.

Exemplos não faltam de moradias improvisadas. São habitações erguidas no alto de encostas ou debaixo de árvores. Cabanas montadas com cobertores ou mesmo papelão. Nos reduzidos espaços, no entanto, se faltam móveis ou utensílios domésticos, sobram histórias de força e superação para enfrentar as intempéries e a pobreza do dia a dia.

É o caso do barraco de Marcos e Tatiana. Feito de tábuas de madeira e coberto por pedaços de lona amarrados com fiapos de arame e corda, ele está fixado em um terreno irregular. Desafiando as leis da engenharia, mas, ainda assim, firme. “O único problema é quando chove e forma uma poça de água nesse telhado. Aí molha tudo. É um sofrimento”, relata Tatiana.

“Não quero voltar para a minha terra com as mãos abanando. Quero conseguir o que é meu, ao lado da minha mulher. Eu sou um guerreiro” (Marcos Rodrigues, Desempregado)

Conforme a conveniência

Do lado de dentro, há um amontoado de tecidos que servem ora como cobertores, ora como porta, dependendo da conveniência. O colchão surrado e encardido também tem várias utilidades. É cama, sofá e mesa para as refeições.

Em caixas de plástico, o casal guarda os poucos alimentos disponíveis e pedacinhos de velas usados para iluminar o local quando anoitece.

Enquanto relata os perrengues diários, Tatiana vigia a panela que cozinha uma mistura de fubá, couve e macarrão. Tudo sendo preparado em um fogão feito com uma lata de tinta de 18 litros, abastecido com papelão e galhos secos. É o jantar do casal que está quase pronto.

“Geralmente, a comida a gente ganha, mas quando não aparece, tem que se virar e ir ao supermercado”, comenta Marcos. O pedreiro, que está desempregado, veio de Salvador, na Bahia, tentar a vida em BH. No entanto, sobrevive com a renda média de R$ 150 por mês, que ganha vigiando carros.

Apuros

Juntos há sete anos, eles já passaram por maus bocados. Em 2015, Marcos se envolveu em uma briga e foi agredido por um grupo que tentou roubar os pertences do casal.

A ocasião teria motivado o aborto do filho que Tatiana esperava e deixou o homem com cicatrizes nos braços e na cabeça. As pauladas foram tantas que ele diz ter chegado desacordado ao pronto-socorro do João XXIII. “Fui dado como morto no hospital”, diz o homem.

Conheça, no vídeo abaixo, a casa de Marcos e Tatiana:

Melhorias

Enquanto uma solução efetiva para o crescimento da população de rua não é encontrada, a prefeitura trabalha para melhorar a qualidade dos locais de acolhimento.

A gerente de proteção especial da Secretaria Adjunta de Assistência Social, Kátia Rochael, afirma que o grupo que elabora as ações para os abrigos da prefeitura tem se reunido constantemente.

Kátia admite que o aumento de barracas pela capital já foi percebido e uma das prioridades é acomodar as pessoas em locais menores. Isso porque uma tipificação nacional desaconselha a criação de abrigos com 400 vagas, como os de Belo Horizonte.

“Queremos reduzir a capacidade de casas que tem muitos problemas, como o albergue Tia Branca (no bairro Floresta). Vamos criar locais com capacidade para 50 pessoas”.

Há quase uma década sem trabalhar formalmente, Dagmar sonha em conseguir novo emprego e moradia. Foto: Flávio Tavares

“Quero sim arrumar um lugar para voltar a trabalhar e ganhar meu dinheiro. Isso aqui não é vida para ninguém” (Dagmar Conceição, Desempregada)

Rompimento familiar é problema comum para maioria

Na avenida do Contorno, no Centro de BH, a portaria do prédio que abrigava a escola de engenharia da UFMG também se tornou ponto oficial de moradores de rua. Há anos, cabanas montadas com cobertores suspensos por uma corda são o lar de um grupo que, atualmente, tem nove pessoas.

Em um dos ‘cômodos’ – que são rigorosamente divididos para que todos tenham privacidade – vive Dagmar Conceição, desempregada de 58 anos que ganhou a vida como doméstica, mas, há quase uma década, não sabe o que é trabalhar com carteira assinada.

Sem exercer atividade remunerada, ela vive apenas com os R$ 87 referentes ao benefício do programa Bolsa Família e com o vale-alimentação que dá direito a almoçar diariamente nos restaurantes populares da capital.

Conheça a barraca onde vive Dagmar:

Desamparo

Já o ex-operador de máquinas Felipe Freitas, de 27 anos, também foi obrigado a dividir com a mulher uma barraca erguida em um terreno vago na orla da Lagoa da Pampulha.

Sem emprego, o casal que veio de São João Evangelista, no Vale do Rio Doce, perdeu a moradia e, por consequência, a guarda dos três filhos. As crianças que estão vivendo em abrigos têm 3 anos, 1 ano e meio e 4 meses.

Enquanto não conseguem voltar ao mercado de trabalho, a única expectativa é arranjar um novo lar para reunirem novamente a família. “Sentimos muita falta dos meninos. Queremos eles de volta”, afirma Felipe.

Sem condições de pagar aluguel, Felipe e a esposa perderam a guarda dos filhos. Foto: Flávio Tavares

Além Disso

Há cinco anos morando em uma barraca construída embaixo de uma árvore, em um lote às margens da Lagoa da Pampulha, Valter dos Santos já se tornou uma figura conhecida na região. Desempregado, o pedreiro de acabamentos fixou no poste em frente ao local onde mora uma placa com os dizeres “Eu preciso de trabalho”.

O manifesto em busca de emprego chamou a atenção de várias pessoas, mas foram poucas as oportunidades oferecidas. “Já fiz alguns serviços, como capina de terrenos, mas ainda não consegui nada muito bom”, afirma.

Pai de quatro filhos, ele relata que tudo que consegue ganhar com os bicos que faz lavando ou vigiando carros é enviado para a família. Para sobreviver, a saída é pedir doações. “Graças a Deus, sempre aparece alguém para nos ajudar”.


Desemprego levou pedreiro que vive na região da Pampulha a fixar placa em poste procurando por trabalho. Foto: Flávio Tavares

Enviada para Combate Racismo Ambiental por José Carlos.

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