A impopularidade de Temer rivaliza apenas com a da Reforma da Previdência, por Leonardo Sakamoto

No blog do Sakamoto

A baixa popularidade de Michel Temer rivaliza apenas com a da Reforma da Previdência, de acordo com os institutos de pesquisa. A diferença é que a população sabe que ele vai embora, na pior das hipóteses, em janeiro de 2019. Mas, por outro lado, as mudanças nas aposentadorias serão para sempre.

De acordo com a última pesquisa Datafolha sobre o tema, 71% da população brasileira era contra a Reforma da Previdência. Enquanto isso, a avaliação do governo Temer conta com 70% de ruim e péssimo, segundo a última pesquisa Ibope.

O ocupante da Presidência da República chamou o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia para discutir o trâmite da Reforma da Previdência, neste domingo (6), segundo notícia do jornal O Estado de S.Paulo. Quer aproveitar o momento, em que conseguiu maioria a fim de livrar seu pescoço (provisoriamente) da guilhotina da Lava Jato, e mostrar que é capaz de tocar a agenda defendida por grandes empresários e pelo mercado financeiro. Ou seja, de que ainda é merecedor do apoio deles. Ainda mais agora em que os patos amarelos reapareceram por conta do aumento nos impostos sobre os combustíveis.

Este Congresso Nacional já rompeu todas as ligações possíveis com a vontade da maioria de seus eleitores. Neste momento, representa a si mesmo (afinal, a maior bancada é dos deputados-empresários) e a seus patrocinadores. Além das forças políticas que prometeram salvá-lo da guilhotina das punições por corrupção. O que mostra que a opinião dos eleitores é considerada como argumento importante apenas quando serve para depor um partido político adversário.

Uma coisa, porém, é a oposição ter 342 votos para autorizar que ele se torne réu no Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva – algo contornável com dinheiro, cargos, apoio político e pela falta de consenso sobre o dia seguinte. Outra é garantir 308 votos para aprovar uma Reforma da Previdência que pode colocar em risco a reeleição de deputados e senadores. E dar um motivo para tirar o povo da situação letárgica provocada pelo desalento e pela descrença, empurrando-o para a rua.

Temer estuda a possibilidade de resumir a reforma à imposição de uma idade mínima de 65 anos para homens e algo entre 62 e 60 anos para mulheres, o que afetaria principalmente a classe média, já que os mais pobres já se aposentam por idade. Contudo, a área econômica do governo continua insistindo em um mínimo de 25 anos de contribuição, ao invés dos 15 anos de hoje – o que afetará os mais pobres.

Cálculo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que, em 2014, a média de contribuição foi de 9,1 meses a cada ano. Os motivos são a alta rotatividade do mercado de trabalho e a informalidade. Ou seja, considerando 25 anos de mínimo, o tempo de contribuição efetivo terá que ser de 33 anos. O quadro piora porque cerca de 80% das pessoas não consegue chegar hoje a 25 anos de carregamento do sistema, de acordo com a própria Previdência. Muita gente vai contribuir ao longo da vida, não conseguirá se aposentar e terá que engrossar a fila do Benefício de Prestação Continuada (BPC), ou seja, o salário mínimo concedido a idosos pobres. Vamos empurrar milhões de pobres da Previdência para a Assistência Social.

Portanto, o núcleo da reforma, danoso ao trabalhador mais pobre, continua em cima da mesa. Rodrigo Maia já se prontificou junto ao empresariado que pode realizá-lo, caso Temer seja impedido. E Temer, que sabe disso, está disposto a fazer o que for preciso para continuar onde está, o que inclui gastar os tubos de dinheiro público na tarefa de convencimento parlamentar, além da aprovação de leis e medidas de bancadas retrógradas que ajudarão a dar um toque de Alta Idade Média ao Brasil.

Tudo isso vai sair caro. Na pior das hipóteses, o custo da Reforma da Previdência pode ser um ferimento profundo na democracia que levará muito tempo para cicatrizar.

 

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