“Negamos parte da história”, diz Kaingang mestre em Educação

por Juliana Bencke, em Folha do Mate 

Superar a ideia do índio pelado e de cocar na cabeça e levar, para a sala de aula, aspectos da cultura, da ciência e da vida do povo indígena ainda é um desafio para os professores. O ensino da cultura e da história dos índios, assegurado por lei desde 2008, foi tema de palestra promovida pela Secretaria Municipal de Educação. “A nossa primeira dificuldade é na formação, que não nos prepara para isso. Além disso, a maioria dos materiais didáticos vem com os estereótipos. Os índios aparecem com aquela forma que já não é mais real”, analisa o mestre e doutorando em Educação, Bruno Ferreira, 50 anos.

Na tarde de terça-feira, 22, o índio Kaingang e professor de História de Iraí ministrou uma formação a professores da rede municipal de ensino. Segundo ele, a escola acaba perpetuando a imagem de uma ‘cultura congelada’, segundo a qual o índio tem que estar sempre nu, viver no meio da floresta e usar arco e flecha. “Quando o índio não aparece com pena na cabeça dizem que não é índio, porque no livro didático ele aparece assim”, comenta.

Ferreira lembra que, independentemente do povo, a cultura é algo vivo, que se movimenta e modifica. “Tem aspectos que se mantêm e sustentam a identidade de um povo, como é a questão da reciprocidade, entre os indígenas; mas a cultura se modifica. O branco pode usar TV e computador e nem por isso deixa de ser o que é”, compara.

Na opinião do doutorando em Educação, as instituições de ensino têm papel fundamental para que uma parte encoberta da história seja conhecida e a contribuição indígena para o país deixe de ser invisível. Isso abrange desde aspectos da organização social, até questões históricas, culturais e literárias – narrativas orais transmitidas ao longo das gerações.

“Negamos parte da história do Brasil, pois só trabalhamos ela a partir de 1.500, da chegada dos portugueses. Os índios são inferiorizados. Eles se sentem inferiores e não reconhecem a sua produção de conhecimento”, observa.

Para Ferreira, apesar da lei que garante o ensino da cultura e da história indígena nas escolas públicas e privadas, ainda há muito a avançar. De acordo com ele, existem trabalhos pontuais, mas é preciso modificar os currículos e mudar os projetos políticos pedagógicos dos colégios. “O professor também tem que ser bom pesquisador e ter coragem de dizer, por exemplo, que antes de fazer parte da cultura gaúcha, o chimarrão faz parte da cultura indígena”, exemplifica.

Imagem: Bruno Ferreira se dedica ao estudo do ensino da cultura indígena – Foto: Juliana Bencke / Folha do Mate

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