O abuso silenciado que há por trás das cesáreas

Mulheres que sofreram parto traumático têm sintomas das vítimas de estupro, segundo especialista

Por Maritxell Freitas, El País Brasil

Ana Farmer tinha cerca de 39 semanas de gravidez quando foi fazer um controle ginecológico na Clínica Cordillera de Santiago, no Chile. Queria saber se era normal que cada vez ficasse mais difícil segurar a urina. Enquanto esperava a obstetra que a havia atendido, outra profissional da equipe a examinou. Tudo estava bem: os dois centímetros de dilatação que surgira há alguns dias não tinham aumentado.

Pouco depois chegou sua obstetra, que havia monitorado sua gestação. “Fez o exame de toque e, de repente, senti que ela rompia a membrana. Comecei a sangrar, sentia muita dor”, relembra com angústia. “Ela disse que o bebê tinha que nascer naquela hora e por cesárea, porque a bolsa tinha estourado”, afirma.

O caso de Ana é um dos milhares de casos de violência obstétrica praticados de forma naturalizada nos hospitais e clínicas de todo o Chile. São relatos de mulheres que viveram cesáreas forçadas, medo, angústia, más práticas e maus-tratos por parte da equipe médica. Sofrem em silêncio, invadidas pela vergonha, pela raiva, pela culpa e pela dor.

A história de Ana tem muito de tudo isso. A jovem, que teve sua primeira e única filha aos 25 anos, é uma defensora ferrenha do parto natural e tanto ela como seu companheiro tinham muito claro como queriam receber a pequena Melissa.

No entanto, todos os seus planos naufragaram depois da violenta intervenção da obstetra. “Começaram a me injetar medicamentos — antibióticos, ocitocina — sem meu consentimento. Tudo o que não queria me injetaram”. Ana não se esquece de que teve de se esconder no banheiro porque não queria seguir para a cirurgia sem que seu companheiro estivesse presente no parto. “O médico não queria esperar que meu namorado chegasse. Me fechei para ganhar tempo, mas me tiraram à força pouco depois e me levaram para a ala médica”, detalha.

“Saiu tudo ao contrário do que eu queria, fui forçada. Foi um pesadelo total que me afeta até hoje”, sentencia a mãe.

“Patologizar” a mulher

O último relatório Informe Anual da Situação de Direitos Humanos no Chile, publicado pelo Instituto de Direitos Humanos (INDH), revela que 50% das mulheres que deram à luz no país em 2015 o fizeram por cesárea. Dessa porcentagem, 70% correspondem a partos em clínicas privadas, enquanto os 30% restantes foram feitos em hospitais públicos. Números que, como adverte o INDH, distam muito da média de 15% a 20% recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ou dos 25% que se registra na Espanha, que também excede o aconselhado pelo órgão internacional.

O Chile também está longe de outros países latino-americanos como Argentina ou Venezuela, onde a violência obstétrica foi tipificada para reivindicar a proteção dos direitos humanos das mulheres durante sua fase sexual e reprodutiva. No país transandino, por sua vez, há um projeto de lei parado no Congresso no qual esse tipo de agressões e quem as exerce são reconhecidos e punidos.

O doutor René Castro, que durante 18 anos esteve à frente do Programa de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, conhece em primeira mão o olhar do sistema de saúde chileno em relação à mulher. Para ele, esses números “não se justificam”, sobretudo quando os estudos demonstram que a maioria das mulheres prefere partos vaginais e confirma que os ginecologistas “fomos relaxando em nossas boas práticas, transformando-as em um intervencionismo desnecessário”.

Segundo o médico, esse aumento exponencial de intervenções tem muita relação com a forma como se entende o corpo da mulher e seus processos na sociedade chilena. “Se olhamos a linguagem popular e comum, todos os temas relacionados à fisiologia das mulheres têm um nome patológico. Quando menstrua, se diz que a mulher está enferma; quando procura um método contraceptivo, se diz que vai fazer um tratamento; quando quer fazer um aborto, se diz que vai encontrar um remédio; quando chega o parto, dizem que agora vai melhorar”, explica.

Normalizar estas práticas, que muitas vezes são feitas por simples comodidade das equipes médicas, tem um custo. A antropóloga e pioneira em estudos de violência obstétrica Michelle Sadler afirma que as intervenções desnecessárias alteram o sistema imunológico; facilitam o desenvolvimento de mais alergias, asma, obesidade e quadros infecciosos; dificultam o apego e a lactância e provocam mais depressões pós-parto. Além das consequências para mulheres e recém-nascidos, representam elevados custos para os sistemas de saúde.

No entanto, os piores efeitos recaem sobre as mulheres. O doutor Castro alerta que esse tipo de prática tem um impacto emocional. “Tiramos das mães o direito de desfrutar de uma experiência humana, prejudicando os primeiros momentos com seu filho recém-nascido”. O especialista reforça citando a tese da psiquiatra e ativista pelos direitos dos bebês e das mães, Ibone Olza. A especialista espanhola afirma que muitas mulheres que sofreram um parto traumático apresentam os mesmos sintomas das vítimas de estupro por sentirem-se “forçadas” a consentir procedimentos “sem terem sido informadas dos riscos dos mesmos”.

Sua tese também é compartilhada pelo obstetra e codiretor do Observatório de Violência Obstétrica do Chile (OVO), Gonzalo Leiva, que exemplifica com outro caso testemunhado por ele. “Pensemos nessa mulher que foi examinada por um médico, com os dedos em sua vagina, que está doendo ao tato e pede, por favor, que tire a mão. O médico insiste e ela continua pedindo”, explica. “Provavelmente, uma vítima de estupro fará o mesmo: pedir que parem até que se concretize o estupro”, afirma.

Para além da cesárea

Buscar as causas dessa violência que hoje começa a se tornar visível é uma tarefa difícil. Michelle Sadler explica que apesar de as causas serem múltiplas, estão totalmente vinculadas a um contexto de violência de gênero que adquire contornos de violência sexual. “É exercida pelos profissionais da saúde, porque o contexto de misoginia e sexismo assim o permite”, afirma.

Segundo destaca a OMS, as mães adolescentes ou pertencentes a minorias étnicas ou estratos socioeconômicos mais baixos têm mais possibilidades de sofrer maus tratos e falta de respeito na atenção médica. “A vida sexual dessas mulheres é julgada e, de certa forma, com os maus-tratos são culpabilizadas pela forma como viveram sua sexualidade”, afirma Gonzalo Leiva.

A agressão pode implicar desde humilhações até tratamentos infantilizantes ou culpabilizadores em uma simples consulta ginecológica. “São comentários como ‘aqui sou eu que tomo as decisões’, ‘não gostou? Pois agora aguente’ ou ‘abra as pernas e fique quieta que é para o seu bem’”, afirma o obstetra.

María José Padilla se tornou mãe de Simón, seu único filho, aos 20 anos. Foi atendida no Hospital Sótero del Río, o único centro público em um bairro de mais de um milhão de habitantes de Santiago. Sobre sua experiência de dar à luz, lembra: “Me repreendiam porque era vegetariana e me dizia que se não tinha leite era minha culpa. Me culparam dizendo que era eu que não queria amamentá-lo […] Fizeram a episiotomia sem me perguntar e me proibiram de parir parada, controlando-me para que eu não me sentasse”.

Algo parecido aconteceu com Paz Urrejola, outra jovem que aos 17 anos tornou-se mãe de Santiago. Além de não ter sido consultada sobre a episiotomia, a difamaram dizendo que não sabia empurrar e que se seu filho morresse, ela seria a responsável. “Fizeram em mim a manobra de Kristeller, subindo em minha barriga e me pressionando com força. Fiquei assim por quase 24 horas, sem tomar água, molhando apenas os lábios. Foi violento demais, cruel demais. Um ato desumano para trazer um ser ao mundo”, relembra com pesar a mãe.

Rumo a um novo modelo?

“Muitas mulheres começam a pesquisar depois de seu primeiro parto e se dão conta da oportunidade preciosa que deixaram de viver com um processo mais pleno”, afirma Gonzalo Leiva. O obstetra recomenda criar planos de parto e apresentá-los a hospitais, clínicas e médicos para que sejam as próprias mulheres a começar forçar uma mudança no sistema de saúde chileno, apropriando-se de seu próprio corpo e processo.

Michelle Sadler considera que a transformação passa por substituir o modelo tecnocrático atual por outro mais personalizado, em todos os níveis: desde a educação sexual para as crianças até os conteúdos dos cursos de saúde (Obstetrícia, Enfermagem, Neonatologia, Pediatria), ou as capacitações das equipes.

Nesse sentido, Leiva, que também é professor universitário do curso de Obstetrícia, afirma que são ensinados conteúdos que não correspondem ao que os estudantes observam em sua prática: “Quando vamos aos hospitais, passamos a manhã inteira repetindo aos alunos ‘isso que você está vendo não se faz’”, lamenta.

Uma exceção é a experiência que está sendo feita no Hospital de La Florida. Situado em um dos bairros mais populares da região metropolitana de Santiago, registra 72% de partos naturais, e nos últimos anos conseguiu diminuir em 25% o número de cesáreas.

Definir a posição para dar à luz, respeitar o tipo de parto escolhido pela mãe e fomentar o apego do recém-nascido com seus pais são algumas das práticas que o centro garante aos futuros pais, se não há complicações. Até agora, 30% dos 3.000 partos atendidos por ano no centro são feitos dessa forma.

A aposta de La Florida para que mães e pais escolham como querem parir seus filhos está dando resultado e vários hospitais do país se interessaram em conhecer o projeto. Os avanços na erradicação de más práticas seriam mais rápidos e efetivos se o Colégio de Obstetras e Obtetrizes do Chile se dispusesse a denunciá-las. Mas essa briga dentro da instituição ainda não está ganha.

Que o Chile passe de exceção a regra será impossível se mães, profissionais e autoridades não se decidirem por expor a violência obstétrica e implementar mecanismos efetivos para denunciá-la. Enquanto isso não acontece, em silêncio, continuarão os abusos de poder que se escondem por trás dos fórceps e dos jalecos brancos.

Imagem: Manifestantes antiaborto em Santiago do Chile – CLAUDIO REYES

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