Oficina de Cooperativismo debate questões das comunidades extrativistas do Vale do Jequitinhonha

Atividade foi parte da programação do Circuito Mineiro de Arte e Cultura da Reforma Agrária, que ocorre entre os meses de setembro a novembro de 2017, em todas as regiões do estado de Minas Gerais

Por Geanini Hackbardt, da Página do MST

Pensar novas formas de organização, seja para resistir ou para propor outras formas de consumo, foi um dos assuntos propostos na Oficina de Cooperativismo que aconteceu em Montes Claros, durante o Circuito Mineiro de Arte e Cultura da Reforma Agrária. O momento reuniu representantes da Cooperativa Veredas, ligada ao MST, quilombolas  e apanhadores de flores do Vale do Jequitinhonha, que constroem a Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (CODECEX).

A conversa foi representativa para os povos que sofrem com a instalação de Unidades de Conservação de Proteção Integral, como o PARNA das Sempre-vivas e do Parque Estadual do Rio Preto, que impede que as comunidades exerçam as atividades tradicionais de “panhar” flor e viver daquilo que o cerrado produz. “A gente não tem direito de entrar lá dentro do parque mais, não deixam a gente andar lá, sendo que o que a gente vive é de sempre-viva, feijão e daquilo que a gente pesca pra alimentar’’, conta José Carlos, da comunidade de Brauna de Diamantina.

Para Jovita Maria Gomes Correia, apanhadora de flor, as coisas mudaram muito e ela, que desde sempre vive na comunidade, não consegue aceitar as mudanças: “A gente não conforma com isso porque se o lugar vem dos nossos pais, dos nosso avôs, é nosso e continua sendo nosso, mesmo eles dizendo que a gente não pode entrar”.

Criada em 2010, a CODECEX vem representado os apanhadores de flores sempre vivas e atuando de forma conjunta com a Articulação Rosalino de Povos e Comunidades Tradicionais. A luta junto a outros povos vem fortalecendo a organização e a caminhada do grupo. Para Eliad Gisele, jovem quilombola que compõe a articulação e participa da CODECEX, trocar experiências e unir as lutas anima a busca por novas conquistas: “Sem a Articulação Rosalino, nem ser reconhecido como quilombola a gente seria, e nem mesmo saberia a situação que a gente se encontra lá”. A jovem reforça que participar do Circuito também contribui com os processos de organização. “A troca de experiência é sempre boa, a gente aprende com eles e movimento é sempre assim: a gente aprende com os que estão mais experientes no caminho”, completa.

Sobre a oficina, o gerente da Cooperativa Veredas, Felicio Figuereido, conta que o espaço foi uma socialização de conhecimentos e uma busca da melhoria dos povos de luta. Para ele, o trabalho com as sempre-vivas vai além da comercialização, assim como o trabalho de extrativismo e cooperativismo: “A comercialização de Sempre-vivas, que além de tudo é muito bonito, tem que ir muito além do comércio, ali trata de vida de outras pessoas, do trabalho coletivo, de um trabalho que vem de geração em geração e a demanda desses parques estaduais em expansão dificulta a forma deles trabalhar”.

Para os apanhadores, a oficina veio a calhar. “A CODECEX ainda funciona como movimento social e a gente está pensando em formalizar, porque precisamos de uma instituição formalizada. A gente teve uma conversa com o MST de manhã, para aprender da experiência deles, porque de alguma forma eles também passaram por isso”, explica Eliad.

A região onde estão os quilombolas também sofrem com as plantações de eucalipto, o que reforça ainda mais a importância da resistência das comunidades impactadas. “Os campos onde eram de flores hoje tá tomado pelo eucalipto e onde não tem eucalipto tem os  parques e é por isso que a gente tá nessa luta. A gente ainda vai ver esse campo florido de novo”, finaliza Eliad Gisele.

*Editado por Leonardo Fernandes.

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