Há uma coisa de Trump em Temer: A mentira como instrumento para governar, por Leonardo Sakamoto

Blog do Sakamoto

Há uma coisa de Trump em Temer. Não é uma questão física, Trump tem cabelos alaranjados e Temer conta com mãos que fazem gestos indecifráveis em discursos. Também não são iguais na capacidade de expressão – independentemente do conteúdo, antes de presidente, o bilionário americano já é um comunicador. Já o povão não entende o que o brasileiro fala. Muito menos a razão de ainda estar lá.

Mas diante da popularidade decrescente, a impressão é de que Temer foi abandonando a preocupação em expor fatos e números comprováveis em seus pronunciamentos, apresentando no lugar elementos que estariam melhor em um conto de fadas. Nesse sentido, ambos usam e abusam de ”fatos alternativos”, expressão consagrada por Kellyanne Conway, assessora do presidente norte-americano, para rebatizar uma ”mentira” divulgada por seu governo. Não importa o que os cinco sentidos apontam, mas se as evidências não se encaixam no discurso vendido pelo poder, a realidade é que está errada.

Após o dicionário Oxford eleger ”pós-verdade” (que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais) como a palavra do ano de 2016, ela virou vedete. Mas, por mais gasta que esteja, cabe bem aqui na discussão. Pois, na internet, ”verdade” é tudo aquilo com a qual acreditamos e ”mentira” é tudo aquilo com a qual discordamos. Para alguns políticos, essa regra é usada de forma estratégica para conquistar corações e mentes, travar uma guerra simbólica com a imprensa e a oposição e/ou se manter no poder.

Temer não tem acesso a um botão de lançamento de mísseis nucleares e seus discursos não impactam nem a economia, ficando restritos ao anedotário popular brasileiro, enquanto Trump brinca de fazer guerra para aumentar sua popularidade e passa a mão na cabeça de grupos neonazistas, que sentem-se à vontade para espalhar sua ideologia violenta pelos Estados Unidos e o mundo.

Mas por mais que Trump seja um perigo para a integridade simbólica e física do mundo, a escolha de sua agenda de governo foi decidida pelo voto. E os Estados Unidos contam com um sistema de freios e contrapesos mais robusto que o nosso, tanto que Trump conseguiu ainda derrubar integralmente o projeto de saúde implementado por seu antecessor, apelidado de Obamacare.

Já a agenda adotada por Temer, não. Como ela passa pela perda de proteção à população mais vulnerável, pela diminuição da qualidade de vida dos trabalhadores, por ataques à dignidade de povos tradicionais e uma banana ao meio ambiente, nunca seria aprovada pelo voto popular. Pelo contrário, teve que ser definida a portas fechadas por parte do poder econômico e da velha política. E, por aqui, as relações entre os Poderes Executivo e Legislativo – com louváveis exceções – têm sido bem azeitadas pela fisiologia.

Trump não se importa em mentir descaradamente e acusar quem desmascara suas mentiras de estar espalhando notícias falsas. Segundo o instituto Gallup, ele contava com 37% de aprovação após os setes primeiros meses de seu governo.

Antes, quando confrontado com críticas, Temer buscava, ao menos, dar uma nova justificativa para a presepada que estava fazendo. Agora, diante das pesquisas que mostram de 3% a 5% de aprovação, seu governo adotou o ”foda-se” como política. Afinal, ele não precisa, como Trump, tentar agradar uma fatia maior do eleitorado. Sabe que não será reeleito e, ao final de seu mandato, pode ser processado por corrupção. Por isso, se esforça em manter a simpatia do grande empresariado e da maioria do Congresso Nacional para chegar até janeiro de 2019.

Hoje, com mais desenvoltura, Temer diz que a imagem de um cavalo é, na verdade, uma capivara. E fica por isso mesmo. Não, ele não está discutindo a relação entre o objeto e sua representação, tal propôs René Magritte com o famoso quadro ”Ceci n’est pas une pipe” (Isto não é um cachimbo). Ele está dissociando o objeto de sua representação largamente aceita, propondo uma nova, de acordo com seus interesses.

Ao contrário de Trump, seu discurso não vai alimentar simbolicamente um grupo numeroso que o sustenta e nele votou. Temer sabe que poucos o levam a sério, então para que se preocupar? É escrever um discurso protocolar de um Brasil que não existe, porque a negação disso poderia facilitar a sua queda, e correr para o abraço.

O discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas foi um exemplo. Temer soltou um pacote de mentiras e imprecisões sobre a situação econômica do país, as condições sociais e a proteção ao meio ambiente. Se alguma nação estrangeira estivesse prestando atenção no que ele falava ou se o discurso repercutisse para além do nosso país, seria um problema. Mas quem estava no plenário esperava ansiosamente o discurso do orador seguinte, exatamente Donald Trump. E torcia para que Temer terminasse rapidamente o seu.

Nesta sexta, Temer divulgou, nas redes sociais, um novo pronunciamento para se defender da segunda denúncia contra ele a ser analisada pelo plenário da Câmara dos Deputados. Desta vez, os parlamentares devem ser ”recompensados” por negar a admissibilidade do processo por obstrução de Justiça e organização criminosa. O pronunciamento é repleto de cinismo, chegando ao ponto de reclamar de ”conspiração”. Logo ele, que conspirou a céu aberto pelo impeachment de sua antecessora.

A lista é longa. Em agosto, por conta de sua viagem à China, Temer afirmou à TV estatal chinesa que a Reforma Trabalhista ”está fazendo um sucesso extraordinário [no Brasil] porque flexibiliza as relações trabalhistas”. Ele poderia dizer que a aprovação da reforma atende a uma antiga reivindicação dos empresários, causará impactos negativos à saúde e segurança dos trabalhadores, mas que espera que isso seja traduzido em empregos, mesmo que de mais baixa qualidade.

Mas preferiu novamente flanar fora da realidade, esquecendo que o país é um pacote plural de 207 milhões de almas – das quais dezenas de milhões estão comendo o pão que o diabo amassou e serão afetadas profundamente pela Reforma Trabalhista. Enquanto apenas algumas milhares perfazem o perfil de empresário para o qual ele gosta de falar e prestar contas em eventos corporativos.

Temer não é o único, nem quem melhor imita Donald Trump. O prefeito de São Paulo, João Doria, por exemplo, espelha-se no presidente tuiteiro norte-americano. A violência com a qual contesta posicionamentos trazidos pela imprensa tem sido o sinal para acionar milícias digitais que o seguem nas redes sociais e atacam repórteres de veículos de comunicação, como a CBN e a Folha de S.Paulo, quando há reportagens com denúncias que podem constranger o alcaide paulistano e pré-candidato à Presidência da República.

Quando a classe política, de qualquer espectro ideológico, ignora evidências e bate na imprensa ou na sociedade, dizendo que elas apresentam ”fatos alternativos” ou quando essa classe política resolve ela mesma, ignorar evidências, e propor esses ”fatos alternativos”, começamos a brincar um jogo perigoso.

Verdades absolutas não existem, elas são construções a partir da reunião de versões. Mas se dados e informações são inúteis para a construção da narrativa de nosso tempo, se ignoramos elementos que podem ser imagens de uma cerimônia de posse ou documentos, depoimentos, gravações e delações (comprovadas) para formar nossa convicção, se o discurso não precisa de mais nada além dele mesmo para se referendar, temos – entre outros problemas – o desabamento do controle social da política e, por conseguinte, a derrocada das instituições.

Com políticos produzindo e circulando conteúdo em redes sociais a fim de reforçarem suas próprias narrativas sem a mediação crítica de ninguém e com esse conteúdo modelado reforçando visões de mundo do público-alvo, assistimos à formação de grupos cada vez mais refratários a pensar que o mundo não se resume ao maniqueísmo do bem contra o mal. Sendo que ele é o bem e o outros são o mal.

Espero que possamos nos dar conta disso e organizar juntos uma resposta antes que seja tarde demais.

Michel Temer em jantar Donald Trump, em Nova York. Foto: Beto Barata/PR

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