Quem tem medo do populismo?

Elites políticas qualificam-no como “perigoso”. Mas o sistema político está em crise e é preciso reinventar a democracia — ou sucumbir aos que querem destruí-la

Por Roberto Andrés* – Outras Palavras

Todos parecem concordar que há um surto populista, embora não haja nenhum consenso sobre o que o termo vem a ser. Há mais de uma década, o politólogo uruguaio Francisco Panizza comentava ser “quase um clichê começar um artigo sobre populismo lamentando a falta de clareza sobre o conceito”. Naquele momento, o crescimento dos partidos de extrema direita na Europa reacendia o debate sobre o tema. (mais…)

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‘A utopia foi privatizada’, afirmou Zygmunt Bauman em entrevista inédita

Quando eu e o diretor de fotografia Jacob Solitrenick tocamos a campainha da casa de Zygmunt Bauman, já estávamos com todo o equipamento pronto para iniciar a entrevista. Ao entrarmos, porém, o sociólogo não deixou que começássemos a trabalhar: fez questão de nos servir um lanche com frutas, papear um pouco, como quem reduz a velocidade a que estamos acostumados no cotidiano, abre uma brecha de humanidade na produtividade. Não que ele estivesse sem o que fazer: precisava arrumar as malas para uma conferência fora do país, tinha que deixar uma lista de e-mails respondida, entre outros assuntos. Mas não pôde deixar de abrir uma pausa na urgência, um desses gestos pequenos e gigantes ao mesmo tempo, lição de adequação entre o pensamento e o cotidiano: não basta criticar o tempo que vivemos, é preciso vivê-lo de outra maneira

Daniel Augusto – O Estado de S. Paulo / IHU On-Line

Bauman nasceu na Polônia em 1925, mas residia na Inglaterra, onde foi professor titular da Universidade de Leeds. No decorrer da sua trajetória, publicou dezenas de livros, traduzidos para diversas línguas. Aliava uma vasta observação do mundo contemporâneo com uma escrita acessível ao leitor não-especializado: seu conceito de modernidade líquida, por exemplo, suscitou debates nas universidades, mas também na imprensa, nas artes, assim por diante. (mais…)

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Perez Esquivel propõe a Não Violência Ativa

Capitalismo militariza-se a cada dia e não é possível vencê-lo pela força, diz Nobel da Paz. E acrescenta: rejeitar a brutalidade é o oposto de ser passivo

Entrevista a Daniel Santini, da Fundação Rosa Luxemburgo – Outras Palavras

Desde 2013, três estados da região Norte do Paraguai encontram-se em estado de exceção permanente, ocupados por tropas das forças armadas. Designados originalmente para combate emergencial ao Exército do Povo Paraguaio (EPP), grupo guerrilheiro que tem como estratégia a realização de sequestros, os militares instalaram-se e passaram a policiar de maneira contínua os estados Amambay, Concepción e San Pedro. A ação de “pacificação” do território, que não tem data para acabar, não só não resolveu o problema com o EPP, como gerou outros, não faltando denúncias, por parte da população, de violações graves de direitos humanos. Na lógica de guerra instalada, quem vive na região passou a lidar com medo e estigmatização – em Assunção, as pessoas olham diferente quem vive no norte. (mais…)

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O sucessor de “El Chapo”: Dámaso López Núñez

Extradição do narcotraficante para os Estados Unidos se deu depois da ascensão do novo líder do cartel de Sinaloa

por Anabel Hernández para a Agência Pública

Considerado pelo governo dos Estados Unidos o mais poderoso traficante de drogas de todos os tempos, Joaquín Guzmán Loera, “El Chapo”, líder do cartel de Sinaloa, já tem um sucessor. Seu nome é Dámaso López Núñez, mais conhecido como “El Licenciado”. De acordo com informações confirmadas por funcionários da DEA, sua era começou no final de 2016, após uma batalha contra “El Chapo” e seus filhos pelo poder dentro do cartel, na qual o outrora chefão saiu derrotado. “El Chapo” foi extraditado pelo governo do México para Nova York em 19 de janeiro do ano passado. (mais…)

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Educação em tempos de “pós-verdade”

“A pós-verdade tem muitas implicações políticas, morais e institucionais. Mas é na educação que a suspensão da verdade prenuncia um conjunto de efeitos ainda incalculáveis”

Por Christian Ingo Lenz Dunker – Blog da Boitempo

Nos anos 1990, Woody Allen dizia que a realidade podia ser horrível, mas ainda era o único lugar onde se poderia comer um bife decente. Na entrada para os anos 2000, Cypher, o personagem do filme Matrix que decide voltar para o mundo da ilusão, declara: “a ignorância é uma benção”. Portanto, não devíamos nos assustar quando a Oxford Dictionaries (departamento da universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários) anuncia o termo “pós-verdade” como sendo a palavra do ano de 2016. (mais…)

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O capitalismo e o planeta Haiti

Mas ele desconhecia/Esse fato extraordinário:/Que o operário faz a coisa/E a coisa faz o operário./De forma que, certo dia/À mesa, ao cortar o pão/O operário foi tomado/De uma súbita emoção/Ao constatar assombrado/Que tudo naquela mesa/- Garrafa, prato, facão – /Era ele quem os fazia/Ele, um humilde operário,/Um operário em construção./Olhou em torno: gamela/Banco,enxerga, caldeirão/Vidro, parede, janela/Casa, cidade, nação!Tudo, tudo o que existia/Era ele quem o fazia/Ele, um humilde operário/Um operário que sabia/Exercer a profissão. (Vinicius de Morais, Operário em Construção)

Marcio Sotelo Felippe – Justificando

Daniel Blake (dirigido por Ken Loach, Inglaterra, 2016) conta a história de um operário inglês da construção civil. Tem entre 70 e 80 anos. Cardiopata, não pode mais trabalhar. Sobrevive com o equivalente inglês do nosso auxílio-saúde. Repentinamente o benefício é cortado. A trajetória de Daniel Blake para recuperar o único meio de sobrevivência, sem o qual terá que dormir na rua e esmolar, pode ser descrita como um mix da Odisséia e do Processo, de Kafka. (mais…)

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Big Data: Toda democracia será manipulada?

Bem-vindo Psicometria — o método usado por empresas e políticos para traçar em detalhes seu perfil, a partir de “likes” no Facebook. Como ele elegeu Trump e ameaça reduzir as eleições a jogos de marketing

Por Hannes Grassegger e Mikael Krogerus, no Outras Palavras

No dia 9 de novembro, por volta das 8h30, Michal Kosinski acordou no Hotel Sunnehus em Zurique. O pesquisador de 34 anos estava ali para dar uma palestra no Instituto Federal Suiço de Tecnologia (ETH, na sigla em inglês) sobre os perigos do Big Data e da revolução digital. Kosinski fala sobre esse assunto regularmente, em todo o mundo. Ele é um especialista em psicometria, um sub-ramo da psicologia baseado em dados. Quando ligou a TV naquela manhã, contrariamente às previsões de todos os principais estatísticos, viu que a bomba explodira: Donald J. Trump fora eleito presidente dos Estados Unidos. (mais…)

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Especial Vigilância: Caçando infiltrados

Leia a entrevista com a jornalista investigativa Eveline Lubbers, cuja profissão é descobrir e expor policiais infiltrados em organizações civis. Graças ao seu trabalho, dezenas de casos vieram à tona na Europa. Ouça suas dicas

Por Natalia Viana, da Agência Pública

A repórter investigativa Eveline Lubbers é especializada em caçar policiais infiltrados no meio de organizações civis. Isso mesmo: desde 1980, essa holandesa se dedica a desmascarar policiais infiltrados, P2, paisanos, ou como você quiser chamar os elementos de forças de segurança que fingem ser civis para obter informações sobre grupos de pessoas que se unem para fazer alguma reivindicação social. Fundadora do Undercover Research Group, na Inglaterra, ela acompanhou de perto o famigerado caso de um policial que foi infiltrado durante setes anos no movimento ambientalista londrino. “Depois dele, muitos outros casos surgiram e percebemos que teríamos que ter uma organização para dar conta”, explica. Nessa entrevista, ela revela como é ser caça-P2 e dá dicas para os ativistas brasileiros. (mais…)

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Boaventura: Revolução Russa, ano 100

Aventura soviética teve limites, contradições e misérias, mas ao menos um enorme mérito. Ela demonstrou que havia alternativa ao capitalismo e o obrigou a recuar

Por Boaventura de Sousa Santos* – Outras Palavras

Assinalam-se este ano os 100 anos da Revolução Russa (RR)1 e também os 150 anos da publicação do primeiro volume de Das Kapital de Karl Marx. Juntar as duas efemérides pode parecer estranho porque Marx nunca escreveu em detalhe sobre a revolução e a sociedade comunista e, se tivesse escrito, é inimaginável que o que escrevesse tivesse alguma semelhança com o que foi a União Soviética (URSS), sobretudo depois que Stalin assumiu a liderança do partido e do Estado. A verdade é que muitos dos debates que a obra de Marx suscitou durante o século XX, fora da URSS, foram um modo indireto de discutir os méritos e os deméritos da RR. Agora, que as revoluções feitas em nome do marxismo ou terminaram ou evoluíram para… o capitalismo, talvez Marx (e o marxismo) tenha finalmente a oportunidade de ser discutido como merece – como teoria social. A verdade é que o livro de Marx, que levou cinco anos a vender os primeiros mil exemplares antes de se tornar um dos livros mais influentes do século XX, voltou a ser um bestseller em tempos recentes e, duas décadas depois da queda do Muro de Berlim, estava finalmente a ser lido em países que tinham sido parte da URSS. Que atração poderá suscitar um livro tão denso? Que apelo pode ter num momento em que tanto a opinião pública como a esmagadora maioria dos intelectuais estão convencidos de que o capitalismo não tem fim e que, se tiver, não será certamente seguido pelo socialismo? Há 23 anos anos publiquei um texto sobre o marxismo como teoria social.2 Numa próxima coluna indicarei o que desde então mudou e não mudou na minha opinião e procurarei responder a estas perguntas. Hoje debruço-me sobre a o significado da Revolução Russa. (mais…)

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