Categoria: violência racial

De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov

Por racismoambiental, 10/04/2010 11:34

ELIO GASPARI

"Navio negreiro" de Johann Moritz Rugendas, 1830.
“Navio negreiro” de Johann Moritz Rugendas, 1830

Desde o século 19, o negro livre é uma encrenca para as nossas leis, eu que o diga

ILUSTRE SENADOR Demóstenes Torres,

Quem lhe escreve é Cazemiro, um Nagô atrevido. Faço-o porque li que o senhor, um senador, doutor em leis, sustenta que a escravidão brasileira foi uma instituição africana. Referindo-se aos 4 milhões de negros trazidos para o Brasil, vosmicê disse o seguinte: “Lamentavelmente, não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos, mas chegaram…”

Vou lhe contar o meu caso. Eu cheguei ao Rio de Janeiro em julho de 1821 a bordo da escuna Emília, junto com outros 354 africanos. O barco era português e o capitão, também. Fingia levar fumo para o Congo, mas foi buscar negros na Nigéria e, na volta, acabou capturado pela Marinha inglesa. Desde 1815, um tratado assinado por Portugal e Grã Bretanha proibia o tráfico de escravos pela linha do Equador.

Quando a Emília atracou no Rio, fomos identificados pelas marcas dos ferros. A minha, no peito, parecia um arabesco. Viramos “africanos livres”. Livres? Não, o negro confiscado a um traficante era privatizado e concedido a um senhor, a quem deveria servir por 14 anos. O Félix Africano, resgatado em 1835, penou 27 anos. Doutor Demóstenes, essa lei era brasileira.
Continue lendo… 'De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov'»

Bookmark and Share

Cimi repudia nova agressão da Polícia Federal aos Tupinambá

Por racismoambiental, 10/03/2010 14:49
Na madrugada desta quarta-feira (10), cinco policiais federais, fortemente armados, arrombaram e invadiram a casa de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, na comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. Segundo seus familiares, no momento de sua prisão, Babau foi violentamente agredido e ameaçado de morte.
De acordo com membros da Comunidade Indígena da Serra do Padeiro, durante a ação policial parentes do cacique se esconderam debaixo da cama, com medo de sofrer abusos e agressões por parte da PF. Vários móveis da casa foram quebrados. Para a comunidade, pela conduta dos policiais a impressão que ficou foi no sentido de que pretendiam levar Babau sem ninguém perceber, tanto que eles agiram durante a madrugada e após entrarem na casa fecharam a porta. Ainda segundo a comunidade, os policiais o obrigaram a engolir um comprimido, que suspeitam pudesse ser um calmante.
O clima na Serra do Padeiro é de muita apreensão. Até o início da manhã, a comunidade se questionava sobre a origem dos invasores, se eram realmente policiais federais. No entanto, a informação de que a ação foi realizada pela Polícia Federal já foi confirmada e a família de Babau está na sede da PF de Ilhéus. Os familiares procuram notícias e querem ver o cacique, mas de acordo com eles, somente a imprensa local teve acesso ao mesmo.
A prisão de Babau, liderança que representa as cerca de 130 famílias que vivem na aldeia da Serra do Padeiro (município de Buerarema, e de Olivença, em Ilhéus) aconteceu em um momento de significativa tensão. Na segunda (08), houve uma reunião com todos os caciques Tupinambá, da qual apenas Babau não participou. O encontro foi com delegados da PF na sede da Funai em Ilhéus. Segundo informações de lideranças presentes nessa reunião, o assunto tratado foi a criação de mecanismos que procurem formas pacíficas durante os procedimentos de reintegração de posse de áreas ocupadas pelos indígenas.
Essa não foi a primeira agressão sofrida pelos Tupinambá. Em 2008, durante uma tentativa de prender Babau, a Polícia Federal ingressou na aldeia e destruiu a escola da comunidade, além de agredir Babau, seu irmão Jurandir Ferreira e o ancião Marcionilio Guerreiro com tiros de borrachas. Dois dias depois, cerca de 130 agentes voltaram à comunidade, agindo com forte e desproporcioanl aparato policial. Na ocasião, eles destruíram móveis, queimaram roças e feriram dezenas de pessoas.
Ano passado, novas arbitrariedades foram cometidas. Cinco indígenas foram constrangidos e sofreram abusos de poder praticado pela PF, entre eles uma mulher. Durante esta ação ilegal, eles foram agredidos com gás de pimenta e dois deles receberam choques elétricos que deixaram queimaduras nos corpos das vítimas, inclusive em partes íntimas.
Não se pode admitir e muito menos aceitar que a Polícia Federal utilize-se de expedientes próprios do período da ditadura militar na sua relação com o povo Tupinambá.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) repudia essa ação da PF por entender tratar-se de conduta ilegal e despropositada, porque realizada às 2h40 da madrugada, sem apresentação de qualquer mandado de prisão e de forma violenta.
Em respeito ao Estado Democrático de Direito e à cidadania dos Povos Indígenas, em especial dos Tupinambá é fundamental que o Departamento de Polícia Federal e o Ministério da Justiça apresentem a decisão judicial que determinou a prisão preventiva do Cacique Babau e que demonstrem a integridade física e moral desta relevante e dedicada liderança indígena do Povo Tupinambá.

Na madrugada desta quarta-feira (10), cinco policiais federais, fortemente armados, arrombaram e invadiram a casa de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, na comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. Segundo seus familiares, no momento de sua prisão, Babau foi violentamente agredido e ameaçado de morte.

De acordo com membros da Comunidade Indígena da Serra do Padeiro, durante a ação policial parentes do cacique se esconderam debaixo da cama, com medo de sofrer abusos e agressões por parte da PF. Vários móveis da casa foram quebrados. Para a comunidade, pela conduta dos policiais a impressão que ficou foi no sentido de que pretendiam levar Babau sem ninguém perceber, tanto que eles agiram durante a madrugada e após entrarem na casa fecharam a porta. Ainda segundo a comunidade, os policiais o obrigaram a engolir um comprimido, que suspeitam pudesse ser um calmante.

O clima na Serra do Padeiro é de muita apreensão. Até o início da manhã, a comunidade se questionava sobre a origem dos invasores, se eram realmente policiais federais. No entanto, a informação de que a ação foi realizada pela Polícia Federal já foi confirmada e a família de Babau está na sede da PF de Ilhéus. Os familiares procuram notícias e querem ver o cacique, mas de acordo com eles, somente a imprensa local teve acesso ao mesmo. Continue lendo… 'Cimi repudia nova agressão da Polícia Federal aos Tupinambá'»

Bookmark and Share

Conselho de direitos humanos constata situação de miséria e preconceito em áreas indígenas em MS

Por racismoambiental, 09/03/2010 12:03
O  Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou ontem (8) áreas indígenas no município de Dourados (MS) onde foram constatadas condições degradantes e miseráveis. O objetivo da visita é verificar as denúncias de violações contra indígenas Kaiowá e Ñandeva, da etnia Guarani, e elaborar um relatório com recomendações às autoridades estaduais e federais.
A notícia é de Lisiane Wandscheer, da Agência Brasil e publicada pelo EcoDebate, 09-03-2010.
Segundo o diretor de Defesa de Direitos Humanos da SEDH, Fernando Matos, em vários locais faltam alimentos e água, há problemas na demarcação da área e preconceitos na região contra os indígenas. “Vivemos como porcos no chiqueiro”, disse Matos, citando a frase de um cacique.
Matos disse ainda que os indígenas estão impedidos de realizar atividades de subsistência típicas de sua etnia como a caça e a pesca e que há denúncias de homicídios.
“Nós tememos que haja algum tipo de retaliação em função da vinda do conselho. Pediremos, amanhã, que sejam tomadas medidas que preservem a integridade destas pessoas”, afirmou Matos.
Pela manhã, o grupo esteve na aldeia de Passo Piraju, a 20 quilômetros de Dourados, onde conversaram com lideranças. Depois, o grupo seguiu para o presídio Harry Amorim Costa. O local concentra a maior população carcerária indígena do país, com aproximadamente 100 índios.
O advogado do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Rogério Batalha, que participa das visitas, disse que Mato Grosso do Sul tem a pior situação de demarcação de terras do país e a segunda maior população indígena do Brasil com cerca de 70 mil indígenas.
“A fronteira agrícola avançou nos anos 70, mas houve poucos avanços no reconhecimento das áreas indígenas. A falta de regularização desencadeou problemas sociais, violência, consumo de drogas e álcool e o maior índice de assassinatos de índios no país”, destacou o advogado do Cimi.
De acordo com o procurador do Ministério Público Federal de Dourados, Marco Antônio Delfino, antes, os indígenas viviam na região de forma pacífica, mas com a expansão da fronteira agrícola, a destruição da floresta e a expulsão dos índios de suas terras, o clima mudou.
“Hoje a situação é explosiva na região, próxima a chegar a um estopim”, alerta Delfino.
Durante a tarde, o grupo percorreu as comunidades Guarani Kaiowá e Guarani Ñanderu Laranjeira, a 50 quilômetros de Dourados, e amanhã (9) estará em Campo Grande para se reunir com autoridades locais e federais.

O  Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou ontem (8) áreas indígenas no município de Dourados (MS) onde foram constatadas condições degradantes e miseráveis. O objetivo da visita é verificar as denúncias de violações contra indígenas Kaiowá e Ñandeva, da etnia Guarani, e elaborar um relatório com recomendações às autoridades estaduais e federais.

A notícia é de Lisiane Wandscheer, da Agência Brasil e publicada pelo EcoDebate, 09-03-2010.

Segundo o diretor de Defesa de Direitos Humanos da SEDH, Fernando Matos, em vários locais faltam alimentos e água, há problemas na demarcação da área e preconceitos na região contra os indígenas. “Vivemos como porcos no chiqueiro”, disse Matos, citando a frase de um cacique.

Matos disse ainda que os indígenas estão impedidos de realizar atividades de subsistência típicas de sua etnia como a caça e a pesca e que há denúncias de homicídios.

“Nós tememos que haja algum tipo de retaliação em função da vinda do conselho. Pediremos, amanhã, que sejam tomadas medidas que preservem a integridade destas pessoas”, afirmou Matos. Continue lendo… 'Conselho de direitos humanos constata situação de miséria e preconceito em áreas indígenas em MS'»

Bookmark and Share

Povos Guaranis Kaiowá: Sempre em luta. Entrevista especial com Antonio Brand

Por racismoambiental, 08/02/2010 11:15

Antônio Brand no I Seminário Brasileiro contra o Racismo Ambiental

“Nesses longos anos de luta pela terra, os Guarani aprenderam que as muitas vitórias que já alcançaram foram fruto, sempre, de sua teimosa decisão de não desistir nunca, inclusive frente à violência aberta e direta dos pretensos donos dessas terras e da omissão do judiciário. Essa resistência que já custou a vida de muitos deles. Em nenhum momento puderam contar com decisões prévias e favoráveis da justiça formal. Por isso, a sua decisão é seguir nessa luta, inclusive, porque não há qualquer outra alternativa se quiserem ter um futuro para seus filhos”. Esse é um resumo da realidade triste dos povos indígenas no Brasil. Em janeiro, mais uma notícia que deprecia suas lutas e suas vidas: o Supremo Tribunal Federal suspendeu a demarcação de mais de 90% da reserva indígena Arroio-Korá, no Mato Grosso do Sul, e 5% da reserva Anaro, em Roraima. Os fazendeiros locais fizeram o pedido ao STF, argumentando não terem sido ouvidos no processo de homologação, além de afirmarem que o estudo antropológico feito pelo governo federal tem problemas. “Se alguém tem todas as condições de ser ouvido e sempre foi e é ouvido nesse país são certamente os grandes proprietários e representantes do agronegócio”, complementou Antonio Brand durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail.

Antonio Brand é graduado em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Tem mestrado e doutorado na mesma área, pela PUCRS. É, atualmente, professor da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, MS.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como você avalia a suspensão da demarcação de mais de 90% da reserva indígena Arroio-Korá, Mato Grosso do Sul, e 5% da reserva Anaro, em Roraima, pelo STF?
Antonio Brand – Essa não é primeira vez que o Supremo Tribunal Federal interfere e suspende atos do Poder Executivo quando estes atendem demandas dos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, e atingem interesses de grandes proprietários de terra. Foi o que aconteceu com a Terra Indígena Ñanderu Marangatu, no município de Antonio João, MS, homologada pelo Presidente da República, em 23 de março de 2005. O então Ministro Presidente do STF, Nelson Jobim, num de seus últimos atos como integrante desse Tribunal, suspendeu, liminarmente, o decreto presidencial de homologação da terra indígena e, em consequência, os índios, que já ocupavam parte da terra homologada, foram, violentamente, expulsos em 15 de dezembro do mesmo ano. Até hoje, o Tribunal não julgou o mérito da questão, e os Kaiowá continuam fora de sua terra, em clima de constante tensão e conflitos violentos, incluindo assassinato de índios.
Percebe-se, claramente, no caso de Ñanderu, que não há nenhuma pressa em decidir o mérito da questão porque, afinal, a decisão liminar de Jobim garantiu aos fazendeiros a plena posse da terra indígena, enquanto a comunidade indígena espera em situação de extrema precariedade. É importante registrar que a decisão de Jobim, então integrante do Supremo, é anterior às condicionantes definidas pelo STF no julgamento do caso da Raposa Serra do Sol. Essa decisão recente, de Gilmar Mendes, agrava em muito os impasses envolvendo a demarcação das terras dos Guarani Kaiowá porque todas as terras que os índios reivindicam estão em poder de poderosos proprietários de terra, que têm acesso direto aos gabinetes dos ministros do Supremo – como bem atesta a rápida decisão do Ministro Gilmar – enquanto que os povos indígenas seguem dependendo da boa vontade e disponibilidade da FUNAI e dos governantes de plantão, em âmbito federal. Então, apesar do empenho jurídico de uma importante equipe de procuradores do Ministério Público Federal, as decisões por parte dos ministros favoráveis aos proprietários têm sido rápidas, enquanto que as solicitações dos povos indígenas mofam nas gavetas dos mesmos magistrados.
IHU On-Line – Como os índios receberam a notícia da suspensão da demarcação?
Antonio Brand – Acabo de participar de um programa de formação de professores Guarani Kaiowá em nível superior, onde esse assunto veio à tona. Eles têm plena consciência das travas que, crescentemente, vem sendo interpostas por parte da justiça, nas diversas instâncias, às suas reivindicações.  Ou melhor, eles vêm percebendo que há, efetivamente, “duas justiças”: uma rápida, ágil, atenta e eficaz, quando se trata da defesa dos interesses do latifúndio e do agronegócio, e outra, muito lenta, cega e ineficaz quando se trata da defesa das demandas indígenas. Os professores indígenas seguem perplexos com a falta de iniciativa da justiça frente ao recente assassinato de dois colegas seus, sendo que o corpo de um deles segue desaparecido. E, ao que se sabe, não há em andamento qualquer ação no sentido de esclarecer os fatos. Aliás, houve diversos assassinatos de indígenas nos últimos anos, envolvendo direta ou indiretamente a posse da terra, e todos os mandantes e assassinos seguem soltos.
“nesses longos anos de luta pela terra, os Guarani aprenderam que as muitas vitórias que já alcançaram foram fruto, sempre, de sua teimosa decisão de não desistir nunca, inclusive frente à violência aberta e direta dos pretensos donos dessas terras e da omissão do judiciário”
No entanto, nesses longos anos de luta pela terra, os Guarani aprenderam que as muitas vitórias que já alcançaram foram fruto, sempre, de sua teimosa decisão de não desistir nunca, inclusive frente à violência aberta e direta dos pretensos donos dessas terras e da omissão do judiciário. Essa resistência que já custou a vida de muitos deles. Em nenhum momento puderam contar com decisões prévias e favoráveis da justiça formal. Por isso, a sua decisão é seguir nessa luta, inclusive, porque não há qualquer outra alternativa se quiserem ter um futuro para seus filhos.
IHU On-Line – Os argumentos dos fazendeiros são basicamente os mesmos apresentados pelos arrozeiros que protestavam contra Raposa Serra do Sol: alegam que estão no local desde antes da Constituição de 1988, que não foram ouvidos pelo governo federal no processo de homologação e que existem problemas técnicos no laudo antropológico que reconheceu a região como área indígena. Esses argumentos e a nova decisão do STF podem cercear os direitos dos índios e interferir no reconhecimento das terras indígenas?
Antonio Brand – Não vou contestar o argumento de não terem sido ouvidos porque – se alguém tem todas as condições de ser ouvido e sempre foi e é ouvido nesse país são certamente os grandes proprietários e representantes do agronegócio. E, há, também, momentos claramente explicitados no processo de identificação e demarcação de terras para que os pretensos proprietários apresentem seus argumentos. Por isso, entendo que a queixa não é de não serem ouvidos, mas de seus argumentos, em raros casos, é verdade, serem superados pelos argumentos apresentados pelos povos indígenas.
Mas a questão mais grave diz respeito ao prazo temporal – o ano de 1988 – estabelecido, pelo STF, como base para o reconhecimento do direito indígena às terras. Discutindo essa questão com os professores Guarani Kaiowá, estes logo responderam: “estávamos fora de nossas terras, nessa data, na maior parte dos casos, porque tínhamos sido expulsos de lá”. Ou seja, o fato de estarem fora de suas terras tradicionais era e é resultado de um processo histórico que ignorou, constantemente, os direitos indígenas e que se traduziu na expulsão sistemática de suas terras. E há uma gama importante de documentos atestando essas violências.
E é muito importante destacar que esses atropelos históricos dos direitos indígenas se deram ao total arrepio da lei – a Constituição de 1934 já garantia o direito indígena à terra que ocupavam efetivamente. No entanto, até o Estatuto do Índio, de 1973, foi sistematicamente ignorado, e os Guarani Kaiowá seguiram sendo expulsos de suas terras até a década de 1980. Conheço diversos casos de comunidades Guarani Kaiowá que foram expulsos de suas terras, apesar das leis que lhes garantiam a posse dessas terras. E, frente a esse vergonhoso esbulho histórico das terras de um povo indígena – no caso os Guarani Kaiowá, a mesma justiça foi totalmente omissa, escutando somente um lado, dos que reivindicavam títulos sobre aquelas terras. Ignorou os direitos indígenas, embora claramente explicitados nas leis vigentes.  No entanto, essa mesma justiça, que historicamente se omitiu frente a esse sistemático esbulho, agora os penaliza, usando como argumento o fato de não estarem onde deviam estar, em 1988, para terem seus direitos à vida garantidos.  Como o arbítrio e a violência podem gerar direitos?
“a esperança dos Guarani Kaiowá é de que essa decisão seja reformada e que o STF reconheça os direitos dos povos indígenas”
Penso que, se essa decisão for referendada pelo STF, na discussão do mérito da questão, isso representará o reconhecimento, por parte do judiciário, da lei do mais forte, ou seja, que o processo histórico, que se traduziu no radical confinamento dos Guarani Kaiowá foi, de alguma forma, legítimo. Por isso, a esperança dos Guarani Kaiowá é de que essa decisão seja reformada e que o STF reconheça os direitos dos povos indígenas. Há, no entanto, um consenso de que muitas propriedades foram adquiridas de boa fé, sendo que os títulos foram expedidos pelo próprio governo, que, também, ignorou a presença indígena nesses espaços – e que, nesses casos, os portadores desses títulos devem ser ressarcidos de todos os prejuízos. Mas, em nenhum caso, pode ser posto em dúvida o direito primeiro dos povos indígenas.
IHU On-Line – Quais são as maiores controvérsias em torno da reserva Arroio-Korá?
Antonio Brand – Não conheço detalhes do processo e dos argumentos arrolados pelos fazendeiros. Mas, considerando apenas a decisão do STF, fica claro que o problema básico diz respeito ao marco temporal, ou seja, ao fato dos índios estarem fora dessa área em 1988. O antropólogo Levi Marques, da UFGD, responsável pelo estudo de identificação dessa terra indígena afirma que “o período mais crítico para os Guarani”, nessa região, verifica-se a partir da década de 1960, quando um “número crescente de famílias passam a ser assediadas e pressionadas para deixarem a terra”, decorrência da chegada dos empreendimentos agropastoris. O antropólogo reconhece que os Guarani foram “forçados a desenvolver uma série de estratégias para continuar sobrevivendo e ocupando, mesmo que parcialmente, seu território”.
Os poucos índios que conseguem permanecer na terra são submetidos à condição de peão, trabalhando na derrubada de matas ou plantio de pastagens e lavouras para os novos proprietários. Era comum os fazendeiros disporem de famílias de índios trabalhando em suas fazendas por ser essa a mão-de-obra mais disponível e barata na região. Algumas propriedades foram vendidas com famílias de índios “dentro”.
Vivendo escondidos nos fundos de fazendas, adotaram um tipo de vida mais discreto possível, logrando, muitas vezes, permanecer por longos períodos escondidos do mundo. Em muitos casos, os fazendeiros fingiam não tomar conhecimento da existência de índios em sua propriedade, desde que uma espécie de acordo tácito fosse mantido: os índios permaneceriam vivendo discretamente em seus “esconderijos” e constituiriam uma reserva de mão-de-obra barata para a fazenda.
Segundo Levi Marques, foi “tarefa difícil conseguir dados sobre a história das antigas famílias que viviam em Arroio-Korá”, não por má vontade, mas por causa dos “traumas deixados pelas violências sofridas” no decorrer do processo de expulsão dos índios, que incluíram “parentes assassinados, irmãs e esposas violentadas e humilhações de toda ordem”. Registra o antropólogo que, durante os depoimentos, alguns começaram a chorar e “logo o choro se transformou numa atitude coletiva, causando muito constrangimento” e acrescente, a seguir, o relato de Ricardo (o líder do grupo), que assim falou: “quando a gente olha a nossa história, a gente vê que vive igual um tatu atropelado por caçador e cachorros, tenta fugir de um lado para outro, não encontra saída, tenta voltar na mina mas a porta já está tapada pelo caçador, ficamos circulando à toa de um lado para outro, sem destino, procurando prolongar um pouco o tempo de vida que ainda resta, até que o caçador dê o golpe fatal” . Segue o relato de um número impressionante de violências contra os índios, todas impunes até o momento.
Naturalmente que essa história trágica, de extrema violência, que marcou não só o processo de expulsão dos índios de Arroio Corá de suas terras, mas de inúmeras outras comunidades não pode fazer sentido para o Presidente do STF, Dr. Gilmar Mendes, voltado exclusivamente para uma data, aliás, para os índios, aleatória, 1988. Busca-se, dessa forma, zerar, como num passe de mágica, uma relação impressionante de violências contra os povos indígenas, cometidas para que hoje diversos desses proprietários possam alegar que sua terra não tem mais índios. Essas violências, no entanto, seguem e seguirão exigindo uma resposta da justiça brasileira. Não há como ignorar que muitos títulos de terra, hoje considerados como inquestionavelmente válidos, foram concedidos indevidamente, estando, inclusive, os índios dentro das áreas alienadas.
IHU On-Line – É possível garantir a proteção das Terras Indígenas (Tis) homologadas, para que elas não sejam invadidas por fazendeiros?
Antonio Brand – Penso que é possível garantir a integridade das terras indígenas, tendo como base o arcabouço legal atualmente existente. Bastaria vontade política para tal, inclusive porque os primeiros interessados nessa defesa são os próprios índios que residem em cada uma dessas terras. Eles são, efetivamente, os melhores fiscais de suas terras. O problema está sempre na omissão e convivência com os interesses maiores da economia regional por parte dos políticos, órgãos públicos responsáveis pela retirada dos eventuais invasores e da justiça, sempre muito atenta para garantir os eventuais direitos de proprietários não-índios e extremamente tolerante quando as violências e as transgressões atingem posses e direitos indígenas. Estudo, desde alguns anos, o caso das terras dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. O Serviço de Proteção aos Índios, SPI, reconheceu como de posse desses índios um total de oito pequenas extensões de terra, entre os anos de 1915 e 1928. Todas elas foram sofrendo sucessivas reduções, sempre com a conivência dos órgãos oficiais.
Por isso, considerando a sistemática omissão dos responsáveis legais pela garantia dos direitos indígenas no Brasil, penso que a esperança maior está voltada para a crescente capacidade dos povos indígenas, mediante as suas organizações e seus profissionais próprios, garantirem essa defesa.
IHU On-Line – Outro projeto polêmico é a construção da hidrelétrica de Belo Monte, que, segundo estudos do Instituto Socioambiental (ISA), dependem das águas da bacia do Xingu. Como essa obra ameaça também as terras indígenas?
Antonio Brand – Tenho acompanhado as manifestações dos diversos setores que serão atingidos por essas obras, em especial, ribeirinhos, povos indígenas e ambientalistas, apoiados, inclusive, em exemplos de obras como a hidrelétrica de Balbina e outras. Há um conflito claro de interesses em jogo: de um lado, os beneficiários dessas obras, os grandes interesses da economia regional e global; e, de outro lado, os ribeirinhos, povos indígenas e demais segmentos pobres, na maior parte, totalmente excluídos ou incluídos marginalmente nos benefícios a serem gerados pelos empreendimentos. Para essas populações locais ficam, normalmente, apenas os impactos negativos. O que causa estranheza é que o Governo Lula siga, nesse ponto, os mesmos procedimentos autoritários dos governos anteriores. Havia uma expectativa de que o atual governo respeitasse e estabelecesse um diálogo sério não só em torno da questão ambiental, mas, também, com esses setores, sempre à margem e atropelados em seus direitos básicos. Mas, infelizmente, não é isso que verificamos.
IHU On-Line – Quais foram os principais avanços no processo de reconhecimento oficial das Terras Indígenas nos últimos 20 anos? A homologação de diversas TIs no final de 2009 representam que avanços para os indígenas?
Antonio Brand – Logicamente, que os povos indígenas, apoiados, inclusive, nas veementes afirmações do Lula candidato, esperavam muitíssimo mais do seu governo. As medidas relativas aos povos indígenas foram, sempre, tímidas, mantendo velhos vícios dos governos anteriores. Nesse sentido, as homologações feitas no final de 2009 são relevantes, mas, esperava-se muito mais. São resultados tímidos e que, inclusive, vêm sendo contestados pelo STF, nesse momento. Se o Governo Lula tivesse sido coerente com suas promessas, a questão das terras guarani teria que estar resolvida, mas a FUNAI e o próprio Governo Federal mostraram-se sempre indecisos, com clara intenção de seguir empurrando o caso para os próximos governos. E creio que é essa postura indefinida e indecisa, do Governo Federal, frente aos direitos dos Guarani que estimulou e segue estimulando, inclusive, as violências contra os índios. A enorme quantidade de medidas judiciais interpostas pelos pretensos proprietários de terra foram, também, de alguma forma, estimuladas por essa atitude indefinida. Ao invés de garantir as terras necessárias, o Governo Lula preferiu aumentar os recursos para políticas de cunho marcadamente assistencialista e que não resolvem os problemas a médio e longo prazo.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=29617
Para ler mais:
Povos indígenas do Mato Grosso do Sul: a luta está cada vez mais difícil. Entrevista especial com Antonio Brand
A dura luta dos Guarani no Mato Grosso do Sul pela demarcação da terra. Entrevista especial com Antonio Brand
”A sobrevivência cultural do povo Kaiowá-Guarani está em jogo no MS”. Entrevista especial com Egon Heck
Guarani-Kaiowá. Truculência e omissão. Entrevista especial com Iara Tatiana Bonin

Antonio Brand é graduado em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Tem mestrado e doutorado na mesma área, pela PUCRS. É, atualmente, professor da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, MS.  Confira a entrevista. Continue lendo… 'Povos Guaranis Kaiowá: Sempre em luta. Entrevista especial com Antonio Brand'»

Bookmark and Share

Itália: violência racial contra os imigrantes da África

Por racismoambiental, 12/01/2010 10:58
O surto de violência racial na Itália aviva o debate sobre os imigrantes
Já não há africanos à vista em Rosarno (Calábria, no sul da Itália). As escavadeiras demoliram ontem uma das fábricas abandonadas onde, há 20 anos, instalavam-se, durante meses, os temporários subsaarianos que colhiam tangerinas. A calma voltou ao povo depois que três dias de revolta, disparos e matilhas humanas. Resultou em cerca de 100 feridos, quatro deles graves (todos eles africanos) e o êxodo de aproximadamente 1.500 imigrantes. Agora, a Itália trata de digerir o sucedido.
A reportagem é de Miguel Mora e publicada pelo jornal El País, 11-01-2010. A tradução é de Vanessa Alves.
O final abrupto de uma convivência precária, baseada, há duas décadas, em uma relação de atroz desigualdade; a confirmação que, na Calábria, há mais máfia que Estado, e as imagens de violência racista vistas durante aproximadamente 72 horas envergonharam muitos italianos.
A solidariedade com os imigrantes abre passagem a partir de diferentes frentes, e depois da manifestação de condenação, o sábado em Roma, com um ferido, a ideia de uma greve geral de imigrantes vai tomando proporção através da Internet. A proposta é que se realize, no dia 1 de março, coincidindo com a que se organiza na França.
Mas, paradoxalmente, os fatos parecem ter conformado outros italianos. Ou, mais exatamente, a solução do problema. Alguns jornais, como Il Fatto, batizaram o exercício de “limpeza étnica” como o “primeiro ato eleitoral da Liga do Norte perante as eleições regionais de março”. A política firme e autoritária do ministro do Interior, Roberto Maroni, era ontem elogiada de forma unânime pelos meios da direita.
E, paradoxalmente, por muitos cidadãos do sul. Alguns dos vizinhos calabreses mais ativos na perseguição de africanos mostraram sua admiração pela Liga e por Maroni, quem atribuiu as desordens a anos de “excessiva tolerância”, assinalando com o dedo um centro-esquerda incapaz de distinguir-se frente à complexidade do fenômeno migratório.
Maroni foi criticado por quase legitimar a violência quando, em plena crise, deixou transpassar sua compreensão com os vizinhos rebelados. Antes que defender o direito ao trabalho dos imigrantes, o Governo preferiu escavar o problema de ordem pública e de higiene, desalojando todos os africanos, legais e não, até os centros de alojamento mais pertos, Bari e Crotone.
“Todos os ilegais serão expulsos”, prometeu ontem o ministro. Logo depois, seu gabinete anunciou que concederá a permissão de residência por motivos humanitários aos imigrantes feridos (alguns deles eram já asilados políticos).
Laura Boldrini, porta-voz do Alto Comissionado para Refugiados da ONU, lembrou que muitos africanos abandonaram Rosarno sem cobrar seus pagamentos. “Boa parte deles são legais e há muitos sob proteção internacional. Esperamos que o Estado lhes ajude a encontrar trabalho e não sigam abandonados na exploração e degradação”.
Se Rosarno ensinou algo, é que a católica e acolhedora Itália não se reconhece já a si mesma. Enquanto em Roma, o papa Bento XVI pedia “respeito” para os imigrantes e lembrava que “têm os mesmos direitos” que os demais, no povo, durante a missa, o pároco dom Pino foi mais longe: “Os descartamos. Se não temos a força de nos rebelar contra a injustiça e exercemos a violência contra os mais débeis, é melhor que não venhamos mais à igreja”.
Ao analisar os fatos, vários diários recorrem hoje a um símbolo da liberdade: Primo Levi, o cientista e escritor judeu que sobreviveu a Auschwitz. “Se estes são homens”, titula Barbara Spinelli seu artigo em La Stampa, enquanto La Repubblica publica o poema de Adriano Sofri “E agora decidam se este é um homem. O fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari, comenta a implicação da ‘Ndrangheta na violência racista e a exploração dos trabalhadores, e pergunta às autoridades: “Não sabiam de nada? Não sabiam que a colheita de fruta nessa terra se deixava a cargo de 20.000 imigrantes, a maioria sem papéis, administrados por capatazes e pagos por baixo dos panos? Não sabiam como viviam? Não tinham a obrigação de intervir?”.
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28864

De: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28864

O surto de violência racial na Itália aviva o debate sobre os imigrantes

Já não há africanos à vista em Rosarno (Calábria, no sul da Itália). As escavadeiras demoliram ontem uma das fábricas abandonadas onde, há 20 anos, instalavam-se, durante meses, os temporários subsaarianos que colhiam tangerinas. A calma voltou ao povo depois que três dias de revolta, disparos e matilhas humanas. Resultou em cerca de 100 feridos, quatro deles graves (todos eles africanos) e o êxodo de aproximadamente 1.500 imigrantes. Agora, a Itália trata de digerir o sucedido. A reportagem é de Miguel Mora e publicada pelo jornal El País, 11-01-2010. A tradução é de Vanessa Alves. Continue lendo… 'Itália: violência racial contra os imigrantes da África'»

Bookmark and Share

Utilizamos uma versão modificada do tema Panorama, criado por Themocracy