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	<title>Combate ao Racismo Ambiental &#187; globalização</title>
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	<description>Dedicado ao GT Combate ao Racismo Ambiental e às suas lutas</description>
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		<title>Mercado sem desenvolvimento: a causa da crise. Artigo inédito de Marx</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 13:53:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
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<!-- AddThis Button END -->O texto abaixo é um dos achados do projeto Mega – Marx-Engels GesamtAusgabe, que, a partir dos arquivos de Karl Marx, está organizando a sua imensa obra ainda inédita: 114 volumes, o último dos quais será publicado em 2020. Para entender em que mundo vivemos e viveremos, este artigo jamais lido do Capital, parece ter sido escrito hoje. O texto [...]]]></description>
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<!-- AddThis Button END --><p style="text-align: justify;"><em>O texto abaixo é um dos achados do projeto <strong>Mega – Marx-Engels GesamtAusgabe</strong>, que, a partir dos arquivos de <strong>Karl Marx</strong>, está organizando a sua imensa obra ainda inédita: 114 volumes, o último dos quais será publicado em 2020. Para entender em que mundo vivemos e viveremos, este artigo jamais lido do <strong>Capital</strong>, parece ter sido escrito hoje. O texto foi publicado no jornal La Republica, 08-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Eis o texto:</em></p>
<p style="text-align: justify;">A enorme quantidade e variedade de mercadorias disponíveis no mercado não dependem apenas da quantidade e da variedade de produtos, mas são, em parte, determinadas pela entidade da parte de produtos produzidos como mercadorias, que deverão, portanto, ser inseridos no mercado para a venda na qualidade de mercadorias.</p>
<p style="text-align: justify;">A grandeza dessa parte das mercadorias vai depender, por sua vez, do grau de desenvolvimento do modo de produção capitalista que produz os seus próprios produtos apenas como mercadorias, e do grau em que tal modo de produção domina em todas as esferas da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Deriva daí um grande desequilíbrio no intercâmbio entre países capitalistas desenvolvidos, como a <strong>Inglaterra</strong>, por exemplo, e países como a <strong>Índia </strong>ou a <strong>China</strong>. Esse desequilíbrio é uma das causas da crise.<span id="more-39263"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Causa totalmente negligenciada pelos burros que se contentam em estudar a fase do intercâmbio de um produto por outro produto e que esquecem que o produto não é, portanto, em caso algum, mercadoria intercambiável enquanto tal. Isso constitui também a pedra no sapato que leva os ingleses, dentre outros, a querer subverter o modo de produção tradicional existente na <strong>China</strong>, na <strong>Índia </strong>etc., para transformá-lo em uma produção de mercadorias e, em particular, em uma produção baseada na divisão internacional do trabalho (ou seja, na forma de produção capitalista).</p>
<p style="text-align: justify;">Eles conseguem, em parte, esse intento, por exemplo, quando prejudicam os fiadores de lã ou de algodão vendendo seus produtos a um preço inferior ou arruinar o seu modo de produção tradicional, que não é capaz de competir com o modo de produção capitalista ou com o modo capitalista de inserir as mercadorias no mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora o capital produtivo, por sua própria natureza, esteja disponível no mercado, isto é, oferecido à venda, o capitalista pode (por um período de tempo longo ou curto, de acordo com a natureza das mercadorias) mantê-lo longe do mercado se as condições não lhe forem favoráveis ou com o fim de especular, ou outro. O capitalista pode subtrair o capital produtivo do mercado das mercadorias, mas, em um momento posterior, será obrigado a reinseri-lo. Isso não tem efeitos sobre a definição do conceito, mas é importante para a observação da concorrência.</p>
<p style="text-align: justify;">A esfera da circulação das mercadorias, o mercado, é, enquanto tal, diferente  também fisicamente da esfera da produção, exatamente como são diferentes temporalmente o processo de circulação e o efetivo processo de produção. As mercadorias agora prontas ficam depositadas nos armazéns e nos depósitos dos capitalistas que as produziram (exceto no caso de serem vendidas diretamente), quase sempre só de modo passageiro, antes de serem expedidas para outros mercados.</p>
<p style="text-align: justify;">Para as mercadorias, trata-se de uma estação de preparação a partir da qual serão inseridas na efetiva esfera de circulação, exatamente como os fatores da produção disponíveis permanecem à espera, em uma fase preparatória, antes de serem transportados para o efetivo processo de produção.</p>
<p style="text-align: justify;">A distância física entre os mercados (considerados do ponto de vista da sua localização) e o lugar do processo de produção das mercadorias dentro de um mesmo país, e sucessivamente fora dele, constitui um elemento importante, porque é justamente a produção capitalista que faz com que, para uma boa parte dos seus produtos, o mercado seja constituído pelo mercado mundial. (As mercadorias também podem ser adquiridas para serem retiradas imediatamente do mercado, mas esse elemento deveria ser examinado em outros lugares, assim como a menção anterior às mercadorias que os produtores mantêm longe do mercado).</p>
<p style="text-align: justify;">Consequentemente, é preciso que o mercado se expanda continuamente. Além disso, em todas as esferas individuais da produção, todo capitalista produz de acordo com o capital que lhe é oferecido, independentemente do que fizerem os outros capitalistas. No entanto, não será o seu produto, mas sim o produto total do capital investido nessa particular esfera de produção que irá constituir o capital produtivo, que oferece à venda esta e qualquer outra esfera individual de produção.</p>
<p style="text-align: justify;">É um dado empírico que, embora a dilatação da produção capitalista leve a um incremento, a uma multiplicação do número de esferas de produção, ou seja, de esferas de investimento do capital, nos países de produção capitalista avançada, essa variação jamais mantêm o mesmo ritmo que o acúmulo do próprio capital.</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.ihu.unisinos.br/noticias/505640-mercado-sem-desenvolvimento-a-causa-da-crise-artigo-inedito-de-karl-marx</p>
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		<title>Longo, mas imperdível: &#8220;A ordem criminosa do mundo&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 19:42:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
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<!-- AddThis Button END -->Em novembro de 2008, a TVE (Espanha) exibiu um documentário intitulado “A ordem criminosa do mundo”. Nele, Eduardo Galeano, Jean Ziegler e outras personalidades mundiais falam sobre a transformação da ordem capitalista mundial em um esquema mortífero e criminoso para milhões de pessoas em todo o mundo. Mais de três anos depois, o documentário permanece [...]]]></description>
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<p style="text-align: justify;">Em novembro de 2008, a TVE (Espanha) exibiu um documentário intitulado “A ordem criminosa do mundo”. Nele, Eduardo Galeano, Jean Ziegler e outras personalidades mundiais falam sobre a transformação da ordem capitalista mundial em um esquema mortífero e criminoso para milhões de pessoas em todo o mundo. Mais de três anos depois, o documentário permanece mais atual do que nunca, com alguns traços antecipatórios da crise que viria atingir em cheio também a Europa. Reproduzimos aqui o vídeo, legendado em português, e algumas das principais afirmações de Galeano e Ziegler:<span id="more-38398"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis. Não estão submetidos a nenhum controle social, sindical, parlamentar. São homens nas sombras que procuram o governo do mundo. Atrás dos Estados, atrás das organizações internacionais, há um governo oligárquico, de muito poucas pessoas, mas que exercem um controle social sobre a humanidade, como jamais Papa algum, Imperador ou Rei teve”. (Jean Ziegler)</p>
<p style="text-align: justify;">“O atual sistema universal de poder converteu o mundo num manicômio e num matadouro” (Eduardo Galeano).</p>
<p style="text-align: justify;">“<strong>A globalização é uma grande mentira”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: Vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é de uma economia de arquipélagos que a globalização criou” (Jean Ziegler).</p>
<p style="text-align: justify;">“Há três organizações muito poderosas que regulam os acontecimentos econômicos: Banco Mundial, FMI e OMC; são os bombeiros piromaníacos. Elas são, fundamentalmente, organizações mercenárias da oligarquia do capital financeiro invisível mundial” (Jean Ziegler).</p>
<p style="text-align: justify;">“Eu não creio que se possa lutar contra a pobreza e criar uma estratégia de luta contra a pobreza sem lutar contra a riqueza, contra os ricos, pois os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres” (José Collado, Missionário em Níger).</p>
<p style="text-align: justify;">“Todos os dias neste planeta, segundo a FAO, 100 mil pessoas morrem de fome ou por causa de suas consequências imediatas” (Jean Ziegler).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“O dicionário também foi assassinado”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">“Hoje as torturas são chamadas de &#8216;procedimento legal&#8217;, a traição se chama &#8216;realismo&#8217;, o oportunismo se chama &#8216;pragmatismo&#8217;, o imperialismo se chama &#8216;globalização&#8217; e as vítimas do imperialismo, &#8216;países em vias de desenvolvimento&#8217;. O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem, ou não sabemos o que dizem” (Eduardo Galeano).</p>
<p style="text-align: justify;">“Se hoje eu digo que faz falta uma rebelião, uma revolução, um desmoronamento, uma mudança total desta ordem mortífera e absurda do mundo, simplesmente estou sendo fiel á tradição mais íntima, mais sagrada da nossa civilização ocidental. O nosso dever primordial hoje deve ser reconquistar a mentalidade simbólica e dizer que a ordem mundial, tal como está, é criminosa. Ela é frontalmente contrária aos direitos do homem e aos textos fundacionais das nossas civilizações ocidentais” (Jean Ziegler).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">“A primeira coisa que devemos fazer é olhar para a situação de frente e não considerar como normal e natural a destruição, por exemplo, de 36 milhões de pessoas por culpa da fome e da desnutrição. Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta. De nenhum modo devemos permitir que as grandes organizações de comunicação nos intimidem, nem as fábricas das teorias neoliberais das grandes corporações, pois todas as corporações se ocupam, primeiro, de controlar as consciências, de controlar como podem a imprensa e o debate público” (Jean Ziegler).</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19319</p>
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		<title>Uma esquerda à medida do ser humano. Artigo de Alain Touraine</title>
		<link>http://racismoambiental.net.br/2012/01/uma-esquerda-a-medida-do-ser-humano-artigo-de-alain-touraine/</link>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 16:08:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[concepção de mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crítica ao capitalismo]]></category>
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<!-- AddThis Button END -->A globalização destruiu todas as instituições sociais. O fundamento dos juízos e da ação se torna apenas moral. Por isso, afirma o sociólogo francês Alain Touraine, &#8220;é preciso se ocupar da vida concreta dos indivíduos&#8221; O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 21-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Eis o texto. O teorema [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<!-- AddThis Button BEGIN -->
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<!-- AddThis Button END --><p style="text-align: justify;">A globalização destruiu todas as instituições sociais. O fundamento dos  juízos e da ação se torna apenas moral. Por isso, afirma o sociólogo  francês <strong>Alain Touraine</strong>, &#8220;é preciso se ocupar da vida concreta dos indivíduos&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">O artigo foi publicado no jornal <strong>La Repubblica</strong>, 21-12-2011. A tradução é de <strong>Moisés Sbardelotto</strong>. Eis o texto.</p>
<p style="text-align: justify;">O  teorema há muito tempo aceito segundo o qual o centro da vida social é o  sistema econômico, ou seja, a estreita correspondência das categorias  da vida econômica com as da vida social, não é mais aceitável. A  economia se separou da vida social: esse é o significado mais profundo  da globalização. O mundo das instituições sociais, políticas e jurídicas  está ruindo. A construção de juízos sociais não pode mais ter outros  fundamentais senão morais.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual é o lugar do trabalho na vida  individual e coletiva: esse é o tema que melhor define o espírito de uma  concepção &#8220;moral&#8221; da vida social; a união de uma política desse tipo  com a repressão das condições econômicas ilegais transformaria de modo  fundamental a vida social de todos. Seria preciso atribuir muito mais  importância do que atribuímos hoje a todos os problemas que se referem  às minorias de todos os tipos, quer se trate dos muito jovens, quer dos  idosos, quer dos deficientes ou das minorias culturais, linguísticas,  sexuais, religiosas ou outras ainda.<span id="more-38356"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O problema é que estamos  acostumados a ouvir a direita falar a linguagem da moral, e a esquerda, a  das relações de poder e da luta do lucro contra os assalariados. Mas  ainda é possível ouvir esse discurso quando a especulação reina em toda  parte e quando vemos a impossibilidade de reconstruir a economia? E  quando, no vazio ou na fraqueza dos discursos feitos por partidos e  governos de esquerda, as vozes que ouvimos e que representam mais  ativamente a esquerda são, ao contrário, cheias de indignação, de apelos  à justiça, de reivindicação do acesso real – e não apenas legal – à  satisfação das necessidades mais fortemente sentidas – não é claro que  os temas &#8220;morais&#8221; mobilizam mais do que os estritamente econômicos?</p>
<p style="text-align: justify;">Não  existe mais esquerda senão aquela que toma a palavra ou dela se  apodera, como já haviam feito os movimentos pioneiros dos anos 1960,  sobretudo nos <strong>Estados Unidos </strong>e na <strong>França</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esquerda  ou direita são, acima de tudo, concepções da sociedade, definições do  Bem a ser defendido e do Mal a ser combatido. A esquerda ou a direita  também podem ser definidas em nível social do ponto de vista das  categorias sociais às quais pertencem os eleitores ou os simpatizantes,  mas o que está em jogo e a natureza do conflito não podem mais ser  definidos em termos sociais. Não são mais os agricultores pobres ou os  operários da grande indústria que constituem a esquerda. Vemos isso  todos os dias, mais ou menos claramente, dependendo do país que  observamos e das categorias que analisamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas precisamos  identificar as novas categorias que compartilham a visão recém-evocada.  Precisamos localizar nos principais âmbitos da vida social – produção,  distribuição, finanças, educação, saúde, ocupação do território,  política cultural etc. – as escolhas que permitem colocar a direita e a  esquerda e contrapor uma a outra, tarefa imensa, mas que ao menos é  indispensável começar a realizar.</p>
<p style="text-align: justify;">O elemento de definição que vem  primeiro à mente é que a direita pensa em termos de objetos e de  relações entre objetos, e que define os atores por meio das suas  situações objetivas. Chama ainda mais a atenção, portanto, que essa  tentativa tenha sido, em um passado já distante identificado com a  esquerda. O que impõe que se rompa com as ideologias que sobrevivem às  realidades históricas que elas tentaram interpretar. O que define, ao  contrário, a esquerda, é que ela pensa e age em termos de direitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O  populismo de direita, que lamenta as deploráveis condições da infância,  dos pobres, das mulheres e dos presos, sempre existiu. Mas o pensamento  e a ação só se tornam de esquerda quando o pensamento se interroga  sobre as razões da desigualdade, ou da dependência e da violência,  buscando nas vítimas os possíveis protagonistas de vontade e desejo de  ação.</p>
<p style="text-align: justify;">O setor em que é mais fácil definir a esquerda é o juízo  expresso sobre os direitos e sobre a situação das mulheres; talvez  porque os progressos rumo à paridade entre homens e mulheres são tão  lentos, quando não totalmente ausentes. As nossas sociedades ainda são,  nesse contexto, de direita, em imensa maioria. Se o que melhor define a  esquerda é o juízo sobre a condição da mulher, a direita se define  melhor pela importância atribuída à identidade, que se traduz no medo  das minorias, sobretudo as de recente formação. As políticas da  identidade são políticas de direita. O que não significa que algumas  orientações de esquerda não possam se identificar com um ideal nacional  ou religioso, o que é obviamente inegável.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o caminho que é  preciso seguir para dar um conteúdo real às ideias de direita e de  esquerda. Só quando um grande número de indivíduos, de grupos e de  organizações se compromete com decisão em tais tarefas podemos nos  preocupar com os problemas de organização política. Com isso, certamente  não se quer defender que devamos recomeçar do zero, mas sim que a  construção de uma tendência política deve acertar as contas com uma  herança de partido que é um obstáculo, mais do que uma ajuda, ao  desenvolvimento de novas ideias, de novas práticas, de novas  mobilizações.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir nossa reflexão contemporânea, essas são as  interrogações que deveremos continuar nos pondo: em quais os pontos  decisivos a esquerda e a direita se opõem? E quais diferenças devem  existir entre as formas de ação política e das pessoas de direita e das  pessoas de esquerda?</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.ihu.unisinos.br/noticias/505317-uma-esquerda-a-medida-do-ser-humano-artigo-de-alain-touraine</p>
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		<title>Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina e Revista Margem Esquerda: lançamento hoje</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 16:31:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Direito ao Conhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[crítica ao capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>
		<category><![CDATA[neoliberalismo]]></category>

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<p>Em seu novo livro, Martins cumpre a difícil tarefa de atualizar as teorias sobre os conceitos-chave do título, essenciais para o pensamento contemporâneo e a compreensão das sociedades, principalmente as periféricas. Em uma época de grandes incertezas e uma enorme aceleração do tempo histórico, o autor se propõe o desafio de captar o movimento de crescente articulação entre o global e as particularidades regionais, nacionais e locais, e de choques entre forças sociais, políticas e ideológicas.</p>
<p><strong></strong> <strong>23/11 | às 18h30 | Universidade Federal do Rio de Janeiro (RJ)</strong><br />
Salão nobre do IFCS  -  Largo de São Francisco, 01, 2 andar &#8211; Centro</p>
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		<title>11/11/11: Dia Mundial de Protesto &#8211; socializando convite à mobilização</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 14:18:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[cultura e tradições]]></category>
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<!-- AddThis Button END --><p style="text-align: justify;"><em>Car@s amig@s,</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Pela primeira vez na historia da humanidade, um movimento de protesto mundial está eclodindo.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Este movimento é múltiplo, e as características do descontentamento são várias, conforme a região, a cultura, a realidade local. No entanto, todos os indignados de nosso belo planeta reclamam uma mesma coisa: dignidade. Frente a uma globalização desenfreada e ao poder das finanças, cada povo tem suas próprias reinvendicações, que afinal são </em><em>a mesma: respeito pela vida !</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não se trata de um bando de utopistas imaturos, mas de seres humanos conscientes das ameaças que o nosso sistema socio-economico mundial criou contra a vida. A vida do nosso planeta, as nossas vidas.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Numa hora em que o povo boliviano conseguiu vencer com coragem e determinação uma luta incerta contra o Golias da economia imposta por uma minoria absoluta; na hora em que os povos do Xingu tomaram uma atitude firme e corajosa contra a destruição de suas vidas; na hora em que milhares de pessoas estão clamando contra as injustiças e o autoritarismo, não podemos ficar de braços cruzados.<span id="more-32173"></span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A nossa luta em favor dos interesses de nossa região se enquadra perfeitamente dentro destas reivindicações mundiais. Temos motivos para protestar e no dia 11/11/11 devemos pressionar o “poder” para ser escutados.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vejo várias razões para isto:</em></p>
<ol style="text-align: justify;">
<li><em>Não protestar no dia 11/11/11 seria confessar que não temos motivos para protestar, o que, evidentemente, é um absurdo.</em></li>
<li><em>Para evitar a construção do Porto Sul, para resgatar a dignidade dos povos, indígenas ou não, devemos nos opor à lógica que permite tais exações.</em></li>
<li><em>Protestar no dia 11/11/11 nos dará a possibilidade de começar a construir o que sabemos bom para nossa região. Sem essa participação no dia mundial de protesto, ficaremos de fora de um eventual (mas altamente possível) processo de construção de uma sociedade mais justa.</em></li>
<li><em>Protestar no dia 11/11/11 é reafirmar nosso engajamento na vida pública, é resgatar o artigo 1 da Constituição federal brasileira: “Todo o poder emana do povo”.</em></li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><em>Devemos seguir o magnifico exemplo dos povos do Xingu e exigir ser ouvidos, respeitados e levados em consideração. A democracia é, antes de tudo, a possibilidade de expressar convicções e o direito de ser escutado com respeito.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Eu proponho que começamos a organizar este dia de protesto.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Creio que este movimento pode, e deve, reunir todos aqueles que lutam por uma vida digna : os povos indígenas espoliados e desrespeitados, os atingidos pela Bamim, os esquecidos de um poder “público” corrupto e a serviço do capital, os que têm projetos para nossa região, a sociedade civil organizada&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Esta diversidade é importante na medida em que a vida e a democracia são diversidade.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Estamos vivendo momentos que, de uma maneira ou outra, representam um marco na história humana. Depois deste despertar das consciências, as coisas não podem continuar sem mudar. Não se pode mais voltar atrás e esquecer este grito lançado pelos numerosos indignados do planeta.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Devemos desde já começar a construir para que o nosso mundo seja verdadeiramente nosso e de nossos filhos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A<strong> humanidade</strong> deve se tornar uma &#8220;<strong>irmandade&#8221;</strong>.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Um abraço a tod@s,</em><br />
<em> Stéphan.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="mailto:stephanbry@hotmail.com">stephanbry@hotmail.com</a><em><br />
</em></p>
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		<title>Conferências do Estoril 2011 &#8211; Mia Couto: &#8220;O medo&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Oct 2011 18:29:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crítica ao capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[fundamentalismos]]></category>
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<!-- AddThis Button END -->Enviada por Maria Esmeralda Forte.]]></description>
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<p>Enviada por Maria Esmeralda Forte.</p>
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		<title>Marc Augé: &#8220;A globalização é uma uma nova forma de colonização&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 18:35:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[colonização]]></category>
		<category><![CDATA[crítica ao capitalismo]]></category>
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<!-- AddThis Button END -->Autor de estudos sobre o modo como as percepções de tempo e espaço se alteraram no mundo contemporâneo, o antropólogo francês Marc Augé reflete sobre essas mudanças em uma entrevista especial. &#8220;A distância entre ricos e pobres é cada vez mais importante, e a mesma coisa ocorre com o acesso ao conhecimento e à ciência. [...]]]></description>
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<p style="text-align: justify;"><em>Autor de estudos sobre o modo como as percepções de tempo e espaço se alteraram no mundo contemporâneo, o antropólogo francês Marc Augé reflete sobre essas mudanças em uma entrevista especial. &#8220;A distância entre ricos e pobres é cada vez mais importante, e a mesma coisa ocorre com o acesso ao conhecimento e à ciência. Eu diria que a globalização não difere muito da colonização. Vivemos um tipo de colonização anônima ou multinacional. A globalização nos emparelhou&#8221; afirma.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Eduardo Febbro &#8211; Correspondente da Carta Maior em Paris</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 1980, o antropólogo francês Marc Augé propõe uma observação e um relato inédito de um mundo contemporâneo em plena velocidade. Da África à América Latina, do mundo ocidental a uma travessia pelo Jardim de Luxemburgo, uma viagem etnográfica pelo Metrô de Paris ou um ensaio brilhante sobre a bicicleta e o território de autonomia e intimidade que nos oferece, Augé explorou quase todos os recantos da modernidade sem nunca perder de vista o objeto central de seus trabalhos, a saber, os outros, o próximo, o indivíduo.</p>
<p style="text-align: justify;">A originalidade de Marc Augé se inscreve inclusive no lugar de seus encontros. Autor de um delicioso ensaio sobre a impossibilidade de viajar – « A viagem impossível » &#8211; e o consequente automatismo que consiste em não viajar por territórios novos, mas sim por lugares consagrados e codificados, o autor francês fixou o local da entrevista em uma estação de trens, a Gare d’Austerlitz. Um lugar de observação privilegiado, situado perto de sua casa, na esquina de um McDonald’s em frente do qual está a entrada do Museu de História Natural de Paris. Uma conjunção urbana perfeita para um intelectual que tem explorado como poucos as noções de tempo e espaço e cujas reflexões precederam o advento de uma modernidade onde o tempo se tornou instantâneo através da velocidade dos intercâmbios e o espaço se estreitou com a catarata de imagens.<span id="more-30716"></span></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, como assinala Augé nesta entrevista, a instantaneidade e a profusão de imagems não fizeram mais do que criar confusão e mais solidão. Promotor da ideia de andar de bicicleta como forma de recuperar o controle individual da noção de tempo e espaço, agudo descobridor dos « não lugares », inventor do conceito de « etno-ficção », Augé disseca nesta entrevista a realidade de um mundo enfermo de imagens, iludido com um conhecimento de miragens. O antropólogo não propõe nenhuma ideologia de substituição, mas sim uma lúcida viagem pela modernidade, com todos seus escândalos e seus acertos passageiros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Muitos analistas vêm evocando há cerca de dez anos a existência de uma espécie de mal estar generalizado em quase todas as sociedades humanas. Qual é, para você, a origem dessa estranha sensação planetária ?</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Creio que o grande mal estar provém da mudança de escala. Quando refletimos sobre o contexto de qualquer acontecimento, esse se situa em escala planetária. Isso leva a que, mesmo em acontecimentos pequenos, o mundo inteiro esteja em questão. Também somos conscientes de que o capitalismo conseguiu sua internacionalização. Estamos encerrados no sistema, e não só no do mercado. As referências locais são insuficientes, os indivíduos são mais individuais, mas ou são consumidores ou são excluídos do consumo. Essa situação provoca uma certa vertigem e, sob certos ângulos, uma vertigem metafísica. Creio, então, que a instalação do sistema planetário nos faz sofrer.</p>
<p style="text-align: justify;">Poderíamos ter uma percepção gloriosa disso tudo e afirmar que todos os seres humanos são irmãos, ou celebrar a humanidade e a universlidade. Mas estamos longe de tudo isso por duas razões : a primeira é porque essas mudanças ocorrem sob o signo da economia ; a segunda, porque as transformações provocam resistências que, frequentemente, são opacas e um pouco loucas. Vemos, por exemplo, o desencadeamento dos fundamentalismos mais radicais. Alguém pode se perguntar até onde é preciso olhar para encontrar algo alentador.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Há algo ao mesmo tempo nefasto e tentador na instantaneidade com a qual funciona o mundo. Em um de seus livros, &#8220;As formas do esquecimento&#8221;, você coloca o esquecimento como condição para saborear o presente e o instante, para recuperar o que as formas atuais da instantaneidade nos retiram.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A instantaneidade é hoje a consigna do mundo. Paul Virilio descreveu muito bem esta ubiquidade da instantaneidade. Mas eu me refiro a outro instante, a um instante mais íntimo, o instante da relação conosco mesmo, o instante do encontro com os outros, com um olhar, uma paisagem, uma ideia. Não há identidade individual ou coletiva que possa ser construída sem o outro. A solidão absoluta é impensável. O itinerário do indivíduo passa pelo encontro com os demais. Por isso, quando evoco o instante, é por oposição a tudo o que está marcado pelo passado. Temos uma tendência a encontrar a explicação de todos os fenômenos no passado, seja na perspectiva marxista ou analítica. É claro que não se pode negar a importãncia do passado na construção individual e coletiva, mas eu diria que os momentos de criação são os momentos que conseguem escapar dessa gravidade. Para mim, o instante é justamente isso, um momento no qual o tempo muda de registro, há um tempo que circula, mas que não depende do que pesa sobre ele. Um instante sem culpabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Você escreveu certa vez que bastava ampliar a distância para que os piores erros se apaguem. No entanto, hoje a distância se estreitou e os horrores se apagam do mesmo modo. A proximidade não nos redime do esquecimento.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, está certo, há um efeito duplo. Quando escrevi isso pensava nesses pilotos de avião que lançam bombas. Para eles, o dano causado era abstrato. Hoje basta ligar a televisão para ver cadáveres em abundância. Mas, de certo modo, o que torna as coisas abstratas é o acúmulo. A visão de proximidade da televisão produz o mesmo efeito que a distância. Creio que não nos damos conta do que ocorre, da gravidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Você diria que o relato por meio da imagem nos desumanizou ?</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">De certa forma sim. A imagem é a melhor e a pior das coisas. Estamos orgulhosos porque a imagem nos aproxima de tudo. No entanto, ao mesmo tempo que nos aproxima ela nos distancia. A imagem também tem outro efeito perverso: ela causa a ilusão de que conhecemos porque nos permite reconhecer. Mas o reconhecimento não é o conhecimento. É um jogo perverso, é a ignorância que desconhece a si mesma.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Em seu último livro você faz uma assombrosa recomendação: «Devemos escapar do pesadelo mítico»</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Com isso me refiro à fórmula de Walter Benjamin quando conta que, no fundo, a aparição do relato organizado, dos contos onde o pequeno triunfa diante do grande ou do ogro, tudo isso desfaz o impacto dos relatos míticos onde as bruxas devoram os homens e outros horrores mais. O pesadelo mítico são os mitos originais, as cosmogonias, as cosmologias e toda uma panóplia de mitos horríveis e caóticos. Benjamin pensava que a narrativa era uma forma de afastar-se desses horrores. O pesadelo mítico sempre se relaciona com a indistinção, a indistinção entre o bem e o mal, entre os sexos, entre as distintas gerações, etc, etc. Podemos nos perguntar, então, se não há um risco de uma nova indistinção a partir da abundância de imagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abundância nos remete a um tipo de ameaça mítica. É preciso ter cuidado. Devemos ter formas narrativas capazes de colocar a imagem à distância para que ela seja apenas o que é, ou seja, uma ilustração e não uma realidade. Os progressos tecnológicos nos levam a tomar a imagem como algo real. O pensamento escrito é muito mais articulado e é isso precisamente o que precisamos : um pensamento articulado frente à enxurrada de imagens. A escritura aporta outra coisa. No entanto, também é lícito interrogar-se sobre a noção de escritura dado que o inimigo se instalou nesse campo. Basta abrir a internet para dar-se conta de que quase tudo que circula ali é oralidade primitiva, primária.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A internet também é, para você, uma espécie de ilusão.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Sim. Acreditamos que a internet é um fim em si mesmo, e isso é uma ilusão. Acredita-se que basta ingressar nesse universo para pertencer à comunidade dos comunicantes. Isso é ilusório. Não pertencemos a coisa alguma. Falava a pouco da ilusão do conhecimento. Com a internet ocorre algo similar. Em nosso computador, temos toda a ilusão do mundo, mas esse conhecimento só é útil para aqueles que já sabem algo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Parece que o mundo moderno é uma sinfonia de ilusões. Você sugere, por exemplo, que a própria ideia de comunidade é ilusória.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Há palavras por trás das quais já não se colocam conceitos. Essas palavras funcionam como códigos para passar. Quando dizemos cultura, quando dizemos diferença, quando dizemos comunidade, eu me pergunto : de que estamos falando ? Por exemplo, quando se diz « sociedade multicultural » não sei do que está se falando. Trabalhei durante um tempo em uma localidade muito pequena da Costa do Marfim. Ali havia uma multiplicidade de grupos com culturas diferentes. Suas referências eram distintas e seus idiomas também. Em cada cultura, cada indivíduo tem uma relação diferente e desigual com essa cultura. A multiplicidade da referência cultural é enorme.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando falamos de sociedades multiculturais estamos nos referindo à coexistência de culturas no sentido mais impreciso, mais opaco. O que são a cultura africana ou a cultura asiática senão um conjunto de lugares comuns que não dizem grande coisa ? A noção de multiculturalismo é abstrata. Em resumo, cada vez que falamos de coletividade estamos recorrendo à linguagem da ilusão. Coloquemos as coisas ao contrário. Seria preciso dar voltas a partir do indivíduo, que é nossa única referência concreta. Não se trata de uma sociologia do egoísmo ou do egocentrismo. Não há indivíduo sem relação. Por isso de pode estudar a elaboração das relações entre os indivíduos.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso está no coração da democracia, a qual deve fixar a maneira pela qual nos relacionamos com o outro. A soberania do indivíduo está limitada pelo fato de que ele não está sozinho. A solidão absoluta conduz à loucura. O mesmo ocorre com a totalidade imposta, que também conduz á loucura. O papel da democracia deveria consistir em elaborar um compromisso para conciliar a individualidade e a alteridade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Você introduz um conceito hiper moderno em sua definição dos blocos do mundo. Tomando como base o famoso artigo de Francis Fukuyama no qual, com o triunfo da democracia liberal, Fukuyama promoveu a ideia do fim da história, você escreveu que isso conduziu ao esfriamento do Ocidente.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, eu estava me referindo à ideia de Claude Levis-Strauss sobre as sociedades frias e as sociedades quentes. Quando se afirma que a história terminou então passamos para o lado frio. A ideia sobre o fim da história não significa que os acontecimentos acabaram, mas sim que a fórmula, a receita, foi encontrada: ou seja, mercado liberal e democracia representativa. Mas essa ideia enfrenta muitas objeções. A primeira: o mercado liberal se dá muito bem com regimes ditatoriais. Isso significa que a liberalização dos mercados, a liberdade dos intercâmbios, não garantem o advento da democracia. Há um paradoxo no postulado do fim da história: é uma espécie de marxismo ao contrário. É a ideia de que a organização da produção desemboca em formas sociais. Creio que esse foi o último grande relato que conhecemos.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda objeção é que não nos dirigimos para um mundo de desigualdades reforçadas. A ascensão de alguns estados, os chamados países emergentes, alimenta a ilusão de que o mundo caminha na direção de mais igualdade. É certo que há países emergentes, mas assim como entre os países desenvolvidos, entre os emergentes se constatam fenômenos de desigualdade crescente. A distância entre ricos e pobres é cada vez mais importante, e a mesma coisa ocorre com o acesso ao conhecimento e à ciência. Eu diria que a globalização não difere muito da colonização. Vivemos um tipo de colonização anônima ou multinacional. A globalização nos emparelhou.</p>
<p style="text-align: justify;">O Terceiro Mundo tem problemas que não são muito distintos dos problemas do Ocidente, por exemplo, no que diz respeito à migração. Os migrantes já não vão só do Sul ao Norte, mas também do Sul para o Sul. No Ocidente, há uma tradição de arrogância que não encontramos no Sul, mas não estou seguro de que os problemas sejam fundamentalmente distintos. A globalização criou as mesmas problemáticas em todas as partes. Não acredito que seja oportuno fazer a apologia do Ocidente ou questioná-lo. O questionamento do Ocidente permite às ditaduras locais fabricarem uma virtude por conta própria. Sou mais universalista, creio que todos compartilhamos o horror.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Há, de fato, uma tecno-oligarquia e uma oligarquia financeira que colonizaram o mundo ?</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, e cada vez mais nos dirigimos para esse modelo de oligarquias. Em alguns lugares do mundo vemos uma concentração muito forte de poder, conhecimento e riqueza. Há então uma classe oligárquica sob a qual encontramos uma classe de consumidores – sem eles o sistema não funciona – e depois vem os excluídos, essas classes que não são necessárias para que a máquina funcione. Esse esquema exclui todo modelo de revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que uma revolução ocorra hoje ela deveria se situar em escala planetária. Conservamos uma ideia mítica da Revolução Francesa que também cometeu horrores. Mas conservamos também a ideia de que a Revolução Francesa foi feita em nome de princípios. Hoje já não sabemos quais são os princípios. O que está em jogo é enorme : transformar o planeta em um lugar onde todos os seres humanos se reconheçam é um desafio formidável. Mas a história não funciona assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Recordo o livro que você escreveu sobre a bicicleta, no qual aponta que andar de bicicleta é uma espécie de novo humanismo. Deveríamos todos andar de bicicleta para recuperar um pouco de humanidade ? Já não é muito tarde frente o avanço da globalização, a pobreza, a especulação, o vazio planetário das imagens ?</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A experiência da bicicleta me permitiu destacar que tudo está relacionado com o tempo e o espaço. Neste sentido, a bicicleta corresponde à necessária dimensão individual. Quando estamos sentados na frente de nossos computadores estamos mergulhados em um universo fictício de instantaneidade e ubiquidade. Se temos trabalho estamos asfixiados pela maneira como está concebido fora de nós, e se não temos trabalho estamos aplastados como indivíduos. Há uma espécie de totalitarismo liberal muito pesado. Então, o que podemos fazer ? Em escala individual, creio que o único meio de escapar à ilusão é ter sua própria relação com o tempo e o espaço. A bicicleta é um bom instrumento: nos remete à infância, à velhice, nos remete à noção das distâncias que é preciso percorrer, ao controle etc, etc. Quero deixar claro que não acredito que seja possível mudar o mundo por meio da reforma individual e da bicicleta. Como mortais, estamos todos condenados à utopia. Ainda não acabamos de redefinir a finitude do ser humano, a materialidade do espírito e o futuro de história.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tradução: Marco Aurélio Weissheimer</em></p>
<p style="text-align: justify;">http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18681&amp;boletim_id=1026&amp;componente_id=16471<a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18681&amp;boletim_id=1026&amp;componente_id=16471"></a><em><br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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		<title>O difícil parto de um novo paradigma, por Cândido Grzybowski*</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Oct 2011 12:59:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crise estrutural]]></category>
		<category><![CDATA[crítica ao capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Estado regulador]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>

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<!-- AddThis Button END --><p style="text-align: justify;">A crise que nos ronda e que parece sem saída tem nos mercados livres e desregulados, particularmente financeiros, o seu epicentro e sua causa principal. Tudo se fez para liberar o mercado e dar curso à globalização, profundamente injusta e ambientalmente devastadora. Liberalização das economias, desregulação e redução do papel do Estado e das políticas, flexibilização de direitos. Ou seja, todas as barreiras foram enfrentadas para deixar o capital construir o mundo sem entraves, um mundo todo a ser moldado segundo suas demandas de acumulação de riquezas, com desigualdade e destruição sem precedentes na história. O resultado está aí: o mundo todo ameaçado pela crise financeira e todas as outras crises que ele chamou a si e as potencializou.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento, como por um milagre, a imprensa toda parece unânime no pedido de retomada da intervenção forte do Estado… Para que a crise não seja maior. Depois de pregar pela liberdade para a economia diante da política, os arautos do neoliberalismo clamam por mais política. Só que a política foi destruída, destituída de bases para ser o necessário contraponto da economia. Hoje, certos conglomerados econômico-financeiros são bem maiores do que países. Quem tem poder para regulá-los?</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, a finança domina a política, mesmo pedindo socorro a ela. Até aqui, de 2008 para cá, o que mais os Estados fizeram foi resgatar bancos, evitando que a sua falência levasse de roldão o sistema todo. Bilhões e mais bilhões foram gastos e o resultado mais notável foi transferir o problema dos bancos para os próprios Estados ou, melhor, para a cidadania que os mantém. Hoje, como o exemplo da Europa mostra, a crise é de Estados com dívidas insolventes, tudo para salvar bancos, os mesmos bancos em apuros até ontem, hoje árbitros dos próprios Estados.<span id="more-30600"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Quem são as agências de avaliação de risco, referência da saúde financeira de bancos, empresas e países inteiros? Quem lhe deu tal poder? O incrível é que tais agências estão acima de tudo. São uma espécie de agências privadas controladoras do cassino financeiro que controla o jogo. Nenhum Parlamento no mundo, nenhuma organização multilateral tem mais poder. De fato, estamos vivendo as mazelas da ditadura dos mercados financeiros, que tudo dobram aos seus ditames, a seu jogo sujo de um cassino que foge a qualquer regulação política.</p>
<p style="text-align: justify;">Pior, alguns que ganham muito assim acham isto o melhor do mundo. Em recente entrevista na BBC, em 22 de setembro passado, o operador de mercados Alessio Rastani foi taxativo: “Vou confessar, sonho diariamente com um nova recessão. Se você tem o plano certo, pode fazer muito dinheiro com isso”. E disse mais: “Não ligamos muito como vão consertar a economia. Nosso trabalho é ganhar dinheiro com isso”. O consolo é que os neoliberais assumidos publicamente são muito poucos hoje em dia. O clamor dominante é por regulação dos Estados. Mas como?</p>
<p style="text-align: justify;">Não é por nada que surge de dentro das entranhas das sociedades uma forma nova de protesto, que aponta para o inaceitável de tudo que aí está. Talvez o melhor exemplo seja dos “indignados”. Trata-se de movimentos que contestam o domínio absoluto do capital financeiro sobre nossas vidas e, também, contestam a institucionalidade política como poder capaz e legítimo de regulá-lo. A indignação pode ir do vandalismo a la londrina ao movimento organizado dos estudantes do Chile. Nisto tudo, é muito simbólico que surja nos EUA um movimento de mesmo tipo, já se fazendo notar e provocando reações. Estamos diante de um mundo novo?</p>
<p style="text-align: justify;">O importante a assinalar é que sempre a nova política surge da cidadania e sempre ela é de forma surpreendente, porque inovadora. Movimentos transformadores começam por deslegitimar o que está constituído, tornando tudo velho. Penso que estamos no limiar de grandes movimentos renovadores da política, condição para a renovação do próprio papel dos Estados, os grandes ausentes na crise de múltiplas facetas que vivemos. Mas o processo será lento e não necessariamente tem em si as soluções.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que o mundo da globalização neoliberal produziu um mundo interdependente, ao menos no nível da consciência humana – seu lado bom –, mas não foi capaz de gestar uma nova forma de poder interdependente, do local ao mundial e do mundo até onde vivemos concretamente, como cidadãos e cidadãs, com endereço e trabalho certo na crosta do planeta Terra. Falta muito para se gestar uma nova “ordem” de compromisso entre todas e todos os envolvidos, a condição indispensável para um outro mundo, da igualdade na diversidade, no bem viver no respeito da integridade da vida e do próprio planeta. Ainda o cassino financeiro fará muitos estragos. Também as elites agarradas a Estados Nacionais tentarão preservar seus toscos privilégios soberanos por muito tempo. Vivemos uma era de turbulências sem solução à vista.</p>
<p style="text-align: justify;">*Sociólogo, diretor do Ibase.</p>
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		<title>Carta Política do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 15:04:12 +0000</pubDate>
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<!-- AddThis Button END -->Um excelente documento do ponto de vista político/econômico. Pena que, num momento em que indígenas e quilombolas estão sendo ameaçados e assassinados Brasil afora, e seus direitos constitucionais estão sendo questionados no STF e no Congresso, eles não tenham sido nominados. E que a palavra racismo apareça apenas uma vez, em meio a outras, sem [...]]]></description>
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<!-- AddThis Button END --><p><img class="alignright" src="http://dialogoseconvergencias.org/articles/0010/1722/final.jpg?1317389668" alt="Final" width="405" height="304" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #b90404;">Um excelente documento do ponto de vista político/econômico. Pena que, num momento em que indígenas e quilombolas estão sendo ameaçados e assassinados Brasil afora, e seus direitos constitucionais estão sendo questionados no STF e no Congresso, eles não tenham sido nominados. E que a palavra racismo apareça apenas uma vez, em meio a outras, sem a merecida centralidade. TP.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Somos 300 cidadãos e cidadãs brasileiras integrados à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), à Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), à Associação Brasileira de Pós Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), ao Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), ao Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), à Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), à Rede Alerta contra o Deserto Verde (RADV), à Marcha Mundial de Mulheres e à Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em reunião na cidade de Salvador-BA, entre os dias 26 a 29 de setembro de 2011, durante o <em>Encontro Nacional de Diálogos e Convergências entre Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar, Economia Solidária e Feminismo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Nosso encontro resulta de um longo e fecundo processo de preparação motivado pela identificação e sistematização de casos emblemáticos que expressam as variadas formas de resistência das camadas populares em suas diferentes expressões socioculturais e sua capacidade de gerar propostas alternativas ao modelo de desenvolvimento hegemônico em nosso país. Vindos de todas as regiões do país, esses casos iluminaram nossos debates durante esses três dias e fundamentam a manifestação política que apresentamos nesta carta.<span id="more-29536"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ao alimentar esse padrão de desenvolvimento, o governo Dilma inviabiliza a justa prioridade que atribuiu ao combate à miséria em nosso país. Tendo como eixo estruturante o crescimento econômico pela via da exportação de commodities, esse padrão gera efeitos perversos que se alastram em cadeia sobre a nossa sociedade. No mundo rural, a expressão mais visível da implantação dessa lógica econômica é a expropriação das populações de seus meios e modos de vida, acentuando os níveis de degradação ambiental, da pobreza e da dependência desse importante segmento da sociedade a políticas sociais compensatórias. Esse modelo que se faz presente desde o início de nossa formação histórica ganhou forte impulso nas últimas décadas com o alinhamento dos seguidos governos aos projetos expansivos do capital internacional. Materialmente, ele se ancora na expansão do agronegócio e em grandes projetos de infraestrutura implantados para favorecer a extração e o escoamento de riquezas naturais para os mercados globais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os casos emblemáticos que subsidiaram nossos diálogos demonstram a essência violenta desse modelo que viola o “direito de ficar”, desterritorializando as populações, o que significa subtrair delas a terra de trabalho, o livre acesso aos recursos naturais, suas formas de organização econômica e suas identidades socioculturais. Os movimentos massivos de migração compulsória daí decorrentes estão na raiz de um padrão de distribuição demográfica insustentável e que cada vez mais converte as cidades em polos de concentração da pobreza, ao passo que o mundo rural vai se desenhando como um cenário de ocupação do capital e de seu projeto de uma agricultura sem agricultoras e agricultores.</p>
<p style="text-align: justify;">A progressiva deterioração da saúde coletiva é o indicador mais significativo das contradições de um modelo que alça o Brasil a uma das principais economias mundiais ao mesmo tempo em que depende da manutenção e seguida expansão de políticas de combate à fome e à desnutrição. Constatamos também que esse modelo se estrutura e acentua as desigualdades de gênero, de geração, de raça e etnia.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossas análises convergiram para a constatação de que os maiores beneficiários e principais indutores desse modelo são corporações transnacionais do grande capital agroindustrial e financeiro. Apesar de seus crescentes investimentos em marqueting social e verde, essas corporações já não conseguem ocultar suas responsabilidades na produção de uma crise de sustentabilidade planetária que atinge inclusive os países mais desenvolvidos e que se manifesta em desequilíbrios sistêmicos expressos no crescimento do desemprego estrutural, na acentuação da pobreza e da fome, nas mudanças climáticas, na crise energética e na degradação acelerada dos recursos do ambiente.</p>
<p style="text-align: justify;">As experiências mobilizadas pelas redes aqui em diálogo denunciam as raízes perversas desse modelo ao mesmo tempo em que contestam radicalmente as falsas soluções à crise planetária que vêm sendo apregoadas pelos seus agentes promotores e principais beneficiários. Ao se constituírem como expressões locais de resistência, essas experiências apontam também caminhos para a construção de uma sociedade justa, democrática e sustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">A multiplicação dessas iniciativas de defesa de territórios, promoção da justiça ambiental e de denúncia dos conflitos socioambientais estão na raiz do recrudescimento da violência no campo que assistimos nos últimos anos. O assassinato de nossos companheiros e companheiras nessas frentes de luta é o mais cruel e doloroso tributo que o agronegócio e outras expressões do capital impõem aos militantes do povo e ao conjunto da sociedade com suas práticas criminosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos diálogos procuraram construir convergências em torno de temas que mobilizam as práticas de resistência e de afirmação de alternativas para a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Os diálogos sobre <strong>reforma agrária, direitos territoriais e justiça ambiental </strong>responsabilizaram o Estado face ao quadro de violência com assassinatos, expulsão e deslocamentos compulsórios de populações pela ação dos grandes projetos como as hidrelétricas, expansão das monoculturas e o crescimento da mineração; a incorporação de áreas de produção de agrocombustíveis, reduzindo a produção de alimentos; a pressão sobre as populações que ocupam tradicionalmente áreas de florestas, ribeirinhas e litorâneas, como os mangues, os territórios da pesca artesanal, com a desestruturação de seus meios de vida e ameaça ao acesso à água e à soberania alimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">As convergências se voltaram para a reafirmação da centralidade da luta pela terra, pela reforma agrária e pela garantia dos direitos territoriais das populações. O direito à terra está indissociado da valorização das diferentes formas de viver e produzir nos territórios, reconhecendo a contribuição que povos e populações tradicionais oferecem à conservação dos ecossistemas; do reconhecimento dos recursos ambientais como bens coletivos para o presente e o futuro; e os direitos das populações do campo e da cidade a uma proteção ambiental equânime. Convergimos ainda na afirmação de que o direito à terra e os direitos à água, à soberania alimentar e à saúde estão fortemente associados.</p>
<p style="text-align: justify;">Reconhecemos a importância da mobilização em apoio ao Movimento Xingu para sempre &#8211; em defesa da vida e do Rio Xingu, considerado como um exemplo emblemático de luta de resistência ao atual modelo de desenvolvimento. Defendemos o fortalecimento da articulação dos atingidos pela empresa Vale e as propostas que combinem a gestão ambiental com a produção agroecológica, a exemplos de experiências inovadoras dos movimentos sociais em assentamentos da Reforma Agrária.</p>
<p style="text-align: justify;">No debate sobre <strong>mudanças climáticas, seus impactos, mecanismos de mercado e a agroecologia como alternativa</strong>, recusamos que a proposta agroecológica seja apropriada como mecanismo de compensação, seja ele no invisível e inseguro mercado de carbono, seja em REDD, REDD+, REDD++ (redução das emissões por desmatamento e degradação) ou ainda dentro do pagamento de serviços ambientais. A Rio +20 engendra e consolida a chamada “economia verde”, que pode significar uma apropriação, pelo capitalismo, das alternativas construídas pela agricultura familiar e camponesa e pela economia solidária, reduzindo a crise socioambiental a um problema de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">A Agroecologia não é uma simples prestadora de serviços, contratualizada com setor privado. Ela reúne nossas convergências no campo e na cidade, trabalhando com gente como fundamento. É possível financiar a Agroecologia a partir da contaminação, escravidão, racismo e acumulação cada vez maior do capital? É possível fazer um enfrentamento a partir do pagamento de serviços ambientais por contratos privados, parcerias público-privadas?</p>
<p style="text-align: justify;">Ao debater os <strong>impactos da expansão dos monocultivos para agrocombustíveis e padrões alternativos de produção e uso de energia no mundo rural</strong>, os diálogos apontaram que a energia é estratégica como elemento de poder e autonomia dos povos, mas está diretamente ligada ao modelo (hegemônico e falido) de consumo, produção e distribuição. A produção de agrocombustiveis, baseada na monocultura, na destruição do ambiente, na violação dos direitos e injustiças sociais e ambientais, associa-se ao agronegócio e ameaça a soberania alimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">As políticas públicas sistematicamente desvirtuam as propostas calcadas nas experiências populares, colocando as cooperativas e iniciativas da agricultura familiar na lógica da competição de mercado e em patamar desigual em relação às corporações, tal qual ocorre nas áreas de geração de energia elétrica, segurança alimentar, ciência e tecnologia ou mesmo da economia solidaria.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas políticas para os agrocombustiveis, a agricultura familiar é inserida como mera fornecedora de matérias primas e o modelo de integração é dominante, mascarando o arrendamento e assalariamento do campesinato e embutindo o pacote tecnológico da revolução verde através das políticas de crédito, assistência técnica e extensão rural. O diálogo do governo com os movimentos sociais se precariza pela setorização e atomização das relações, enquanto a mistura de interesses e operações entre MDA e Petrobrás acaba por legitimar o canal de negociação empresarial no marco de uma política pública.</p>
<p style="text-align: justify;">As experiências de produção descentralizada de energia e alimentos apontam como soluções reais aquelas articuladas por organizações e movimentos sociais que integram as perspectivas da agroecologia, da soberania alimentar e energética, da economia solidária, do feminismo e da justiça social e ambiental, e são baseadas na forte identidade territorial e prévia organização das comunidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Estas iniciativas têm em comum a diversificação da produção e dos mercados e a prioridade no uso dos recursos, dos saberes e dos espaços de comercialização locais. Estão sob o controle dos agricultores e têm autonomia frente às empresas e ao Estado. Articulam-se a programas e políticas públicas diversas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), não apenas ao Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). Os processos de transformação estão sob o domínio das organizações em toda a cadeia produtiva, e há diversificação da produção de alimentos e de matriz energética e co-produtos, para além e como conseqüência da produção de combustível. As formas de produção estão em rede e têm capacidade de se contrapor aos sistemas convencionais como premissa de sua permanência no território.</p>
<p style="text-align: justify;">Com base nestes princípios e lições, as políticas públicas para a promoção da produção de energia e alimentos devem ter: um marco legal diferenciado para a agricultura familiar; promover a produção e uso diversificado de óleos, seus co-produtos e outras culturas, adequadas à diversidade cultural e biológica regional; atender à demanda de adequação e desenvolvimento de tecnologia e equipamentos apropriados, acompanhada de processos de formação e de redes de inovação nas universidades; além de proporcionar autonomia na distribuição e consumo local de óleos vegetais, biodiesel e álcool.</p>
<p style="text-align: justify;">Os diálogos sobre os <strong>agrotóxicos e transgênicos, articulando as visões da justiça ambiental, saúde ambiental e promoção da agroecologia</strong>, responsabilizaram o Estado pelas políticas de ocultamento de seus impactos expressas nas dificuldades de acesso aos dados oficiais de consumo de agrotóxicos e de laudos técnicos sobre casos de contaminação; na liberação de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) sem debate democrático com a sociedade e sem atender ao princípio da precaução; na frágil vigilância e fiscalização trabalhista, ambiental e sanitária; na dificuldade do acesso aos laboratórios públicos para análise de amostras de contaminação por transgênicos e por agrotóxicos no ar, água, alimentos e sangue; terminando por promover um modelo de desenvolvimento para o campo que concentra terra, riqueza e renda, com impactos diretos nas populações mais vulneráveis em termos socioambientais.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um chamamento para que o Estado se comprometa com a apuração das denúncias e investigação dos crimes, a exemplo do assassinato do líder comunitário José Maria da Chapada do Apodi, no Ceará; com a defesa de pesquisadores criminalizados por visibilizar os impactos dos agrotóxicos e por produzir conhecimentos compartilhados com os movimentos sociais; com políticas públicas que potencializem a transição agroecológica – facilitando o acesso ao crédito, à assistência técnica adequada e que reconheça os conhecimentos e práticas agroecológicas das comunidades camponesas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há possibilidade de convivência entre o modelo do agronegócio e o modelo da agroecologia no mesmo território, porque o desmatamento e as pulverizações de agrotóxicos geram desequilíbrios nos ecossistemas afetando diretamente as unidades agroecológicas. As políticas públicas devem estar atentas aos impactos dos agrotóxicos sobre as mulheres (abortos, leite materno, etc.) pois estas estão expostas de diferentes formas, que vão desde o trabalho nas lavouras até o momento da lavagem da roupa dos que utilizam os agrotóxicos. O uso seguro dos agrotóxicos e transgênicos é um mito e um paradigma que precisa ser desconstruído.</p>
<p style="text-align: justify;">É fundamental a convergência de nossas ações com a Campanha Nacional Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, ampliando os diálogos e convergências com os movimentos sociais do campo e da cidade, agregando novas redes que não estiveram presentes nesse Encontro de Diálogos e Convergências. Temos que denunciar esse modelo do agronegócio para o mundo e buscar superá-lo por meio de políticas públicas que possam inibir o uso de agrotóxicos e transgênicos, a exemplo da proibição da pulverização aérea, ou ainda direcionando os recursos oriundos dos impostos dos agrotóxicos, cuja produção e comercialização é vergonhosamente subsidiada pelo Estado. O fim dos subsídios contribuiria para financiar o SUS e a agroecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Com relação aos <strong>direitos dos agricultores, povos e comunidades tradicionais ao livre uso da biodiversidade</strong>, constatamos que está em curso, nos territórios, um processo de privatização da terra e da biodiversidade manejada pela produção familiar e camponesa, povos e comunidades tradicionais. Tal privatização é aprofundada pela flexibilização do Código Florestal, que é uma grande ameaça e abre caminhos para um processo brutal de destruição ambiental e apropriação de terra e territórios pelo agronegócio.</p>
<p style="text-align: justify;">A privatização das sementes e mudas, dos conhecimentos tradicionais e dos diversos componentes da biodiversidade vem se dando de forma acelerada, com o Estado cumprindo um papel decisivo na mediação (regulamentação e políticas públicas) dos contratos estabelecidos entre empresas e comunidades, representando sérios riscos aos direitos ao livre uso da biodiversidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Causa grande preocupação que as questões nacionais sobre conservação e uso da biodiversidade estejam sendo discutidas e encaminhadas sem a participação efetiva das populações diretamente atingidas, estando sujeitas a agendas internacionais como a Rio +20. Consideramos uma violação a atual forma de “consulta” sobre importantes instrumentos legais e de política concentrada em poucos atores e de questionável representatividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Experiências presentes neste encontro demonstram avanços e se fortalecem a partir da legitimidade de suas práticas e aproveitando as brechas existentes na legislação. Este é o caso, por exemplo, dos bancos comunitários de sementes no semiárido; da produção de sementes agroecológicas a partir de variedades de domínio público; da auto-regulação dos conhecimentos tradicionais sobre as plantas medicinais do Cerrado; da constituição de um fundo público das quebradeiras de coco babaçu através da repartição de benefícios que reconhece o conhecimento tradicional associado.</p>
<p style="text-align: justify;">É necessário aprofundar a organização das agricultoras e dos agricultores, extrativistas, povos e comunidades tradicionais em seus territórios, de forma a fortalecer os princípios e ações de cooperativismo e suas interlocuções com as redes regionais, estaduais e nacionais como estratégia de resistência e construção de alternativas. A geração de alternativas econômicas é crucial neste contexto. A apropriação do debate em torno dos direitos pode facilitar e fortalecer o diálogo de nossas redes e movimentos com a sociedade civil de modo geral, de modo a visibilizar a importância dos modos de vida destas comunidades para a garantia de direitos humanos, como o direito à alimentação adequada e saudável.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos diálogos sobre <strong>Soberania Alimentar e Nutricional, Economia Solidária e Agroecologia</strong>, as experiências apontaram o grande acúmulo na construção de alternativas ao atual modelo agroalimentar, que garantam, de forma articulada, a soberania alimentar e nutricional, a emancipação econômica dos trabalhadores e trabalhadoras nos territórios, em especial as mulheres, a promoção da saúde pública e a preservação ambiental. Constatou-se que estas iniciativas contribuem com a construção concreta e material de propostas diferenciadas de desenvolvimento, calcadas nas realidades, cultura e autonomia dos sujeitos dos territórios e orientadas para a justiça socioambiental, a democracia econômica e o direito à alimentação adequada.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes acúmulos se expressam através da existência e resistência de dezenas de milhares de empreendimentos e iniciativas de Economia Solidária e Agroecologia, especialmente quando articuladas e organizadas em redes e circuitos de produção, comercialização e consumo, que aproximam produtores e consumidores e fortalecem a economia e cultura locais, num enfrentamento à desterritorialização e desigualdades de gênero, raça e etnia inerentes ao atual padrão hegemônico de produção e distribuição agroalimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Constatou-se que os programas de alimentação escolar (PNAE) e de aquisição de alimentos (PAA), assim como o reconhecimento constitucional do direito à alimentação e a implantação do Sistema e Política de Segurança Alimentar e Nutricional, são conquistas importantes para a agricultura familiar e camponesa. Por outro lado, de forma paradoxal, o Estado tem apoiado fortemente o agronegócio, através da subordinação de sua ação a interesses do capital, e da falta de um horizonte e estratégia definidos de expansão do orçamento do PAA e do PNAE.</p>
<p style="text-align: justify;">As vivências e experiências denunciam também a grande quantidade de barreiras ao acesso das iniciativas e empreendimentos de Economia Solidária e Agroecologia a políticas públicas e ao mercado. Tais barreiras se expressam em uma legislação e inspeção sanitárias e tributárias incompatíveis às realidades das/dos produtoras/es e trabalhadoras/es associadas/os, em especial no processamento e agroindustrialização de polpas, doces e alimentos de origem animal. Estas barreiras, somadas à burocratização na aquisição da Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP) e a uma ofensiva de setores empresariais que têm denunciado à ANVISA empreendimentos produtivos assim que estes começam a se fortalecer, têm impedido o escoamento da produção dentro e fora do município e o acesso ao PAA e ao PNAE. O direito à organização do trabalho e da produção de forma associada só existirá com a conquista de garantias e condições legislativas, tributárias e de financiamento que sejam justas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os diálogos apontaram também a luta pelo consumo responsável, solidário e consciente como um campo importante de convergência entre as redes e movimentos e como um desdobramento concreto deste Encontro, através da construção conjunta de um diálogo pedagógico com a sociedade, tanto denunciando os impactos e danos dos alimentos vindos do agronegócio e contaminados com agrotóxicos, o que exige a regulação da publicidade de alimentos, quanto anunciando as alternativas disponíveis na Agroecologia e na Economia Solidária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em busca de novos caminhos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os exercícios de diálogos que estamos realizando há dois anos e os excelentes resultados a que chegamos em nosso encontro reiteram a necessidade de fortalecermos nossas alianças estratégicas e renovarmos nossos métodos de ação convergente. As experiências que ancoraram nossas reflexões deixam claro que os temas que identificam as bandeiras de nossas redes e movimentos integram-se nas lutas do cotidiano que se desenvolvem nos campos e nas cidades contra os mecanismos de expropriação impostos pelo capital e em defesa dos territórios. Evidenciam, assim, a necessidade de intensificarmos e multiplicarmos as práticas de diálogos e convergências desde o âmbito local, onde as disputas territoriais materializam-se na forma de conflitos socioambientais, com impacto na saúde das populações, até níveis regionais, nacionais e internacionais, fundamentais para que as causas estruturais do atual modelo hegemônico sejam transformadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A natureza local e diversificada de nossas lutas vem até hoje facilitando as estratégias de sua invisibilização pelos setores hegemônicos e beneficiários do modelo. Esse fato nos indica a necessidade de atuarmos de forma articulada, incorporando formas criativas de denúncia, promovendo a visibilidade dos conflitos e das proposições que emergem das experiências populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das linhas estratégicas para a promoção dos diálogos e convergências é a produção e disseminação de conhecimento sobre as trajetórias históricas de disputas territoriais e suas atuais manifestações. Nesse sentido, as alianças com o mundo acadêmico devem ser reforçadas também como parte de uma estratégia de reorientação das instituições do Estado, no sentido destas reforçarem as lutas pela justiça social e ambiental. Estimulamos a elaboração e uso de mapas que expressem as diferentes dimensões das lutas territoriais pelos seus protagonistas como uma estratégia de visibilização e articulação entre nossas redes e movimentos. O Intermapas já é uma expressão material das convergências.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra linha estratégica fundamenta-se em nossa afirmação de que a comunicação é um direito das pessoas e dos povos. Reafirmamos a importância, a necessidade e a obrigação de nos comunicarmos para tornar visíveis nossas realidades, nossas pautas e nosso projeto de desenvolvimento para o país. A mudança do marco regulatório da mídia é condição para a democratização dos meios de comunicação. Repudiamos as posturas de criminalização e as formas de representação que a mídia hegemônica adota ao abordar os territórios, modos de vida e lutas. Contestamos a produção da invisibilidade nesses meios de comunicação. O Estado deve se comprometer a financiar nossas mídias, inclusive para que possamos ampliar projetos de formação de comunicadores e de estruturação dos nossos próprios veículos de comunicação. As mídias públicas devem ser veículos para comunicar aprendizados de nossas experiências, proposições e campanhas. Por uma comunicação livre, democrática, comunitária, igualitária, plural e que defenda a vida acima do lucro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos diálogos convergem também para a necessidade do reconhecimento das mulheres como sujeito político, a importância de sua auto-organização e a centralidade do questionamento da divisão sexual do trabalho que desvaloriza e separa trabalho das mulheres em relação ao dos homens, assim negando a contribuição econômica da atividade doméstica de cuidados e a produção para o autoconsumo. Convergimos na compreensão do sentido crítico do pensamento e ação feministas para ressignificar e ampliar o sentido do trabalho e sua centralidade para a produção do viver.</p>
<p style="text-align: justify;">A apropriação do feminismo como ferramenta política contribuirá para recuperar e visibilizar as experiências, os conhecimentos e as práticas das mulheres na construção da agroecologia, da economia solidária, da justiça ambiental e para garantir sua autonomia econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a história também mostra que o permanente exercício da violência dos homens contra as mulheres é um poderoso instrumento de dominação e controle patriarcal que fere a dignidade das mulheres e impede a conquista de sua autonomia, e as exclui dos espaços de poder e decisão. A violência contra as mulheres não é agroecológica, não é solidaria, não é sustentável, não é justa. Por isso é fundamental que as redes que estão organizando o Encontro Nacional de Diálogos e Convergências assumam a erradicação da violência contra as mulheres como parte de um novo modelo de produção e consumo, que deve ter como um eixo fundamental a construção de novas relações humanas baseadas na igualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O papel do Estado democrático é o de construir um país de cidadãos e cidadãs, promover e defender a organização da sociedade civil e de estabelecer com ela relações que permitam à sociedade reconhecer nas instituições a expressão do compromisso com o público e com a sustentabilidade. Esse princípio é contraditório com qualquer prática de criminalização dos movimentos e organizações que lutam por direitos civis de acesso soberano aos territórios e seus recursos.</p>
<p style="text-align: justify;">As redes e movimentos promotores deste Encontro saem fortalecidos e têm ampliadas suas capacidades de expressão pública e ação política. Estamos apenas no início de um processo que se desdobrará em <strong><em>ambientes de diálogos e convergências</em></strong> que se organizarão a partir dos territórios, o lugar onde nossas lutas se integram na prática.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Salvador, 29 de setembro de 2011.</em><strong><br />
</strong></p>
<div style="text-align: justify;">Enviada por Marcelo Firpo. http://dialogoseconvergencias.org/</div>
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		<title>Como ter saúde em um planeta doente?</title>
		<link>http://racismoambiental.net.br/2011/09/como-ter-saude-em-um-planeta-doente/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 Sep 2011 18:07:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Racismo Ambiental]]></category>
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<!-- AddThis Button END --><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;A Terra está agonizando&#8230; a sua doença é causada,</em> <em>sobretudo, pelos maus-tratos dados pela humanidade”.<strong> </strong></em>(James Lovelock)</p>
<p style="text-align: justify;">Marcus Eduardo de Oliveira*</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dias de hoje, a pergunta que mais preocupa todos aqueles que desejam obter qualidade de vida é: como ter saúde em um planeta doente?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como foi que o planeta ficou &#8220;doente”? Pelo menos desde o Neolítico (12.000 anos a. C.) as sociedades têm consumido num ritmo voraz e de forma crescente tudo aquilo que conhecemos por recursos da natureza. Acontece que esse consumo, desde então, tem sido agressivo, nada amistoso. Nesse ritmo avassalador, busca-se a todo e qualquer custo crescimento econômico, pois isso é erroneamente entendido como sendo sinônimo de progresso. Para obter isso, derrubam-se árvores, queimam-se florestas, polui-se o ar, a água e destroem-se os ecossistemas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há margem à dúvida que a atividade econômica tem sido extremamente agressiva no que tange a extrair recursos, levar ao processo produtivo e, pós-consumo final, soltar resíduos, comprometendo, grosso modo, a capacidade do planeta Terra em lidar com essa situação. Em outras palavras, isso pode ser traduzido como sendo a era da &#8220;economia destrutiva”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em nome então do propagado crescimento econômico - como se não houvesse limites &#8211; o mundo moderno fecha os olhos a uma questão primordial: não leva em conta que a biosfera é finita, limitada e hermeticamente fechada. Qualquer tentativa de extrapolar isso gera pesados passivos ambientais.<span id="more-29001"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Conquanto, do outro lado da moeda, o mercado pressiona e exige crescimento num mundo que está cada vez mais insustentável criando, dessa forma, um conflito irresponsável que põe a vida de todos em perigo.</p>
<p style="text-align: justify;">É a necessidade de crescimento econômico versus a capacidade da Terra em oferecer condições suportáveis para isso. É no meio desse conflito que nos encontramos e, a cada dia, mais e mais gente vai chegando. Descontadas as mortes, temos a cada dia 200 mil novas almas chegando ao mundo. Ao ano, são mais de 70 milhões de novos habitantes no planeta Terra que, cabe reiterar, não aumentará de tamanho. Em 1900, havia 1,5 bilhão de pessoas no mundo. Hoje, dividimos o MESMO espaço no planeta Terra com 6,7 bilhões de pessoas. E o consumo? Ah, esse não pára. Atualmente, apenas 20% da população mais rica do mundo utilizam ¾ dos recursos naturais, numa situação em que metade da população (3,3 bilhões) está na pobreza vegetando nos limites da sobrevivência, numa desigualdade sem precedentes, sem acesso à água potável e à alimentação adequada. É o consumo exagerado de um lado e, do outro, a escassez de bens que permite a manutenção da vida. Nesse conflito, os recursos se exaurem, o planeta adoece e a vida se degrada.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Era da Economia Destrutiva, Lester Brown (em Eco-Economia: Construindo uma economia para a Terra) nos relata que &#8220;na China os lençóis freáticos diminuem 1,5 metros ao ano. No mundo, as florestas estão encolhendo mais de 9 milhões de hectares ao ano. O gelo do Mar Ático, apenas nos últimos 40 anos, reduziu-se em mais de 40%”.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso da água pótavel, para ficarmos nesse exemplo, é gritante. É sabido que a quantidade de água doce disponível na Terra é de apenas 0,5% do total das águas, incluindo as calotas polares geladas. Devido à urbanização intensa, os desmatamentos e a contaminação por atividades industriais e agrícolas (bases do crescimento econômico sem limites), mesmo esta pequena quantidade de água está diminuindo, causando a desertificação progressiva da superfície da terra. O consumo de água, em consequência da urbanização, dobra a cada 20 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se centenas de milhões de pessoas carecem de acesso à água potável, por outro lado, continua o consumo de desperdício desse precioso líquido por parte dos mais afortunados que podem pagar pelo serviço. Vejamos que: enquanto regiões imensas na África, Ásia e América Latina carecem de recursos hídricos mínimos, nas regiões &#8220;desenvolvidas”, além do excesso de consumo, aumenta a poluição de rios, lagoas e lençóis freáticos e aqüíferos subterrâneos; tudo isso em nome do suposto crescimento econômico que parece, de fato, não encontrar freios à sua expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto lençóis freáticos caem assustadoramente de um lado, principalmente nas três maiores áreas produtoras de alimentos (China, Índia e EUA), do outro se queima florestas, expandem-se desertos e aumentam-se consideravelmente os níveis de dióxido de carbono. Os rios estão ficando às mínguas. O principal rio dos Estados Unidos (o Colorado) mal chega ao mar. O Nilo já apresenta enorme dificuldade em atingir o Mediterrâneo. Não obstante a isso, a economia continua sua sanha exploratória queimando petróleo, gás e carvão, derrubando e queimando florestas, contribuindo para o aquecimento global. Parece que o &#8220;sistema econômico” desconhece que esquentando o planeta, esquentam os mares e aumenta a evaporação das águas. Conclusão: O gelo dos polos vai derreter elevando o nível dos mares, alterando as correntes marítimas. O nome disso? Desastre ecológico!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A economia suicida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Alguns anos atrás, num esclarecedor e aterrorizante artigo intitulado &#8221;O Programa Suicida da Economia”, o ensaísta alemão Robert Kurtz alerta que as condições elementares da vida, como a água, o ar e a terra, estão expostos a um crescente processo de envenenamento. A camada protetora de ozônio na atmosfera é corroída. Diz Kurtz que &#8221;no Sul da Argentina e na Austrália, uma infinidade de ovelhas já pasta com cancros à mostra. Os desertos avançam dia a dia, e há prognósticos de que a guerra do século 21 terá como estopim o controle de mananciais hídricos”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Derretimento de calotas polares e savanização da Amazônia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">São as mudanças climáticas, manuseadas por mãos humanas, que faz adoecer gravemente o Planeta. Se tomarmos nota dos últimos dados apontados no Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) localizaremos, ao menos, três danos em decorrência das mudanças climáticas. Vejamos na íntegra:</p>
<p style="text-align: justify;">*Derretimento das geleiras eternas do topo de montes como Fuji, no Japão, e Kilimanjaro, na Tanzânia: os rios dos vales no entorno dos picos são alimentados pelo degelo da neve no verão. E seu volume está diminuindo, prejudicando a irrigação de culturas agrícolas e a produção industrial que depende da água.</p>
<p style="text-align: justify;">*Derretimento das calotas polares no sul e no norte: pedaços de gelo de água doce alteram a salinidade do mar, causando mudanças no clima e na cadeia alimentar. O urso polar, por exemplo, já tem dificuldade para achar comida.</p>
<p style="text-align: justify;">*Savanização da Amazônia: se a devastação continuar, por causa da pecuária, das fazendas de soja e da extração de madeira, e o clima esquentar, a floresta vai virar um cerrado (terreno plano, com trechos de seca). Com isso, várias espécies locais vão acabar. E, sem a força do &#8220;pulmão do planeta&#8221;, a emissão de gases poluentes ganhará força, prejudicando a Terra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os custos do transporte e a emissão de poluentes</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Catastrófico e preocupante também é o fato de que essa mudança climática acontece com voracidade no momento em que o processo de globalização se traduz (ao menos para seus defensores) como política capaz de levar progresso a todos. Na essência dos fatos, no entanto, não é isso (o progresso?) que vemos acontecer. Atentemos ao seguinte: Para abastecer as geladeiras do mundo moderno, fere-se a atmosfera numa escala crescente. Os exorbitantes custos do transporte de carros, caminhões, navios e aviões nesse &#8220;intercâmbio produtivo” para levar diversos produtos às geladeiras mais distantes não &#8220;se dá” conta de que é altamente emissor de poluentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A título de exemplo temos que apenas nos Estados Unidos circulam 80 veículos para cada 100 habitantes (aproximadamente 250 milhões); na Alemanha são 55 por 100 habitantes e índices semelhantes são encontrados em outros países desenvolvidos somando quase um bilhão de veículos a motor, hoje alimentados por petróleo cujos preços oscilam ao doce sabor das vontades dos chefões da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto às &#8220;viagens” dos produtos de um lugar para outro, em nome dessa globalização que pretende estreitar fronteiras, fiquemos com o exemplo de um frango congelado nos Estados Unidos que viaja, em média, 3.000 milhas antes de ser consumido. Na Alemanha, estudos realizados apontam que um pote de iogurte de morango produzido nesse país acumula 5 mil quilômetros de transporte. O leite vem do Norte da Alemanha, o morango vem da Áustria, o pote é francês e o rótulo vem da Polônia. A Noruega manda bacalhau para a China. As ervilhas consumidas na Europa são cultivadas e embaladas no Quênia. O kiwi, uma fruta natural da Nova Zelândia encontra mercado nos Estados Unidos que, por sua vez, a compram da Itália. Essa fruta nas mãos da empresa Sanifrutta, exportadora italiana, viaja por mar em contêineres refrigerados: 18 dias até os Estados Unidos, 28 dias até a África do Sul e mais de um mês para chegar de volta à Nova Zelândia. O Reino Unido vende anualmente 20 toneladas de água engarrafada para a Austrália. Esse mesmo Reino Unido consome uvas vindas da África do Sul, a erva-doce vem da Espanha e a abóbora, da Itália. As batatas Pringles, fabricadas pela Procter &amp; Gamble, por exemplo, atualmente são vendidas em mais de 180 países, apesar de serem fabricadas apenas em alguns poucos lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é simplesmente a &#8220;orgia do desperdício e do custo” em termos de poluição, especialmente o dióxido de carbono. Esse aparente &#8220;custo invisível” se &#8220;esconde” nas sombras dos menores custos produtivos e dos salários baixos, não importando a localidade para onde vai. O que conta nesse caso são os ganhos monetários em detrimento da própria sustentabilidade ambiental. É o planeta Terra que se ferra!!!</p>
<p style="text-align: justify;">Em nome do &#8220;progresso econômico” a poluição dá as caras e vai aos poucos ceifando vidas. Se tomarmos apenas os custos advindos da poluição notaremos que esses, apenas fora das fronteiras de uma cidade como São Paulo, conforme estudos do Laboratório de Poluição da USP (Universidade de São Paulo), consome a importância de R$ 14 por segundo (R$ 459,2 milhões anuais) para tratar seqüelas respiratórias e cardiovasculares de vítimas do excesso de partícula fina &#8211; poluente da fumaça do óleo diesel. Esse valor é dispensado por unidades de saúde públicas e privadas de seis regiões metropolitanas do país. O caso específico da cidade de São Paulo merece maior atenção. Todos os dias, 8,2 toneladas de poluentes são despejadas sobre a cidade. São mais de 3 milhões de toneladas/ano, 90% delas provenientes de veículos automotores. A pior parte vem dos motores movidos a diesel.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas seis regiões metropolitanas do país, esse quase meio milhão de reais gastos serve apenas para tratar de questões relativas à poluição advindas, em especial, do intenso trânsito (leia-se: congestionamento) nas grandes cidades que diariamente nos &#8220;brindam” com emissões de poluentes diversos e seus resultantes: Monóxido de Carbono (CO), que causa tonturas e dores de cabeça; Hidrocarbonetos (HC) que contribui para a irritação nos olhos, nariz, pele e parte do sistema respiratório; Óxido de Nitrogênio (NOx) com irritação e contrição das vias respiratórias e, Materiais Particulados (MP). Dito isso, prevalece a pergunta que dá título a esse artigo: Como ter saúde em um planeta doente?</p>
<p style="text-align: justify;">*Marcus Eduardo de Oliveira é economista brasileiro, especialista em Política Internacional. Articulista do site “O Economista”, do Portal EcoDebate e da Agência Zwela de Notícias (Angola).</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&amp;cod=60647</p>
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		<title>“Deem uma chance a Karl Marx!”</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 19:41:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[análise de conjuntura]]></category>
		<category><![CDATA[crise estrutural]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>

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<p style="text-align: justify;"><em>Consultor especial do maior banco suíço defende interpretações marxistas sobre a crise e propõe reversão completa das políticas de “austeridade”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Por George Magnus<br />
(Tradução: Daniela Frabasile e Cauê Seigner Ameni)</p>
<p style="text-align: justify;">Os dirigentes políticos que lutam para compreender o avalanche de pânico financeiro, os protestos e outros fatos que afligem o mundo deveriam estudar a obra de um economista morto há muito tempo: Karl Marx. Quem reconhecer que estamos frente a uma das grandes crises do capitalismo estará mais preparado para examinar seus detalhes e buscar as saídas.</p>
<p style="text-align: justify;">O espírito de Marx, que está enterrado em um cemitério perto de onde viveu, no norte de Londres, levantou-se da tumba devido à crise financeira e à recessão econômica posterior. A profunda análise do filósofo com mais conhecimentos sobre o capitalismo tem diversos defeitos, mas a economia global de hoje apresenta muitas misteriosas semelhanças com as condições previstas por ele.<span id="more-28481"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Consideremos, por exemplo, a predição de Marx, de que o conflito inerente entre o capital e o trabalho se manifestaria de modo aberto. Como escreveu em <em>O Capital, </em>a busca das empresas pelo lucro e pela produtividade diminui naturalmente a necessidade de trabalhadores, o que leva à criação de um “exército industrial de reserva” de pobres e desempregados: “o acúmulo da riqueza em um polo é, portanto, ao mesmo tempo um acúmulo de miséria”.</p>
<p style="text-align: justify;">O processo que Marx descreve é visível em todo o mundo desenvolvido, particularmente nos esforços das companhias norte-americanas para reduzir custos e evitar a contratação no país. A parcela da produção econômica apropriada pelas empresas, na forma de lucros corporativos, chegou ao nível mais alto em seis décadas. Enquanto isso, a taxa de desemprego subiu para 9,1% e os salários reais estão estagnados.</p>
<p style="text-align: justify;">A desigualdade de renda nos Estados Unidos chegou, por sua vez, a seu nível mais alto desde a década de 1920. Antes de 2008, a disparidade de renda foi obscurecida por fatores como o crédito fácil, que permitiu às famílias pobres desfrutar de um estilo de vida similar ao dos mais ricos. Agora, muitos já não têm uma casa para voltar e descansar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O paradoxo do excesso de produção</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx também apontou o paradoxo de um excesso de produção e de baixo consumo: quanto mais trabalhadores permaneçam relegados à pobreza, menos serão capazes de consumir todos os bens e serviços que as empresas produzem. Quando uma empresa reduz os custos para aumentar o lucro, está sendo esperta; mas quando todas as empresas fazem isso ao mesmo tempo, minam a distribuição da renda e a demanda efetiva dos que dependem dos salários.</p>
<p style="text-align: justify;">Este problema também é evidente no mundo desenvolvido de hoje. Temos uma capacidade substancial de produção. Porém, nas classes de baixa e média renda, encontramos uma insegurança financeira generalizada e baixas taxas de consumo. O resultado é visível nos Estados Unidos, onde a construção de novas habitações e as vendas de automóveis permanecem cerca de 75% e 30% abaixo de seus picos de 2006, respectivamente. Como dizia Marx em <em>O Capital</em>: “a razão última de todas as crises reais ainda é a pobreza e o consumo restrito das massas”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Diante da crise</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como enfrentar esta crise? Para colocar o espírito de Marx em ação, os dirigentes políticos devem ter como prioridade a criação de postos de trabalho, e considerar outras medidas pouco ortodoxas. A crise não é temporária, e certamente não vai se curar pela paixão ideológica dos governos pela austeridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis que existem cinco eixos principais de uma estratégia cujo tempo, infelizmente, ainda não chegou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, temos que sustentar o consumo e o crescimento da renda. Do contrário, cairemos em uma armadilha da dívida, com graves consequências sociais. Os governos que enfrentam uma crise iminente da dívida – incluindo Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido – deveriam fazer da criação de empregos uma prioridade política. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego está tão alta quanto na década de 1980. Os índices de subemprego encontram-se, em quase toda parte, em patamares não vistos antes. Redução de impostos pagos pelo empregador e a criação de incentivos fiscais para encorajar as empresas a investir e a contratar mais pessoal seriam um bom começo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Aliviar a carga</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, para aliviar a carda da divida das familias<strong>, </strong>as novas medidas devem permitir restruturar sua divida hipotecária, ou criar alguns mecanismos de adiamento dos débitos</p>
<p style="text-align: justify;">Em terceiro lugar, para melhorar a funcionalidade do sistema de crédito, os bancos bem capitalizados e estruturados devem permitir que o capital flua, para as pequenas empresas. Os governos e bancos centrais poderiam participar no gasto direto ou financiamento indireto dos investimentos em programas de infraestrutura.</p>
<p style="text-align: justify;">Em quarto lugar, para aliviar a carga da dívida dos países na zona euro, os credores europeus devem ampliar a redução da dívida da Grécia, e oferecer-lhe prazos de pagamento mais largos que os propostos recentemente. Se os eurobônus forem uma ponte longe demais, a Alemanha deve defender uma recapitalização urgente dos bancos, para ajudar a absorver as perdas inevitáveis através de um Fundo Europeu de Estabilidade Financeira muito ampliado. É uma condição <em>sine qua non </em>para resolver a crise do mercado de bônus lançados pelos Estados, pelo menos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Construção de defesas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em quinto lugar, para construir defesas contra o risco de cairmos na deflação e na estagnação, os bancos centrais deveriam olhar mais além dos programas de compra de títulos, e buscar, ao invés disso, um ritmo real de crescimento da produção econômica. Isso levaria a enfrentar, por certo período, uma inflação moderadamente alta, que poderia reduzir as taxas reais de juros a muito abaixo de zero e facilitar uma redução da carga da dívida.</p>
<p style="text-align: justify;">Não podemos saber os detalhes de como estas propostas poderiam funcionar, ou quais podem ser suas consequências. Porém, a política que sustenta o <em>status quo</em> é muito menos aceitável. Pode ser que os Estados Unidos vivam dificuldades mais graves que as do Japão nos anos 1990, e que a fratura da zona do euro tenha inesperadas consequências políticas. Em 2013, a crise do capitalismo ocidental poderia facilmente estender-se à China, mas isso é outra história.</p>
<p style="text-align: justify;">-<br />
<strong>George Magnus </strong>foi (1997-2004) economista-chefe da União de Bancos Suíços (UBS) e é, desde então, consultor senior desse banco</p>
<p style="text-align: justify;">(No blog de <em>Outras Palavras: </em><a href="http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/09/21/quando-os-banqueiros-ouvem-karl-marx/" target="_blank">quem é</a><a href="http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/09/21/quando-os-banqueiros-ouvem-karl-marx/" target="_blank"> George Magnus e por que seu texto é importante</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">http://www.outraspalavras.net/2011/09/21/deem-uma-chance-a-karl-marx/</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Rio+20: não deixemos passar a hora!</title>
		<link>http://racismoambiental.net.br/2011/09/rio20-nao-deixemos-passar-a-hora/</link>
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		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 12:47:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[concepção de mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crise estrutural]]></category>
		<category><![CDATA[crítica ao capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>
		<category><![CDATA[Rio+20]]></category>

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<p style="text-align: justify;"><em>A nascente cidadania planetária, em sua diversidade de identidades e vozes dissonantes, não tem nada a esperar da Rio+20. Precisamos acreditar na nossa capacidade de instituintes e constituintes, chamados a destampar contradições e fazer avançar a história em certos momentos.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Cândido Grzybowski*</p>
<p style="text-align: justify;">Isto é um grito de angústia e um apelo. Só a cidadania mobilizada e com propostas pode impedir um fracasso anunciado de mais uma conferência da ONU. A sustentabilidade da vida e do planeta depende de nós, cidadãs e cidadãos do mundo, que temos a Terra e suas diferentes formas de vida a compartir entre todos, hoje e com gerações futuras, respeitando a sua integridade. Devemos agir enquanto é tempo para mudar de rumo e evitar o pior em termos de destruição ambiental e impacto social do desenvolvimento atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos a menos de um ano da conferência Rio + 20, aqui no Rio de Janeiro, em começo de junho de 2012, e quase nada acontece. Nem parece que estamos diante do desafio incontornável de reverter um processo de desenvolvimento destrutivo da base natural da vida. Os nossos governantes estão mais preocupados com a queima de capital especulativo nas bolsas e a saúde dos bancos do que com as múltiplas crises em que a humanidade afunda: climática, alimentar, das condições de vida, da política e de valores éticos. Isso porque na atual estrutura de poder mundial, controlada pelos interesses das grandes corporações econômico-financeiras, pelos países desenvolvidos e pelos “emergentes”, não existe um real interesse político em mudar o que pode pôr em risco o “negócio do desenvolvimento”. Cidadãos e cidadãs indignados se insurgem contra tudo isso em várias partes do mundo, mas ainda não se deu a liga entre eles, a articulação que junta a diversidade num grande movimento irreversível.<span id="more-27439"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma crise da própria civilização capitalista industrial, com seu produtivismo e consumismo, movida pelo acumular de riqueza, crescendo sempre, sem limites. Nunca podemos esquecer que esta civilização, em que a riqueza de um povo é medida pelo ter sempre mais e mais bens, pela renda per capita, pela acumulação e pelo crescimento do PIB, foi feita a pau e fogo, literalmente, durante os últimos séculos da história humana. Conquista e colonização, com escravidão de povos inteiros, revolução industrial baseada no uso intenso de energia fóssil e matéria-prima, com destruição e poluição ambiental quase sem volta, gerando a crise climática, com extrema miséria e extrema riqueza. Imperialismos e guerras, mudando de mãos e territórios, foram se sucedendo na medida da necessidade para garantir a dominação de tal civilização, até hoje. Com a globalização capitalista das últimas décadas, ela virou referência para praticamente toda a humanidade. Pelo pior caminho criamos as condições para a emergência de uma comunidade planetária, interdependente. Falta-nos transformar tal fato em sonho coletivo, e vontade, em ação, na diversidade do que somos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio ao lixo e mais lixo, à convivência de abundância extrema com a miséria extrema, a civilização capitalista industrial produtivista e consumista exerce um fascínio enorme, conquistando corações e mentes quase sem fronteiras. O fato é que a economia e o poder que a sustentam, bem como o estilo de vida desta civilização, tem como pressupostos indispensáveis a dominação, o racismo e a discriminação, o machismo e a exclusão social, uma destruição ambiental que compromete a sustentabilidade da vida e do planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">Começa a surgir no seio das sociedades civis do mundo inteiro a consciência que assim não dá para continuar. Precisamos mudar já! Mas eticamente não dá para salvar o planeta e esquecer a humanidade. Como mudar conciliando a agenda da sustentabilidade da natureza e da vida com a justiça social? Eis a grande questão para a cidadania e a democracia, do local em que vivemos ao mundo todo, reconhecendo-nos como comunidade cidadã planetária, com direitos e responsabilidades compartidos, comungando valores de liberdade e igualdade, de solidariedade e participação democrática, valorizando nossa diversidade e interdependência.</p>
<p style="text-align: justify;">A enorme esperança gerada pela Eco-92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, não foi capaz de se transformar em contraponto à avassaladora globalização neoliberal que tomou de conta do mundo nos anos 1990 e começo do novo século. Na mesma proporção em que cresceram as grandes empresas, aumentou a disputa mundial por recursos, a destruição e a desigualdade. O objetivo do crescimento dos negócios a qualquer preço foi favorecido pela liberalização, desregulação e flexibilização, com desmonte da própria capacidade promotora de direitos e reguladora dos Estados. Esvaziou-se a ONU e cresceu o ilegítimo G8, sob liderança da única potência militar imperial, os EUA. Agora, no bojo da crise, apareceu o G20, um alargamento do clube fechado do poder mundial do G8, que não muda a essência da assimetria do poder e a dominação que propicia.</p>
<p style="text-align: justify;">A agenda da justiça social foi relegada aos chamados ODM – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, oito pontos nada ambiciosos, onde se acorda a fazer justiça sem mudar as causas da injustiça. Aliás, nem isto está sendo feito. A falta de vontade de mudar o modo de organizar as sociedades, a sua economia e o seu poder fica mais clara ainda nas negociações que seguiram as convenções assinadas em 1992. A muito custo se chegou ao Protocolo de Kyoto, sobre mudanças climáticas, que nada mais é do que o pagamento pelo direito de continuar poluindo para que outros, em outros lugares do mundo, assumam o compromisso de captar carbono, com florestas em pé. Em Durban, em 2002, o negócio verde ganhou espaço na conferência e perdeu a esperança que ainda fosse possível almejar mudanças mais radicais. Novamente, em 2009, em Copenhague, parecia ressurgir a esperança. Apesar da pressão das ruas, os governantes não passaram de uma declaração de vagas promessas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim não dá mais! As múltiplas e combinadas crises, que do coração dos países desenvolvidos dominantes se alastram e contaminam o mundo todo, só reforçam a convicção de ativistas por outro mundo. O paradigma industrial capitalista, produtivista e consumista está sendo corroído pelas suas próprias contradições. Não é uma mera remodelação do mesmo que vai dar outro rumo.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso da conferência Rio+20, tudo isso parece operar ao mesmo tempo. A crise funciona como desculpa para governantes não se comprometerem. Obama visitou o Brasil este ano, esteve no Rio, acionou seu arsenal contra a Líbia e falou de quase tudo, até de Copa do Mundo de Futebol de 2014 e das Olimpíadas de 2016, mas nada da Conferência tão vital para a humanidade e o planeta. Olhando para outro lado, o que os líderes europeus estão fazendo para tornar a Rio+20 algo marcante? A crise da zona do euro justifica o silêncio? E do Japão – dos terremotos, tsunamis e vazamentos nucleares – dá para esperar algo? Os “emergentes” – nós, brasileiros, entre eles – com suas ambições de rápido crescimento, a qualquer custo, são parte do problema e não da solução. E aí o que fazer se o próprio presidente da Conferência Rio+20 é um embaixador chinês na ONU? A Conferência será no Brasil, mas na nossa agenda temos a retomada das usinas nucleares, o petróleo do pré-sal, as grandes barragens na Amazônia e, para complicar mais, a flexibilização do Código Florestal. O quadro não poderia ser mais desalentador.</p>
<p style="text-align: justify;">No seu conteúdo mesmo pouco ou nada dá para esperar da conferência. O tema principal é a economia verde, algo mais palatável do que falar de sustentabilidade que, no mínimo, põe em relevo a relação sociedade e natureza de forma mais ampla. Qualificar de verde uma economia cuja lógica é acumular riqueza antes e acima de tudo, continuando a comodificar e mercantilizar a vida e a natureza, gerando destruição e desigualdades, mesmo em nome de empregos, não passa de abertura de uma nova frente de negócios. O tema da governança, também na pauta, não passa de outro engodo, pois se trata de empoderar organismos na ONU para a regulação do “negócio verde”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para completar, o formato não é de uma cúpula, mas de uma conferência de nível ministerial, esvaziada por definição.</p>
<p style="text-align: justify;">A nascente cidadania planetária, em sua diversidade de identidades e vozes dissonantes, não tem nada a esperar da Rio+20. Precisamos acreditar na nossa capacidade de instituintes e constituintes, chamados a destampar contradições e fazer avançar a história em certos momentos. Penso que estamos diante de um grande desafio e de uma possibilidade. O desafio é ter ousadia para sonhar as mudanças impossíveis que a humanidade e o planeta precisam para mudar de paradigma. O desafio é, também, ter a coragem de fazer propostas vistas como impossíveis e agir para torná-las possíveis. É assim que se fez a história humana, com seus caminhos e descaminhos.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade é aproveitar o tempo daqui até a conferência Rio+20 e a sua realização e inverter o jogo, criar a o espaço vibrante da cidadania mundial pela sustentabilidade da vida e do planeta. Ao invés de reagirmos ao que se propõe e discute na conferência oficial ou de fazer eventos paralelos, na volta, façamos com que o evento principal seja o da cidadania, cabendo aos representantes da conferência oficial reagir ao que propomos e demandamos. O método é o nosso método da cidadania ativa, onde o número mobilizado em torno a uma causa vira qualidade política e forças transformadora. Precisamos ocupar e alargar o espaço público, politizar a economia e a vida, radicalizar as demandas democratizando a própria democracia, desta vez diversa, mas de dimensões e impacto planetário. A receita é simples: mobilização, participação e pressão, acreditando na força de nossos sonhos e ideias, formulando propostas ousadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos da Rio 2012 um momento de indignação planetária e de virada cidadã. Precisamos fazer valer nosso poder cidadão, com o seu enraizamento profundo na diversidade do que somos e situações que vivemos, na força de nossas ideias, a riqueza de nossas experiências de construção do futuro aqui e agora, na nossa capacidade de construir redes e mobilizar, na nossa incidência política. Como diz o poeta, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>*S<em>ociólogo e diretor do Ibase</em></strong></p>
<p>http://www.outraspalavras.net/2011/09/09/rio20-nao-deixemos-passar-a-hora/<a href="http://www.outraspalavras.net/2011/09/09/rio20-nao-deixemos-passar-a-hora/"></a><em><br />
</em></p>
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		<title>Mundo: Por qué importa la muerte de las lenguas indígenas</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Aug 2011 19:56:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>racismoambiental</dc:creator>
				<category><![CDATA[Racismo Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[cultura e tradições]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>
		<category><![CDATA[povos indígenas]]></category>
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		<category><![CDATA[violência]]></category>

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<p>&nbsp;</p>
<p>Por María Victoria Eraso*</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">22 de agosto, 2011.- No puedes recuperarlo con una búsqueda en Google. “Tú dices digo y yo digo diego”, dice el refrán. La diferencia es sutil. Y sin embargo, en todo el mundo, de la Amazonía al Ártico, los pueblos indígenas dicen las cosas de 4.000 maneras distintas.</p>
<p style="text-align: justify;">Tristemente, ya nadie dice “digo” en eyak, una lengua del Golfo de Alaska, ya que la última persona que la hablaba con fluidez murió en 2008. Tampoco en bo, una lengua de las islas Andamán, tras la muerte de su última hablante, Boa Sr, en 2010. Casi 55.000 años de pensamientos e ideas, la memoria colectiva de un pueblo entero, murieron con ella.</p>
<p style="text-align: justify;">La mayoría de lenguas indígenas están desapareciendo a un ritmo mucho mayor del que pueden ser registradas. Los lingüistas del Living Tongues Institute for Endangered Languages creen que, de media, desaparece una lengua cada dos semanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Para el año 2100 podrían haber desaparecido más de la mitad de las 7.000 lenguas que se hablan en el planeta, de las cuales la mayoría aún no han sido registradas. Su ritmo de desaparición es mayor incluso que el de la extinción de especies.<span id="more-25978"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A medida que los pueblos indígenas son expulsados de sus tierras y sus hijos son trasladados desde sus comunidades a sistemas educativos que los despojan de su sabiduría tradicional, y con las guerras, la urbanización, el genocidio, las enfermedades.</p>
<p style="text-align: justify;">Los robos de tierras violentos y la globalización que continúan amenazando a los pueblos indígenas con su extinción, las lenguas indígenas van muriendo. Y con la desaparición de las tribus y la extinción de sus lenguas, fragmentos únicos de la sociedad humana se convierten en poco más que recuerdos.</p>
<p style="text-align: justify;">En el oeste de Brasil, entre las enormes extensiones amarillas y secas de los campos de soja del estado de Rondônia, donde se ve el humo en el horizonte y el olor a madera quemándose siempre está en el aire, aún existen pequeñas parcelas de selva exuberante e intacta. Aquí viven los cinco miembros restantes del pueblo indígena, una vez próspero y aislado, de los akuntsus.</p>
<p style="text-align: justify;">Su población comenzó a disminuir con la construcción de una carretera principal a través de Rondônia en 1970. Esto tuvo como consecuencia varias oleadas de ganaderos, madereros, especuladores de la tierra y colonos que ocuparon el estado. Todos ellos estaban hambrientos de tierras, a cualquier precio.</p>
<p style="text-align: justify;">Los ganaderos destruyeron el hogar en la selva de los akuntsus, trataron de esconder esa destrucción, y contrataron a pistoleros para asesinar a los habitantes. Los miembros que sobrevivieron huyeron a la selva, donde permanecieron, traumatizados, hasta que se estableció contacto con ellos a mediados de la década de los 90.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde entonces, los lingüistas han estado trabajando con este pueblo para lograr entender su lengua, con la esperanza de que un día los akuntsus podrán no sólo contar su trágica historia, sino también compartir los conocimientos que sus palabras recogen.</p>
<p style="text-align: justify;">El destino de las lenguas indígenas es el mismo en todo el mundo. Antes de que los europeos llegaran a América y Australia, en cada país se hablaban cientos de lenguas complejas. Hoy, ni la lengua yurok de California ni el yawuru de Australia Occidental cuentan con más de un puñado de hablantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre los indígenas pies negros de las llanuras del noroeste de Norteamérica es extraño encontrar a una persona de menos de veinte años que hable su lengua nativa, el siksika: la mayoría de los hablantes son grupos menguantes de ancianos. Cuando las lenguas se convierten en algo exclusivo de los ancianos, los sistemas de conocimiento inherentes a ellas peligran.</p>
<p style="text-align: justify;">Para el resto del mundo, esto significa que modos únicos de adaptarse al planeta y de responder de forma creativa a sus retos se van a la tumba con los últimos hablantes. En un mundo de inseguridad ecológica, esto supone una gran pérdida. De hecho, a los niños no se les habla en muchas de las lenguas indígenas del mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Impedir a un pueblo indígena comunicarse en su propio idioma es desde hace mucho una política adoptada por las autoridades dominantes para marginalizar sus modos de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre las décadas de los años 50 y los años 80, las autoridades soviéticas de Siberia intentaron suprimir las tradiciones de los pueblos indígenas del país enviando a los niños indígenas a escuelas donde no les enseñaban sus propias lenguas; a algunos niños incluso se los castigaba si se atrevían a hablar en ellas.</p>
<p style="text-align: justify;">En Canadá, los niños inuit tuvieron que abandonar sus hogares para ser enviados a internados, donde recibían palizas si se comunicaban en su lengua materna. “No esperaba que me pegasen en ese momento, pero lo hicieron”, dice George Gosnell, un hombre inuit. “Fui al despacho del director y me pegaron por usar nuestras lenguas”.</p>
<p style="text-align: justify;">En las comunidades innu de Canadá, aunque ahora se enseña un poco en innu-aimun, la lengua innu, la mayoría de la enseñanza se imparte en inglés o francés. “Los niños no nos entienden hoy en día cuando usamos viejas palabras innu”, contó un hombre innu a un investigador de Survival International, “y no podemos traducirlas, porque no los entendemos”.</p>
<p style="text-align: justify;">La mayoría de las lenguas indígenas, sin embargo, no se encuentran en los libros. Ni en Internet. Ni, de hecho, en ninguna documentación, ya que la mayoría de ellas se han transmitido de manera oral. Pero esto, por supuesto, no las hace menos válidas, o relevantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Las lenguas orales también graban su historia paralela. “La verdadera historia de Australia nunca se lee”, escribió un poeta aborigen. “Pero el hombre negro la guarda en su cabeza”, un pensamiento que encuentra ecos en la simple afirmación de la mujer bosquimana Dicao Oma: “Tenemos nuestra propia habla”.</p>
<p style="text-align: justify;">De la misma forma, los kallawayas de Bolivia, sanadores itinerantes de los que se cree fueron los curanderos naturópatas de los reyes incas, y que aún viajan a través de los valles andinos y las altas mesetas en busca de hierbas tradicionales, también tienen su propia “habla”: una lengua familiar secreta que se ha pasado de padre a hijo, de abuelo a nieto.</p>
<p style="text-align: justify;">Algunas personas creen que esta lengua, llamada machaj juyai o “lengua del pueblo”, era el idioma secreto de los reyes incas, y que está enlazado con las lenguas de la selva amazónica, a la que los kallawayas solían viajar para encontrar materiales para sus tratamientos. En la era de la tecnología, hay alguna esperanza de revivir el kallawaya y otras lenguas que se desvanecen en el mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Un buen ejemplo es el quechua, la lengua indígena más hablada en Sudamérica. Lleva mucho tiempo en un lento declive, pero ahora está reviviendo después de que Google lanzara un buscador en quechua, Microsoft produjera versiones de Windows y Office en el idioma y que el estudioso Demetrio Túpac Yupanqui tradujera el Quijote a su lengua materna.</p>
<p style="text-align: justify;">Documentar y salvar lenguas antiguas es completamente posible, y de hecho es más fácil con las nuevas tecnologías de la comunicación: mensajes de texto, redes sociales y aplicaciones de iPhone.</p>
<p style="text-align: justify;">Al fin y al cabo, la muerte de las lenguas indígenas no es importante sólo para la identidad de sus hablantes (como dijo el lingüista Noam Chomsky, una lengua es “un espejo de la mente”), sino también para todos nosotros, para nuestra humanidad compartida. Las lenguas indígenas son lenguas de la tierra, llenas de información geográfica, ecológica y climática compleja que, aunque está basada en el ámbito local, es universalmente significativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por ejemplo, el hecho de que los inuits de Canadá no tengan solo una palabra para “nieve”, sino muchas, demuestra cuán en sintonía están con su medio ambiente, y por tanto con los posibles cambios en él. Una habilidad que, probablemente, hayan perdido muchas personas “urbanizadas”, por su alejamiento del mundo natural.</p>
<p style="text-align: justify;">Pero las lenguas también nos permiten conocer cuestiones espirituales y sociales, ideas sobre lo que es ser humano, sobre la vida, el amor y la muerte. Al igual que las curas a las enfermedades de la humanidad esperan a ser encontradas en las plantas de la selva, las lenguas indígenas también contienen muchas ideas, percepciones y soluciones sobre y para la interacción entre los seres humanos y con el mundo natural.</p>
<p style="text-align: justify;">Las lenguas son mucho más que meras palabras: son lo que sabemos, y lo que sabemos que somos. Su pérdida es inconmensurable. En palabras de Daniel Everett, lingüista, escritor y decano de Artes y Ciencias de la Universidad de Bentley, “cuando perdemos conocimientos indígenas, perdemos parte de nuestra ‘fuerza’ como Homo Sapiens.</p>
<p style="text-align: justify;">Se produce una inestimable pérdida de expresiones de humor, conocimiento, amor y todo el espectro de la experiencia humana. Con la pérdida de una tradición ancestral, se pierde para siempre un mundo de soluciones para la vida. No lo puedes recuperar con una búsqueda en Google”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Dicen que nuestra lengua es simple, que debemos abandonar nuestra simple lengua para hablar la vuestra”, escribió el inuit Simon Anaviapik. “Pero esta lengua mía, tuya, es lo que somos y lo que hemos sido. Es el lugar donde encontramos nuestras historias, nuestras vidas, nuestros ancestros; y también debería ser donde encontrar nuestro futuro”.</p>
<p style="text-align: justify;">* Escritora argentina, corresponsal de <em>Prensa Indígena</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">http://servindi.org/actualidad/49842?utm_source=feedburner&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Feed%3A+Servindi+%28Servicio+de+Informaci%C3%B3n+Indigena%29</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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