Fala de abertura do II Seminário Brasileiro contra o Racismo Ambiental
Agradecimentos a todas as pessoas e organizações que estão nessa construção coletiva. Não só deste Seminário, mas de toda uma movimentação social que balança e desequilibra uma ordem social conservadora e opressora. Que situa grupos e pessoas em condições hierárquicas e discriminatórias, sob a égide de conceitos, visões e práticas “irracionais” que consideram as diferenças vitais, fundamentais e inerentes à humanidade, como pretextos para se distribuir poder,reconhecimento e legitimidade de forma injusta e desigual.
Nessa ordem social, a cor da pele, a diversidade cultural, o sexo, o gênero, a raça, a orientação sexual e outras diversidades, são tidas não como diferenças que dão beleza à humanidade. Antes, são transformadas em fatores que reduzem ou aumentam a importância dos grupos humanos, definindo quem manda e quem obedece, quem trabalha e quem apenas explora o trabalho dos outros, quemmerece a dor e quem merece a felicidade. É assim que os direitos se transformam em privilégios.
Numa ordem social capitalista, racista e patriarcal se estabelecemos valores e desvalores. A ordem da ganância e do lucro que, enlaçada com a ordem discriminatória da diversidade, configura uma sociedade sem cidadania e sem democracia, cinicamente posta, por quem dela se beneficia, como única possível.
Nessa roda-viva tudo vira mercadoria: comer, beber, dormir, amar e serfeliz valem somente na medida do lucro e do poder para uns poucos. Poucos, mas fortes, pois se instalam nos meios de produção, na política, na mídia, invadindo também estados e governos, construindo alianças e alinhamentos num perverso e fechado jogo de ganhar, ganhar, ganhar e para sempre ganhar!
É assim que os territórios – lugares onde se vive a vida, se alimenta, se trabalha, onde se vivem as alegrias e as tristezas, onde pulsa a existência das pessoas, do peixe, da terra, da água, da duna, do rio, do tronco do ipê, do canto, da dança, da poesia e de tantos outros elementos que nos fazem e nos refazem na beleza de existir – se reconfiguram nessa ordem sob o frio som de uma máquina de calcular.
O cálculo dos lucros envolve estranhas equações, pressupostas na negação daqueles e daquelas que dele fazem parte apenas na medida da exploração e da dizimação. São esses – as populações pobres dos centros urbanos, as populações negras, os pescadores e pescadoras, os quilombolas, as indígenas, as mulheres, as ribeirinhas – que, no somatório, na multiplicação e na divisão dos cálculos, são sempre colocados no lugar do menos. No lugar dos que vão para asfavelas, dos que têm destruídas suas jangadas, suas plantações, seus bancos de algas, seus manguezais, seus rios, suas casas, suas vidas.
Tudo isso em nome de um suposto progresso e desenvolvimento. Oxalá nos ajude! De que progresso e desenvolvimento estão falando e impondo? É o que nós vamos dissecar nesse nosso encontro! Por enquanto, quero apenas dizer que estamos aqui, ali e acolá. Nunca nos calaremos, nunca nos resignaremos.
Faremos frentes diversas, tantas quanto necessárias. Ora de mãos dadas, ora apartadas, pelas contradições e circunstâncias inerentes ao fazer político. Seja como for, jamais deixaremos de ser. Não permitiremos que a dor, a pressão, a ameaça e as violências nos anulem. Estamos aqui por nós e pelos outros, pelos que já foram e pelos que ainda virão. Estamos porque desenvolvemos também a estranha mania de querer, a doçura de amar um amor humano, a agressividadenecessária para enfrentar, o sorriso, a paciência, a coragem e a força que transformam nossa indignação em luta para resistir, para desconstruir reconstruindo.
Em nós, por todos e todas nós, o abraço que nos fortalece, as utopias que nos unificam e as divergências que nos tornam múltiplos e nos desafiam a construir a nós mesmos.
Então, façamos desse nosso encontro a nossa aldeia, nosso terreiro,nossa reza, nosso toré, nossa macumba e candomblé. Aproveitemos tudo isso para alimentar nossa força de remar contra a maré.
Cristiane Faustino - Instituto Terramar
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