Oração a Iansã
Por Cristiane Faustino
Minha bela oyá
Sinto-me neste momento tocada por teus ventos
Águas ameaçam inundar minha face
Pela força que devora meu coração
Pela embriaguez de minhas emoções
Ouso incomodar teu descanso, senhora
Ouça-me, eu te peço com humildade e desespero
Ouça-me, pois nesse momento só a ti posso falar
Todos dormem, e meus olhos tombam cansados
Minha boca, trêmula, repete teu nome
Na hora em que meus desejos, já quase perdidos, ameaçam esmorecer
Na hora em que minha alma recusa-se a morrer, mas quase não quer viver
Guardo em ti, e pela tua presença em mim, a esperança de sobreviver
Por isso venho a ti, sinto-te em mim, neste momento emocionado
Senhora dos ventos e das tempestades
Tens merecidamente o privilégio da força sobre-humana
Rogo que, por nós, loucas e loucos dos novos tempos
A ponhas em ação, nas causas dos desesperados
Varre das terras os ímpios
Amansa as águas para os bons
Mas torna-as, água e terra, ferozes ante a ganância dos maus
Sedutora senhora
Não permita a violação dos verdes que servem ao povo gentil
Não permita que nos atormentem a injustiça dos tolos e mal amados
Se puderes, se assim achares prudente, concede a eles o prazer de amar
Toca os corações rudes com a justeza de teu amor
Mas, se te dedicas com afinco a iluminar as almas dos covardes
Se sacrificas tuas vontades em nome de supostas regenerações
E não encontras um só traço de generosidade, aciona tua ira e me deixarás vingada!
Por favor, minha santa, não permita que a esperteza dos canalhas te envolva
Não permita que as trapaças dos desavergonhados te desviem o olhar
Não desconcentre as energias do amor que queres e guardas
Mostra a força de tuas sábias leis
Faze-os pagar com lágrimas e dores
As lágrimas e dores que fazem verter
Dos rostos sofridos, das pernas cansadas, das vozes que sangram
Minha santa negra, não ensurdeça, eu te suplico
Tira os desalmados de nossa companhia
Dá-lhes almas, tenta desamargurá-los
Mas se não puderes, se a força dos inimigos for incapaz de qualquer doçura
Não permita que nos façam sofrer
Devora-os com tua justiça, eu te peço
Na sinceridade que exige o pleno viver
Na firmeza que exige a paz verdadeira
Sem culpa e sem medo de ser cruel, eu te imploro, minha mãe
Pelo fogo dos ancestrais que habitam minha pele escura
Não conceda possibilidades aos injustos
Para que os justos e bons não tenham que padecer
Na força opressora dos iníquos
Minha deusa muito amada, se és a menina dos olhos de Oxum
Torna-te, por tua vontade, a menina das nossas utopias
Guarda-nos na proteção de tua espada
Ilumina-nos na ternura de teus olhos
Não deixa sangrar a gentileza de nossos amores
Sopra teus ventos, devastando o mal
Massacrando as pedras dos poderosos
Faz, faz novos tempos!
Para isso contas comigo
Sei da pequenez de minha força
Mas movimentar-me-ei ao teu comando
E se por alguma razão me julgas cruel e perversa, aos podres não me compares
Compreenda que aprendi, com a vida que me ofertastes
Com a inteligência que me permitistes, com a indignação que brota do senso que me destes
Com a emoção que me toma ao pensar no quanto poderíamos ser bons
A não amar os corruptores de teus propósitos
Os cretinos que destroem a beleza
Os arrogantes que se pretendem donos da vida
Que roubam teus ventos, que poluem e desequilibram tuas chuvas
Que assolam as águas de Oxum e de Yemanjá
Que desmatam as florestas de Oxossi
Que tolamente ameaçam as pedreiras de Xangô
Que se ofuscam na ambição ante os metais de Ogum
Que zombam de teus povos
Que matam tuas gentes
Te agradeço por assim me teres tornado
E te peço que acima de qualquer coisa
Permaneças comigo
E se, julgares necessário, abranda minha avidez
Perdoa-me se me move a vingança
Sou humana, Senhora, contaminada estou de certa mesquinhez
Não posso conter-me frente aos desgraçados
Ajuda-me a conter o ódio e os equívocos
Mas nunca me permita a inércia e a indiferença
Faz-me sempre amar os amáveis
Permite a mim e aos amantes da liberdade
A paciência, o amor e a solidariedade que nos mantêm alertas
Não nos deixe desanimar frente à distância dos bons tempos
Mas não nos abandone, Senhora
Fica conosco e nos auxilia nas amarguras dessa estrada
Faz-nos sempre sorrir em nossa existência
Transforma nossas lágrimas em águas revoltas contra todas as injustiças
E por fim, se julgas que muito peço,
Ao menos uma coisa sei que não negas
Ficarás sempre conosco, sempre ao nosso lado
E a certeza de tua presença nos fará renascer
Da mais profunda angústia das perdas diárias
Que nos faz aos poucos morrer
Por fim, prometo sempre lembrar e agradecer ao sopro de teus ventos
Por cada sorriso que, lavados por tuas chuvas,
Fazem florescer, da rotina mecânica, nossas vidas.
15 de dezembro de 2009.
Acompanhe no Facebook
Clique para baixar
Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde
me ajuda iansã
adorei oração para vc iansã
iansã me ajude
adoro a oração de minha mãe iansã.