Racismo e patriarcado na sociedade de classe

Por , 31/05/2010 15:45

Por Cristiane Faustino

Reafirmar o caráter destruidor do capitalismo moderno exige também um desvelar das formas como este se concretiza na realidade por meio de variantes que, guardadas as diferenças, movimentam-se de forma articulada, traduzindo na prática ideologias que produzem e reproduzem múltiplas desigualdades e opressões.

Para a superação deste modelo importa identificar como a conformação dessa sociedade se estrutura também sob a histórica dominação patriarcal e racista. Senão vejamos: dentre as populações pobres, situam-se prioritariamente as populações negras; na população negra, as mulheres são as mais pobres.

No Brasil, os crimes ambientais e suas consequências atingem comunidades inteiras (que em sua maioria são negras ou indígenas). No Nordeste, temos os piores índices de pobreza, mas isso se agrava nas famílias chefiadas por mulheres.

Na crise da agricultura familiar, as mulheres são prejudicadas porque fazem historicamente a agricultura de subsistência. Na ausência de políticas, as mulheres são cada vez mais sobrecarregadas pelo suprimento da saúde, educação, saneamento básico e outras necessidades, já que são responsabilizadas socialmente pelo cuidado.

Os negros/as são maioria nos presídios e nas favelas; as mulheres e as negras, sobretudo, são as principais vítimas do tráfico de pessoas para exploração sexual, atividade intimamente vinculada aos processos de globalização capitalista, mas, sobretudo, à cultura machista. É através da apropriação do trabalho doméstico das mulheres, invisibilizado e desvalorizado, que a sociedade produz e reproduz toda a mão de obra a ser explorada e todas as condições para o exercício do poder patriarcal.

No Brasil, das 22 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza ou indigentes, 70% são negras; a renda per capta média dos brancos é 40% maior que a dos negros; a renda média familiar da população negra corresponde a 42% da branca; a expectativa de vida da população negra é seis anos inferior à da branca, e ela tem 50% mais chance de morrer de AIDS ou causas externas. O analfabetismo entre as pessoas negras é duas vezes maior que entre as pessoas brancas.

Articulando dados sobre a questão racial no Brasil com a histórica dominação patriarcal, encontraremos a mulher negra no topo mais baixo da condição humana. As mulheres ganham em média metade do que ganham os homens, e as mulheres negras ganham em média quatro vezes menos que eles. Possuem uma taxa de analfabetismo três vezes maior que a mulher branca, e são a imensa massa de trabalhadoras domésticas, o que em geral implica em menores salários, negação de direitos, abuso sexual, longas jornadas e humilhações.

A realidade nos indica, pois, que a luta contra o capitalismo se mostra tanto mais complexa quando nos deparamos com elementos fundamentais que estruturam a sociedade de classe. Para os movimentos sociais impõem-se múltiplos desafios que complexificam a crítica e tornam mais árdua a luta. Quem explica por que a maioria dos ricos é branca? Por que a maioria das mulheres negras é pobre? Por que a maioria da população das favelas é negra e parda? Por que as mulheres são a minoria nos espaços de poder? Radicalizar na democracia, pois, exige de nós um esforço de crítica radical e luta articulada contra todas as formas de opressão.

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Programação feita por Ricardo Álvares, utilizando uma versão modificada do tema Panorama, criado por Themocracy.