Viver como escravo depois da abolição: “Pra quem nasceu preto, a escravidão continuava sendo normal”

Na década de 30, quase meio século após a assinatura da Lei Áurea, Vicente da Silva viveu anos escravizado no interior de Minas. Aos 18, rompeu o ciclo e prosperou com a expansão da capital Belo Horizonte

Por Breiller Pires, El País Brasil

Vicente José da Silva não sabia o que era relógio. Entretanto, quando o sol virava para o outro lado do riacho, sabia que estava na hora de apartar as vacas dos bezerros e selar o animal de seu senhor. Do entardecer ao luar, caminhava descalço por até quatro horas puxando o cavalo que o patrão montava pelas estradas. Por aproximadamente 10 anos, essa foi parte de sua rotina de escravatura em Capela Nova, interior de Minas Gerais, ainda que, naquela época, a abolição, assinada em 13 de maio de 1888, já estivesse prestes a completar meio século no Brasil. “Meus pais sabiam que eu era escravo, mas a gente não tinha escolha”, conta Vicente, hoje aos 92 anos, sobre o período de servidão.

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A cultura negra para além da escravidão

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros… estalar de açoite… 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras moças, mas nuas e espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs!
(Castro Alves, Navio negreiro.)

Por Beatriz Carneiro, em JornalismoJunior

Foi nas péssimas condições descritas em Navio Negreiro que legiões de africanos negros – advindos da Nigéria, Gana, Serra Leoa, Benin, Angola, Congo e Moçambique – foram forçados a cruzar o Atlântico para servirem de escravos por mais de trezentos anos no Brasil. Essa é a cicatriz mais perversa da sociedade brasileira. Os negros, que tiveram sua carne transformada em coisa e o espírito em mercadoria em nome do capitalismo, eram, antes disso, um povo diverso, que possuía e possui uma cultura tão rica como qualquer outra. O imaginário popular ainda pensa no negro apenas como enclausurado da escravidão, o que é um pensamento estereotipado, limitado e perverso, que busca minar a importância do negro e do seus descendentes para construção da nação brasileira.

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Basta de escravidão! Viva as lutas libertárias! Por Gilvander Moreira[1]

Dia 20 de novembro, dia de Zumbi dos Palmares, dia da Consciência Negra. É vital recordar a crueldade da escravidão do passado e as lutas libertárias travadas ao longo da história. No estado de Alagoas, o Quilombo dos Palmares, em 1670, contava com mais de 20 mil pessoas e resistiu por mais de 100 anos ao sistema escravista. Recentemente, 11 Acampamentos do MST, em Campo do Meio, no sul de Minas Gerais, em homenagem à resistência quilombola no estado de Minas Gerais, batizou o nome da sua luta de “Quilombo Campo Grande”, em que cada Sem Terra é outro Zumbi e outra Dandara.

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Brasil segue marcado por seu passado escravista, diz Laurentino Gomes

Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, mas ‘nunca enfrentou seu legado’ de racismo e discriminação, diz escritor

AFP / CartaCapital

Após sua bem-sucedida trilogia “1808”, “1822” e “1889”, sobre a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, a Independência e a proclamação da República, o jornalista e escritor Laurentino Gomes volta agora com “Escravidão”, o primeiro de outra série de três livros históricos sobre o brutal comércio de escravos entre a África e seu país.

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Desprezível

Após a sessão de tortura em um de seus supermercados, a Ricoy escreveu uma nota. Vejam bem: os fios elétricos, transformados em chicote, foram empunhados por outras mãos — mãos terceirizadas, vale destacar

por Priscila Figueiredo*, em Outras Palavras

Em dezembro de 1888, já passada a Abolição, Machado de Assis cismou com a forma como veio a se noticiar a morte de um carrasco de Minas Gerais, o qual teria exercido o “desprezível ofício desde 1835 até 1858”: “Por que carga d’água há de ser desprezível um ofício criado por lei? Foi a lei que decretou a pena de morte, e desde Caim até hoje, para matar alguém é preciso alguém que mate. A bela sociedade estabeleceu a pena de morte para o assassino, em vez de uma razoável compensação pecuniária aos parentes do morto, como queria Maomé. Para executar a pena não se há de ir buscar o escrivão, cujos dedos só se devem tingir no sangue do tinteiro. Usamos empregar outro criminoso” (Bons dias!, 27/12/1888).

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Ele só queria um chocolate

Garoto foi chicoteado ao tentar furtar um doce. Em um país que ainda não se livrou do passado escravocrata, a punição aos negros é brutal — e o Estado muitas vezes não garante o básico. Há resistência, mas violência não pode ser banalizada

por Márcia Acioli*, em Outras Palavras

Saiu na rádio. Um adolescente de 17 anos foi amordaçado, torturado e chicoteado nu em um supermercado pela tentativa, TENTATIVA de roubar um chocolate no Supermercado Ricoy em São Paulo. Não precisou ser anunciado, o adolescente é negro, todos sabíamos.

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Para compreender a “Améfrica” e o “pretuguês”

Em texto de 1980, mas surpreendentemente atual, historiadora expõe contradição central na vida brasileira: mulheres negras são reduzidas a “mulatas, domésticas ou mães pretas”; mas sua presença deu forma e sentido ao país

por Lélia Gonzalez, em Outras Palavras

Artigo apresentado na Reunião do Grupo de Trabalho “Temas e Problemas da População Negra no Brasil”, no IV Encontro Anual da Associação Brasileira de Pós-graduação e Pesquisa nas Ciências Sociais, no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1980. Título original: “Racismo e sexismo na cultura brasileira”

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