Em sociedades cada vez mais desiguais, maiorias vivem o inferno do trabalho massacrante e sem futuro, da pobreza e do impossível desfrute coletivo. Mas também os ricos, ainda que opulentos, debatem-se em competição por dinheiro e em vidas sem sentido
Por Ladislau Dowbor, em Outras Palavras
I look at all the lonely people…
Beatles, 1966
Algumas coisas vão muito além da América Latina, elas nos dizem respeito como seres humanos. Certamente precisamos de uma análise social geral, mas como nos sentimos nesta sociedade, como indivíduos, como famílias, como bairros ou comunidades, também é essencial para nosso bem-estar. Isso vai muito além da economia e das lutas de classes. Envolve pessoas sentadas em ônibus ou no metrô, longas horas para ir a escolas ou empregos, um cenário desanimado de pessoas grudadas em seus smartphones. Os beneficiados nem sempre estão melhor: filas de carros, cada um com um indivíduo impaciente e irritado com o trânsito. Quanta lentidão, considerando que muitos compraram o carro entusiasmados com números impressionantes de velocidade que ele pode alcançar em segundos. Em São Paulo, a perda média diária de tempo no transporte chega a 3 horas, e mais de 5 para pessoas mais pobres que vivem nas periferias. Você poderia estar estudando, fazendo algo útil, passando tempo com sua família. Bem, o PIB sobe, então temos mais carros e mais tempo desperdiçado. A velocidade média dos automóveis em São Paulo caiu para 14 quilômetros por hora, e mais carros estão chegando. Mais PIB. Uma cidade se paralisar por excesso de meios de transporte é até curioso. Shanghai e Beijing têm cada uma mais de mil quilômetros de linhas de metrô. São Paulo tem 104. Continue lendo “Rentismo, teu nome é solidão. Por Ladislau Dowbor”