“Que o passado, na Alemanha, de modo algum tenha sido elaborado apenas no círculo dos chamados ‘incorrigíveis’, se é que tal designação se sustenta, é incontestável. Remete-se reiteradamente ao chamado ‘complexo de culpa’, não raro com a insinuação de que este teria sido, na verdade, produzido pela própria construção de uma culpa coletiva alemã. Na relação com o passado, proliferam, inegavelmente, traços neuróticos: gestos defensivos ali onde não há ataque; afetos intensos em situações que mal os justificam na realidade; ausência de afeto diante do mais grave; e, não raro, a repressão do que é consciente ou semiconsciente. Assim, nos experimentos de grupo do Instituto de Pesquisa Social, deparamo-nos repetidamente com o fato de que, ao se evocar deportações e assassinatos em massa, são escolhidas expressões atenuantes, perífrases eufemísticas, ou então se instaura, em torno delas, um vazio discursivo.”
— Theodor W. Adorno, “O que significa elaborar o passado”
No Blog da Boitempo
Nos últimos anos, não é incomum escutar na Alemanha que grande parte da população não consegue criticar o genocídio que Israel continua a promover em Gaza devido à magnitude, nesse país, do trauma do Holocausto. Um trauma que, aparentemente, recai tão (ou talvez ainda mais) pesadamente sobre os ombros de seus perpetradores do que sobre suas vítimas. O argumento é mais ou menos o seguinte: o alemão médio de boa-fé não reconhece o genocídio em Gaza justamente devido à culpa que sente pelos crimes da Alemanha do passado (e mesmo esse pretenso reconhecimento é seletivo, deixando de fora a ampla demografia que foi vítima do fascismo, como comunistas, homossexuais, os chamados associais, Sinti e Roma, pessoas com deficiência). Portanto, a recusa em criticar o banho de sangue promovido pelo Estado de Israel é vista, na verdade, como um sinal de memória política, o que evidencia como a ideologia muitas vezes funciona por meio de uma série de inversões. A culpa, nesse caso, serve como uma espécie de entreposto ao debate e de justificativa para a não elaboração do presente. Como escreveu certa vez Theodor W. Adorno, “em casa de carrasco, não se menciona a corda”.
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