Por Vladimir Safatle*, em A Terra é Redonda
O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
1.
Entre 1884 e 1885, as principais potências ocidentais se reuniram em Berlim para decidir como elas partilhariam o território africano entre si. O evento foi conhecido como “Conferência do Congo”. Não faltaram discursos edificantes sobre tirar tais países da servidão, do atraso, a fim de trazer o progresso e a liberdade. O resultado final foi a consolidação de uma segunda fase do processo colonial europeu, que durou até os anos setenta do século passado, quando as coloniais portuguesas na África, as últimas pertencentes a uma potência europeia, enfim se libertaram. Durante esse quase um século, os africanos e asiáticos conheceram bem o que o “progresso e a liberdade” europeus efetivamente significavam. Saque de suas riquezas, genocídios, massacres administrativos, humilhação colonial. Nada muito diferente do que eles haviam feito séculos antes nas Américas, neste momento em que, pela primeira vez, o direito europeu se impôs como direito global. (mais…)
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