Ailton Krenak na ABL: o fim do mundo adiado. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Minha escrita é pela oralidade. […] Falar um livro, é assim que eu escrevo”.
Ailton Krenak. Discurso de posse na Academia Mineira de Letras. Março 2023

O primeiro escritor indígena eleito para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak, obteve nesta quinta-feira (5) 23 votos, numa competição com candidatos renomados como a historiadora Mary del Priore (12 votos) e o escritor Daniel Munduruku (4 votos), o que dá a dimensão da qualidade da disputa. (mais…)

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De volta ao lar no Chile: a nossa cetutxiá. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

Si van para Chile / les ruego viajeros /
visiten las casas / donde vivieron.

(Paródia da canção “Si vas para Chile”)

Foi o que fizemos alguns de nós ex-exilados no entremeio da agenda oficial da Comitiva Viva Chile: visitamos as pensões onde moramos, percorrendo os caminhos da memória. O que buscávamos, na verdade, era a cetutxiá – assim os Fulniô de Pernambuco, denominam “moradia” na língua Yaathé. A tradução  mais próxima é “lar” e não “casa”, cetutxiá não é um imóvel, que se pode vender, mas um lugar inegociável de alegria, de afeto, de paz e serenidade. (mais…)

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O marco temporal, os Mapuche e a corrida da cerca. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Alados guardianes de nuestra tierra que nos alertan de cualquier peligro.
Orador incansable de la madre tierra:¡Trüliliu Trüliliu Trüliliu Trüliliu”.
(Lorenzo Aillapán Cayuleo. El Queltehue. El Guardián Avisador, 1997).

Quando contei a líderes Mapuche em Temuco, no sul do Chile, que no Brasil se estava discutindo a tese do “marco temporal” para demarcar as terras indígenas, eles comentaram que haviam passado por algo similar. Relataram que a forma de luta usada foi aquela conhecida como a corrida da cerca. Foi durante o Seminário de Educação Artística, do qual participei a convite do Ministerio de las Culturas, las Artes y el Patrimônio na quinta-feira (14). No Chile, o Ministério é “das Culturas”. No plural. Como corresponde a um país que reconhece a sua diversidade. (mais…)

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Edmundo obediente. Por Julio Pompeu

No Terapia Política

Edmundo tem hora para acordar, hora para pegar o ônibus e hora para começar a trabalhar. Trabalha obedecendo protocolos e chefes que também obedecem seus próprios protocolos. Edmundo nunca foi livre. Nunca se sentiu livre. Nem mesmo sabe se o que sente é coisa sua mesmo ou só obediência às circunstâncias que o conformam.

Sempre foi obediente no cativeiro de sua vida de trabalhador. Obedeceu, esperando a promoção que não veio. Esforçou-se pelo aumento que não veio. Mas nunca reclamou, porque tem medo da fome que pode vir se perder o emprego. Sabe que reclamar é coisa de quem é livre. Sabe que não é livre. Liberdade é para quem pode. E ele só pode obedecer e sorrir. Edmundo é risonho, mas não é feliz. (mais…)

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Flores para Allende: o Chile ri e canta. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

¡Canto que mal me sales,
cuando tengo que cantar espanto!
(Victor Jara. Estadio Chile. 1973)

Um Chile que ri e canta. O outro que grita de dor e chora. As lembranças dos dois Chiles, às vezes fugidias, às vezes intensas, ocuparam a mente de mais de cem ex-exilados brasileiros da comitiva Viva Chile, que nesta semana visitaram Santiago para percorrer os caminhos da memória. Buscamos recolher os passos dados há mais de meio século. Depositamos flores no monumento a Allende e agradecemos ao povo chileno a generosa acolhida. (mais…)

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A carne. Por Julio Pompeu

No Terapia Política

No país com mais bois do que gente, Mário sentia fome. Era açougueiro. Teve comida enquanto tinha emprego. Deixou de ter um e outro quando a empresa colocou uma máquina para fazer o que ele fazia. Uma máquina que corta carne, mas não come. Faminto, pegou um naco de carne em um supermercado. Desajeitado na arte de furtar, foi pego.

Os seguranças o levaram para uma sala escondida do supermercado. Uma sala dentro da sala dos seguranças. A Sala Segura, dizem. Na segurança da sala, bateram nas carnes de Mário. Bateram por bater. Não queriam nada dele. Só lhe dar o que ladrão merece. Apanhou até quase não mais conseguir sustentar suas carnes pregadas aos ossos quebrados. (mais…)

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O pequeno advogado. Por Julio Pompeu

No Terapia Política

Quando criança, eu não entendia bem o mundo dos adultos. O colorido que eu admirava parecia, aos olhos dos adultos, tristes tons de cinza. Colocava minhas ideias e pensamentos no papel através de desenhos com cores vibrantes de canetinhas. As primeiras palavras, desenhava letra por letra, cada uma com uma cor diferente. Para mim, todas as cores combinavam e todas as palavras eram desenhos. Não me havia a perturbar, ainda, as preocupações estéticas dos adultos, que dizem que tal cor não combina com a outra. Pintava e escrevia pintando numa miscelânea de cores vibrantes feliz da minha ingenuidade estética. (mais…)

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