Museu Nacional: vida, morte, ressurreição. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Se esquecemos o passado, ele volta” (Spinoza)

Muitos documentos históricos do Arquivo de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foram destruídos porque a instituição não tinha verba nem para comprar papel higiênico. Aí, quando seus funcionários sentiam vontade de “descomer”, corriam ao banheiro e, no caminho, arrancavam folha de livro raro ou de manuscrito antigo com a qual se limpavam após “pintarem a porcelana” do vaso sanitário. Dito assim, parece “folclore”, mas não é. Lévi-Strauss, que por lá passou em 1938, copiou do quadro de avisos e publicou em “Tristes Trópicos” o seguinte ato administrativo assinado pelo diretor: (mais…)

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Pra não dizer que eu não falei de ixora. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Ainda fazem da flor /
 Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão”.
(Geraldo Vandré)

– Vovô, como é o nome dessa flor?

A pergunta da Ana, do alto dos seus 7 anos, me pegou de surpresa. Era uma tarde calma. Estávamos numa alameda do parque onde costumamos passear nos fins de semana. (mais…)

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Na eleição, os escravos da palavra. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

As promessas demagógicas de muitos candidatos nessas eleições de outubro me fazem lembrar a reação dos escritores Antônio Callado e Ana Arruda quando lhes contei, em 1978, num jantar na rua Aperana, Leblon, uma história dos índios Tupinambá, que eu acabara de ler nas crônicas dos capuchinhos Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux. Os dois padres franceses, que fundaram São Luís do Maranhão, em 1612, se gabam de haver “civilizado” esses índios, que fizeram “tanto progresso que era como se tivessem passado toda sua vida no meio dos franceses”. Apresentam um inventário desses “avanços”:  (mais…)

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Carta aberta ao General Mourão, o índio do Amazonas. Por José Ribamar Bessa Freire

“Vamos à luta, lutar para vencer. Se for preciso, lutar até morrer”.
(Flávio de Souza, 1968)

Exmo, Sr. General de Exército Antônio Hamilton Martins Mourão
Mui digno candidato a vice presidente da República

O senhor acaba de se identificar oficialmente como “indígena” ao registrar candidatura no Tribunal Superior Eleitoral. Isso foi logo após a repercussão negativa de sua fala a empresários da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul, quando afirmou que o Brasil é subdesenvolvido, porque“herdou a cultura de privilégios dos ibéricos, a indolência dos índios e a malandragem dos africanos”, o que desagradou seus próprios eleitores que não gostaram de se ver assim retratados.  Parece que a mão esquerda tentou consertar, então, o que fez a mão direita, mas disso decorrem problemas de raciocínio. Por isso, desejando elucidar a lógica de sua estreia espalhafatosa no cenário político nacional, me inspiro no saudoso Waldick Soriano e lhe “escrevo essa carta, mas não repare os senões”.  (mais…)

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Lua de sangue: dona Baku, Pedro Inácio e Rubinho. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

No tengo miedo al invierno con tu recuerdo lleno de sol”
(Eduardo Falú / Jaime Dávalos – Tonada del viejo amor)

Sexta-feira. Amanhece. Atravesso a ponte Rio-Niterói. O rádio anuncia a “lua de sangue” que logo virá com a eclipse lunar. Dentro do carro, pegando carona em minhas lembranças, vão comigo três irmãos de luta que se despediram da vida nessa semana: dona Baku – a pajé sateré-mawé, Pedro Inácio – o sábio tikuna e Rubinho – o antropólogo guaranizado. Dois deles, mais jovens que eu, ao furarem a fila, me relembram a finitude da existência. Invadido pela tristeza da perda e pelo medo da morte, busco refúgio no guitarrista argentino Eduardo Falú, cuja voz ressoa no carro cantando “La tonada del viejo amor”: (mais…)

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França ou Croácia? A Expedição Priquita. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Nós, brasileiros, chupando o dedo, assistimos neste domingo o enfrentamento da seleção Franco-africana x Croácia decidindo em Moscou o título de campeã do mundo. Meus dois melhores amigos estão em torcidas opostas. Monsieur Freirré, como era conhecido quando vivia exilado em Paris, vestido de azul, berra diante da televisão: “Allez les bleus”.  O outro, que adotou o nome de Ribamarich, uniformizado com a camisa quadriculada de toalha de mesa, dá adeus aos franceses: Dovidenja francuski. Ele torce pela Croácia, um país pequeno como o Uruguai, com a mesma garra charrua. (mais…)

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O Brasil na panela: dá um caldo. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

A cozinha de um país é sua paisagem colocada na panela. (Provérbio Catalão)

O Brasil inteiro cabe dentro de uma panela. Não me refiro à usada pelos “paneleiros” para derrubar uma presidente eleita. Tal panela é vazia e oca como seus usuários, ao contrário da outra, farta, cheia de ingredientes, condimentos, alimentos que geram turbulências quando não são transportados por caminhões pelas estradas para chegarem à cozinha do consumidor. Dentro dela cabem receitas, temperos, cheiros, sabores, festa, música, humor, literatura, economia doméstica, saúde, higiene e o diabo a quatro. (mais…)

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Convivência e interdependência

Por Cândido Grzybowski, do Ibase

A greve dos caminhoneiros mostrou como somos dependentes de seus serviços de transporte. Não é meu objetivo analisar as complexas questões que motivaram a greve, nem o que ela revela sobre a fragilidade, insensibilidade e ilegitimidade do governo Temer em tratar uma questão assim. O país simplesmente parou porque alguns milhares de caminhoneiros, sentindo-se não atendidos e nem escutados em suas reivindicações, pararam de fazer o transporte de produtos entre pontos de produção e consumo. É um fato político e econômico que põe a nu toda a teia de relações sociais de convivência e interdependência que tornam viável a vida em sociedade. De repente descobrimos que aqueles enormes caminhões que trafegam nas estradas e ruas, tornando difícil e perigoso o trânsito, são indispensáveis para que tenhamos acesso a bens e serviços fundamentais no nosso cotidiano. Visíveis pelo seu tamanho, mas invisíveis como veias que interligam a vida na sociedade. (mais…)

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Vendo Harry e Meghan, deu vontade de ter um rei no Brasil. José Mujica? Por Leonardo Sakamoto

No blog do Sakamoto

Aproveitando o casamento real britânico, monarquistas defenderam o retorno dessa forma de governo nesta parte dos trópicos. A começar pelos herdeiros de Pedro II, há brasileiros que acreditam que o país seria mais ”estável” e ”moderado” se tivesse uma chefia de Estado vitalícia e hereditária.

Eu até toparia. Mas só se for para ter como soberanos pessoas como Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, ou José Mujica (não me importo em ser anexado pelo Uruguai – se passarem a valer algumas das leis de lá). O problema é que ambos, uma vez entronados, adotariam como primeiro ato a Proclamação da República. (mais…)

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El dictador y el botón de “me gusta”: cómo la imagen de Kim Jong-un desafía a la democracia. Por Eliane Brum

No El País

Kim Jong-un, dictador de un país donde la gente casi no tiene acceso a Internet, ha realizado una hazaña que solo es posible en tiempos de la Red. De repente, el ogro del planeta consigue me gusta del mundo. Y su versión más simpática y rotunda ocupa todas las pantallas durante varios días. Es un caso fascinante de cambio de imagen, ya que había terminado el 2017 como un tirano loco. Y, en abril de 2018, se convierte en una especie de Shrek de la geopolítica internacional. Es posible entender por qué el encuentro entre las dos Coreas se considera un momento histórico. Pero hoy la historia quizá sea la de que Kim Jong-un ha conseguido expandir al mundo democrático, a una velocidad que solo Internet permite, la propaganda que se inyecta a los norcoreanos por las retinas día tras día desde los tiempos de su abuelo. Sin cambiar su vestimenta, pero ampliando la sonrisa de emoticono del retrato oficial. (mais…)

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