A Copa do Mundo, o pirarucu e o tambaqui

No TaquiPraTi

“Hoje eu não quero pescar, quero ver a Copa rolar”.
(Chico Malta, 1994).

O chute de Richarlison no gol de voleio furou a rede, a bola sobrevoou o bairro de Aparecida, em Manaus e foi cair lá em Santarém (PA). Era o fim da COP-27 sobre mudanças climáticas e o começo da Copa do Mundo. A atenção de milhões de pessoas se deslocou do Egito para o Catar. Mas meu olhar solitário e fiel seguiu a bola até o rio Tapajós para assistir a Copa Iara disputada nos igarapés e lagos por pirarucus e tambaquis. O “Pombo” é o craque das três copas. (mais…)

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A ONU e o peso dos nossos mortos

No TaquiPraTi

O mundo atingiu a marca de 8 bilhões de pessoas, segundo projeção da ONU, cujas estimativas levam em conta que, em cada segundo, ocorrem três nascimentos no planeta. Dessa forma, a mídia de diferentes países comemorou a 8ª bilionésima criança nascida na madrugada de terça feira (15): Lucca Freire, em Porto Alegre (RS), Damian na República Dominicana, Vinice nas Filipinas e assim por diante. A soma dos vivos está feita. Mas, e os mortos, quantos dão adeus em cada segundo?

Fujo de números como o diabo da cruz ou o Coiso da verdade. Sou neófito nessa questão, não sei como os demógrafos calcularam, ignoro de que modo relacionaram taxas globais de fecundidade e de mortalidade de cada país. Desconfio, porém, que a ONU não subtraiu da cifra global os constantes assassinatos em comunidades pobres, nem as seis mortes recentes no Brasil: Gal Costa, Rolando Boldrin, Isabel do vôlei, além do escritor Ricardo Gontijo, no Rio e dos professores Raoni Lopes e Graça Barreto, em Manaus. (mais…)

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A Transição. Por Julio Pompeu

No Terapia Política

O casamento de Marília foi espetacular. Com a grandiosidade exagerada de luxo meio brega inspirada nos eventos das antigas monarquias, a delicadeza de doces e comidas finas e o romantismo em discursos, risos e choros de felicidade. Era como um sonho sonhado acordado.

Foi uma mudança ousada em sua vida. O atual era completamente diferente de seu ex. Mas as decepções são como ladeiras que nos inclinam a mudanças tão radicais quanto a intensidade dos sentimentos tristes que brotam dela. A decepção com Leandro, virou esperança de vida feliz com Jonas. (mais…)

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Cacica Tônkyre e as línguas cantadas: entre rios e palavras

No TaquiPraTi

E à noite nas tabas, se alguém duvidava /
do que ele contava /
tornava prudente: “Meninos, eu vi!”
(Gonçalves Dias. I-Juca-Pirama, 1851)

– Minha filha, se eles invadem a aldeia e começam a matar teus irmãos, foge. Foge, minha filha. Foge!

Este conselho do cacique Payaré dado na língua Jê-Timbira à sua filha pequena Tônkyre Akrãtikatêjê, a primeira cacica do povo Gavião hoje com 53 anos, parece desconcertante na boca do valente guerreiro, cuja vida foi marcada por coragem e solidariedade. Estava ele se acovardando? Ou queria manter viva a filha, tal qual o literário guerreiro tupi I-Juca-Pirama preso pelos Timbira, que chorou diante da morte para salvar seu pai cego? Nada disso. Na sequência, Payaré completou: (mais…)

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Tiros no muro do Lula: a pintura irremovível. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Acabou chorare no meio do mundo /
respirei eu fundo, foi-se tudo pra escanteio”
(Novos Baianos. Salvador. 1972)

– “Acabou” – uivou o Coiso dentro do STF. Acabou mesmo? Acabou o quê, porra? Respirei eu fundo. Chutado pra escanteio pelas urnas, acabou a verborreia do perdedor, mas não o chororô dos seus seguidores nutridos por ódio e violência armada. No cenário das manifestações golpistas contra a vitória de Lula, balas foram disparadas na madrugada do dia de finados, em Manaus, no Bairro da Paz, contra a residência do funcionário da Caixa Econômica Federal, José Cláudio Ramos Pontes, 56 anos, artista plástico parintinense e diretor de Movimentos Sociais do PT Municipal. (mais…)

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O velório. Por Julio Pompeu

Na Terapia Política

Há 15 anos não tinha notícias de Haroldo, colega dos tempos da escola técnica. Deixou uma mensagem curta: “Pedrinho faleceu. O enterro hoje, às 17. Abraço”. Ele sempre foi econômico com as palavras. Não éramos muito próximos. Ele, sujeito bonito e craque do time de futebol. Eu era o feio e esquisito que sempre tentava uma desculpa para não fazer esporte nenhum. Quase fui reprovado em educação física.

Já com o Pedrinho eu era mais chegado. Gostávamos de conversar durante as aulas. Era, naquele tempo, um amigo. Depois, cada um seguiu sua vida e não tive notícias dele por mais de 30 anos. Até agora. Foi pelas boas lembranças dele que resolvi ir ao enterro, apesar de detestar velório. Se pudesse, não iria nem no meu. (mais…)

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Uma cena da eleição e duas palavras sobre a vitória. Por Juliana Monteiro 

Na Revista Pessoa

Na Piazza Navona, onde votamos, conheci uma senhora brasileira que me fez agradável companhia. Enquanto conversávamos, chegou outra mulher que, ao se apresentar, disse onde trabalhava. A primeira comentou, surpresa e gentil,

– Também trabalho lá, não nos conhecemos!

A resposta veio direta, cortante, altiva:

– Conhece, sim. Mas não me vê porque trabalho na faxina. (mais…)

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