Nos caminhos do tempo: Catarina e Félix. Por José Ribamar Bessa Freire

“Tem dia é muito bom de ver, está bem azul o mar”.  
(Catarina Kerexu, entrevista a Tupã Ra´y. 2017)

No TaquiPraTi

Quem assiste o documentário “Caminhos do Tempo” de Alberto Alvares Tupã Ra´y não pode deixar de admirar dona Catarina Kerexu e seu esposo Félix Karai Mirim, herdeiros da sabedoria guarani. O cineasta grava o relato da longa caminhada da família e de seus filhos, netos e bisnetos, que saem do Rio Grande do Sul, com paradas em aldeias de cinco estados, até chegar em Itaipuaçu, Maricá (RJ). Está tudo lá: o nascer da aldeia, a construção da casa de reza e da escola, a religião, a roça, a culinária, a música, a alegria das crianças, o mar azul, a aurora, o pôr do sol, a visão de mundo dos Guarani.

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A estética do ressentimento. Por Maria Rita Kehl

Considerações sobre personagens dominados pelo afeto do ressentimento.

No A Terra é Redonda

O ressentimento é um afeto de forte apelo dramático. Funciona bastante bem como elemento polarizador da ação, no cinema ou no teatro, e também para promover a identificação do espectador com alguns personagens, vistos como vitimados pelas circunstâncias ou, principalmente, pelos outros.

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As Línguas do Diabo e o Museu da Língua Portuguesa. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

Museu é um lugar para colorir o pensamento”.
Diodato Aiambo, Tikuna.

Espero ter saúde para um dia retornar ao Museu da Língua Portuguesa (MLP), que reabre suas portas no próximo 1º de agosto, ali no coração da Cracolândia, em São Paulo. Visitei-o várias vezes, uma delas com um amigo guarani. Depois virou cinzas devorado pelo trágico incêndio. Escrevi então “Uma pátria, muitas línguas”, que exaltava a expografia ousada e as formas criativas de musealizar o idioma oficial, mas com visão crítica do glotocentrismo, que apresentava o Brasil como um país unilíngue. Afinal, musealizar não é só “conservar memória”, mas construí-la e essa construção deixava de fora da história do Brasil as línguas indígenas, muitas faladas ainda hoje e discriminadas pelo colonialismo como “línguas do diabo”.  

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Omar, as Forças Amadas e a Maria Bate-fofo. José Ribamar Bessa Freire

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Os três tópicos estão interligados. Comecemos por Maria, uma caboquinha linda por quem meu irmão se apaixonou na sua juventude em Manaus. Ele estava tão embeiçado por ela, que eu já a chamava de minha cunhada. Numa terça-feira, dia de novena na igreja de Aparecida, os dois marcaram um encontro na banca de tacacá da dona Alvina, às 18h00. Quando o sino badalou, o seu Barbosa, em casa, rezou o Angelus em voz alta como costumava:  

– O anjo do Senhor anunciou a Maria…

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Alencar: até breve, cabra da peste. Por José Ribamar Bessa Freire

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¡Tanto amor y no poder nada contra la muerte!
(César Vallejo, Masa, 1937)

Iara era, então, um povoadozinho com cerca de 30 casas de taipa, duas ou três de tijolo e 120 moradores. Foi lá que nasceu, em 1937, Francisco Joaquim de Alencar, cuja infância foi marcada por banhos nas águas límpidas do rio Carás, no qual nadavam peixes e até jabutis, antes de ser poluído por esgotos. Uma vez por ano a família percorria 60 km de estrada carroçável a Juazeiro do Norte (CE) para rezar pro meu Padim Padre Ciço. Numa dessas, Alencar não retornou. Ingressou no seminário salesiano e, como todo arigó que se preza, veio parar no Amazonas. Antes de se ordenar padre, viu a Stella, se apaixonou, deixou o seminário e casou com ela, com a Tequinha, cúmplice de minha infância.

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Naturalistas e índios: a vida numa terra sem floresta. Por José Ribamar Bessa Freire

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Dois naturalistas ingleses – Alfred Russell Wallace (1823-1913) e Henry Walter Bates (1825-1892) – percorreram e estudaram a Amazônia e mantiveram um diálogo com os indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes, sem os quais não teriam podido coletar e classificar mais de 8.000 espécies da floresta amazônica. O primeiro passou quatro e o segundo onze anos na região. Os dois chegaram em 1848 e encontraram o Pará dilacerado pela guerra da Cabanagem e pela epidemia da varíola.

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Piso e a narrativa sobre a “cloroquina da maloca”. Por José Ribamar Bessa Freire

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“Submeti ao exame e à praxe tudo o que do amplíssimo teatro da natureza observei ou recebi dos indígenas”. (Guilherme Piso, História da Medicina Brasileira, 1648)

Supunhetemos que a CPI da Pandemia que ouve os vivos, especialmente os vivíssimos, tenha o poder de convocar também os mortos, entre eles o médico Guilherme Piso, considerado o pai da medicina tropical. Advertido que poderia ter sua alma presa no inferno se mentisse, ele jurou dizer a verdade. Deram-lhe, como de praxe, 15 minutos para se apresentar:

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Os crimes de guerra e a Lei Wilson Lima. Por José Ribamar Bessa Freire

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“Posso, sem armas, revoltar-me?” 
( Drummond, A Flor e a Náusea, 1945)

Ao presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira

Saudações!

Escrevo essa carta, mas não repare os senões, como canta Waldick Soriano. Essa abertura vai também em ‘latinorum’ para ser entendida pelos assessores jurídicos do Congresso Nacional: Salutationes, ad te epistulam scribo, sed maculam non observat, aequare Waldickus Sorianus cantat.

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Capitã Cloroquina: o tênis e o pênis do Fon-fon. Por José Ribamar Bessa Freire

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Essa versão cearense daquela piada manjada e preconceituosa aconteceu de verdade na Praia de Iracema, em Fortaleza, a antiga Praia do Peixe. Taí minha irmã Tequinha que não me deixa mentir. Ou deixa? Da varanda de sua residência de veraneio, ela viu quando uma jovem senhora que passeava no calçadão parou na Ponte dos Ingleses para curtir o pôr do sol e foi logo abordada por Chico Feitosa, figura popular que vendia aos banhistas água de coco e até protetor solar, competindo com um batalhão de vendedores ambulantes. 

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A CPI da Poesia: os poetas mortos. Por José Ribamar Bessa Freire

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“Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia”
 (Mário Quintana)

Quem está tentando matar a poesia no Brasil? Para identificar os autores de tais ações foi criada na Câmara de Deputados a CPI da Poesia, que tem o poder de convocar até os mortos. No entanto, como seu foco abrange narrativas literárias e outras formas de expressão artística, indo além do ato poético em si, talvez devesse se chamar a CPI da Poética. De qualquer forma, sua presidente, a deputada federal Joênia Wapixana (Rede/RR), intimou várias testemunhas, advertindo que os mentirosos podiam sair dali presos.

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