Carta aberta ao Covid-19, o dono do mundo. Por José Ribamar Bessa Freire

“Esta pandemia revelará o pior da humanidade ou o melhor de nós mesmos. (Elif Shafak, escritora turca)

No Taqui Pra Ti

Niterói/Manaus, 29 de março de 2020
Do: Taquiprati – Diário do Amazonas
Ao: Covid-19 ou, para os íntimos, Corona Vírus.

Excelentíssimo Senhor dono do mundo

Saudações

Em plena quarentena e inspirado em Waldick Soriano, “escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que sinto loooonge de ti”.

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No Encontro das Águas, o Corona Vírus. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

O ano é 1957 ou 1958. O navio francês se aproxima do porto de Manaus.  Tripulantes e turistas correm para o tombadilho de onde contemplam, embevecidos, o Encontro das Águas. No crepúsculo, avistam uma sombra de bubuia agarrada numa lata de querosene, que servia de boia. O vulto tem nome: é o Nininho, filho do seu Santino lá do Beco da Escola, bairro de Aparecida. Ele havia saído do igarapé de São Vicente, remando uma canoa que naufragou na confluência do Negro e Solimões. O comandante – a lei obriga – baixa um escaler e recolhe o náufrago que permanece uma semana num camarote, comendo cassouletbouillabaisse e de sobremesa petit gâteau, enquanto o navio espera para atracar.

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Futebol e memória indígena na Terra do Fogo. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“A memória não é sonho, é trabalho” (Ecléa Bosi, 1987)

Cada vez que o Club Deportivo Magallanes do Chile entrar em campo nesta temporada 2020, os torcedores serão convidados a evocar o povo Selk’nam, sua cultura e sua arte, sua história e suas lutas. É que a nova camisa do time – algo inédito no continente americano – reproduz a beleza das pinturas corporais desses habitantes originais da Terra do Fogo, cujas peles reverberam nos estádios graças a historiadores, bibliotecários, museólogos, arquivistas, antropólogos e professores que, com o seu trabalho, tornaram visível aquilo que foi apagado pela versão fraudulenta de uma “história única”. O futebol permite que a memória indígena drible o esquecimento.

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As Escolas de Samba que alfabetizam. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“O que tipifica uma atividade como educativa é a sua  natureza e não a pessoa ou a entidade que a realiza”.  (Art. 1º da Lei Geral da Educação do Peru. 1972)

– Por que teu bloco tem o nome irreverente de Fiofó Em Chamas? – perguntei a um grande amigo. Ele disse que este nome competiu com “Tou com o cru pegando fogo”, mas justificou a escolha com a aula de história, que resumo a seguir.

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Jesus da Gente: “Só ame!” – Profecia da Mangueira no Carnaval de 2020. Por Gilvander Moreira*

A Estação Primeira de Mangueira, na noite de 23 para 24 de fevereiro de 2020, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, RJ, fez um desfile histórico e deu uma Aula Magna de Teologia da Libertação por meio do samba-enredo, pelas fantasias, pela arte, ritmo, coreografias etc. Com um samba-enredo inspirado na afirmação evangélica “A verdade vos fará livres” (João 8,32), o carnavalesco Leandro Vieira mostrou as várias faces de Jesus de Nazaré no meio do povo empobrecido e injustiçado nos dias atuais que nos fazem pensar: Jesus com rosto de mulher, de índio, de jovem da periferia, de negro, de LGBTQIs, …  Estas várias faces de Jesus estão em estreita sintonia com o Evangelho de Jesus Cristo.

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Patrícia Mello na cartilha do Olavo de Carvalho. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Tenho nove irmãs. A ofensa a elas me levou a reler o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que redigiu uma espécie de manual no qual expõe e analisa as fake news da época e desconstrói as estratégias desleais e até criminosas usadas em bate-bocas, “para que assim, nos debates reais, possamos reconhecê-las e aniquilá-las”. Após sua morte, em 1860, o manuscrito inédito foi encontrado em uma gaveta por seu discípulo Julius Frauenstäd, que o publicou quatro anos depois, em Leipzig, sob o título de “Erística”, que é, segundo Schopenhauer, “a arte de discutir, não para buscar a verdade, mas para vencer o debate por meios lícitos ou ilícitos”. 

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O Brasil e os ‘nervosos’ do bairro de Aparecida. Por José Ribamar Bessa Freire

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“Que pena a vida ser só isto…” (Cecília Meirelles, 1963)

À semelhança dos três mosqueteiros que, na realidade eram quatro, os cinco “nervosos” na verdade eram seis.

Ninguém sabe explicar de onde vieram, nem eles mesmos. Talvez porque não tenham vindo de lugar algum. Os vizinhos juram que não escutaram barulho de mudança. O que se sabe é que, de repente, numa manhã chuvosa de dezembro de um ano qualquer, da década de 1970, eles estavam lá, naquele barraco da rua Ramos Ferreira, que durante meses permanecera desocupado. Parece que haviam brotado espontaneamente do chão, qual capim entre paralelepípedos.

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Por que Rondônia censurou Machado de Assis? Por José Ribamar Bessa Freire

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver”
(Machado de Assis. 1880. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

No Taqui Pra Ti

A experiência como estudante, em Manaus, em 1964, me permitiu compreender porque Rondônia, sob o governo do coronel Marcos Rocha (PSL vixe vixe) mandou recolher das escolas obras de escritores consagrados. O memorando, alegando o “conteúdo inadequado” dos livros, vazou nas redes sociais nesta quinta (6) e causou o maior rebucetê. Por se tratar de literatura cobrada no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ninguém entendeu. No entanto, a explicação pode ser encontrada no bairro de Aparecida, porque tudo o que acontece ou ainda vai acontecer em qualquer parte do mundo, modéstia às favas, já ocorreu lá no meu bairro.

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A humanidade dos índios: nós quem, cara pálida? Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Os brasileiros aceitaram passivamente, sem questionamento, como se fosse sua, aquela versão que o colonizador português deixou sobre os índios. (Marcos Jiménez de la Espada, 1890)

A genial descoberta feita pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de que “o índio está evoluindo e se tornando um ser humano igual a nós”, ainda não foi patenteada na Associação Brasileira de Antropologia (ABA). De qualquer forma, podemos extraoficialmente confrontá-la com as conclusões da Comissão Científica do Pacífico que andou investigando o assunto no séc. XIX em nome da monarquia espanhola. Assim, saberemos se essa tendência de “humanização” faz parte dessa memória histórica, consultando os relatórios da expedição que cruzou a cordilheira dos Andes até o rio Napo e desceu o rio Amazonas, em 1865, para analisar a biodiversidade e as culturas indígenas.

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Paris é uma festa: o Hemingway de igarapé. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Só existem dois lugares no mundo onde podemos ser felizes: em casa e em Paris”. (Ernest Hemingway. Paris é uma festa. 1964)

Desde o período áureo da borracha, Manaus é chamada de Paris de Igarapé. Por extensão, a Universidade Federal do Amazonas é a Sorbonne de Igarapé e este nosso combativo Diário o Le Monde de Igarapé. É assim que no Amazonas identificamos certas instituições, pessoas, fatos. O interlocutor pode considerar isso um deboche ofensivo, se sua referência for um igarapé moribundo de Manaus, como o Mindu, contaminado por lixo e esgoto. Mas será um elogio se pensar no Cunuri, que reflete em suas águas cristalinas as copas das árvores, fornece água potável e dá vida aos peixes e às plantas na região do alto Tiquié, porque os Tuyuka, que cuidam bem dele, são seres humanos, mas felizmente não “são iguais a nós”.

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