Meu amigo Roberto Luís. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Quando um cachorro morde um homem, não é notícia, mas se um homem morde um cachorro, isso é notícia”. (Charles Dana, redator do New York Tribune, 1862)

Será que chorar aqui a morte do meu amigo Roberto Luís pode ser reprovável? Afinal, ele nunca foi mordido por um homem para virar notícia, conforme lição controversa ensinada outrora nos cursos de jornalismo, que exaltavam o “inusitado” e o “fantástico”. Diariamente morrem milhares de indivíduos, mas as páginas dos jornais não estão abertas para questão pessoal e corriqueira, ainda mais quando há assuntos atuais de interesse coletivo: agressões contra as conquistas sociais, os índios, o meio ambiente, o movimento LGBT, as universidades, a justiça, a saúde pública, a vida.

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Matadores de esperanças: nome feio e palavrões. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Quem? Aristófanes? Do Amazonas? Grego em Manaus só pode ser filho de cearense.

Bingo. O humorista Stanislaw Ponte Preta acertou na mosca, quando fez este comentário espirituoso em sua coluna no “Última Hora” do Rio, na década de sessenta, anunciando o livro de crônicas do mestre Aristófanes Bezerra de Castro, jornalista, romancista, autor de “Um punhado de vidas” (1949) e “Matadores de Esperança” (1959). Ele nasceu em Xapuri, Acre, em 1917 e faleceu em 2006, depois de responder a quatro IPMs (Inquérito Policial Militar) acusado de subversão pela ditadura militar que em 1964 derrubou Jango, o presidente eleito pelo voto. Hoje é nome de uma escola na Cidade Nova em Manaus.

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O Brasil do João não é o do Jair, tá ok?

Morte do cantor encerrou semana em que governo pareceu celebrar seis meses de obscurantismo

Por Luiz Fernando Vianna, na Época

São admiráveis a sinceridade e o poder de síntese de Jair Bolsonaro. Em 4 de setembro de 2018, ele foi curto e grosso sobre o incêndio que destruíra na véspera o Museu Nacional: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”. É o museu mais longevo do Brasil, com 200 anos de história.

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O outro Brasil: Manuel torneiro, escritor, inventor. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Ele é um personagem. Garboso, elegante, inteligente, criativo. Dá bolo em desembargador. Manoel Santana de Assis, 82 anos, baiano, negro, torneiro mecânico, migrou ainda jovem para o Rio, onde conheceu Maria Cruz, neta de uma índia, por quem se apaixonou. Moram em Anchieta, um bairro da Zona Norte cercado por morros, três filhos e dois netos. Depois de 50 anos de trabalho, ele se aposentou. Agora é escritor, inventor e compositor. Um artista.

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Porque me ufano do meu país: dez razões. Por José Ribamar Bessa Freire

“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança, não verás país nenhum como este”. (Olavo Bilac, Poesias Infantis, 1904)

No Taqui Pra Ti

Nesses tempos bicudos, muitos brasileiros andam cabisbaixos, com vergonha de nosso país, sobretudo quando tomam conhecimento da nossa imagem na mídia estrangeira. Convém levantar os ânimos e renovar as esperanças, seguindo o exemplo da irmã Consolata, nossa professora no Ginásio de Aparecida, em Manaus. No ano do golpe de 1964, ela leu e releu em sala de aula as “Poesias Infantis” de Bilac e o livro do conde Affonso Celso “Por que me ufano do meu país”, publicado em 1900. Lá, o escritor monarquista apresenta onze razões pelas quais podemos nos orgulhar do Brasil, entre as quais a diversidade e a beleza de sua natureza hoje agredida.

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Tarcisio, o anarquista: sua Jerusalém destruída. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Apesar de termos sido coevos (que palavra horrível!) na imprensa carioca, só fui conhecer pessoalmente o jornalista mineiro Tarcísio Lage em 1969, em Santiago do Chile, ao compartilharmos o quarto numa pensão na Calle Grajales – uma casona antiga de três andares e 40 janelas que alojava brasileiros exilados da ditadura. Um dia, ao entrar no refeitório, vejo Tarcísio lendo em voz alta, numa roda de hóspedes, uma carta de minha mãe, que eu deixara aberta numa gaveta em nosso quarto. Segurava em sua mão o envelope com bordas verde-amarelas. Era a prova do crime.  Protestei indignado:

– Sacanagem! Isso é invasão de privacidade.

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À sombra de Machado, as línguas indígenas. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o  à loucura” (Lima Barreto: Triste fim de Policarpo Quaresma, 1911)

Foi um momento histórico a mesa-redonda sobre “As línguas indígenas no Brasil do século XXI” realizada na terça (11) na Academia Brasileira de Letras (ABL). Desde sua fundação, é a primeira vez que um presidente da entidade discursa em guarani dentro do santuário da língua portuguesa. Marco Lucchesi abriu o evento dando as boas-vindas aos caciques e líderes que vivem no Rio de Janeiro: “Pende uvyxa kuery Peju porã”. Soou como uma reparação a Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, funcionário do Arsenal de Guerra.

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Entre árvores e pássaros: a última corrida de Bené. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

I think that I shall never see / a poem lovely as a tree / Poems are made by fools like me / but only God can make a tree.  (Joyce Kilmer, 1914)

Na rua das Laranjeiras, no Rio, não há laranjeiras. Talvez até existissem no séc. XVII nas chácaras às margens do rio Carioca. Mas o nome veio mesmo da Quinta das Laranjeiras, um bairro de Lisboa também cercado por morros e árvores. Dois séculos depois, em 1880, a Companhia de Tecidos Aliança se instalou na rua General Glicério e, em nome do “progresso”, desmatou a área sem dó nem piedade. A fábrica faliu em 1938 e as vilas operárias deram lugar a edifícios. Hoje, os passarinhos saltitam sobre os fios elétricos e as árvores que, coitadinhas, resistem espremidas entre blocos de concreto e carros.

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O quati e os índios remeiros no Arsenal da Marinha do Rio. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Quatipuru, me empresta teu sono para eu fazer meu filho dormir” Canção de ninar em Nheengatu – Rio Negro (AM) – 1873

O quati de focinho preto, ainda bebê, foi doado à corveta francesa  Uranie atracada no porto do Rio de Janeiro. Essa passou a ser sua nova casa. Com medo, o bichinho vivia se escondendo, mas pouco a pouco começou a circular livremente pelo tombadilho, saltitando de proa à popa. Bagunceiro, rolava pelos punhos das redes como uma bola, fazia piruetas no mastro, caçava ratos no porão, abria malas com seu nariz comprido e brincava com o cachorro do navio, mordiscando suas orelhas. Ao meio-dia, o enfermeiro de bordo, que dele se encarinhou, chamava-o com um assovio e ele subia em seu ombro para comer. Era a alegria do barco.

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