No Museu da Covid, há muitas gotas de sangue. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Há uma gota de sangue em cada museu” (Mário Chagas, 1997)

A figura patética do general Pazzuelo, ex-ministro da Saúde, flagrado quando desfilava de bermuda e sem máscara num shopping de Manaus, exibindo seu peito de pombo estufado e sua pança proeminente, poderá ser imortalizada no Museu da Covid, caso o Brasil siga o exemplo dos Estados Unidos. Lá o Instituto Smithsonian, responsável pela administração de 19 museus, acaba de criar mais um: o Museu da Pandemia, que pediu doação de objetos e fotos capazes de transmitir para a posteridade o que aconteceu em um dos períodos mais críticos da história da humanidade.

(mais…)

Ler Mais

O som do silêncio na Aldeia da Memória Indígena. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Sou o que sobrou do pássaro que voou / com tantos parentes”.
(Luiz Pucú, poeta amazonense. 2021)

– Professor, o senhor disse que aqui se cantou e dançou durante mais de um milênio. Depois veio o longo silêncio de 350 anos. Mas agora, agorinha, as pessoas estão dançando e cantando. Dá para ouvir a música, as flautas e os maracás?  

Dava sim.

(mais…)

Ler Mais

O Pau que der em Ney, dá em Omar. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente.
[…] estou a ponto de vomitá-lo da minha boca” (Apocalipse 3:14)

 – Em verdade, em verdade vos digo, eu, Taquiprati, ouvi uma grande voz, como de trombeta, que dizia: “o que vês, escreve-o”.  O que vejo é aquilo que minha boca vai agora desengolir: o senador Omar Abdel Aziz (PSD/AM vixe vixe), indicado para presidir a CPI do Genocídio, não é governista, nem oposicionista e muito menos independente. Não é frio, nem quente, nem morno. Muito pelo contrário (Taquiprati 4:18).

(mais…)

Ler Mais

Kassio: o cafofo de Deus e a maloca Tarumã. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Deus, oh Deus! Onde estás que não respondes?”
Castro Alves. Vozes d’África. 1876

Diante da tragédia do coronavirus, o Brasil se pergunta: afinal, onde está Deus? Quem respondeu no séc. XVII foi Karabaina, cacique Tarumã, com argumentação sólida capaz de desmontar a xaropada do ministro do STF, Kássio Nunes, para quem templos e igrejas devem permanecer abertos em plena pandemia, porque só assim os fiéis podem encontrar Deus lá no seu cafofo. Os nove ministros do Supremo derrubaram esta decisão genocida na quinta (8), mas – data vênia – eles teriam reduzido Kássio a subnitratus pulvis peidorum, se tivessem traduzido a fala do cacique para o latim, depois de situar historicamente esse povo de fala Arawak e o uso que fizeram do catecismo.

(mais…)

Ler Mais

O Testamento de Judas na pandemia. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Eu sei que alguém descobre / Falhas no meu testamento”.
Joaquim Apolinário. Testamento do Judas.  1886. (*)

Neste sábado de aleluia, Judas Iscariotes, ministro das Finanças do Inferno, visitou países de cinco continentes, entre eles a America First e o Brasil abaixo de tudo. Aqui viu bonecos de pano com a cara do genocida pendurados em postes das cidades. Fugiu ao se deparar com 330 mil mortos pelo coronavirus. Passou antes por Manaus. No bairro de Aparecida, sofreu a tradicional malhação e se vingou deixando seu testamento em versos psicografado pelo irreverente e desabusado Edilson, o Gaguinho, gênio da poesia popular. Tirem as crianças da sala. Ei-lo aqui. 

(mais…)

Ler Mais

Canção para Thiago: Tetê e Alzira, suas danadas. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Passa pra cá, Tetê, vamos acabar de amor”.
(Autor anônimo. De Manuel Bandeira para Thiago)

Nesta terça (30), Thiago de Mello completa 95 anos. Celebramos juntos vários aniversários seus, o primeiro deles em 1968, numa semiclandestinidade no Rio de Janeiro.

O outro ocorreu no exílio em Santiago do Chile, em 1970. Foi um cumpleaños supimpa, quando sua filha Isabella, minha afilhada então com dois meses de vida, foi apresentada aos amigos chilenos. Cantamos então a canção de autor anônimo, que lhe foi ensinada pelo poeta Manuel Bandeira. Ela faz parte da tradição oral e, que eu saiba, nunca foi gravada. Nem o Google, metido a sabichão, registra a sua existência. Tornou-se o “hino nacional” de cada reencontro nosso.

(mais…)

Ler Mais

Duas vacinas da vida: recém-nascidos e poesia. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“De sua formosura deixai-me que diga: é tão belo como um sim numa sala negativa”.
(João Cabral. Morte e Vida Severina. 1955)

Quase 300 mil mortes por covid no país desgovernado. Diz aí, Felipe Neto, como nominar o capitão que compra armas e não vacinas? Estamos sufocando e o exterminador do presente ainda debocha da nossa agonia. O noticiário amargura o nosso cotidiano. É um martírio assistir a contagem diária dos brasileiros mortos por asfixia em filas de hospitais lotados, sem medicamentos para intubá-los, enquanto o gado obtuso muge, desmascarado e cloroquinado. Milhares de famílias mergulhadas na dor. Impotentes e deprimidos, pranteamos os severinos do asfalto, os entes queridos que “vêm seguindo seu próprio enterro”.

(mais…)

Ler Mais

A fábula do Polvo e da Piranha: Lula e Fred. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Desesperado com a volta de Lula ao cenário político nacional, um sobrinho querido me bombardeou com memes e mensagens enviadas a ele por milícias digitais e grupos de extrema direita, que tratavam o ex-presidente como ladrão.  Fred – esse é o seu nome – frequenta a Igreja Universal do bispo Macedo, paga o dízimo, não perde as atrações da Rede Aleluia e só dorme depois de assistir, de madrugada, o programa Inteligência e Fé da TV Record. Incomodado como todos nós com a corrupção, ele crê piamente, no entanto, que Bolsonaro vai acabar com ela. Fora desse contexto no qual sua mente foi capturada pelo capiroto, ele é inventivo e afetuoso.  

(mais…)

Ler Mais

A sujeira da sojeira: o guarani proibido. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Essa é a história de uma sojeira ou, perdão pelo trocadilho infame, de uma sujeira. A agronegociante brasileira descendente de alemães, Janice Neukamp Haverroth, dona de fazendas de soja em Colônia Luz Bella de Guayaibi, departamento de São Pedro, no Paraguai, quis estabelecer uma ‘política doméstica’ de línguas dentro de sua propriedade. Num áudio, glotocida que bombou nas redes sociais, ela determinou:

– “A partir de hoje é proibido falar guarani na fazenda. Proibido, vocês estão escutando? Pro-i-bi-do”.

(mais…)

Ler Mais