Ailton Krenak: vai te queixar ao bispo! Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

No Brasil, os mortos pelo coronavirus já se aproximam dos 65.000, com mais de 1 milhão e meio de infectados. As consequências para as aldeias indígenas são ainda mais catastróficas em decorrência, entre outras razões, da ação predadora do garimpo. A fim de atenuar a nossa dor, sugiro uma breve trégua. Para descontrair um pouco e com isso – quem sabe? –  adiar o fim do mundo, relato aqui uma história incrível e bem-humorada de resistência que me foi contada pelo querido amigo Ailton Krenak, com um erro de comunicação, que foi um acerto, envolvendo mineradoras, ministro, governador, empresários, policiais, juízes, tabelião, bispo e o povo Krenak.

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Entre o tribunal das redes e a liberdade. Por Elaine Tavares

No Palavras Insurgentes

Eu gosto de novidades e gosto de aprender. Por isso sempre me encantam as novas tecnologias, as novas plataformas, e toda essa mudança louca pela qual passa o nosso planetinha. Acho revigorante e procuro me atualizar. Mas, não faço disso meu mundo. Ainda tenho como maior paixão essa coisa do corpo-a-corpo com a vida. Pode ser essa minha veia repórter. Caminhar pela vida real, sentir os gostos, os cheiros, olhar no olho, tocar na mão, abraçar.

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Higino e a pedagogia Tuyuka: espancando a dor. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Maldigo el fuego del horno / Porque mi alma está de luto / Maldigo los estatutos / Del tiempo con sus bochornos / Cuánto será mi dolor”.
(Violeta Parra, 1966). 

O que Violeta Parra tem a ver com o Poani Higino Pimentel Tenório, 65 anos, contaminado mortalmente pelo coronavirus e sepultado domingo (21)? Sua longa agonia desde meados de maio foi por mim acompanhada através de sucessivas mensagens enviadas por Marivelton Baré, presidente da Federação da Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (FOIRN) e pela antropóloga Flora Cabalzar. Diante do sofrimento de Higino, idealizador da Escola Tuyuka, creio que entendi quanto é universal a dor, o desencanto e a impotência, ao ouvir a sirilla Maldigo del Alto Cielo” gravada pela cantora chilena e que já prenunciava seu suicídio meses depois.

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As duas mortes de Paulinho Payakã. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“As pessoas pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras negras, confundem a verdade com a fonte 12″.  
(Jorge Luís Borges, 1952)

Nesta quarta-feira (17), Paulinho Payakã morreu uma segunda vez, aos 68 anos, vítima da Covid-19 – a “gripezinha” que já contaminou mais de um milhão de brasileiros, matou 50.000 e dizimou o já precário sistema de saúde do país. A primeira vez foi em 1992 durante a Conferência Rio-92, quando ele foi fuzilado pela revista VEJA e jornais de circulação nacional, sem direito à defesa. A execução sumária de Bep-kororoti – esse era seu nome indígena – está descrita e analisada em “A construção de um réu – Payakã e os índios na imprensa brasileira”, livro de Maria José Alfaro Freire que acaba de ser publicado e que ganha uma dramática atualidade. 

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Miguel Baldez: ainda tocando pandeiro. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Os Guarani e os Pataxó do Rio de Janeiro, os moradores de rua, os sem-terra, os trabalhadores rurais e urbanos, os humilhados, os injustiçados e todos aqueles que têm sede de justiça perderam um fiel aliado nesta quarta (10), com a morte do jurista Miguel Baldez. A Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) e a Procuradoria Geral do RJ reconheceram, em notas, o papel fundamental que ele teve na regularização de um espaço para os sem-teto, na demarcação das terras indígenas e nas desapropriações de terrenos para a edificação dos CIEPS, quando chefiava a Procuradoria de Patrimônio e Meio Ambiente.

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Paulo Tripa: não consigo respirar. Por José Ribamar Bessa Freire

“Quando quero ‘Aparecida’ / não é lá que eu vou. / Busco-a em mim mesmo / onde ‘Aparecida’  sou”.  (Paráfrase do poema “Olinda” de Felix de Athayde)

(Diário do Amazonas) Paulo Borges de Lima nasceu no barraco de taipa e zinco da rua Bandeira Branca, n º 86, em Manaus, onde morou durante 82 anos. Conhecido como Paulo Tripa, foi ali que passou a infância e a adolescência com seus pais Rita e Paulino, fabricando broas de goma de mandioca vendidas nas ruas do bairro de Aparecida com o pregão: “Broa! Broa boa de boca!”. Dali, já adulto, saía diariamente para o Porto de Manaus, onde trabalhava como ajudante de pedreiro. Agora, na calçada, sua cadeira de fio de “macarrão”, na qual lia o jornal, ficará para sempre vazia. Nesta terça (2), ele foi levado pelo coronavirus.

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Quando tudo arde, um museu até debaixo d’água: a Casa do Pontal. Por José Ribamar Bessa Freire

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“Que farei quando tudo arde?” (Sá de Miranda, 1550)

Já nos aproximamos dos 30.000 mortos. Perdemos amigos, familiares, alunos, professores, escritores, poetas, músicos, atores e pessoas anônimas amadas que construíam esse país. Não temos sequer um ministro da saúde e nem uma política para defender a vida dos brasileiros, seriamente ameaçada pela “gripezinha” do coronavirus. Com ameaças à democracia feitas pela alucinada familiciana, o Brasil desce cloroquinado e desgovernado ladeira abaixo em direção ao abismo. Perplexos, recorremos à pergunta formulada pelo poeta Sá de Miranda, no último verso de um soneto escrito em meados do séc. XVI: “Que farei quando tudo arde?”.

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A boiada da Amazônia no covil dos bandidos. Por José Ribamar Bessa Freire

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Parecia o encontro de uma quadrilha de malfeitores a reunião de Bolsonaro com seus ministros divulgada nesta sexta (22) por ordem do STF. Durante duas horas, muitos palavrões, mas nenhuma plano, sequer uma palavra, sobre como combater a pandemia, que naquele dia já havia feito mais de 3.000 mortes, com quase 50.000 infectados pelo coronavirus. Os discursos de cada um se referiam a interesses privados, nada republicanos. Um deles enunciado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, diz que é preciso aproveitar que “a imprensa tá voltada quase que exclusivamente pro covid” para “deixar a boiada passar” e mudar em surdina as regras de proteção ao meio ambiente conquistadas a duras penas.

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Convite a repensar a Educação. Por George Monbiot

Há séculos, ensino ocidental prepara para competir, quando precisamos de cooperação; e privilegia saberes que nos distanciam da natureza, o que é alienante e trágico. Agora, a paralisação das aulas pode estimular uma mudança profunda

Tradução de Antonio Martins, em Outras Palavras

Imagine mencionar William Shakespeare para um estudante universitário e descobrir que ele nunca ouviu falar a respeito. Você não acreditaria. Mas é comum e aceitável não saber o que é um artrópode, um vertebrado, ou ser incapaz de explicar a diferença entre um inseto e uma aranha. Ninguém fica embaçado quando uma pessoa “bem formada” não pode oferecer nem uma explicação primária sobre o efeito-estufa, o ciclo do carbono ou o da água, ou sobre como se formam os solos.

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A cura da doença: Feliciano Dessana e os Kokama. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Para curar uma doença / É preciso conhecer / a doença / É preciso criar o mundo / desde o começo / e ver a doença nascer / para então curar (Dessana Dessana, 1975) 

Quando pintou com tinta guache, em 2016, o quadro para a exposição do Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus, o artista plástico Feliciano Lana, um sábio Dessana, talvez não imaginasse que estaria retratando ali sua própria morte, aos 83 anos, ocorrida nesta terça (12), vitimado pelo coronavirus. Lá, dois japus de grande porte, de asas abertas e caudas longas, sobrevoam a floresta em direção à Yamilin Wii –  a Casa da Noite –  cada um segurando o punho de uma rede. Dentro dela o corpo de um indígena, que pode simbolizar tantos outros, muitos outros, abatidos nos rios e igarapés da Pan-Amazônia. Dia após dia cresce o número de mortos, prenunciando catástrofe similar a dos tempos coloniais.

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