Vozes da Amazônia na Terra da Flatolândia. Por José Ribamar Bessa Freire

Santo Ernulfo, rogai por nós que recorremos à voz
(apud Torero & Pimenta)

No Taqui Pra Ti

– Quer dizer, então, que os índios têm arquitetos e médicos melhores que os nossos?

A pergunta foi feita ao microfone por um menino de 11 anos, no final da aula-espetáculo ministrada para cerca de 400 pessoas de todas as idades que lotavam a quadra da Escola Estadual Lothar Sussmann, em Borba, nesta segunda (12). Sentado na primeira fila, ele acabara de ouvir a palestra sobre os cinco equívocos que muita gente boa comete quando se refere às culturas indígenas, um dos quais é considerá-las atrasadas e incapazes de produzir conhecimentos. (mais…)

Ler Mais

Amazônia das palavras: um canto na escuridão. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Faz escuro, mas eu canto/ porque a manhã vai chegar”
(Thiago de Mello)

Thiago de Mello, aos 92 anos, não verá nesta segunda (5/11), o crepúsculo deslumbrante no bairro de Educandos, em Manaus, que ele tanto apreciava em sua infância. Aquela cor amarelo-dourada de ventre de pacu irradiada pelo sol em fuga, ali na Baixa da Égua, dura um instante fugaz do cair da tarde. E já será noite, quando o poeta da floresta for homenageado às 19 horas pelo projeto “Amazônia das Palavras”, no início da expedição literária que navegará 1.300 km pelos rios Negro, Amazonas e Madeira e iluminará oito cidades, semeando em cada uma delas o prazer da literatura e do ato de ler e de narrar. (mais…)

Ler Mais

Museu Nacional: vida, morte, ressurreição. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Se esquecemos o passado, ele volta” (Spinoza)

Muitos documentos históricos do Arquivo de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foram destruídos porque a instituição não tinha verba nem para comprar papel higiênico. Aí, quando seus funcionários sentiam vontade de “descomer”, corriam ao banheiro e, no caminho, arrancavam folha de livro raro ou de manuscrito antigo com a qual se limpavam após “pintarem a porcelana” do vaso sanitário. Dito assim, parece “folclore”, mas não é. Lévi-Strauss, que por lá passou em 1938, copiou do quadro de avisos e publicou em “Tristes Trópicos” o seguinte ato administrativo assinado pelo diretor: (mais…)

Ler Mais

Pra não dizer que eu não falei de ixora. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Ainda fazem da flor /
 Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão”.
(Geraldo Vandré)

– Vovô, como é o nome dessa flor?

A pergunta da Ana, do alto dos seus 7 anos, me pegou de surpresa. Era uma tarde calma. Estávamos numa alameda do parque onde costumamos passear nos fins de semana. (mais…)

Ler Mais

Na eleição, os escravos da palavra. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

As promessas demagógicas de muitos candidatos nessas eleições de outubro me fazem lembrar a reação dos escritores Antônio Callado e Ana Arruda quando lhes contei, em 1978, num jantar na rua Aperana, Leblon, uma história dos índios Tupinambá, que eu acabara de ler nas crônicas dos capuchinhos Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux. Os dois padres franceses, que fundaram São Luís do Maranhão, em 1612, se gabam de haver “civilizado” esses índios, que fizeram “tanto progresso que era como se tivessem passado toda sua vida no meio dos franceses”. Apresentam um inventário desses “avanços”:  (mais…)

Ler Mais

Carta aberta ao General Mourão, o índio do Amazonas. Por José Ribamar Bessa Freire

“Vamos à luta, lutar para vencer. Se for preciso, lutar até morrer”.
(Flávio de Souza, 1968)

Exmo, Sr. General de Exército Antônio Hamilton Martins Mourão
Mui digno candidato a vice presidente da República

O senhor acaba de se identificar oficialmente como “indígena” ao registrar candidatura no Tribunal Superior Eleitoral. Isso foi logo após a repercussão negativa de sua fala a empresários da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul, quando afirmou que o Brasil é subdesenvolvido, porque“herdou a cultura de privilégios dos ibéricos, a indolência dos índios e a malandragem dos africanos”, o que desagradou seus próprios eleitores que não gostaram de se ver assim retratados.  Parece que a mão esquerda tentou consertar, então, o que fez a mão direita, mas disso decorrem problemas de raciocínio. Por isso, desejando elucidar a lógica de sua estreia espalhafatosa no cenário político nacional, me inspiro no saudoso Waldick Soriano e lhe “escrevo essa carta, mas não repare os senões”.  (mais…)

Ler Mais

Lua de sangue: dona Baku, Pedro Inácio e Rubinho. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

No tengo miedo al invierno con tu recuerdo lleno de sol”
(Eduardo Falú / Jaime Dávalos – Tonada del viejo amor)

Sexta-feira. Amanhece. Atravesso a ponte Rio-Niterói. O rádio anuncia a “lua de sangue” que logo virá com a eclipse lunar. Dentro do carro, pegando carona em minhas lembranças, vão comigo três irmãos de luta que se despediram da vida nessa semana: dona Baku – a pajé sateré-mawé, Pedro Inácio – o sábio tikuna e Rubinho – o antropólogo guaranizado. Dois deles, mais jovens que eu, ao furarem a fila, me relembram a finitude da existência. Invadido pela tristeza da perda e pelo medo da morte, busco refúgio no guitarrista argentino Eduardo Falú, cuja voz ressoa no carro cantando “La tonada del viejo amor”: (mais…)

Ler Mais

França ou Croácia? A Expedição Priquita. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Nós, brasileiros, chupando o dedo, assistimos neste domingo o enfrentamento da seleção Franco-africana x Croácia decidindo em Moscou o título de campeã do mundo. Meus dois melhores amigos estão em torcidas opostas. Monsieur Freirré, como era conhecido quando vivia exilado em Paris, vestido de azul, berra diante da televisão: “Allez les bleus”.  O outro, que adotou o nome de Ribamarich, uniformizado com a camisa quadriculada de toalha de mesa, dá adeus aos franceses: Dovidenja francuski. Ele torce pela Croácia, um país pequeno como o Uruguai, com a mesma garra charrua. (mais…)

Ler Mais

O Brasil na panela: dá um caldo. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

A cozinha de um país é sua paisagem colocada na panela. (Provérbio Catalão)

O Brasil inteiro cabe dentro de uma panela. Não me refiro à usada pelos “paneleiros” para derrubar uma presidente eleita. Tal panela é vazia e oca como seus usuários, ao contrário da outra, farta, cheia de ingredientes, condimentos, alimentos que geram turbulências quando não são transportados por caminhões pelas estradas para chegarem à cozinha do consumidor. Dentro dela cabem receitas, temperos, cheiros, sabores, festa, música, humor, literatura, economia doméstica, saúde, higiene e o diabo a quatro. (mais…)

Ler Mais