Entre pássaros, flores e bibas. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Eu vivo em tempos sombrios […] Que tempos são esses em que falar de flores é quase um crime, pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
(Bertold Brecht: Aos que virão depois de nós. 1947)  

Assumo publicamente: saí do armário. Não foi assim de repente, da noite pro dia, mas devagarzinho, com idas e vindas. Começou na infância quando fiquei enfeitiçado por uma biba no bairro de Aparecida, em Manaus. Mas agora, na velhice, surpreendentemente, um caso tornou definitiva e sem volta a saída do armário: a morte nos últimos dias de milhares de pássaros no Novo México (EUA). Mais de um milhão, calcula a bióloga Martha Desmond em entrevista à BBC:

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DEUTERONÔMIO: “Não despeça de mãos vazias seu irmão ou irmã!” Por Gilvander Moreira*

Em setembro de 2020, estamos refletindo sobre o quinto livro da Bíblia: Deuteronômio, que busca resgatar os ideais do Êxodo em tempos de monarquia na iminência de mais um exílio. Os autores e as autoras de Deuteronômio resgatam o ensinamento e o testemunho dos Levitas – lideranças que não podiam ter terra, o que gerava poder – que buscam alertar o povo para não recair nas agruras de outra escravidão semelhante à imposta pelo imperialismo dos faraós no Egito. Imersos na ditadura de monarquia opressora que reproduzia relações sociais escravocratas, os levitas, em textos inseridos no livro do Deuteronômio, propõem a superação de toda e qualquer escravidão e que o povo conquiste liberdade, mas não liberdade abstrata e formal como a ocorrida no Brasil com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888, que despediu de mãos vazias o povo negro escravizado, somente após 38 anos da criação do ‘cativeiro da terra”[1] por meio da Lei de Terras, Lei n. 601, de 18 de setembro de 1850.

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A pequena Pietà amazônica

Por Sonia Zaghetto

Quando ouvir falar em incêndios na Amazônia, lembre-se desta pequena pietá em agonia, abraçando o corpo do filhinho. Xita é o nome dela. A macaquinha de grandes olhos castanhos fugia do fogo quando foi atropelada com os dois filhotes recém-nascidos. Agora há pouco ouvi o relato emocionado do Ueslei Marcelino, fotógrafo da Reuters cobrindo os incêndios na Amazônia.

A minúscula macaquinha, um Sagui-de-Rondônia, abraçava com força o seu recém-nascido quando Ueslei fez a foto. Ambos lutavam por suas vidas. O primeiro filhote morreu após o atropelamento. O da foto se foi dias depois, ainda com o cordão umbilical – e sua morte tão evitável foi registrada numa foto igualmente pungente. A mãe está com uma lesão cerebral e dificilmente vai sobreviver.

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Cutucando onça com vara curta: os índios e as políticas culturais. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

– Quais são os instrumentos mais usados pelos indígenas para tocar música?

Essa foi uma das perguntas feita por uma aluna do 3º ano do ensino fundamental do Instituto GayLussac de Niterói numa aula que dei nesta quarta-feira (2) via zoom a convite de uma amiga, a professora Andrea Ferrassoli. Lá estavam reunidas três turmas num total de 76 alunos de 8 e 9 anos, que me bombardearam com perguntas inteligentes: – Como os índios se movimentam pela floresta sem se perder? Quando ficam doentes como se tratam? Você sabe como eles estão enfrentando a epidemia do coronavirus? Como as crianças brincam nas aldeias? 

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O canto da criança e dos velhos no Morro de São Carlos. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

E no entanto é preciso cantar /  Mais do que nunca é preciso cantar /  É preciso cantar e alegrar a cidade”.
Carlos Lyra – Vinicius de Moraes. 1963

Por uma fresta da porta, é possível ver homens armados com fuzis correndo na rua. Ouve-se um tiroteio. Dentro da casa, uma criança canta, mas sua imagem não foi filmada. Só a voz. Pelo timbre, parece que recém aprendeu a andar e a falar. A mãe, que gravava os lances no meio da fuzilaria, sussurra apavorada: “Cala a boca”. A criança continua. A cena patética exibida pelos telejornais na quinta-feira (27) noticiava o cerco ao morro de São Carlos, cuja escadaria ficaria imortalizada, em 1933, na foto de Augusto Malta.  

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Bolsonaro, o historiador e os negócios da trapaça. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Veio para ressuscitar o tempo e escalpelar  […] os negócios da trapaça. Veio para contar o que não faz jus a ser glorificado”.
(Drummond. “O Historiador”. 1980)

Será que é por pura pinimba que Bolsonaro barra leis aprovadas pelo Congresso Nacional? Da mesma forma que rejeitou a concessão de água potável a indígenas, ele vetou, em abril, na íntegra, o Projeto de Lei do senador Paulo Paim (PT-RS) que regulamenta a profissão de Historiador. Agora, derrotado por deputados e senadores que derrubaram o veto, foi obrigado a promulgar a contragosto, no Diário Oficial da União, nesta terça (18), a lei que havia rejeitado. Caso se recusasse, teria de ceder a caneta ao presidente do Senado, a quem caberia passar o jamegão, como determina a Constituição.

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O poder desarmado*. Por Heloneida Studart

Fonte: Jornal do Brasil, 06/02/2001

Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinha da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

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D. Pedro: os vivos que só escutam a voz dos mortos. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

– É correto concluir que os movimentos sociais precisam de militantes vivos e atuantes e não de mortos e inoperantes?

A pergunta provocativa, numa entrevista em 1979 para o jornal Porantim,  foi feita a Dom Pedro Casaldáliga, quando ele acabava de narrar o assassinato do padre João Bosco Burnier ocorrido três anos antes, numa delegacia de Mato Grosso, onde ambos protestavam contra a tortura de duas mulheres. Sua coragem alicerçada na fé em outra vida lhe permitia enfrentar, desarmado, pistoleiros armados, o que traduzido ao seu discurso me parecia uma apologia da morte. O entrevistado percebeu minha aflição e justificou que valia a pena morrer lutando por uma causa justa, porque – ele disse:

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No STF: Eloy, o menino com fala de velho. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

– Você é um velho...  eu disse em voz alta para todo mundo ouvir. E completei:  – … mas só quando fala.

O “velho” no corpo de menino respondeu com um sorriso tímido. Ele sabia que era um elogio ao seu discurso brilhante em um evento na Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande (MS). Foi em 2011, o terena Luiz Henrique Eloy Amado, 23 anos, recém-formado em direito, acabara de redigir sua monografia premonitória justamente sobre “O Supremo Tribunal Federal (STF) como construtor da Constituição”, focando na  demarcação das Terras Indígenas. Na ocasião, o historiador Antônio Brand profetizou: “Ele promete”.

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Pandemia e normose no espaço de uma manhã. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

A gripezinha duraria, como as rosas de Malherbe, o breve espaço de uma manhã. Essa foi a previsão – vocês lembram? – do deputado Osmar Terra Plana (MDB vixe vixe), cotado para assumir o Ministério da Saúde. Ele não usou linguagem poética, mas o burocratês, para dizer que o resfriadinho ficaria no Brasil por tempo equivalente ao da passagem de ministros pelas pastas da Educação e da Saúde: fugaz e decotellizado. Seria vapt-vupt. Ele anunciou em sua conta no Twitter, no dia 18 de março, do seu lugar de médico, que “o coronavirus (em minúsculo) seria responsável por menos mortes em todo o país do que os óbitos causados pela gripe no Rio Grande do Sul durante o inverno”.

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