A Era dos Colectivos de Solidão. Por Boaventura de Sousa Santos

Em Carta Maior

A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este início de século, longe de ser apenas uma dominação tricéfala particularmente virulenta nos modos de exploração e de discriminação que privilegia, está a assumir a dimensão de um novo modelo civilizatório, uma nova era que, muito para além de desfigurar as instituições, as representações e as ideologias preexistentes, propõe-se criar novas subjectividades para quem o novo modelo é o único modo imaginável de vida. É um processo em construção e obviamente só se consolidará se não houver resistência eficaz. Para que tal resistência ocorra é necessário fazer um diagnóstico radical do que está em causa. Como qualquer outro processo histórico tem uma longa e sinuosa evolução. Sendo uma evolução civilizacional, contou com cumplicidades de forças ideológica e politicamente muito díspares. Foram essas conivências que tornaram possível o consenso de que o processo era irreversível e não havia alternativa. Podemos ver hoje as principais fases por que foi avançando. A primeira fase consistiu numa crítica radical do Estado e na afirmação da sociedade civil como única fonte de virtude e de eficácia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, só possível se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indivíduo. Ou seja, começou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indivíduo autónomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama é uma autonomia uberizada, isto é, a autonomia de indivíduos que não têm condições para ser autónomos. A autonomia da auto-escravatura.

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Não é só por 5 ml. Por Mauro Luis Iasi

Tudo começou com os loucos. Depois foram as crianças. Pouco antes da explosão tudo seguia normal.

No blog da Boitempo

Os mortos caminhavam, como sempre, de cabeça baixa. Saiam de suas casas ainda de madrugada pelas ruas frias e desertas até os pontos de ônibus, ou as estações de trem. Por serem cinzas como as manhas, ninguém os via. Translúcidos, espectrais, invisíveis.

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Aconteceu em Santiago

O que a explosão popular nas ruas do Chile pode dizer sobre as pernas curtas da “nova” direita, a crise do capitalismo e insuficiência de uma esquerda que parece incapaz de renovar seu projeto

por Antonio Martins, em Outras Palavras

E o Chile – quem diria? – pegou fogo por menos de vinte centavos. No início de outubro, o governo de Sebastián Piñera, composto por neoliberais e direita, autorizou a empresa privada que gere o metrô de Santiago a elevar a tarifa máxima, de 800 para 830 pesos (de R$ 4,63 a R$ 4,80). A Assembleia Coordenadora dos Estudantes Secundários (ACES) sugeriu resistência e evasiones, grandes atos coletivos de pula-catraca. O chamado caiu como fagulha em mato seco e incendiou um país castigado pela desigualdade, redução da vida a mercadoria barata e sensação de que o sistema político é insensível à dor e à falta de horizontes das maiorias.

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A Revolução 4.0 e a reedição das lógicas das revoluções burguesas. Entrevista especial com Gaudêncio Frigotto

Por: João Vitor Santos, em IHU On-Line

As revoluções burguesas que iniciam no século XVII e seguem até o século XIX varrem toda a Europa e trazem um novo regime sociopolítico mundial. Caem os reis absolutistas, mas sobram os burgueses liberais. E, se por um lado o Estado se organiza em torno da universalidade e da cidadania, com o tempo, percebe-se que esses avanços de fato não tocam a vida dos mais pobres. Para o professor Gaudêncio Frigotto, o momento que vivemos, da chamada Revolução 4.0, tem provocado uma espécie de atualização dessas desigualdades. “Trata-se de um processo contínuo de substituição na atividade produtiva do trabalho vivo (força física e mental dos trabalhadores) em trabalho morto (máquinas, computadores, robôs etc.). O que a história mostra é que aqueles capitalistas ou grupos que se valem de uma tecnologia que lhes permite, em menos tempo e com menos pessoal, produzir mais lhes dá vantagens na competição com os demais capitalistas”, analisa.

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Piketty: a ‘reforma agrária’ do século XXI

O modelo de propriedade social e temporária de Piketty “é inspirado na reforma agrária reivindicada pelo radical britânico Thomas Paine, um dos referenciais ideológicos da Revolução Americana. Concretamente, cita o trabalho de Paine, Justiça agrária (1795), no qual defendia o estabelecimento de um imposto sucessório para financiar uma renda básica. Um liberalismo igualitário também defendido na França por Maximilien de Robespierre, mas que foi abortado no final do século XVIII em benefício da sacralização da propriedade no século XIX”, escreve Enric Bonet

por Ctxt / IHU On-Line*

Superar o capitalismo por meio da democracia. Pode parecer ousado em uma conjuntura em que são escassas as utopias e são abundantes os relatos apocalípticos. Contudo, esse é o objetivo de Capital et idéologie (Capitalismo e ideologia), o último livro de Thomas Piketty, publicado em francês, em setembro.

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Cuidado e compartilhamento para vida sustentável. Por Cândido Grzybowski

Do Ibase

I – Por que necessitamos de um novo paradigma civilizatório?

Inicio uma série de cinco crônicas levantando algumas questões que tem a ver com a difícil conjuntura e o momento histórico do Brasil e do mundo, mas que apontam para além, para a necessidade de transformações profundas. Aliás, no meu modo de ver, são as questões estratégicas do horizonte histórico (como bem definiu Boaventura Souza Santos), de mudança do próprio paradigma civilizatório, que devem orientar tanto a incontornável análise da conjuntura, buscando sinais e possibilidades de ação no aqui e agora, como construir visões, propostas e ideários mobilizadores da cidadania, definindo caminhos a seguir para a transformação ecossocial necessária na cultura, na sociedade, no poder e na economia. Esta é uma reflexão em que estou engajado há vários anos, começando com um longo texto e um seminário internacional no Ibase, em 2011, esboçando as condições éticas de uma “biocivilização” em oposição ao capitalismo atual. Penso que é oportuno por em debate mais amplo algumas das ideias desenvolvidas de forma mais sistemática desde então. Começo pela questão do cuidado na base da economia para outro mundo. Baseio-me num texto que escrevi a respeito, em 2018, e recentemente publicado na Alemanha, como parte do livro Ethics for Life.

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“Precisamos de uma grande rede de solidariedade para combater o capitalismo e a destruição do planeta”. Entrevista com Judith Butler

Desde o seu nascimento, os estudos de gênero suscitaram debates cada vez mais amplos, que se tornaram cada vez mais importantes em todo o planeta, graças às diferentes ondas feministas. Judith Butler é uma das principais teóricas dessa corrente. Le vent se lève conversou com ela por e-mail para perguntar sobre os principais conceitos de seu trabalho, bem como sobre sua visão do futuro político, em um momento em que a questão da reformulação da masculinidade se tornou crucial para qualquer pessoa que queira lutar contra o patriarcado.

por Lilith Verstrynge e Lenny Benbara, em Ctxt / IHU On-Line*

Você nasceu em uma família judia tradicional, em Ohio. Seu tio foi preso por ser transexual e faleceu na prisão. Seus primos foram expulsos de suas casas por serem homossexuais e você foi levada a um psiquiatra, com 15 anos, quando anunciou sua homossexualidade. Como você desconstrói o gênero em sua difícil história pessoal? Para aquelas e aqueles que não lhe conhecem, como se descreveria?

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Costa Rica: campeona mundial del capitalismo verde

Pronunciamiento del Colectivo de Geografía Crítica “24 de Abril” por motivo del premio “Campeones de la Tierra”, recientemente otorgado a Costa Rica por parte de la ONU

Hablar de ambiente en Costa Rica es una polémica tarea. Por un lado, se ha convertido en un signo de orgullo internacional, un amplificador del nacionalismo y una noticia agradable que nos conforta en medio de nuestras angustias cotidianas. Por otro, es un triste conteo de fracasos, un interminable recuento de las consecuencias más perversas -por lo general ocultas- del modelo de desarrollo y una alerta de que no estamos haciendo las cosas tan bien como nos dicen. 

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O que há por trás de Greta Thunberg

Como se articulou a Greve Climática Global – em que milhões questionaram corporações e governos. Por que a garota sueca tornou-se símbolo. A progressiva politização: da esperança ao desencanto e protestos. O que esperar agora

Por Nick Engelfried, no CTXT | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras

Começou com um chamado à ação de um grupo de jovens ativistas espalhados pelo mundo, e logo tornou-se o que está se configurando como o maior protesto em favor do clima já visto, em escala planetária. A Greve Global pelo Clima, que terminou nesta sexta-feira (27/9) não foi a primeira ocasião em que pessoas de todo o mundo foram às ruas num único dia contra a destruição da natureza. Mas talvez seja um ponto de virada na resistência de base aos combustíveis fósseis.

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O luxo arrasador dos super ricos. Por George Monbiot*

Um voo, em seus jatos, consome o combustível de um ano, numa cidade africana. É preciso cortar seu poder. Um começo: limitar a renda e a riqueza individuais; e defender a frugalidade pessoal, combinada com vida coletiva abundante

No The Guardian| Outras Palavras

Não é exatamente verdade que por trás de cada grande fortuna há um grande crime. Músicos e romancistas, por exemplo, podem tornar-se extremamente ricos oferecendo prazer a outras pessoas. Mas parece ser uma verdade universal de que diante de toda grande fortuna está um grande crime. Riquezas imensas traduzem-se automaticamente em imensos impactos ao meio ambiente, independentemente das intenções daqueles que as possuem. Os muito ricos, quase por definição, estão cometendo ecocídio.

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