Por uma esquerda que dispute o imaginário

É preciso enfrentar o neoliberalismo onde ele foi mais fundo: a construção da subjetividade egoísta, ultracompetitiva, insensível ao outro e ao mundo. Árdua, e frequentemente abandonada, esta luta é possível, e há pistas de como fazê-la

Por Christine Berry* | Tradução: Simone Paz, em Outras Palavras

“A economia é o método: o objetivo é transformar o espírito”. Entender o porquê de Margaret Thatcher ter dito isso é fundamental para compreender o projeto neoliberal — e como devemos caminhar para além dele. Um artigo de Carys Hughes e Jim Cranshaw propõe um desafio crucial para a esquerda com respeito a essa questão. É muito mais fácil contar para nós mesmos uma historinha sobre o longo reinado do neoliberalismo, povoada unicamente por elites onipotentes que impõem sua vontade sobre as massas oprimidas. É muito mais difícil enfrentar com seriedade as maneiras pelas quais o neoliberalismo criou o consentimento popular para levar a cabo suas políticas.

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A difícil fuga da sociedade rottweiler

Seria possível restaurar um capitalismo civilizado e reviver as políticas de coesão social do pós-II Guerra? Que razões estruturais podem ter tornado esta via impossível, exigindo agora uma transição muito mais profunda, incerta e atrevida?

Por Eleutério F. S. Prado*, em Outras Palavras

Esse uso do substantivo próprio “rottweiler”, pesadíssimo, qualifica o quê? Não há dúvida, é com esse indicador de estupidez, bruteza e ferocidade que Paul Collier adjetiva a sociedade que existe atualmente na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na Europa: “a despeito da promessa de prosperidade” – diz – “o que o capitalismo moderno está correntemente entregando [principalmente à população mais tradicional desses países] é agressão, humilhação e medo”. É isto, precisamente isto, que ele quis mostrar em seu livro O futuro do capitalismo – enfrentando novas inquietações (L&PM, 2019), recém-publicado.[1]

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Liberalismo e democracia, a história de um divórcio

Por trás da brutal repressão no Equador e no Chile, o desespero: crise de 2008 escancarou modelo insustentável, calcado nas desigualdades. Agonizante, busca sobrevida no autoritarismo. América Latina será o início da insurgência?

Por Almir Felitte*, em Outras Palavras

Na última década, o mundo inteiro parece ter entrado em um momento conturbado de sua história. Desde a grande Crise de 2008, instabilidades políticas e econômicas vêm tomando conta de uma série de países, de potências do centro global a nações mais periféricas, causando convulsões sociais que, por vezes, parecem prenunciar um novo momento revolucionário mundial.

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A Era dos Colectivos de Solidão. Por Boaventura de Sousa Santos

Em Carta Maior

A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este início de século, longe de ser apenas uma dominação tricéfala particularmente virulenta nos modos de exploração e de discriminação que privilegia, está a assumir a dimensão de um novo modelo civilizatório, uma nova era que, muito para além de desfigurar as instituições, as representações e as ideologias preexistentes, propõe-se criar novas subjectividades para quem o novo modelo é o único modo imaginável de vida. É um processo em construção e obviamente só se consolidará se não houver resistência eficaz. Para que tal resistência ocorra é necessário fazer um diagnóstico radical do que está em causa. Como qualquer outro processo histórico tem uma longa e sinuosa evolução. Sendo uma evolução civilizacional, contou com cumplicidades de forças ideológica e politicamente muito díspares. Foram essas conivências que tornaram possível o consenso de que o processo era irreversível e não havia alternativa. Podemos ver hoje as principais fases por que foi avançando. A primeira fase consistiu numa crítica radical do Estado e na afirmação da sociedade civil como única fonte de virtude e de eficácia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, só possível se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indivíduo. Ou seja, começou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indivíduo autónomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama é uma autonomia uberizada, isto é, a autonomia de indivíduos que não têm condições para ser autónomos. A autonomia da auto-escravatura.

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Não é só por 5 ml. Por Mauro Luis Iasi

Tudo começou com os loucos. Depois foram as crianças. Pouco antes da explosão tudo seguia normal.

No blog da Boitempo

Os mortos caminhavam, como sempre, de cabeça baixa. Saiam de suas casas ainda de madrugada pelas ruas frias e desertas até os pontos de ônibus, ou as estações de trem. Por serem cinzas como as manhas, ninguém os via. Translúcidos, espectrais, invisíveis.

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Aconteceu em Santiago

O que a explosão popular nas ruas do Chile pode dizer sobre as pernas curtas da “nova” direita, a crise do capitalismo e insuficiência de uma esquerda que parece incapaz de renovar seu projeto

por Antonio Martins, em Outras Palavras

E o Chile – quem diria? – pegou fogo por menos de vinte centavos. No início de outubro, o governo de Sebastián Piñera, composto por neoliberais e direita, autorizou a empresa privada que gere o metrô de Santiago a elevar a tarifa máxima, de 800 para 830 pesos (de R$ 4,63 a R$ 4,80). A Assembleia Coordenadora dos Estudantes Secundários (ACES) sugeriu resistência e evasiones, grandes atos coletivos de pula-catraca. O chamado caiu como fagulha em mato seco e incendiou um país castigado pela desigualdade, redução da vida a mercadoria barata e sensação de que o sistema político é insensível à dor e à falta de horizontes das maiorias.

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A Revolução 4.0 e a reedição das lógicas das revoluções burguesas. Entrevista especial com Gaudêncio Frigotto

Por: João Vitor Santos, em IHU On-Line

As revoluções burguesas que iniciam no século XVII e seguem até o século XIX varrem toda a Europa e trazem um novo regime sociopolítico mundial. Caem os reis absolutistas, mas sobram os burgueses liberais. E, se por um lado o Estado se organiza em torno da universalidade e da cidadania, com o tempo, percebe-se que esses avanços de fato não tocam a vida dos mais pobres. Para o professor Gaudêncio Frigotto, o momento que vivemos, da chamada Revolução 4.0, tem provocado uma espécie de atualização dessas desigualdades. “Trata-se de um processo contínuo de substituição na atividade produtiva do trabalho vivo (força física e mental dos trabalhadores) em trabalho morto (máquinas, computadores, robôs etc.). O que a história mostra é que aqueles capitalistas ou grupos que se valem de uma tecnologia que lhes permite, em menos tempo e com menos pessoal, produzir mais lhes dá vantagens na competição com os demais capitalistas”, analisa.

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Piketty: a ‘reforma agrária’ do século XXI

O modelo de propriedade social e temporária de Piketty “é inspirado na reforma agrária reivindicada pelo radical britânico Thomas Paine, um dos referenciais ideológicos da Revolução Americana. Concretamente, cita o trabalho de Paine, Justiça agrária (1795), no qual defendia o estabelecimento de um imposto sucessório para financiar uma renda básica. Um liberalismo igualitário também defendido na França por Maximilien de Robespierre, mas que foi abortado no final do século XVIII em benefício da sacralização da propriedade no século XIX”, escreve Enric Bonet

por Ctxt / IHU On-Line*

Superar o capitalismo por meio da democracia. Pode parecer ousado em uma conjuntura em que são escassas as utopias e são abundantes os relatos apocalípticos. Contudo, esse é o objetivo de Capital et idéologie (Capitalismo e ideologia), o último livro de Thomas Piketty, publicado em francês, em setembro.

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Cuidado e compartilhamento para vida sustentável. Por Cândido Grzybowski

Do Ibase

I – Por que necessitamos de um novo paradigma civilizatório?

Inicio uma série de cinco crônicas levantando algumas questões que tem a ver com a difícil conjuntura e o momento histórico do Brasil e do mundo, mas que apontam para além, para a necessidade de transformações profundas. Aliás, no meu modo de ver, são as questões estratégicas do horizonte histórico (como bem definiu Boaventura Souza Santos), de mudança do próprio paradigma civilizatório, que devem orientar tanto a incontornável análise da conjuntura, buscando sinais e possibilidades de ação no aqui e agora, como construir visões, propostas e ideários mobilizadores da cidadania, definindo caminhos a seguir para a transformação ecossocial necessária na cultura, na sociedade, no poder e na economia. Esta é uma reflexão em que estou engajado há vários anos, começando com um longo texto e um seminário internacional no Ibase, em 2011, esboçando as condições éticas de uma “biocivilização” em oposição ao capitalismo atual. Penso que é oportuno por em debate mais amplo algumas das ideias desenvolvidas de forma mais sistemática desde então. Começo pela questão do cuidado na base da economia para outro mundo. Baseio-me num texto que escrevi a respeito, em 2018, e recentemente publicado na Alemanha, como parte do livro Ethics for Life.

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