Ela produz grãos na mesma grandeza com que devasta – natureza, corpos, esperança – e condena 33,1 milhões de seus trabalhadores à fome. Desalento e ódio tornaram-se a voz das ruas. E a espiral da violência ganha vulto. É preciso pará-la
Por Alexandre Aragão de Albuquerque*, em Outras Palavras
“Quando teu navio, ancorado muito perto no porto, te deixa a impressão enganosa de ser uma casa, quando teu navio começar a criar raízes na estagnação do cais, faze-te ao largo. É preciso salvar, a qualquer preço, a alma viajadora do teu barco e tua alma de peregrino”.
No final dos anos 1960, em plena ditadura militar brasileira, o então arcebispo católico de Recife, Dom Hélder Câmara, na busca por entender a escalada da violência na situação neocolonial daquele período, no qual as populações da América Latina eram submetidas ao jugo das Forças Armadas nacionais em obediência ao Império estadunidense, publicou um estudo intitulado Espiral de Violência (Ed. Sigueme, 1970) apontando para a injustiça estrutural como uma forma de violência básica, praticada tanto entre nações desenvolvidas contra as subdesenvolvidas, como no interior das “nações neocolonizadas”, onde a classe dominante oprime a população em geral. Em tais situações, os grupos governantes nacionais colaboram com os governos, os bancos e as corporações internacionais na exploração de seus próprios países, buscando se beneficiar com tal exploração. Este estudo continua a manter-se com grande atualidade diante da violência a que estamos submetidos, desde o golpe híbrido de 2016, aprofundado impiedosamente com a chegada do bolsonarismo ao poder central.
(mais…)
Ler Mais