José Alberto Mujica Cordano (1935-2025) será rememorado pelo seu permanente renascimento. Sua extraordinária biografia política segue despertando curiosidade por todo o planeta. Como poucos, “Pepe”, como era conhecido, teve claramente uma causa genuína para viver e o fez com um entusiasmo peculiar mesmo em condições absurdamente desfavoráveis. Provavelmente o interesse das novas gerações por sua figura seja devido também ao expressivo número de acontecimentos e reviravoltas que sucederam em sua trajetória, entremeada de derrotas, ilusões, esperanças, lucidez, loucuras, pessimismos, contradições e afetos. As diversas imagens que atravessam como uma flecha as etapas de seu itinerário intempestivo carregam em comum o comprometimento inegociável de transformar o mundo, que se manteve fervorosamente até o fim. (mais…)
conjuntura
A fraqueza dos EUA e o desmonte da União Europeia. Por José Luís Fiori
Trump não criou o caos global, apenas acelerou o colapso de uma ordem internacional que já vinha ruindo desde os anos 1990, com guerras ilegais, falência moral do Ocidente e a ascensão de um mundo multipolar
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Ao se completarem os cem primeiros dias do governo de Donald Trump, um importante site de notícias brasileiro publicou na primeira página, ecoando boa parte da imprensa ocidental, que “em 100 dias Donald Trump provocou o caos e abalou a ordem mundial”. Isso é apenas parcialmente verdadeiro, uma vez que a desmontagem da “ordem internacional” do pós-Guerra Fria começou muito antes que Donald Trump fosse eleito pela primeira vez, em 2016. (mais…)
Era uma vez no Ocidente. Por Luiz Marques
Este é o século do absurdo, da necropolítica, de jovens infelizes e a da busca (desesperada) por um sentido que o capitalismo roubou
Para um antigo hebreu, a pergunta “Você acredita em Deus” equivalia à indagação “Você tem fé em Jeová?” Não indicava um problema intelectual, mas uma equação relacional. Os pré-modernos não se sentiam interpelados pela dúvida sobre a existência da divindade, diferente dos modernos em um período em que a vida nunca valeu tão pouco. O século XX, por expelir lavas de extermínio aos borbotões e contabilizar milhões de óbitos desnecessários, foi um matadouro em escala industrial. (mais…)
Papa sem visão global será retrocesso vergonhoso, diz Frei Betto
Frade e escritor analisa o papado de Francisco e as movimentações para a escolha do novo papa
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Por Claudia Jardim, Andrea DiP, Stela Diogo, Ricardo Terto, Agência Pública
Em um momento de intensas transformações e de conflitos internacionais, a escolha do novo líder da Igreja Católica Romana gera uma grande expectativa. A morte de Jorge Bergoglio, o papa Francisco, primeiro sumo pontífice latino-americano e jesuíta, deixou um legado reformista, como a bênção para casais homoafetivos, o perdão às mulheres que fizeram aborto, que antes eram excomungadas e o reconhecimento de que a Igreja deve se envergonhar a pedir perdão às vítimas de abuso sexuais cometidos por padres. (mais…)
Grandes substituições. Por Luiz Marques
A historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, em O eu soberano: ensaio sobre as derivas identitárias, aponta a hipertrofia egoica e a intoxicação narcísica em guinadas ideológicas que conduzem a um “novo conformismo da norma”. Qual os atenienses que veneravam o “navio de Teseu”, os timoneiros atuais de tanto trocar as peças gastas por outras não conseguem assegurar que se mantêm na mesma embarcação desde o princípio ao fim da jornada, com coerência filosófica. (mais…)
Chomsky e a alternativa socialista ao caos climático
A contribuição política mais conhecida de Noam Chomsky é sua poderosa e duradoura crítica à política externa dos EUA. Mas ele também usou sua influência global para soar o alarme sobre a crise climática e traçar um caminho para resolver esse desastre.
Por Robert Pollin / Tradução: Pedro Silva, Jacobina
e decidirmos levar a sério a posição consensual esmagadora de cientistas climáticos confiáveis, temos que aceitar que as mudanças climáticas representam uma ameaça verdadeiramente existencial à continuação da vida na Terra como a conhecemos. (mais…)
Como a direita sequestrou Antonio Gramsci
Inspirados por uma leitura equivocada de Antonio Gramsci, defensores de extrema direita passaram décadas tentando criar espaços intelectuais e culturais. Mas sua versão das ideias de Gramsci deixa de fora um elemento crucial: a luta de classes.
Por Nathan Sperber e George Hoare / Tradução: Pedro Silva, Jacobina
Um um ensaio de 1991 intitulado “Winning the Culture War: The American Cause” [Vencendo a guerra cultural: a causa estadunidense], o pensador conservador radical Sam Francis invocou o fantasma do falecido comunista italiano Antonio Gramsci para oferecer à extrema direita estadunidense um caminho estratégico para o futuro. Criticando o establishment dos EUA por não fazer “nada para conservar o que a maioria de nós considera nosso modo de vida tradicional”, Francis pediu nada menos do que “a derrubada das autoridades dominantes que ameaçam nossa cultura”. Mas quanto aos métodos políticos necessários para promulgar tal derrubada, ele admitiu que “pouco encontraremos na teoria conservadora para nos instruir na estratégia e nas táticas de desafiar as autoridades vigentes”. (mais…)
