Amazona

por Rita Brás, no Buala

Da minha janela vejo o Cristo Redentor, fantasma pairando nas nuvens sobre a imensa floresta cá em baixo, os conglomerados de prédios, e os barracões do morro dos Cabritos. Enquanto isso, no gira-discos, o Caetano canta: “everybody knows that our buildings were build to be destroyed.” London, London, o disco que fez no exílio, pedindo para a irmã Bethânia mandar notícias “Better, better, beta, beta, Bethânia”. Ela que vendeu sua alma ao diabo, que por sua vez a entregou a Deus, e “Before you can see/ She has given her soul to the devil / And bought a flat by the sea.”

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Žižek: De Hong Kong ao Chile?

Devemos evitar a todo custo celebrar esses protestos por conta de sua distância em relação à política estabelecida. Há aqui uma difícil tarefa “leninista” diante de nós: como organizar o crescente descontentamento em todas as suas formas, incluindo os protestos ecológicos e feministas, na forma de um movimento coordenado e de larga escala? Se fracassarmos nisso, o que nos aguarda é uma sociedade de estado de exceção e descontentamento civil permanentes.

Por Slavoj Žižek, no Blog da Boitempo

Em meados de outubro de 2019, a mídia chinesa lançou uma ofensiva que promovia a alegação de que as manifestações na Europa e na América do Sul seriam o resultado direto da tolerância ocidental para com as revoltas em Hong Kong. Em um comentário publicado na Beijing News, o ex-diplomata chinês Wang Zhen escreveu: “o impacto desastroso de uma ‘Hong Kong caótica’ começou a influenciar o mundo ocidental’ – isto é, que os manifestantes chilenos e espanhóis estariam se inspirando em Hong Kong. Na mesma linha, um editorial da Global Times acusou os manifestantes de Hong Kong de “exportarem revolução ao mundo”. E prosseguiu dizendo que o “Ocidente está pagando o preço por ter apoiado as revoltas em Hong Kong, o que rapidamente deflagrou irrupções de violência em outras partes do mundo pressagiando os riscos políticos que o Ocidente não dá conta de gerir.” Em um comentário registrado em vídeo, o editor Hu Xijin emenda: “Há muitos problemas no Ocidente e todo tipo de descontentamento subjacente em fermentação. Muito disso eventualmente eclodirá à maneira dos protestos de Hong Kong”, e conclui ominosamente: “A Catatonia é provavelmente apenas o início.”1

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A Era dos Colectivos de Solidão. Por Boaventura de Sousa Santos

Em Carta Maior

A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este início de século, longe de ser apenas uma dominação tricéfala particularmente virulenta nos modos de exploração e de discriminação que privilegia, está a assumir a dimensão de um novo modelo civilizatório, uma nova era que, muito para além de desfigurar as instituições, as representações e as ideologias preexistentes, propõe-se criar novas subjectividades para quem o novo modelo é o único modo imaginável de vida. É um processo em construção e obviamente só se consolidará se não houver resistência eficaz. Para que tal resistência ocorra é necessário fazer um diagnóstico radical do que está em causa. Como qualquer outro processo histórico tem uma longa e sinuosa evolução. Sendo uma evolução civilizacional, contou com cumplicidades de forças ideológica e politicamente muito díspares. Foram essas conivências que tornaram possível o consenso de que o processo era irreversível e não havia alternativa. Podemos ver hoje as principais fases por que foi avançando. A primeira fase consistiu numa crítica radical do Estado e na afirmação da sociedade civil como única fonte de virtude e de eficácia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, só possível se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indivíduo. Ou seja, começou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indivíduo autónomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama é uma autonomia uberizada, isto é, a autonomia de indivíduos que não têm condições para ser autónomos. A autonomia da auto-escravatura.

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É preciso coragem para refazer a cidadania, sem medo de errar e recomeçar. Por Cândido Grzybowski

Do Ibase

É próprio do fazer sociológico a análise mais apurada da correlação de forças políticas criadoras das conjunturas, por mais retrógradas que sejam. Mas o “que fazer” de ativista é pensar e agir sempre para mudar as conjunturas com visão de futuro desejável, vendo onde incidir para torná-lo possível. Carrego em mim mesmo tal dilema. É sempre mais fácil tomar distância e fazer análise, a mais fundadamentada possível, sem nela incorporar o nosso imaginário de outro mundo, dos princípios e valores éticos que nos orientam, das opções estratégicas que pensamos serem necessárias para tanto. O fato é que este outro lado da reflexão, engajado, muda a própria análise e revela o compromisso que ela carrega. É um dilema? Sem dúvidas, é! Mas para que vale a ciência sem visão e compromisso ético com o futuro e com a busca de sua realização histórica a partir do aqui e agora?

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“O bolsonarismo é o neofacismo adaptado ao Brasil do século 21”

Para estudioso português de governos autoritários, bolsonarismo soma “nostalgia da ditadura, discurso sobre a corrupção” e “ligação ao mundo evangélico”

Por Ricardo Viel, Agência Pública

Manuel Loff tinha 9 anos quando um grupo de capitães e soldados portugueses, cansados de serem mandados à África para uma guerra sanguinária contra os movimentos de libertação das colônias, derrubou uma ditadura que já durava 41 anos – a mais longeva da Europa. A lembrança mais viva que tem daquele dia 25 de abril de 1974, quando a Revolução dos Cravos derrubou o regime salazarista (fundado por António de Oliveira Salazar), é do irmão, que tinha 14 anos, bêbado, a gritar: “Já não vou para a guerra!”.

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E agora, Brasil? Por Boaventura de Sousa Santos

No Brasil de Fato

As palavras que mais ocorrem são estupefacção e perplexidade. O governo brasileiro caiu no abismo do absurdo, na banalização total do insulto e da agressão, no atropelo primário às regras mínimas de convivência democrática, para já não falar das leis e da Constituição, na destilação do ódio e da negatividade como única arma política. Todos os dias somos bombardeados com notícias e comentários que parecem vir de uma cloaca ideológica que acumulou ranço e decomposição durante anos ou séculos e agora exala o mais nauseabundo e pestilento fedor como se fosse o perfume da novidade e da inocência.

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Uma “potência acorrentada”

Está em marcha o “Projeto Dominium”: Bolsonaro & Guedes minam liderança regional do Brasil para transformá-lo em protetorado dos EUA. Superar esse destino exigirá um projeto de longo prazo de país — e que a sociedade volte a caminhar por si

por José Luís Fiori, Outras Palavras

Em qualquer momento da história é possível acovardar-se e submeter-se, mas, atenção, porque o preço das humilhações será cada vez maior e insuportável para a sociedade brasileira. 
J.L.F. História, estratégia e desenvolvimento. São Paulo: Editora Boitempo, 2014, p. 277.

Fatos são fatos: na segunda década do século XXI, o Brasil ainda é o país mais industrializado da América Latina e é a oitava maior economia do mundo; possui um Estado centralizado, uma sociedade altamente urbanizada e é o principal player internacional do continente sul-americano. E apesar de sua situação atual, absolutamente desastrosa, segue sendo um dos países com maior potencial pela frente, se tomarmos em conta seu território, sua população e sua dotação de recursos estratégicos.

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Boaventura de Sousa Santos: “Os trabalhadores estão ficando cada vez com mais trabalho e sem direitos”

Em visita ao RS, Boaventura de Sousa Santos falou com o Brasil de Fato sobre a situação política e social do Brasil

Fabiana Reinholz e Katia Marko; Luiz Muller (Rede Soberania), no Brasil de Fato

Em uma manhã de um leve frio, depois de alguns dias de um “veranico” um tanto quanto atípico para o mês de junho porto-alegrense, o sociólogo e jurista português Boaventura de Souza Santos, das universidades de Coimbra (Portugal), de Wisconsin-Madison e de Warwick (EUA), conversou por mais de uma hora com o Brasil de Fato RS e com a Rede Soberania. 

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“O efêmero é o que rompe o curso do tempo da dominação”. Entrevista com Jacques Rancière

No IHU Online

Há formas de pensar não diferentes, mas em dissidência, de não repetir a esgotadora mensagem do diagnóstico do mal e, ao mesmo tempo, de descobrir as possibilidades infinitas da ação humana. O filósofo francês Jacques Rancière pertence a esta dinastia dos rebeldes com magia e argumentos. Aquele que se aproximar de sua abundante obra, sairá com suas convicções transtornadas. Discípulo de Louis AlthusserRancière, no entanto, fugiu dos vícios de uma tradição marxista fossilizada, confrontando seu pensamento com as lutas concretas dos operários e os dominados.

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