Como a esquerda brasileira morreu. Por Vladimir Safatle

“É um sintoma de que o grupo não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político e só conhece um horizonte de atuação, o ‘populismo'”, escreve Vladimir Safatle, filósofo e professor na USP, em artigo publicado por El País

IHU On-Line

Este é um artigo que gostaria de não ter escrito e não tenho prazer algum em fazer enunciações como a que dá corpo ao título. No entanto, talvez não haja nada mais adequado a falar a respeito da situação política brasileira atual, depois de um ano de Governo Jair Bolsonaro e a consolidação de seu apoio entre algo em torno um terço dos eleitores. Aqueles que acreditavam em alguma forma de colapso do Governo e de sua base precisam rever suas análises. 

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Por uma nova Declaração dos Direitos Humanos. Por Boaventura de Sousa Santos

Vistos como triunfantes, após a queda do Muro de Berlim, eles estão em frangalhos – tanto os sociais quanto os civis –, pois o capital os vê como obstáculos. Será possível resgatá-los, livrando-os das nódoas do eurocentrismo?

Em Outras Palavras

O grande filósofo do século XVII, Bento Espinosa, escreveu que os dois sentimentos básicos do ser humano (afetos, na sua linguagem) são o medo e a esperança, e sugeriu que é necessário um equilíbrio entre ambos, pois medo sem esperança leva à desistência e a esperança sem medo pode levar a uma auto-confiança destrutiva. Esta ideia pode ser transferida para as sociedades contemporâneas, sobretudo num tempo em que, com o ciberespaço, as comunicações digitais interpessoais instantâneas, a massificação do entretenimento industrial e a personificação massiva do microtargeting comercial e político, os sentimentos coletivos são cada vez mais “parecidos” com os sentimentos individuais, ainda que sejam sempre agregações seletivas. É por isso que a identificação com o que se ouve ou lê é hoje tão imediata (“é isto mesmo que eu penso”, mesmo que nunca se tenha pensado sobre “isto” anteriormente), tal como o é a repulsa (“eu bem tinha razão para odiar isto”, mesmo que nunca se tenha odiado “isto” anteriormente). Os sentimentos coletivos transformam-se assim facilmente numa memória inventada, no futuro do passado dos indivíduos. Claro que isto só é possível porque, na ausência de uma alternativa, a degradação das condições materiais da vida torna-se vulnerável a uma ratificação reconfortante do status quo.

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Durante visita a Pernambuco, Boaventura de Sousa Santos defende universidade pública

Sociólogo participou de ciclo de atividades em Recife e Caruaru

Daniel Lamir, Brasil de Fato

A agenda do português Boaventura de Souza Santos reservou quase uma semana de eventos em terras pernambucanas. O sociólogo sustentou a importância de articulação entre as universidades públicas e os movimentos populares através da prática e da teoria, entre os dias 09 e 14 de dezembro. Boaventura palestrou sobre os temas da democracia e da educação, além de lançar livro, participar de atividades da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS) e receber o título de Doutor Honoris Causa concedido pelas universidades Federal de Pernambuco (UFPE) e Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

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Em busca da funda de David

Uma análise estratégica da conjuntura. Como a esquerda deixou de enfrentar o capital no terreno dos projetos de mundo, da cultura e da formação política e se limitou à disputa institucional. Por que isso leva à derrota certa

Por Maurício Abdalla*, em Outras Palavras

“Saul vestiu Davi com sua própria armadura, colocou-lhe na cabeça um capacete de bronze, revestiu-o com a sua couraça, e pôs a espada na cintura dele, sobre a armadura. Em vão Davi tentou andar, pois nunca tinha usado nada disso. Então falou a Saul: «Não consigo nem andar com essas coisas. Não estou acostumado». Tirou tudo, pegou o cajado, escolheu cinco pedras bem lisas no riacho e as colocou no seu bornal. Depois pegou a funda e foi ao encontro do filisteu.[…] Enquanto o filisteu se aprumava e se aproximava de Davi pouco a pouco, Davi correu depressa para se posicionar e enfrentar o filisteu. Davi enfiou a mão no bornal, pegou uma pedra, atirou-a com a funda e acertou na testa do filisteu. A pedra afundou na testa do filisteu, que caiu de bruços no chão. Assim Davi foi mais forte que o filisteu, apenas com uma funda e uma pedra: sem espada na mão, feriu e matou o filisteu” (1Sm 17, 38-40.48-50).

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Amazona

por Rita Brás, no Buala

Da minha janela vejo o Cristo Redentor, fantasma pairando nas nuvens sobre a imensa floresta cá em baixo, os conglomerados de prédios, e os barracões do morro dos Cabritos. Enquanto isso, no gira-discos, o Caetano canta: “everybody knows that our buildings were build to be destroyed.” London, London, o disco que fez no exílio, pedindo para a irmã Bethânia mandar notícias “Better, better, beta, beta, Bethânia”. Ela que vendeu sua alma ao diabo, que por sua vez a entregou a Deus, e “Before you can see/ She has given her soul to the devil / And bought a flat by the sea.”

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Žižek: De Hong Kong ao Chile?

Devemos evitar a todo custo celebrar esses protestos por conta de sua distância em relação à política estabelecida. Há aqui uma difícil tarefa “leninista” diante de nós: como organizar o crescente descontentamento em todas as suas formas, incluindo os protestos ecológicos e feministas, na forma de um movimento coordenado e de larga escala? Se fracassarmos nisso, o que nos aguarda é uma sociedade de estado de exceção e descontentamento civil permanentes.

Por Slavoj Žižek, no Blog da Boitempo

Em meados de outubro de 2019, a mídia chinesa lançou uma ofensiva que promovia a alegação de que as manifestações na Europa e na América do Sul seriam o resultado direto da tolerância ocidental para com as revoltas em Hong Kong. Em um comentário publicado na Beijing News, o ex-diplomata chinês Wang Zhen escreveu: “o impacto desastroso de uma ‘Hong Kong caótica’ começou a influenciar o mundo ocidental’ – isto é, que os manifestantes chilenos e espanhóis estariam se inspirando em Hong Kong. Na mesma linha, um editorial da Global Times acusou os manifestantes de Hong Kong de “exportarem revolução ao mundo”. E prosseguiu dizendo que o “Ocidente está pagando o preço por ter apoiado as revoltas em Hong Kong, o que rapidamente deflagrou irrupções de violência em outras partes do mundo pressagiando os riscos políticos que o Ocidente não dá conta de gerir.” Em um comentário registrado em vídeo, o editor Hu Xijin emenda: “Há muitos problemas no Ocidente e todo tipo de descontentamento subjacente em fermentação. Muito disso eventualmente eclodirá à maneira dos protestos de Hong Kong”, e conclui ominosamente: “A Catatonia é provavelmente apenas o início.”1

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A Era dos Colectivos de Solidão. Por Boaventura de Sousa Santos

Em Carta Maior

A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este início de século, longe de ser apenas uma dominação tricéfala particularmente virulenta nos modos de exploração e de discriminação que privilegia, está a assumir a dimensão de um novo modelo civilizatório, uma nova era que, muito para além de desfigurar as instituições, as representações e as ideologias preexistentes, propõe-se criar novas subjectividades para quem o novo modelo é o único modo imaginável de vida. É um processo em construção e obviamente só se consolidará se não houver resistência eficaz. Para que tal resistência ocorra é necessário fazer um diagnóstico radical do que está em causa. Como qualquer outro processo histórico tem uma longa e sinuosa evolução. Sendo uma evolução civilizacional, contou com cumplicidades de forças ideológica e politicamente muito díspares. Foram essas conivências que tornaram possível o consenso de que o processo era irreversível e não havia alternativa. Podemos ver hoje as principais fases por que foi avançando. A primeira fase consistiu numa crítica radical do Estado e na afirmação da sociedade civil como única fonte de virtude e de eficácia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, só possível se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indivíduo. Ou seja, começou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indivíduo autónomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama é uma autonomia uberizada, isto é, a autonomia de indivíduos que não têm condições para ser autónomos. A autonomia da auto-escravatura.

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É preciso coragem para refazer a cidadania, sem medo de errar e recomeçar. Por Cândido Grzybowski

Do Ibase

É próprio do fazer sociológico a análise mais apurada da correlação de forças políticas criadoras das conjunturas, por mais retrógradas que sejam. Mas o “que fazer” de ativista é pensar e agir sempre para mudar as conjunturas com visão de futuro desejável, vendo onde incidir para torná-lo possível. Carrego em mim mesmo tal dilema. É sempre mais fácil tomar distância e fazer análise, a mais fundadamentada possível, sem nela incorporar o nosso imaginário de outro mundo, dos princípios e valores éticos que nos orientam, das opções estratégicas que pensamos serem necessárias para tanto. O fato é que este outro lado da reflexão, engajado, muda a própria análise e revela o compromisso que ela carrega. É um dilema? Sem dúvidas, é! Mas para que vale a ciência sem visão e compromisso ético com o futuro e com a busca de sua realização histórica a partir do aqui e agora?

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“O bolsonarismo é o neofacismo adaptado ao Brasil do século 21”

Para estudioso português de governos autoritários, bolsonarismo soma “nostalgia da ditadura, discurso sobre a corrupção” e “ligação ao mundo evangélico”

Por Ricardo Viel, Agência Pública

Manuel Loff tinha 9 anos quando um grupo de capitães e soldados portugueses, cansados de serem mandados à África para uma guerra sanguinária contra os movimentos de libertação das colônias, derrubou uma ditadura que já durava 41 anos – a mais longeva da Europa. A lembrança mais viva que tem daquele dia 25 de abril de 1974, quando a Revolução dos Cravos derrubou o regime salazarista (fundado por António de Oliveira Salazar), é do irmão, que tinha 14 anos, bêbado, a gritar: “Já não vou para a guerra!”.

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