O ataque brutal ao cachorro Orelha não surge como aberração: é a culminância de um processo pedagógico silencioso em que o jovem aprende que há seres cuja função social é ser ridicularizado, espancado, descartado…
Verbena Córdula, Diálogos do Sul Global
A impunidade não nasce no tribunal. Ela é ensaiada no jantar de família — muito antes do crime, do boletim de ocorrência ou da perícia. Começa quando pais e responsáveis ensinam, cotidianamente, que regras são negociáveis quando se tem poder suficiente para dobrá-las. Por exemplo, pressionar professores para aprovar um filho despreparado é uma aula prática sobre como instituições funcionam para quem sabe exigir, ameaçar ou constranger. É nesse aprendizado precoce que se forma o sujeito que, mais tarde, não vê problema em humilhar, torturar ou matar. O que aconteceu com o cachorro Orelha é a continuação lógica dessa pedagogia da impunidade, a partir da qual a violência extrema surge como desdobramento natural de anos de permissividade e limites sistematicamente destruídos no espaço doméstico. (mais…)
