O Comum deveria ser a alma da vida urbana. Mas o desenho das metrópoles amplia o mal-estar coletivo. Poderia um planejamento, a partir do Cuidado e da desaceleração, mitigar o sofrimento psíquico? Reflexões a partir do urbanismo, da psicanálise e do “andar de baixo”
Por Rôney Rodrigues, em Outras Palavras
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade, em “Elegia 1938” (O Sentimento do Mundo, 1940)
Edvaldo Gonçalves de Souza, um cara franzino, negro e cinquentão, viveu anos nas ruas de São Paulo. Viveu, não morou, frisa, pois sarjeta não é casa. Conheço-o há quase dez anos. Hoje liderança do movimento da população em situação de rua, ele nunca furta-se a descrever uma cidade que parece desenhada para adoecer as pessoas. “São tantas coisas, bicho”… E aí vão reticências, até encontrar palavras adequadas para narrar o apartheid urbano, que conhece muito bem porque viveu na pele; é um desterrado da metrópole, que foi empurrado para trabalhos cada vez mais precários, amargou o desemprego, afundou-se na depressão, o que, junto com um desarranjo familiar, o fez buscar consolo na aguardente, ser despejado e ir parar no olho da rua… e comer o pão que o capital sovou. (mais…)
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