Que permite aos oprimidos tirar o sono de seus algozes mesmo liquidados? Será a teimosia em não aceitar que estamos todos aprisionados? E é por isso que nos esquecemos de sua existência – para que a chama subversiva não se espalhe?
Por Priscila Figueiredo*, em Outras Palavras
Os versos de Francisco Alvim “A [cobra] que mesmo depois de morta,/pica mais forte” poderiam explicar a ameaça, já expressão idiomática, contida em “sua boca vai ficar cheia de formiga”. A brutalidade desse veredito, dos mais sádicos, aponta para o que de pior pode acontecer ao ameaçado, o qual no entanto se continuará a temer mesmo quando já for matéria inerte, por isso a cautela suplementar: “Você não apenas estará morto em breve, mas sua boca, pela qual você se tornaria sujeito, se confundirá com a terra, será invadida por ela e seus bichos”. A integridade do cadáver se desfará antes do tempo, e melhor ainda que isso, o órgão pelo qual se afirmaria no mundo o humano vivo que o antecedeu.
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