Dia Santo, por Elaine Tavares

Em Palavras Insurgentes

Há muito tempo, na minha infância, quando morava em São Borja, a sexta-feira santa era dia de acordar muito cedo para colher marcela. Tinha que ser antes do sol nascer, pois a erva tinha de ser colhida orvalhada. A mãe dizia que o orvalho representava as lágrimas que Jesus derramara quando morrera na cruz. E assim a gente saia, em bandos, pelos caminhos, sempre mais fora da cidade que era onde as plantas nasciam em abundância.

Voltávamos para casa com os cestos cheios das florezinhas que a mãe guardaria em potes de vidro, para durarem o ano todo. Na verdade a marcela era um remédio que se tomava quando acometia alguma dor de barriga, cólicas de menstruação, ou qualquer outro mal-estar. Por serem bentas pelas lágrimas de Jesus, valiam para quase tudo. Geralmente tomávamos o chimarrão sempre com algumas flores de marcela, o que lhe dava aquele gosto peculiar.

Aqui na ilha não sei onde tem marcela. Mas, mesmo assim acordei cedinho, antes do sol nascer, e colhi algumas folhas de limão. Servirão para cumprir o mesmo papel da marcela, guardadas para que se transformem em folhas bentas pelas lágrimas do homem que andava com as putas, com os ladrões, nos caminhos vicinais. Aquele carinha que pregava o amor, a solidariedade e a compaixão.

Gosto do cumprir algumas tradições da infância, mesmo que reinventadas. É uma maneira de sentir, outra vez, aquele oceânico sentimento de pertencimento e de amor. Uma forma de caminhar, de novo, com a mãe, e sentir o seu toque, ouvir sua voz ou a risada cristalina.

Como dizem os contadores de história, não importa que no caminho da vida, a história mude. O que importa mesmo é o que ela significa. E, sexta-feira santa, para mim tem esse rosto: infância, mãe, marcela, e essa absurda certeza que só existe na fé, de que tudo o que vive é sagrado.

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