Boaventura: o fim do confinamento de deus

Teologia cartesiana quis torná-lo “transcendente”. Mas se foi Espinosa quem o compreendeu, ele é tão mundano como a natureza e seus próximos — sacrificados todos no altar do dinheiro e do poder. Eclosão do vírus denuncia este suplício

Por Boaventura de Sousa Santos, em Outras Palavras

Deus parece estar confinado. Pelo menos, desde que no século XVII se impôs a separação absoluta entre a natureza, enquanto res extensa, e os seres humanos, enquanto res cogitans. A prova da existência de deus está na mente humana, porque só ela pode conceber um ser perfeitíssimo, infinito. Sendo imperfeita, a mente humana só é capaz de tal concepção porque alguém a inscreveu nela. Esse alguém é deus. A natureza é incapaz de uma tal concepção, e aí reside a sua incomensurável inferioridade em relação à mente própria dos humanos. Com a demonstração da existência de deus ficou provada a impossibilidade da co-existência com ele no mesmo mundo. Deus é do “outro mundo”, o seu “reino não é deste mundo”. Deus é a transcendência.

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Paulo e Pedro, dois apóstolos profetas. Por Gilvander Luís Moreira*

29 de junho é dia da festa dos apóstolos Paulo e Pedro, dois grandes pilares e bússolas do cristianismo e também tempo propício para refletir sobre o legado espiritual-profético que eles nos deixaram. Os dois se identificaram totalmente com o projeto do evangelho de Jesus Cristo, seguindo o mestre radicalmente, orientados pela Boa Notícia que o Galileu anunciava aos pobres. Pedro e Paulo terminaram a missão martirizados, segundo a tradição da Igreja. No movimento de Jesus após a ressurreição, estavam acontecendo tensões que poderiam levar a separações. Uns diziam: “Eu sou de Paulo”; ou “eu sou de Apolo”;  ou “eu sou de Pedro”; ou ainda “Eu sou de Cristo” (I Coríntios 1,12). Na Bíblia, no livro de Atos dos Apóstolos, é possível descobrirmos uma paulinização de Pedro e uma petrinização de Paulo. Ou seja, para o evangelista Lucas, autor também do livro Atos dos Apóstolos, não é bom que aconteça divisão e nem cisma entre as várias tendências de evangelização. A unidade verdadeira pressupõe a diversidade e não a anula. Para Lucas, Pedro e Paulo são apóstolos dos judeus e dos gentios.

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A globalização e a Covid-19

Por Arthur Soffiati*

Pelos meios de comunicação, sobretudo pelas redes de televisão, as informações sobre cuidados com a higiene pessoal e as orientações para não criar pânico invadem as residências mais que o próprio novo vírus Corona. Estamos tão imersos no dia a dia da pandemia que não nos interessam conhecer as causas profundas das doenças transmissíveis. As TVs dedicam tanto tempo insistindo no controle do pânico que as pessoas acabam concluindo que deve haver algo perigoso e que mereça pânico. Outros, céticos, atribuem o novo vírus a uma conspiração chinesa ou a uma informação falsa.

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Pandemia ou pandemônio? As dimensões geográficas da crise sistêmica do coronavírus. Por Pascal O. Girot*

Este ensaio oferece algumas pistas para decifrar a crise do coronavírus, desmistificar suas causas e medir suas consequências

Universidad de Costa Rica

Em meio ao turbilhão de notícias – reais e falsas – que recebemos diariamente sobre a pandemia de coronavírus, é difícil discriminar relatórios alarmistas e sensacionalistas de informações relevantes e precisas. Existem também muitos mitos sobre a origem biológica desse vírus, sua maneira de se espalhar e sua distribuição geográfica. Este ensaio tem como objetivo oferecer algumas pistas para decifrar esta crise, desmistificar suas causas e medir suas conseqüências para a Costa Rica e para a região da América Central.

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O vírus transparente e os unicórnios invisíveis. Por Boaventura de Sousa Santos

Entre o reino transcendente, dos deuses e mercados; e o mundano, das desigualdades e devastação, há uma esfera intermediária. Três seres astutos e terríveis a habitam. Sua força: não serem percebidos e agirem em conjunto

por Boaventura de Sousa Santos*, em Outras Palavras

Os debates culturais, políticos e ideológicos do nosso tempo têm uma opacidade estranha que decorre da sua distância em relação ao cotidiano vivido pela grande maioria da população, os cidadãos comuns – “la gente de a pie”, como dizem os hispano-americanos. Em particular, a política, que devia ser a mediadora entre as ideologias e as necessidades e aspirações dos cidadãos, tem vindo a demitir-se dessa função. Se mantém algum resíduo de mediação, é com as necessidades e aspirações dos mercados, esse mega-cidadão informe e monstruoso que nunca ninguém viu, nem tocou ou cheirou, um cidadão estranho que só tem direitos e nenhum dever. É como se a luz que ele projetasse nos cegasse. De repente, a pandemia irrompe, a luz dos mercados empalidece e da escuridão, com que eles sempre nos ameaçam se não lhe prestarmos vassalagem, emerge uma nova claridade. A claridade pandêmica e as aparições em que ela se traduz. O que ela nos permite ver e o modo como for interpretado e avaliado determinarão o futuro da civilização em que vivemos. Estas aparições, ao contrário de outras, são reais e vieram para ficar.

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Qual a diferença entre o amor cristão, ateu ou comunista? Por Roberto Malvezzi (Gogó)*

EcoDebate

Quando em outubro passado fiquei hospitalizado durante dez dias em Roma – 8 dias na UTI – fui atendido com muito carinho por enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas, serviço de alimentação, pelo capelão que nos levava eucaristia todos os dias, pelos visitantes que estavam no Sínodo para a Amazônia – eu fui para o Sínodo e adoeci -, depois por meus familiares. Um padre, secretário do Sínodo, me visitava duas vezes todos os dias e me repassava a informação de meu estado de saúde.

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Um dia, um vírus

por Regina Angela Landim Bruno*

No filme “Um dia um gato” dirigido por Vojtech Jasny (Checoslováquia, 1963) a história se passa em um vilarejo que recebe uma comitiva circense da qual fazem parte um mágico e um gato que usa óculos escuros. O gato possui poderes mágicos e ao tirar os óculos colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades.

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A crise global, um convite à dissidência. Por Paulo Kliass

Queda no preço do petróleo e coronavírus revelam agonia dos mercados, desconectados com a economia real. No Brasil, mito de “austeridade” já desmorona e nova oportunidade abre-se: revogar a EC 95, que congelou gastos sociais por 20 anos

Em Outras Palavras

Existe uma longa e antiga polêmica entre os estudiosos de linguística a respeito das origens do ideograma utilizado em chinês mandarim para algo próximo ao conceito ocidental corrente de “crise”. Para alguns, ele seria uma síntese do ideograma usado para “perigo” ou “risco” com outro relativo ao termo “oportunidade”. Enfim, apesar da relevância desse debate, no caso prefiro ficar com a expressão popular do italiano “se non è vero, è ben trovato”. Pode até não ser verdade, mas funciona muito bem para ilustrar o nosso caso tratado aqui hoje com vocês.

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“Bom” samaritano: “impuro” e “odiado” como exemplo. Por Gilvander Moreira

O tema da Campanha da Fraternidade 2020 – Fraternidade e Vida, Dom e Compromisso – e o Lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34) nos convidam a pensar e a agir tendo o “bom” samaritano como exemplo, conforme o episódio-parábola do “Bom” Samaritano (Lc 10,25-37), que apresenta um contexto histórico com muitas semelhanças com o contexto atual e demonstra como o samaritano conseguiu manter o coração aberto e mãos solidárias a partir de quem estava, segundo Teresinha de Jesus, “metade vivo, metade morto”.

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