Milton Santos, pandemia e real fragmentado

A globalização, ensinava ele, subverte escalas e nos aparta ainda mais da Natureza. A ciência, hiperespecializada, tornou-se cega a fenômenos complexos. A pandemia, sem contexto, reduz-se a espetáculo. Como voltar, agora, à totalidade?

Por Fran Alavina*, em Outras Palavras

Talvez a Geografia – mais do que outros saberes das humanidades, como a História e Filosofia – possa nos ajudar a entender certos aspectos que se dão quase sem se notar em tempo pandêmico e globalizado: que, por vezes, parece mais fabuloso que trágico. De fato, diferentemente de outros estudos humanísticos, a Geografia em sua constituição e desenvolvimento sempre teve que lidar com a questão do que seja a Natureza e de como tal saber concebe seu objeto, uma vez que se inicia como descrição da paisagem e do meio. Disto dependeria até sua classificação como uma ciência humana ou ciência natural. Para nós, tal debate é desprovido de sentido, uma vez que todo saber, justamente por ser humano, não pode ser natural, ainda que seu objeto seja a Natureza: física ou biológica. A Natureza não produz saberes, nem constitui ciências. Somos nós que os construímos a partir de nossas necessidades.

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A Economia Anticapitalista dos Franciscos e das Claras. Por Marina Oliveira e Guilherme Cavalli

“…se inaugurou o antropoceno e o necroceno, onde o ser humano e o sistema predominante são o grande projeto de morte de pessoas humanas e de milhares de organismos vivos.”

No Cimi

Em maio de 2019, Papa Francisco convidou jovens de todas as partes do planeta para participarem do Encontro da Economia de Francisco [e Clara]. Na convocatória, reforçou a importância da construção de um projeto popular de Igreja e de sociedade. Francisco propõe discutir uma nova proposta de modelo econômico que coloque a vida no centro – e não se resume à vida humana. Afirmou na carta que propôs o evento a urgência de “uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda”. No encerramento do encontro, que ocorreu online, o pontífice apontou a urgente necessidade de mudança.

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O sistema é bruto. Por Elaine Tavares

Em Palavras Insurgentes

No mundo capitalista o espaço reservado ao pobre é o da servidão. Quem aceita isso vai arrastando a miséria. Quem não aceita, toma porrada. Não há concessões. Passeatas, protestos, manifestações, tudo o que envolver reivindicação, trabalhador, gente pobre, é enfrentado na bala. A polícia não arrega. E nós, no Brasil, tivemos provas bem concretas nos últimos anos, quando as passeatas dos apoiadores do atraso – os riquinhos e a classe média – eram protegidas pela força bruta, e até fotos eram sacadas com os soldados, “amigos da paz”.  

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Negacionismo, gatopardismo e transicionismo. Por Boaventura de Sousa Santos

Pandemia mostra: o fim do mundo que conhecíamos já começou, e seu desmoronar pode ser brutal. Três grandes tendências entrarão em choque. Há chance de evitar o futuro-distopia – mesmo que ele já esteja cravado em nós

No Outras Palavras

A pandemia do novo coronavírus veio pôr em causa muitas das certezas políticas que pareciam ter-se consolidado nos últimos quarenta anos, sobretudo no chamado Norte global. As principais certezas eram: o triunfo final do capitalismo sobre o seu grande concorrente histórico, o socialismo soviético; a prioridade dos mercados na regulação da vida não só econômica como social, com a consequente privatização e desregulação da economia e das políticas sociais e a redução do papel do Estado na regulação da vida coletiva; a globalização da economia assente nas vantagens comparativas na produção e distribuição; a brutal flexibilização (precarização) das relações de trabalho como condição para o aumento do emprego e o crescimento da economia. No seu conjunto, estas certezas constituíam a ordem neoliberal.

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Para além da necropolítica. Por Vladimir Safatle

Considerações sobre a gênese e os efeitos do Estado suicidário

No A Terra é Redonda

“E o corpo fazia-se planta, / e pedra, / e lodo, e coisa nenhuma”
(Machado de Assis).

É possível que, através dos impactos globais da pandemia, estejam a ocorrer mudanças fundamentais na forma de gestão social à qual estamos submetidos. Uma delas diz respeito a transformações no exercício do poder soberano através dos modos de gestão da morte e do desaparecimento. Como ocorreu em mais de uma vez, tais modificações começam na periferia do sistema capitalista global para, paulatinamente, servirem de modelos aos países centrais, principalmente em momentos de acirramento crônico de conflitos sociais como estes que estamos adentrando agora.

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A imagem do pobre nos filmes de Pasolini e Glauber como chave para compreender a ação do capitalismo. Entrevista especial com Vladimir Santafé

Pesquisador mergulha nas concepções dos cineastas e relaciona com as transformações do capitalismo e a geração de outras formas de pobreza com o trabalho imaterial

Por: Ricardo Machado, em IHU On-Line

O cinema do italiano Pier Paolo Pasolini e o do brasileiro Glauber Rocha são marcos, revelando duras críticas sociais sem nenhum anestésico hollywoodiano. É por isso que muitos têm se detido a análises das produções dos cineastas para compreender os dramas da sociedade em que estavam inseridos. No entanto, para o pesquisador Vladimir Santafé, a imagem que ambos constituem do pobre e da pobreza pode não só servir para compreender a crítica feita à época, como também pode servir de chave para que entendamos como o capitalismo se transforma e reconfigura a pobreza no século XXI. “Estudar a imagem da pobreza produzida pelo cinema de Glauber Rocha e Pier Paolo Pasolini é estudar as potencialidades da produção imaterial e, consequentemente, a maneira como essa produtividade é capturada pelo capitalismo e vivenciada pelos indivíduos e coletivos que a produzem”, detalha, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

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O Grande Inquisidor em muitas faces e vestes. Por Gilvander Moreira*

A peça teatral “O Grande Inquisidor”, de Fiódor Dostoiévski, com apresentação de Celso Frateschi, é um pequeno, mas denso, eloquente e contundente capítulo do último romance de Fiódor Dostoiévski: “Os Irmãos Karamazov”. O filósofo Platão nos alerta que estamos em uma caverna, onde se vê sombra e se pensa que é a realidade, mas é difícil ver a luz do sol, que, como a verdade, pode doer, mas liberta. O Grande Inquisidor não esteve presente apenas nos anos de chumbo da mais cruel Inquisição, mas esteve sempre presenta ao longo da história e atualmente, muitas vezes mascarados. Muitos Grandes Inquisidores usam a fogueira da caverna alegando que é a luz do sol, a verdade. José Saramago, em Ensaio sobre a Cegueira, analisa a sociedade atual que mais fura os olhos das pessoas do que faz ver. No Evangelho de Marcos, na Bíblia, os maiores “cegos” e ignorantes são os apóstolos e os discípulos de Jesus. Para o evangelista Marcos, as pessoas violentadas nos seus direitos compreendem melhor o ensinamento e o projeto testemunhado por Jesus de Nazaré.

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O liberalismo em seus limites. Por Luis Felipe Miguel

É curioso que o debate sobre o liberalismo político tenha ganhado público no Brasil no momento em que estão sob ataque tantas das liberdades e dos direitos associados a ele. O fetiche do contrato é onde permanece mais sólida a ligação entre o liberalismo político e o econômico e onde fica claro que a visão liberal é insuficiente para alimentar um projeto de emancipação social radical.

No Blog da Boitempo

É curioso que o debate sobre o liberalismo político tenha ganhado público no Brasil no momento em que estão sob ataque tantas das liberdades e dos direitos associados a ele – igualdade perante a lei, liberdade de expressão, liberdade de associação, justo processo legal. E, de toda a complexa e multifacetada tradição liberal, é exatamente a noção de direitos que está sob maior ataque, a partir de uma leitura simplista que a reduz a uma fachada hipócrita, destinada a ocultar múltiplas formas de dominação social.

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Dia Estadual das Quebradeiras de Coco-Babaçu: o dia 24 de setembro como elemento de construção da identidade no Estado Democrático de Direito

Joaquim Shiraishi Neto[1]

Em 24 de setembro, foi comemorado aqui no Maranhão e em outros estados (Piauí[2], Tocantins[3] e Pará) o Dia Estadual das Quebradeiras de Coco-Babaçu. Diferentemente de anos passados, quando o Movimento das Quebradeiras (MIQCB) promovia atividades políticas e culturais para discutir os seus desafios, neste ano, em função do novo coronavírus, que se espalha pelos interiores, foi organizada uma live[4] intitulada “O protagonismo feminino e as políticas de resistência das quebradeiras de coco-babaçu”, envolvendo a participação de lideranças regionais: dona Maria Alaídes (São Luís), dona Maria de Fátima (Mearim), dona Maria Antônia (Baixada) e dona Eunice (Imperatriz), do Maranhão; dona Emília (Bico do Papagaio), do Tocantins; dona Helena (Esperantina), do Piauí; dona Cledeneuza (São Domingos), do Pará.

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