Uma resposta: Oito vozes em defesa do CTNBio e dos transgênicos

Tania Pacheco

O texto abaixo é uma resposta à matéria Cana de açúcar transgênica: quanto é uma ameaça à saúde publica e ao meio ambiente?, publicada originalmente pelo Jornal da Ciência e postada neste blog no dia 7 de julho último. Nele, o professor emérito da UnB Nagib Nassar denuncia os perigos da liberação de mais esse transgênico pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). 

O texto foi enviado pelo professor Paulo Lee Ho, do Instituto Butantan, e tem como autores oito cientistas, dentre os quais diversos integrantes da CTNBio. São eles Walter Colli, professor emérito da USP; Alexandre Lima Nepomuceno, pesquisador da Embrapa Soja; Galdino Andrade Filho, professor associado da UEL; Glaucia Mendes Souza, professora titular do IQ/USP; Hugo Bruno Correa Molinari, pesquisador da Embrapa Agroenergia; Maria Lúcia Zaidan Dagli, professora titular da FMVZ/USP; Maria Lúcia Carneiro Vieira, professora titular da ESALQ/USP; e Nadja C. Souza Pinto, professora associada do IQ/USP.

Boa leitura! 

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“Desde 2006 quando a CTNBio se instalou, regulada pela nova Lei de Biossegurança, ouvem-se vozes alarmistas que só fazem mal ao Brasil por intranquilizarem a opinião pública, incluindo alguns procuradores do Ministério Público. É preciso que se diga mais uma vez que essa comissão é formada por cientistas escolhidos nas universidades e nos institutos de pesquisa e é diversificada, pois seus integrantes têm diferentes formações e pertencem a instituições de vários estados da federação. É preciso acabar com essa paranoia de achar que 27 pessoas assim escolhidas, mais seus 27 suplentes, façam parte de uma conspiração para envenenar o “pobre povo brasileiro”. Há que haver mais respeito pelo conhecimento e revelar definitivamente o que há por trás dessa campanha inclemente que não discute Ciência nem leva em conta seus progressos, mas apenas vilipendia e denigre pessoas.

Essas considerações preliminares vêm a propósito de artigo publicado no Jornal da Ciência 5692, de 5 de julho de 2017, de autoria de Nagib Nassar, professor emérito da UnB. O professor Nassar afirma que “as espécies silvestres de cana representam a fonte principal de produção de açúcar e de bebidas no Brasil, como as cachaças e o popular caldo de cana” (sic). Ora, não temos espécies silvestres de cana no Brasil. A cana não é brasileira, foi trazida pelos portugueses. Afirma ainda o professor que o Brasil será o primeiro país no mundo a liberar comercialmente cana transgênica. Isso não é verdade. Na Indonésia, o órgão regulador do país aprovou o plantio comercial de cana-de-açúcar geneticamente modificada de três cultivares tolerantes à seca. A aprovação foi concedida a três eventos distintos, um com cópia única e dois eventos com múltiplas cópias dos genes betA e nptII (2015). Na Argentina, Noguera e colaboradores (2015) relataram o desenvolvimento de uma cultivar de cana-de-açúcar geneticamente modificada que possui, ao menos, 7 cópias dos genes epsps e nptII. Recentemente, este cultivar recebeu um parecer favorável de segurança alimentar do órgão regulador argentino. Nossa cana-de-açúcar foi desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e o evento foi denominado CTC 20Bt. Essa planta conta com o gene Cry 1AB que produz uma proteína capaz de matar sua principal praga, a lagarta da Diatraea saccharalis (lepidóptera), mais conhecida como broca da cana.

Afirma o professor Nassar que a técnica é a mesma usada em milho e algodão transgênicos, com uma diferença: “a toxina é vinte vezes mais venenosa, conforme o fabricante informou” (sic). O gene introduzido, cry 1AB, produz uma proteína que é altamente eficiente para eliminar a lagarta da Diatraea saccharalis, a broca da cana. Esse gene faz parte de uma família de mais de 100 genes, todos denominados Cry, que pertencem ao genoma de Bacillus thuringiensis (Bt), uma bactéria, cujos esporos são jogados sobre plantações por agricultores orgânicos. O que os cientistas fizeram foi observar esse fato da natureza, isolar os genes e usá-los de forma eficiente, introduzindo-os nas plantas. Essas proteínas são capazes de matar lepidópteras (borboletas e mariposas), dípteras (moscas), coleópteras (besouros) e himenópteras (vespas, abelhas e formigas) com eficiências diferentes. Por isso, a proteína do gene cry 1AB (que o professor Nassar prefere chamar “toxina”) não é mais “venenosa” (palavra usada pelo professor Nassar), mas mais eficaz contra a broca da cana, da mesma forma que outras proteínas Cry o são contra outros insetos e já são utilizadas na soja, no milho, no algodão, por exemplo, há mais de 30 anos. Aliás, é forçoso notar, que os ativistas contra a tecnologia adoram chamar seus produtos de toxinas e venenos e frequentemente, ao referir-se ao termo “transgênico”, logo associam o termo “agrotóxico”. Assim, é comum ler-se transgênicos e agrotóxicos, como se fossem indissociáveis. Essa técnica de discurso é a forma subliminar de induzir inconscientemente conceitos que não são necessariamente ligados entre si e muitas vezes são opostos porque plantas que se defendem com proteínas Cry necessitam de pouco ou nenhum agroquímico.

Afirma ainda o professor que a proteína Cry poderia eliminar organismos do solo, como o azotobacter.  Essa bactéria fixa o nitrogênio aéreo em plantas leguminosas e, no dizer do professor “pode ser levada à extinção pela toxina nas raízes de cana transgênica, tornando, potencialmente, o solo inútil para plantar qualquer legume futuramente” (sic). Os resultados apresentados no processo de análise demonstraram que não houve variação quanto às populações de microrganismos do solo avaliado. O azotobacter é uma bactéria que fixa nitrogênio e está presente principalmente em raízes de gramíneas, em solos calcáreos, com pH neutro ou alcalino, sendo pouco encontrado em raízes de leguminosas, com populações de densidade muito baixa ou inexistentes em solos ácidos tropicais.

O evento CTC 20Bt passou pela avaliação de 18 membros da CTNBio de diferentes instituições e especialistas em diversas áreas, com a elaboração de cinco pareceres. A votação terminou com 15 votos favoráveis à liberação comercial do produto e apenas 3 membros votaram contra. Diz o professor que votaram contra os representantes do Ministério do Meio Ambiente e da Agricultura Familiar, apontando falta de estudos sobre os impactos ambientais e à saúde humana. Mas não disse que votaram a favor os representantes nomeados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, que  incluem especialistas de Meio Ambiente, da Agricultura e Pecuária, da Indústria e Comércio, da Saúde, da Defesa, da Pesca, dentre outros.

O professor Nassar argumenta com todas as letras que, se os europeus dizem que o milho que contém Cry é tóxico para os seres humanos, imagine o Cry 1AB, mais tóxico. O parecer da CTNBio afirma que os estudos em contenção demonstraram que a cana-de-açúcar contendo esse gene não apresenta efeitos tóxicos para os seguintes organismos indicadores: abelha, larvas de crisopídeo, joaninha, hymenoptera parasita, colêmbolo e minhoca. E sabemos, assim como os europeus, que todos os genes Cry introduzidos em milho, soja, algodão há mais de 30 anos nunca intoxicaram galinhas, vacas, porcos, cabras, carneiros e seres humanos, inclusive o professor Nassar, já que comemos todos os dias produtos que  contêm farinhas e óleos produzidos por plantas geneticamente modificadas. Por isso, sugerimos ao simpático professor que tome um copo de suco de cana transgênica ou prove de sua cachaça que, garantimos, não será envenenado.

O plantio de cana é adensado. As lagartas da broca da cana formam galerias provocando a quebra dos colmos, decréscimo no desenvolvimento e vigor da lavoura, pois o ataque se faz durante o desenvolvimento inicial da planta. Não menos severos são os danos causados pelas galerias abertas pelas lagartas que servem de entrada para fungos que causam podridão, diminuindo a pureza e o rendimento do açúcar. Por isso, essa é uma cultura que usa grande quantidade de inseticidas químicos (na nomenclatura do professor Nassar, agrotóxicos e venenos). O produto transgênico diminuirá em muito essa necessidade.

Sobre os autores:
Walter Colli, professor emérito, USP
Alexandre Lima Nepomuceno, pesquisador, Embrapa Soja
Galdino Andrade Filho, professor associado, UEL
Glaucia Mendes Souza, professora titular, IQ/USP
Hugo Bruno Correa Molinari, pesquisador, Embrapa Agroenergia
Maria Lúcia Zaidan Dagli, professora titular, FMVZ/USP
Maria Lúcia Carneiro Vieira, professora titular, ESALQ/USP
Nadja C. Souza Pinto, professora associada, IQ/USP

*O artigo expressa exclusivamente a opinião de seus autores”

 

Comments (1)

  1. Faço eco às criticas dos oito colegas à posição pouco científica do Prof. Nassar. Em várias outras ocasiões também critiquei as opiniões bastante enfáticas, mas desprovidas de ciência, deste professor.

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