A ação integra a operação nomeada “Castra”, empenhada nos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Em nota, o MST declarou que “o objetivo da operação é prender e criminalizar as lideranças dos Acampamentos Dom Tomás Balduíno e Herdeiros da Luta pela Terra, militantes assentados da região central do Paraná”. Oito pessoas foram presas na ação e duas foram feridas.

Criminalização e violência

Para a professora da Faculdade de Direito da UnB, Beatriz Vargas os poderes instituídos reposicionam os atores que reivindicam direitos – de defensores para ameaças ao estado. “Observamos um esforço tremendo em transformar integrantes de movimentos sociais em desviantes comuns, em indivíduos avessos à chamada ordem pública. [São tratados como] bagunceiros, perigosos que lançam mão de tipo de estratégia que descamba para violência”, problematiza.

“Podemos descrever o momento atual como processo de imputação de crimes à integrantes dos movimentos sociais Mas não apenas de crimes comuns, mas crimes contra a estrutura social”, diz. De acordo com a professora é comum a fragilidade de provas apresentadas em processos contra os movimentos populares. “É muito comum ao MST a debilidade das provas. Parte dessas provas são baseadas em testemunhas, baseadas por prepostos dos donos da terra”, relata.  De acordo com a assessoria jurídica do MST, o Movimento responde a processos judiciais nos estados do Rio Grande do Sul, Pernambuco, São Paulo, Goiás e Paraná.

Embora os movimentos estudantis de ocupação sejam recentes, as organizações representativas já sofrem ameaças por parte do governo federal. Na segunda-feira (07), o ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM-PE), anunciou que solicitará ao governo federal o acionamento judicial das entidades estudantis para que elas paguem a despesa provocada pelo adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  Algumas das escolas onde seriam aplicadas a prova do Enem foram ocupadas pelos estudantes.

“Esta medida é uma clara tentativa de colocar estudante contra estudante (….) A liberdade de manifestação, organização e associação é inerente a está previsto na Constituição Federa, na Constituição Interamericana de Direitos Humanos. É uma história que nenhum governo tem direito de suprimir”, defende o deputado federal e presidente da CDHM, Padre Joao (PT-MG).

Ele ainda destaca que junto ao processo de criminalização de lideranças e movimentos apresenta-se o atentado à vida. O deputado relata que em trabalho pela Comissão de Direitos Humanos no estado do Mato Grosso do Sul, em razão de assassinato de liderança indígena, constatou-se a participação de agentes de segurança pública no crime.

Fragilidade democrática e continuidade de luta

Para o integrante do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e coordenador da organização Terra de Direitos, o conjunto de ações violentas empenhadas pelo Estado Brasileiro, bem como os retrocessos em políticas públicas essenciais com medidas adotadas pelo governo de Michel Temer (PMDB) evidenciam a fragilidade da democracia. “A democracia se revelou um processo bastante inicial, que não havia mecanismos aprofundados e enraizados a médio e longo prazo para efetivação de políticas públicas para realização dos direitos, em contraponto à elites”, diz. Frigo destaca que a não realização de mudanças estruturais, como a democratização da mídia, uma efetiva reforma política e tributária, deixou o pais vulnerável a interesses conservadores. “Essas mudanças não foram feitas, o que consolidaria a democracia. Na primeira oportunidade as forças reacionárias derrubaram a presidenta eleita e mostraram nenhum apreço ao voto”, pontua.

Nesse contexto, de acordo com ele, há apenas o caminho de resistência e de construção de diálogos. “Os movimentos sociais vão ter que se colocar no espaço de resistência para evitar maiores retrocessos e buscar manter relações com forças da sociedade e com alguns aliados nos espaços do Estado, como em algumas áreas do Sistema de Justiça”, conclui. No mesmo dia da invasão à ENFF, o CNDH encaminhou expediente às Secretarias de Segurança Pública dos estados envolvidos na “Operação Castra” solicitando informações.

“Enfrentar a criminalização dos movimentos sociais é algo indispensável para manutenção do estado democrático de direitos. Não se trata de retórica ou debate permeado por paixões a partidos políticos. Nós precisamos é mostrar que a desobediência civil é nosso direito. Não existe democracia sem desobediência”, finaliza Beatriz

Participação de movimentos e defensores de direitos humanos

Também participaram da audiência representantes da juventude, de coletivos de advogados populares, populações indígenas, o ex-ministro da Justiça e procurador da República Eugênio Aragão, a presidenta do Conselho Nacional de Direitos Humanos, Ivana Farina e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gilberto Carvalho.

*Editado por Iris Pacheco.

Imagem: A coordenadora da ENFF, Rosana Fernandes, relata em audiência pública a ação da Polícia. Foto: Mídia Ninja