TI Raposa Serra do Sol: um mês após enchente comunidades indígenas constroem casas de famílias atingidas

Por Mayra Wapichana, Ascom/CIR

Mesmo com as fortes chuvas que causou preocupação no final de semana, mas o espírito que perpetua depois da enchente histórica, atingindo comunidades indígenas da região das Serras, é o da coletividade na construção das casas das famílias atingidas.  A enchente aconteceu no mês de maio, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, município de Uiramutã, atingindo mais de 180 famílias e uma população de 900 indígenas em toda região serrana, incluindo a região do povo Ingarikó e comunidades indígenas que ficam na Guiana.

No período de 13 a 17, a assessoria de Comunicação do Conselho Indígena de Roraima (CIR) juntamente com os membros da Comissão de Lideranças Indígenas de Apoio a Enchente visitaram a região para conferir a atual situação das comunidades indígenas após a enchente. Uma enchente histórica que completou um mês, no último dia 18.

Com o apoio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) a equipe conseguiu chegar em 12 comunidades indígenas, pertencentes aos Centros Willimon, Caracanã e Morro e visitar mais de 16 famílias. Visitaram as comunidades, Proto`to, Sítio São Mateus, Makukem, Monte Sião, Ximaral, Milho, Monte Muriá I, Monte Muriá II, Kuma´pai, Mutum, Central e Lage.

Uma das missões mais difíceis durante as visitas foi a de conter a emoção diante das famílias que mal conseguiram relatar o que sofreram nos dias da enchente, uma enchente que deixou muitas marcas, as paredes de adobe desmanchadas, o chão úmido, o telhado e as palhas arrancadas, os utensílios domésticos e os pertences pessoais que foram levados pela enchente, o posto de saúde e a escola destruída, porém, o sentimento mais triste vem da perda da roça, principal fonte de alimento dos indígenas. A fonte de onde tiram a farinha, o beijú, caxiri, goma, banana, batata, abóbora e outras produções cultivadas pelas comunidades indígenas.

Logo nas primeiras visitas foi possível sentir a dimensão da enchente que surpreendeu até o mais antigos, que ainda não tinham visto uma enchente como essa em 2017. “Estou com 63 anos e nunca vi essa enchente, pensava que não ia dar assim”, expressou o senhor Isaías Silva Pereira, o fundador da comunidade indígena Ximaral, localizada às margens do rio Uailã, uma das mais inundadas na região.

O líder até recordou de uma enchente, mas nunca igual a essa que deu e que cobriu toda a sua casa, das filhas, filhos e dos demais parentes que ali habitam. O filho, Rozildo Roberto da Silva, Tuxaua e agente indígena de saúde não estava no dia da enchente, só recebeu a notícia, mas quando chegou viu a tristeza do povo e a sua comunidade devastada.

Com espírito de liderança indígena, segundo ele, ficou triste na hora, mas depois feliz, porque não havia perdido ninguém da família e todos estavam bem. Então, animou o povo a construir as casas, principalmente, das famílias mais afetadas, conforme ele e demais lideranças indígenas da região decidiram.

Para o Tuxaua, a força do povo está na união das lideranças e das comunidades indígenas em reconstruir as casas e para isso contam com o esforço coletivo das comunidades em dar condições ao trabalho. “O nosso trabalho tem sido no coletivo, um trás carne, farinha, outro caxiri e assim a gente tem vivido a nossa vida” contou o Tuxaua animado em ver a sua comunidade novamente sendo reconstruída. A sobrevivência vem das roças cultivadas em outras áreas que não foram afetadas pela enchente.

A comunidade Ximaral, uma área de mata, serviu como ponto de trabalho comunitário de onde as madeiras foram retiradas para a construção das casas tanto da própria comunidade quanto para outras que também teve famílias atingidas. Um trabalho coletivo que durou mais de duas semanas e envolveu as mulheres que cuidaram do alimento, dos jovens que tanto ajudaram na cozinha quanto carregaram madeiras junto com as lideranças indígenas e das crianças, ajudando no trabalho de buscar água no rio, lenha e outras atividades do cotidiano.

Como resultado desse trabalho que envolveu também lideranças indígenas dos Centros Maturuca e Caracanã construíram pelo menos 9 casas. As casas são de famílias das comunidades Ximaral, Monte Muriá II, Sítio São Mateus, Kuma`pai e outras que estão como prioridade da Comissão.

Entre as comunidades indígenas beneficiadas pela ação da Comissão foi também a comunidade Kuma`pai, uma comunidade cercada pelos rios Uialã e Maú, fronteira entre Brasil e Guiana. A comunidade possui 13 famílias e 66 pessoas.

A equipe seguiu de barco pelo rio Maú, em um trajeto de 20 minutos, para chegar até a comunidade Kuma`pai. Pelo trajeto foi possível observar a devastação às margens do rio, provocada pela enchente.

Acolhida das famílias na comunidade Kuma`pai

Recepcionado pelo Tuxaua da comunidade, Max Samuel Pereira de Souza, 42 anos, a equipe também foi acolhida pelos familiares, mulheres, crianças e demais lideranças indígenas que ali estavam desde o dia em que foram atingidos pela enchente. Como o senhor Juvêncio Afonso Batista, 44 anos, morador da comunidade indígena Willimon, um dos indígenas que fez o resgate das famílias no dia da enchente, ele e sua esposa, Catarina Pereira de Souza.

A emoção foi grande ao chegar a um lugar aparentemente devastado, na mesma dimensão das demais comunidades e até maior, porém, um lugar de esperanças ao ver também as famílias trabalhando e buscando reconstruir o que foi destruído pela força da natureza, como eles mesmos acreditam. Vimos mulheres trabalhando na produção da farinha, do caxiri, do beijú, as crianças e os jovens ajudando no dia a dia, enquanto, os homens, trabalhavam como eles dizem, no mais pesado, na construção das casas.

Emocionado, o Tuxaua relembrou os dias de desespero que passou juntamente com toda a comunidade na noite do dia 17, quando a enxurrada chegou e inundou as casas, ficando apenas uma casa das 13 famílias. Max Samuel, ficou em choque ao ver a sua comunidade debaixo d`água e aos poucos, emocionalmente, vem se restabelecendo.

“Eu me senti triste, porque nós trabalhamos tanto para construir e agora vamos trabalhar para reconstruir de novo” relatou o Tuxaua já bastante animado com apoio dos parceiros da região.  O senhor Juvêncio Afonso e o agente indígena de saúde Getúlio dos Santos, foram os barqueiros que conseguiram salvar as famílias da comunidade, com o apoio do professor Jose Valdo Macuxi, da comunidade Willimon e dos profissionais de saúde indígena do Distrito Sanitário Especial Indígena do Leste de Roraima (DSEI Leste/RR) que estavam em área no dia da enchente e que, segundo os familiares, graças a eles, conseguiram ser resgatados.

Mulheres trabalhando na produção do beijú, para o sustento das famílias durante o trabalho comunitário.

Celinda Pereira da Silva, 39 anos, esposa do Tuxaua, expressou a força das cinco mulheres que aos poucos superam no dia a dia do trabalho coletivo a desastrosa enchente. “Estamos aqui fazendo farinha, beiju, para o nosso trabalho e ajudar a nossa comunidade” contou Celinda reforçando o pedido de ajuda para a construção das casas.

Com o trabalho coletivo, conseguiram construir uma casa de farinha, a escola, ainda inacabada e a residência de uma família que foi totalmente destruída e sem condições de moradia. Segundo o Tuxaua, o que mais precisam é de apoio com materiais como, motor-serra, barco, combustível, telhas e outros itens, necessários para a construção das casas.

Houve também perda de roça no Kuma`pai, como mostrou o senhor Dionísio Francisco que levou a equipe até o local, uma área de pelo menos 16 linhas. A maior produção é de mandioca.

Conforme o planejamento da Comissão será construído 45 casas, sendo que dessas, 28 serão prioridades devido às condições das moradias, umas casas ainda servem para aproveitar, mas outras foram totalmente destruídas. Além das casas de famílias que tem pessoas idosas, deficientes, crianças e outras necessidades, também serão beneficiadas.

Outra visita foi nas comunidades indígenas Mutum e Central, localizadas no Centro Morro, com aproximadamente 80 km da sede do município de Uiramutã e uma duração de 3 horas de viagem, para chegar até as comunidades. Santília Merequior Augustinho, 62 anos, Tuxaua da comunidade Mutum contou que na comunidade foram atingidas 4 famílias.

Entre as casas mais atingidas foi do casal de idosos, Josefa Merequior, 76 anos e Leonardo Delvídio, 85 anos. A casa, localizada às margens do rio Maú foi inundada e teve toda estrutura comprometida, além das roças, também destruídas pela enchente.

O casal está morando na residência de familiares, porém, já foi iniciada a construção de uma casa provisória até que, segundo a Tuxaua, conforme o levantamento da Secretaria Especial de Saúde(SESAI), o casal receberá uma casa, mas não se sabe quando será construída. A casa está sendo construída com recurso e ajuda da própria família.

Em algumas comunidades a destruição foi de casas e outras, roças. Na comunidade indígena Central, uma comunidade de uma única família e 17 pessoas, a destruição foi da roça, uma área de 1,5 hectares, como mostrou o Tuxaua Arnóbio José de Souza, prejudicando toda a plantação de maniva, banana e outras plantações.

Desde a enchente o poder público foi acionado, Governo do Estado e suas secretarias, Prefeitura Municipal de Uiramutã, Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), Exército Brasileiro, Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e outras instituições para prestarem apoio às comunidades indígenas, além da campanha de coleta de alimento, roupas, cobertores, utensílios domésticos e outros donativos movida pela sociedade.

Foram doadas cestas básicas, roupas, cobertores, equipamentos agrícolas para casa de farinha e outros donativos, além das barracas armadas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), utilizadas pelas famílias que aguardam suas casas serem construídas.

O Centro de Referência da Assistência Social do município Uiramutã (CRAS) ficou como ponto de coleta na sede do município, além do ponto de coleta na comunidade indígena Willimon, organizado pela Comissão indígena.

No entanto, durante as visitas os indígenas relataram várias vezes sobre a demora no atendimento prometido pelos governantes tanto na distribuição das cestas básicas e outros donativos, tal como os materiais de construção, principal urgência das comunidades indígenas.

A equipe também ouviu o Prefeito do Município de Uiramutã, Manuel da Silva Araújo, conhecido como Dedel (PP). O Prefeito informou que foram criadas comissões compostas por lideranças indígenas e servidores da Prefeitura para atuar no levantamento das demandas, triagem e entregas das doações, do trabalho na construção das casas e outras iniciativas.

No dia da visita, a equipe ainda conferiu 200 cestas básicas e alguns donativos armazenados no CRAS e segundo o Prefeito, seriam entregues às comunidades a partir de quinta-feira, 22 de junho. A Comissão de lideranças indígenas irá acompanhar esse atendimento na região.

Roça Kuma`pai- conseguiram arrancar mandioca e fazer 25 sacos de farinha

Depois das construções na comunidade indígena Ximaral, a próxima comunidade a ser atendida pelo trabalho comunitário é a Kuma`pai, inclusive, já iniciados na última semana, porém, interrompido devido à forte chuva que deu na região no final de semana. Parte das madeiras deixadas no local foram perdidas na enchente, como informou o coordenador do Centro Willimon, Amarildo da Silva Mota, em áudio, enviado à coordenação geral do CIR, na noite de sexta-fera, 23, que informou também sobre o acesso interrompido à comunidade Kuma`pai.

Para a organização dos trabalhos foi criada a Comissão de Lideranças Indígenas de Apoio a Enchente, em reunião no dia 28, no Centro Willimon. Essa Comissão por meio do Conselho Indígena de Roraima (CIR) tem buscado apoio logístico às comunidades indígenas junto aos parceiros e instituições.

O plano emergencial da Comissão segue para os próximos dois meses, com a meta de atingir 28 casas. Até o momento atingem 18 casas construídas, que medem 7/5, cobertura de telha e faltando apenas o acabamento, paredes e janelas.

Segundo o membro da comissão Djacir Melquior da Silva informou que até o momento foram atingidas comunidades indígenas da região serrana, do povo Macuxi e agora, a meta é atingir o povo Patamona, mas faltam as condições necessárias para chegar até as comunidades indígenas, Urinduk e Kanawapai, que são de difícil acesso. A região Ingaricó tem sido atendida pela Secretaria de Estado do Índio(SEI).

O Conselho Indígena de Roraima (CIR) continua sendo ponto de coleta das doações, mas como prioridade as lideranças indígenas reforçam o pedido de materiais de construção. Com sede na Avenida Sebastião, 2630, bairro São Vicente, o CIR desde o início disponibilizou a conta bancária Agência: 2617-4; Conta Corrente: 8198-1(Banco do Brasil), para as doações financeiras.

Em um ano próximo ao pleito eleitoral, 2018, um dos pedidos das lideranças indígenas é que, parlamentares, órgãos do Governo e Prefeitura do Município de Uiramutã, não usem o sofrimento das comunidades indígenas para fazer promessas e não cumprirem. “Se querem ajudar, nós aceitamos, mas não use o nosso nome para se beneficiar e o atendimento não chegar a nossa comunidade” pediu o Tuxaua Max.

Até o momento, pouco das promessas chegaram até as comunidades indígenas e o que já foi feito, principalmente, as casas, é resultado do esforço coletivo e suor de lideranças, Tuxauas, mulheres, jovens e crianças que ali vivem e sentem no cotidiano as reais necessidades após a enchente.

Fotos: Mayra Wapichana

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